Com um percurso marcado pela dedicação à causa pública e um compromisso inabalável com a sustentabilidade, Ana Paula Martins, Presidente da Câmara Municipal de Tavira, assume um papel de destaque na construção de um território mais resiliente, inclusivo e ambientalmente responsável, com uma ação concreta face aos desafios das alterações climáticas. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, Ana Paula Martins partilha a sua visão para uma Tavira sustentável, os desafios enfrentados na implementação do Plano Municipal de Ação Climática e a importância de envolver a comunidade como agente ativo na construção de um futuro mais justo e verde.
Qual é a sua visão para a sustentabilidade de Tavira?
A minha visão para Tavira é um território que oferece às pessoas um ambiente saudável e resiliente às mudanças climáticas, enquanto preserva os seus valores naturais e a biodiversidade. Acreditamos em atuar globalmente, pensando “Glocal” – ou seja, reconhecendo o que ocorre no mundo, mas agindo localmente. Essa abordagem inclui projetos que envolvem a comunidade, promovendo mudanças de comportamento sustentáveis, sem a necessidade de megaprojetos. Exemplos como a distribuição gratuita de ecokits menstruais, a implementação de programas de compostagem doméstica e o programa municipal de upcycling de têxteis “EcoBoutique”, mostram que ações simples e contínuas podem gerar impacto positivo.
O nosso objetivo é transformar Tavira numa referência de sustentabilidade, onde cada cidadão sente-se empoderado e responsável pela preservação ambiental, alinhando-se às diretrizes europeias e à Agenda 2030.
Quais os maiores desafios enfrentados ao implementar políticas climáticas locais?
Um dos principais desafios na implementação de políticas climáticas a nível local é a mudança de mentalidades e comportamentos, tanto a nível individual como organizacional. As mudanças profundas de hábitos são essenciais para que as ações sustentáveis tenham efeito real, mas, muitas vezes, encontram resistência ou desinteresse associados a uma rotina consolidada. Para ultrapassar isto, investimos, intensamente, em ações de sensibilização, educação ambiental, capacitação e envolvimento comunitário, na esperança de criar um sentido de responsabilidade coletiva e individual.
Outro desafio importante reside na gestão do conhecimento técnico e científico. Temos de garantir que as ações estejam sempre alinhadas às evidências científicas, às diretivas europeias e às melhores práticas e, para tal, é necessária uma abordagem multidisciplinar na coordenação de diferentes áreas e atores. É fundamental promover uma comunicação clara e acessível para que a comunidade compreenda a importância das medidas adotadas e se sinta parte ativa no processo.
A diversidade territorial de Tavira também apresenta obstáculos significativos. O concelho abrange diferentes contextos — desde zonas costeiras vulneráveis à erosão, até áreas interiores de menor densidade demográfica e com maior risco de incêndios florestais e alterações do solo — cada um com as suas próprias vulnerabilidades e necessidades específicas. Dessa forma, as políticas precisam ser adaptadas às realidades locais, o que evidentemente exige uma gestão de risco planeada e investimento constante em infraestruturas, como reforço de barreiras naturais (ex.: cordão dunar), espaços verdes, sistemas de drenagem, medidas de proteção contra incêndios e estratégias de gestão de recursos naturais. Uma das grandes vitórias que obtivemos, neste mandato, foi a inauguração e operacionalização do Centro de Meios Aéreos em Cachopo, um equipamento fundamental que permitirá dar apoio em caso de catástrofe, não só onde se encontra, mas também a todo o Algarve, Alentejo e Andaluzia, servindo de base estratégica para o desenvolvimento de campanhas de sensibilização e formação dirigidas, não só aos agentes de Proteção Civil, como à população em geral.
Além disso, a implementação de ações de adaptação e mitigação exige recursos financeiros e humanos significativos. A insuficiência de recursos, muitas vezes, limita a escala e a velocidade das intervenções necessárias. Para enfrentar esse obstáculo procuramos estabelecer parcerias com entidades públicas, organizações da sociedade civil e comunidade científica, bem como procurar fontes de financiamento nacionais e europeias, vocacionados para projetos relacionados com a sustentabilidade ambiental.
Por fim, um desafio adicional é garantir a continuidade e a sustentabilidade das ações ao longo do tempo, evitando que projetos iniciados e em curso percam o seu impulso. Para isso, trabalhamos na criação de programas a longo prazo, planos estratégicos estruturados e na constituição de uma cultura de sustentabilidade que se enraíze na rotina do município e dos seus cidadãos.
Em conclusão, considero que a superação destes obstáculos precisa de uma abordagem integrada, participativa e persistente, com a convicção de que a mudança de comportamentos, o planeamento estratégico (e monitorização) e o envolvimento de toda a comunidade são essenciais para uma efetiva resposta às alterações climáticas.
Que papel têm os cidadãos na concretização das metas do Plano Municipal de Ação Climática (PMAC)?
São a peça central do nosso Plano Municipal de Ação Climática.
Desde o início quisemos que este não fosse um documento feito apenas pela autarquia, mas sim com a comunidade e para a comunidade. Desenvolvemos sessões participativas em todas as freguesias, focus group com pessoas que integram grupos subrepresentados nestes fóruns e até uma consulta pública, onde todos puderam dar contributos. O resultado são 32 medidas e 179 ações que refletem as necessidades e ambições de Tavira.
Mas o papel dos cidadãos não acabou, nem deve acabar no que referi. Criámos o Conselho Municipal de Cidadania e Ação Climática, o primeiro do género no país – será aberto a pessoas singulares interessadas em fazer parte – que vai acompanhar a execução do plano, propor melhorias e garantir que o processo é transparente. Queremos que todos e todas, desde as escolas, empresas, associações e cidadãos em nome individual sintam-se parte deste esforço coletivo.
E não é ingénua esta nossa visão. Não nos enganemos, pois as metas só serão cumpridas se cada um fizer a sua parte: adotar hábitos mais sustentáveis, participar nos projetos comunitários e ser um agente de mudança.
O município dará o apoio e os meios, mas a transformação depende do envolvimento da comunidade. É assim que Tavira conseguirá tornar-se um território mais resiliente e neutro em carbono.
Quais as áreas prioritárias do PMAC e como impactam a vida dos Tavirenses?
O Plano Municipal de Ação Climática define áreas prioritárias muito claras: mobilidade sustentável, eficiência energética, gestão da água e dos resíduos, proteção da biodiversidade e adaptação a fenómenos extremos. São áreas que tocam o dia a dia de todos os Tavirenses. Queremos reduzir a emissão de gases de efeito de estufa, transportes mais eficientes e menos poluentes, edifícios públicos e privados com consumos energéticos mais baixos, sistemas de rega e abastecimento de água mais resilientes, sistemas alimentares com reduzida pegada de carbono e uma melhor preparação para ondas de calor, secas e cheias.
Tudo isto melhora a qualidade de vida da população, reduz custos para as famílias e protege o território para as próximas gerações e damos o nosso contributo para o planeta e todos os seus habitantes.
Que importância teve a colaboração entre técnicos municipais e cidadãos no desenvolvimento do plano?
Foi absolutamente determinante. Como referi, tivemos sessões participativas em todas as freguesias, grupos de trabalho e uma consulta pública alargada. Criámos também uma equipa municipal multidisciplinar de ação climática, composta por elementos de vários serviços municipais, que assegurou a articulação técnica de todas as áreas envolvidas e a consciência individual e organizacional de que todas as áreas setoriais têm impacte e responsabilidade na ação climática. Obviamente, que os técnicos municipais trouxeram conhecimento técnico, mas os cidadãos ajudaram a identificar os problemas mais sentidos no terreno e soluções mais adequadas à nossa realidade. Essa colaboração tornou o plano robusto e verdadeiramente legítimo, porque nasceu de um processo coletivo.
Que metas gostaria de ver cumpridas até ao final do mandato?
O Plano Municipal de Ação Climática foi aprovado muito recentemente pela Assembleia Municipal, sob nossa proposta, mas isso não significa que, ao longo destes quatro anos, não estivéssemos já a trabalhar para reduzir a nossa pegada e para nos adaptarmos aos efeitos das alterações climáticas.
Apesar de só ter entrado em vigor no final de junho, várias ações do PMAC já estão no terreno. Exemplos disso são: o aproveitamento das águas das piscinas para fins não potáveis; a reflorestação do Parque de Lazer da Mata da Conceição; a monitorização das áreas mais expostas a cheias, através das estações hidrométricas e meteorológicas; o investimento no subsistema de distribuição de água com a substituição de condutas para reduzir ainda mais as perdas; a redução das infiltrações na rede de saneamento; a remoção de espécies invasoras; projetos de soberania alimentar e de alimentação com reduzida pegada de carbono (hortas urbanas, jardins alimentares, subscrição do Plant Based Treaty e cumprimento dos compromissos assumidos), as duas edições do Festival Ecológita – ambiente, sustentabilidade e cidadania ativa; a valorização de biorresíduos nos estabelecimentos de restauração e promoção; e, finalmente, apoio e acompanhamento de compostagem doméstica.
Apesar de faltarem apenas alguns meses para o fim do mandato, queremos garantir financiamento para um conjunto de ações estruturantes previstas no PMAC. Destaco a proteção do litoral, com intervenções de recuperação e renaturalização do sistema dunar para reforçar a defesa da costa contra a erosão, e a implementação de eco-centros de proximidade para facilitar a separação e valorização de resíduos.
Mas, acima de tudo, considero fundamental que, até ao final do mandato, a comunidade de Tavira conheça o PMAC e se envolva nas suas ações. Só com a participação de todos conseguiremos transformar o plano numa verdadeira ferramenta de mudança, que faça parte do dia a dia das pessoas e contribua para um concelho mais sustentável e resiliente.
De que forma a autarquia promove o turismo de baixo impacto?
Aprovado em dezembro de 2024, o Plano Estratégico de Turismo Sustentável (PEDTM 2025-2030) visa transformar Tavira num destino diferenciado e sustentável, focado na qualidade em vez da quantidade de visitantes.
Os quatro produtos turísticos prioritários são: Sol e Mar, Dieta Mediterrânica, Touring Cultural e Paisagístico e Turismo de Natureza.
Inclui eixos estratégicos como mobilidade sustentável, coesão do território, bem-estar social e inovação, visando crescer sem comprometer o património ou o ambiente.
A estratégia do PEDTM reforça o turismo de natureza e cultural, incentivando percursos temáticos que ligam o litoral ao interior, promovendo lugares como a Ria Formosa, a Ilha de Tavira e o interior rural (ex.: Cachopo).
Que projetos recentes evidenciam a aposta na economia verde?
EcológiTa — Ambiente, Sustentabilidade e Cidadania Ativa
Entre 7 e 9 de junho de 2024, decorreu este evento focado em sustentabilidade, com oficinas, concertos e mostras de produtos ecoamigos, direcionado também para cidadãos e visitantes. Este ano, nas mesmas datas, teve lugar a 2.ª edição desta iniciativa.
O transporte entre o centro e as Quatro Águas foi promovido, através de mobilidade sustentável gratuita, reforçando práticas de turismo consciente.
Concurso de Fotografia “Turismo Verde”
Lançado no âmbito do Dia Mundial do Turismo, este concurso incentiva a captura de imagens relacionadas com património natural, economia circular e sustentabilidade no concelho.
Objetivo: despertar sensibilidades sobre o turismo de baixo impacto e valorizar o território de forma consciente.
Tavira participa desde 2005/2006 no Projeto ECOXXI, coordenado pela Associação Bandeira Azul da Europa, que reconhece boas práticas em sustentabilidade local (educação ambiental, mobilidade, resíduos, turismo).
O Município tem consistentemente superado os indicadores do programa, demonstrando compromisso contínuo com a sustentabilidade.
Integra também o PIAAC – Plano Intermunicipal de Adaptação Climática da região (AMAL), centrado na adaptação às mudanças climáticas em áreas como água, agricultura e ordenamento do território.
Tavira aposta num turismo consciente e de qualidade, com forte ênfase na natureza, património cultural e dieta mediterrânica.
Promove projetos, eventos e concursos que sensibilizam para a sustentabilidade e implicam os cidadãos.
Está comprometida com certificações ambientais (ECOXXI) e políticas adaptadas às alterações climáticas.
Valoriza a participação pública como instrumento central na definição de mobilidade e orçamentação sustentável.
Como a sustentabilidade pode ser motor de inovação económica?
Equilibrar o crescimento económico com a proteção ambiental é uma das prioridades da edilidade. O executivo municipal defende que o desenvolvimento não deve pôr em causa os recursos das gerações vindouras. É nosso objetivo continuar a fomentar um modelo de crescimento sustentável que valoriza a economia local e, simultaneamente, respeita e protege o património natural.
A sustentabilidade pode ser um motor de inovação económica, desde que exista vontade não só da autarquia, mas também do tecido empresarial para repensar os seus projetos e modelos de negócio. A sustentabilidade deve ser muito mais do que uma questão ética ou ambiental, deve ser um pilar de desenvolvimento e inovação.
Que legado gostaria de deixar a Tavira nesta área?
Gostaria que o legado deste executivo fosse o de ter dado passos firmes para preparar Tavira para os desafios climáticos do futuro e que a visão antropocentrista da exploração de recursos naturais seja deixada no passado e substituída por uma visão eco-centrista, ética e respeitadora da nossa casa comum, o Planeta Terra.
Eleita presidente da Câmara de Tavira, pela primeira vez, em 2021, Ana Paula Martins já desempenhava o cargo desde 2019, quando substituiu o então presidente da autarquia, Jorge Botelho, que deixou o município a meio do seu terceiro e último mandato para se candidatar e ser eleito como deputado do PS à Assembleia da República pelo círculo de Faro.
Queremos um concelho mais resiliente, com sistemas de água e saneamento mais eficientes, espaços naturais recuperados e protegidos, maior valorização dos resíduos e uma comunidade mais informada e envolvida nas questões ambientais. Não é apenas sobre cumprir metas: é sobre garantir que as próximas gerações herdam um território equilibrado, saudável e com qualidade de vida.
Que mensagem deixaria a outros municípios que pretendem iniciar um percurso semelhante?
Diria que não há tempo a perder!
É fundamental ter uma visão clara, definir prioridades e envolver a comunidade desde o primeiro dia. Criar equipas multidisciplinares, ouvir as pessoas e articular as ações com os compromissos nacionais e internacionais.
Cada município tem a sua realidade, mas todos partilhamos o mesmo desafio: responder às alterações climáticas com medidas concretas. Quanto mais cedo se começar, maior será a capacidade de adaptação.
O que a motiva a continuar a trabalhar por uma Tavira mais sustentável?
O que me motiva é saber que cada decisão que tomamos, hoje, tem impacto direto no futuro do concelho. Vemos resultados: perdas de água cada vez mais reduzidas, áreas naturais a recuperar o seu equilíbrio, cidadãos a aderir à recolha de biorresíduos e a adotar hábitos mais sustentáveis. Isso mostra que estamos no caminho certo. Mas o mais importante é a consciência de que estamos a proteger Tavira, o seu património natural e cultural, para os nossos filhos, filhas e netos e cientes de que contribuímos com a nossa parte nesta missão que é mundial. Essa é a maior responsabilidade, mas igualmente a maior motivação.
Biografia
> Ana Paula Martins, natural de Tavira, é licenciada em gestão pelo Instituto Superior de Economia e Gestão e pós-graduada em Finanças Empresariais pela Universidade do Algarve.
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> Foi também vereadora da Câmara de Tavira com o pelouro da Administração e Finanças (2009-2013) e vice-presidente (2013-2019) e, antes, desempenhou funções de direção no Centro Distrital da Segurança Social de Faro.
> Em julho de 2024, a presidente da Câmara de Tavira foi também eleita para uma das vice-presidências da Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL).
> É também Presidente da Taviraverde – Empresa Municipal de Ambiente, EM que tem como principais áreas a gestão, exploração, manutenção e conservação dos sistemas públicos de distribuição de água para consumo público, recolha e rejeição de águas residuais domésticas e recolha e transporte de resíduos urbanos indiferenciados, higiene e limpeza urbana, manutenção de espaços verdes públicos e a limpeza das praias do concelho.
> O compromisso com a sustentabilidade como um todo sempre foi o seu mote, mas com o agravar da emergência climática tem primado para que o Município de Tavira atue de forma mais ativa na ação climática, incentivando, em especial os munícipes, em assumir essa necessidade.


