No contexto da celebração do Dia da Mulher Africana, a Revista Pontos de Vista tem a honra de entrevistar Ana Carreira, Administradora da ÁUREA – Sociedade Distribuidora de Valores Mobiliários S.A. Com uma carreira marcada por excelência, resiliência e visão estratégica, Ana Carreira tem sido um pilar na consolidação de instituições nas áreas da banca, dos seguros e dos mercados de capitais. Nesta conversa inspiradora, mergulhamos na sua trajetória profissional, nos marcos que definiram o seu percurso, nos desafios enfrentados como mulher africana num setor historicamente masculino, e nas suas reflexões sobre o papel transformador da mulher no desenvolvimento económico do continente. Mais do que uma líder, Ana Carreira é uma voz imprescindível nesta caminhada coletiva rumo a um futuro mais inclusivo, justo e sustentável para África.
Ao longo da sua carreira no setor financeiro – incluindo banca, seguros e mercados de capitais – quais considera terem sido os principais marcos e desafios superados enquanto mulher africana?
Ao longo do meu percurso, tive o privilégio de contribuir de forma significativa para o fortalecimento de instituições financeiras em diferentes vertentes – banca, seguros e mercados de capitais, em contextos desafiadores e dinâmicos.
Cada etapa foi marcada pela resiliência, determinação e compromisso com a excelência.
Entre os principais marcos, destaco a oportunidade de participar ativamente no reforço de instituições e processos que hoje constituem pilares do setor financeiro, deixando um legado assente no rigor, ética e comprometimento.
Os desafios, inevitavelmente, passaram pela necessidade de afirmar a competência feminina num ambiente tradicionalmente dominado por homens. Superar barreiras culturais e estereótipos exigiu resiliência e foco. Mas, cada desafio superado tornou-se uma lição e cada conquista uma oportunidade de crescimento, não apenas para mim, mas também para outras mulheres que hoje acreditam que o seu lugar é onde elas escolherem estar.
Hoje, olho para trás com gratidão. Sei que cada passo dado abriu caminho para que mais mulheres possam sonhar sem limites e liderar com confiança num setor onde o talento e a visão não têm género.
Como vê a evolução da presença feminina em cargos de liderança nas áreas financeiras? O que ainda falta fazer para garantir maior representatividade e equidade neste setor?
Vejo com muito orgulho que a presença feminina em cargos de liderança no setor financeiro tem registado avanços significativos. Hoje, mais mulheres ocupam posições estratégicas e influenciam decisões de grande impacto. Contudo, o progresso ainda é desigual e, em muitos contextos, insuficiente.
Para garantir representatividade e equidade, precisamos de mais do que intenções, precisamos de ações concretas. É fundamental criar ambientes inclusivos, incentivar políticas de igualdade de oportunidades e investir na formação, mentoria de jovens talentos femininos e cria planos de sucessão que valorizem a diversidade de género. Só assim construiremos um setor onde o género não seja um obstáculo, mas sim uma força para a diversidade e inovação.
De que forma acredita que o investimento na educação e no desenvolvimento económico da mulher africana pode contribuir para o crescimento sustentável do continente?
A educação é a base para o empoderamento e a transformação social. Investir na formação e no desenvolvimento económico da mulher africana não é apenas uma questão de justiça social, é uma estratégia inteligente para acelerar o crescimento sustentável do continente.
Acredito que a educação é o maior agente de mudança, ela empodera, dá voz e permite que as mulheres sejam protagonistas do desenvolvimento sustentável. Uma mulher com conhecimento e acesso a oportunidades torna-se uma força imensa para o progresso do continente.
Qual a importância de figuras femininas de referência – como a Ana Carreira – no incentivo e mentoria de jovens mulheres que hoje iniciam as suas carreiras em áreas tradicionalmente dominadas por homens?
Ser uma referência é, antes de tudo, uma responsabilidade. É saber que cada palavra e cada gesto podem inspirar outra mulher a acreditar no seu potencial.
Quando as jovens olham para nós e veem que é possível chegar lá, sentem-se autorizadas a sonhar mais alto.
Por isso, acredito no poder da partilha: partilhar experiências, aprendizagens e também as vulnerabilidades.
Assim, criamos uma rede de apoio que fortalece e prepara outras mulheres para enfrentar desafios com confiança e determinação.
Num momento em que o mundo enfrenta múltiplos desafios – desde a insegurança alimentar à instabilidade económica – como é que as mulheres africanas, em particular as que atuam nos mercados financeiros, podem ser agentes de transformação?
As mulheres africanas, especialmente no setor financeiro, têm a capacidade única de liderar com empatia, visão estratégica e uma profunda compreensão das realidades sociais. Podemos ser catalisadoras de soluções inovadoras, apoiando o financiamento de projetos com impacto social, promovendo a inclusão financeira e incentivando políticas que empoderem comunidades inteiras.
Quando juntamos competências técnicas à sensibilidade social, conseguimos transformar desafios em oportunidades para um futuro mais justo e sustentável. Com uma liderança mais diversa, o setor financeiro pode ser um motor de mudanças positivas em toda a sociedade.
A mensagem da União Africana este ano fala de uma “década da mulher africana”. O que espera que seja efetivamente alcançado até 2033?
Espero que até 2033 possamos olhar para trás e ver uma década marcada por avanços concretos na igualdade de género, traduzidos em números e resultados. Que vejamos mais mulheres capazes em cargos de decisão, uma maior participação feminina na economia formal, e políticas públicas que promovam a inclusão de forma transversal.
Mais do que um slogan, que a “década da mulher africana” se traduza em mudanças estruturais e sustentáveis que coloquem a mulher no centro do desenvolvimento do continente.
Que mensagem gostaria de deixar às mulheres africanas – em especial às que aspiram alcançar posições de destaque no universo financeiro?
A minha mensagem é clara: acreditem em vocês mesmas, mesmo quando a sociedade vos disser o contrário. Cultivem o vosso conhecimento, sejam firmes nos vossos valores e não tenham medo de ocupar o vosso espaço.
O caminho pode ser desafiador, mas cada passo dado com coragem abre portas para outras mulheres. Respeitem-se e apoiem-se mutuamente, pois o verdadeiro progresso acontece quando deixamos de nos ver como rivais e passamos a ser aliadas. O sucesso de uma mulher tem um impacto muito maior do que podemos imaginar, ele inspira, empodera e dá força não só a outras mulheres, mas também aos homens e às gerações que estão por vir.
Sejam agentes de mudança, não apenas para as vossas vidas, mas para todo o ecossistema à vossa volta. E lembrem-se: o sucesso feminino no universo financeiro não é uma exceção, é uma necessidade para o futuro de África.


