Neste especial dedicado ao Dia da Mulher Africana, a Revista Pontos de Vista dá voz a uma mulher que, com coragem, visão e uma sensibilidade profundamente humana, está a redefinir o que significa educar em Angola. Domingas Tavares Francisco, socióloga, terapeuta sistémica, empreendedora e Diretora Geral do Colégio Luar do Saber, é o rosto de uma nova geração de líderes africanas que acreditam na transformação social a partir da educação — uma educação com alma, empatia e compromisso comunitário. Ao longo desta inspiradora entrevista, mergulhamos no universo de uma líder que não teme “desfazer a caixa” para reconstruí-la de forma mais justa, inclusiva e consciente. Domingas é a prova viva de que a mudança começa por dentro — e que liderar é, acima de tudo, um ato de amor.
Quem é a Domingas Tavares Francisco, enquanto mulher, líder e sonhadora?
Sou uma mulher criativa, corajosa e autêntica, de 38 anos, nascida em Luanda e criada em Lisboa. Filha de mãe angolana e de pai cabo-verdiano, casada com o meu amor e mãe de três tesouros. Desde cedo percebi que não me encaixava nas falas comuns, nas brincadeiras de criança, nos namoricos da adolescência ou na vida comum do bom e honesto trabalhador da função pública. Queria e precisava de mais, não bastava obedecer, cumprir horários e metas, tinha necessidade de questionar, de procurar soluções, muitas vezes com um sentimento de rebeldia silenciosa.
O espírito sonhador e inconsolado, por muito tempo, deixou-me de fora dos holofotes, das reuniões importantes, dos ciclos fechados, porque alguma coisa não se encaixava numa personalidade que precisava de “desfazer a caixa para voltar a construí-la”. E, foi desta forma que fui percebendo uma veia de liderança intuitiva, uma necessidade de trazer novos prismas para as velhas perspetivas. Sou feita de profundidade, de incompreensão, de olhar para dentro.
Percebi que a liderança vem de dentro, de um profundo amor próprio de quem se conhece e sabe o que não quer para si, vem de uma empatia e auto compaixão, de quem transborda primeiro na sua vida; é neste estado de autorrealização que conseguimos segurar a mão do nosso funcionário e fazê-lo caminhar ao ritmo do nosso sonho.
Liderar, na minha perspetiva, é conhecer o outro, respeitar a sua individualidade e identidade e permitir que a sua visão sobre o mundo transborde e complemente a nossa missão enquanto empreendedores. Liderar é direcionar, escutar ativamente, pedir desculpas, dar autonomia e, acima de qualquer entendimento, cultivar um ambiente onde a saúde mental torna-se inquestionável. Liderar é andar de mãos dadas com o outro.
Sou a mulher, a mãe, a esposa, dona de casa, socióloga, terapeuta sistémica e integrativa na área da saúde mental e a empreendedora que chora, levanta a voz, abraça, dá beijinhos, faz elogios, orienta, encaminha, aceita críticas e pontos de vista diferentes e complementares. Sou a líder que entra numa sala de reunião onde há comida e bebidas e fala sobre o sonho em andar em contramão. Gosto mesmo de estar com pessoas e levar-lhes sempre uma mensagem positiva.
Como surgiu a paixão pela Sociologia e como ela moldou a sua visão sobre o mundo e a sociedade?
Conheci a Sociologia no 11º ano. Essa veia interrogativa e questionadora fez-me querer perceber o porque é que os homens traem ou porque é que há fuga à paternidade. Julgava que a Psicologia não me daria, de forma integral, as respostas a essas interpelações e outros tantos pontos de interrogação que carregava na mente (risos).
A Sociologia falou mais alto, rapidamente me destaquei na turma e, assim, surgiu a determinação em dar sentido aos números, porque eles “falam” connosco e escondem uma realidade invisível aos olhos comuns; precisava formular hipóteses, analisar os factos sociais e as suas interdependências (não podemos dissociar a análise das desigualdades sociais do grau de escolarização do indivíduo, por exemplo).
Segui para a licenciatura em Sociologia em Lisboa, estudei a prostituição em Lisboa, fui ao parque Eduardo VII, de noite, entrevistar mulheres dos 20 aos 70 anos, analisei o perfil do cliente da prostituição, bem como as suas motivações, arrisquei-me… Contudo, a diversidade, a complexidade e as transformações contínuas da realidade e dos fenómenos sociais demonstraram que os três anos de licenciatura não seriam suficientes para elaborar conclusões herméticas.
Nesse sentido, ao fim de 10 anos longe da academia, inscrevi-me no mestrado em Sociologia no Porto para compreender os contornos que permeiam o modo como se envelhece nas sociedades atuais dos países considerados desenvolvidos. Estagiei num lar de idosos: convivi de perto com o “fim da vida”; senti as frustrações, os arrependimentos de uma vida toda; abracei, chorei e conheci um estado mental que sobrevive numa espécie de “corredor da morte”; vi ambulâncias a levar cadáveres a uma segunda-feira de manhã; vi olhares desesperados para ter 20 ou 30 anos a menos e reviver tudo de novo; conheci o medo pelo desconhecido, pela morte; questionei o modo como muitos chegam ao fim da linha. Todavia, o sentimento de impotência permanecia: os efeitos da globalização, a abolição das fronteiras geográficas e culturais, a crescente diluição das classes sociais, a fragmentação das famílias, as permanentes crises financeiras e de valores morais, entre outros fatores tornam, cada vez mais, a análise sociológica um verdadeiro ato de coragem!
Por alguns meses, tentei desviar a rota para a área de RH, ao frequentar um curso de especialização avançada em Gestão da Formação à Distância; os nove anos a trabalhar em gestão da formação fizeram-me crer que também seria uma escapatória possível. Mas, não, não era para ser, esse casamento já tinha o fim decretado, logo depois que se concretizou.
Assim, não satisfeita, mais uma vez, achava que com o Doutoramento, ainda mais longe, em Braga, (risos) levar-me-ia a um ponto de interseção. Também não! Então, para não dar cabo dos poucos neurónios que me restavam, decidi interromper a matrícula no último ano e contemplar a minha tese sem pressa, sem urgência em ostentar um diploma. Precisamos urgentemente de um ponto de viragem e eu quero ser parte integrante desse movimento, com um trabalho que não seja engavetado como tantos outros. A minha tese tem de trazer mudanças efetivas e duradouras.
Por essas razões, sou e serei uma eterna estudante da Sociologia, ainda não aprendi a ver o mundo com outras lentes, é mais forte do que possa imaginar!!!
Que papel teve a educação na construção da sua trajetória pessoal e profissional?
Desde pequenina que ouço que a escola é a única via de saída. Nunca vi alguém empreender, nem no seio familiar, nem entre os pais/mães dos meus amigos/as mais próximos ou vizinhos; todos eram trabalhadores de alguém (o sonho maior era ingressar no estado) e, por esse motivo, todos “tiveram de estudar” (quando tinham um pequeno negócio, era somente na perspetiva de levar algum complemento financeiro no final do mês). Ou seja, estudar era a única forma de dar “certo na vida”, não existia outra conversa possível. Repetidas vezes ouvi (e ainda oiço) a minha mãe dizer: “tens de estudar para ser alguém”. Nesse contexto, não nos era permitido faltar à escola, fazer menos que o exigido, as notas negativas não eram permitidas lá em casa (infelizmente). Foi uma educação à base de muita disciplina, orientação para os resultados, fazer bem e cada vez melhor, sem espaço para o falhanço, sem espaço para o descanso!
Foi uma educação que me permitiu chegar ao topo no campo académico e, posteriormente, integrar os quadros de empresas importantes no cenário angolano. A capacidade crítica e analítica, a comunicação clara e objetiva, a capacidade de realizar várias tarefas em simultâneo com a qualidade esperada, entre outras, são competências que aprendi desde cedo, talvez por ter crescido sem o meu pai, talvez porque a maior preocupação era garantir que os filhos (as filhas principalmente), não caíssem na mendicidade financeira. A minha educação deixou um legado importantíssimo na minha trajetória pessoal e profissional. Mas, como tudo nessa vida, deixou também as suas marcas.
O Colégio Luar do Saber nasce de um sonho antigo. O que representou para si e para a sua família tornar esse projeto uma realidade?
Antes do Colégio Luar do Saber nascer, existia um desejo profundo e maior em fazer algo além do “ter um bom emprego e um bom salário numa reputada empresa”. Para mim e para o meu esposo, na altura ainda namorados, não era possível deixar uma marca positiva e transformadora no mundo sem que isso partisse da nossa própria visão. Sabíamos que tínhamos de estudar para “ser alguém”, mas “esse alguém” que nos tinha sido incutido não se compadecia, somente, com uma agenda externa. Precisávamos, os dois, de “desconstruir a tal caixa e voltar a construí-la à luz dos nossos olhos e corações”.
Existia o sonho, mas não sabíamos “o quê”, “o como” e nem “o quando”. E, por mais de 10 anos, fomos sonhando juntos, sem dinheiro para investir, sem projeto algum; somente com a certeza de que teria de ser algo que contribuísse para o crescimento e desenvolvimento humano em Angola, com uma vertente fortemente social e comunitária. Eu, socióloga formada em Portugal e ele pedagogo e contabilista formado no Brasil a viver recentemente em Luanda tínhamos demasiado conhecimento para ficar connosco. As ideias eram muitas, foram imensas noites a sonhar.
Até que um dia, no nosso momento de vida mais desafiante, nascia o Luar do Saber. Costumo dizer que a educação nos escolheu. Tinha chegado o momento de “construir a tal caixa” e, claro está, foi tudo menos fácil. Mas, foi tão possível e tão preciso que, hoje, são os nossos meninos e meninas que nos pedem por mais.
Nasceu em duas zonas periféricas de Luanda: Palanca e Viana, com muitos arranjos, muitos medos, muitos “se”, muitas vozes externas a chamarem-nos de “malucos”. Estreou com casa cheia, trouxe esperança aos papás e mamãs que já não precisavam sonhar com a melhor qualidade do “colégio da cidade”, gerou medo ao professor(a) que agora tinha de ir trabalhar para o “bairro”, surpreendeu os funcionários com a infraestrutura e o estilo de gestão, reacendeu o debate sobre a qualidade de ensino nas zonas periféricas de Luanda.
Portanto, a marca Luar representa a confirmação de que todo o sonho que chega até nós, tem o potencial de concretização: precisa do momento certo, que muitas das vezes não depende somente de nós, esse momento certo, exige uma preparação e robustez mental (e não apenas financeira como se pensa), exige uma estrutura tão forte e sólida, para que não seja mais um negócio; e, sim, um propósito. A marca Luar é a prova de que o propósito em servir, sobretudo em zonas onde a grande maioria dos serviços chega de forma deficiente, deve ser a primeira intenção de qualquer empreendedor(a) na atualidade.
O que significa “educar com amor, empatia e humanização”, valores que marcam a identidade do colégio?
Quando o projeto Luar “caiu-me nas mãos”, a primeira ideia que me veio em mente foi: eu quero ter um colégio onde os meus filhos possam estudar, ser amados, abraçados e vistos. Quero uma estrutura física e humana onde o “sentir”, o “expressar” e o “brincar” estejam acima do “cumprimento do programa”. Aprendi, por via da dor, que o choro de uma criança é tão somente um grito desesperado por um abraço, um conforto emocional e, por esse motivo, era preciso levar esse entendimento a toda equipa, sem exceção.
Assim, educar com amor, empatia e humanização vem, antes de mais, de um verdadeiro sentido de servir o outro, de estar disponível em satisfazer as suas necessidades de forma integral e com sentido de empatia. Faço parte de uma geração que não precisou pagar para estudar, portanto, a visão que tenho sobre a educação não se compadece com a de um negócio. Mas, essa tal geração da qual faço parte precisou e, muito provavelmente, ainda precisa, de um abraço, de uma segurança emocional, de uma escuta ativa e de presença. Desta feita, os nossos valores são também o reflexo daquilo que estamos todos carentes: saúde mental e emocional enquanto se conhece e entende o mundo.
Que desafios enfrentou enquanto mulher africana empreendedora e gestora de uma instituição de ensino? E como os superou?
A liderança feminina ainda encontra fortes barreiras no exercício das suas funções, quando comparada com a masculina. Principalmente, quando se acredita que “só conhece bem Angola aquele filho/a que nunca a abandonou”. O facto de ser vista como “estrangeira” foi uma das muitas barreiras com as quais me deparei no arranque da empresa. A essa dificuldade, juntou-se o facto de não viver em Angola, mas ter um projeto de educação e fazer essa gestão à distância. E, lá no fundo, a minha equipa não estava de todo inexata: conhecer fornecedores, alinhar prazos, preços e qualidade, recrutar e formar pessoas que comungassem os mesmos valores, fazer gestão de pessoas, financeira e patrimonial, num quadro de grande flutuação cambial e dos mercados financeiros, social e, do ponto de vista do emprego, foi e, ainda é, sem sombra de dúvidas, o maior de todos os desafios.
Ser mulher num universo tradicionalmente frequentado por homens ainda é motivo de teste: ou aprovas ou reprovas. Mas, por incrível que pareça, esse foi também o melhor de muitos testes: ajudou-me a exercitar no terreno a tal veia de líder que sempre habitou em mim; e, como é óbvio, passei no teste, uma vez mais com distinção (e não sou eu a falar, os resultados o revelam). Evidentemente, que não aprovei sem auxílio: e, nesse requesito, o meu esposo é o meu principal e maior suporte, quer ao nível da gestão da equipa, quer na tomada de decisões que envolvam interlocutores externos: somos de facto, um só, uma complementaridade de visões que agregam e alimentam, diariamente, esse longo caminho que ainda nos espera; afinal o sonho também foi a dois.
Costumo dizer que Deus colocou no meu caminho a melhor das equipas, que rapidamente percebeu o conceito da marca: levar muito além do ensino tradicional. Desde o primeiro dia que insisto que ensinar é muito mais do que escrever no quadro números e palavras; ensinar também é abraçar e falar sobre emoções, é cultivar um espaço emocionalmente seguro, onde cada criança possa encontrar o seu lugar de direito, mostrar onde dói e expressar-se tal como é. A marca Luar tem a melhor equipa, acreditem!
Como vê o papel da mulher africana na sociedade contemporânea e que mensagem deixaria para as futuras líderes do continente?
A liderança feminina tem particularidades fundamentais que os projetos atuais necessitam, urgentemente, parar e escutá-las de forma ativa e integrativa. O perfil do novo consumidor já não se compadece com a “entrega de um produto comum, numa embalagem bonita”. É preciso tocar-lhe o coração, levar uma solução que vai além da sua necessidade, é preciso dar resposta efetiva e continuada a questões que, por exemplo, muitas famílias deixaram de o fazer (ou por falta de tempo, recursos financeiros ou por desesperança).
O quadro de desestruturação familiar, na atualidade, é profundamente crítico e desesperador: estamos diante de famílias monoparentais; famílias reconstituídas; famílias em que os filhos mais velhos assumiram o papel dos pais, enquanto provedores da casa; famílias onde os avós são o pilar principal, quer do ponto de vista emocional, quer financeiro; famílias, onde o tipo de organização da vida profissional (e concretamente na visão capitalista do modo de trabalhar) tem afetado as dinâmicas familiares e da gestão e educação dos filhos. Como seria de esperar, todas estas e muitas outras questões estão a afetar a forma como se consome. O consumo, hoje, acaba por ser uma necessidade de conforto emocional e não tanto uma questão efetiva e real! E já não precisamos de estudos de marketing para compreender esse desafio que as redes sociais diariamente nos confrontam.
E, particularmente, no caso do setor da educação, a escola, os gestores escolares, os professores, assim como os profissionais auxiliares e toda a comunidade educativa devem garantir que cada criança tenha disponível uma segunda casa onde possa estar em verdade e em segurança. Se pensarmos de modo diferente, estaremos a repetir muitas das desigualdades sociais que todos os dias vemos nas notícias. É preciso ter vontade, propósito e amor à causa; nesse aspeto, a mulher tem uma veia altamente criativa, arrojada, que deve ver implementada neste género de projetos e outros, como é evidente.
Portanto, a minha mensagem é muito clara e é extensiva a todos os contextos geográficos, mas particularmente à nossa amada África, onde os desafios são enormes e em vários setores: “Mulher, o teu potencial agregador, cuidador e zelador é a chave para a mudança; é o que as organizações estão a reivindicar de forma gritante; não precisas ser, apenas, a executiva com a agenda cheia, numa sala masculinizada, onde os holofotes questionam o teu valor; muda o prisma e leva amor, atenção e cuidado a quem cuida dos resultados; tem a coragem de dar o primeiro passo, que encontrarás outras mulheres, como eu, a fazer esse caminho integrador. Arrisca-te com amor e propósito, a nossa África precisa conhecer-te e ouvir a tua voz. És capaz, és suficiente, és essencial, acredita!”
Em retrospetiva, qual foi o momento mais marcante da sua jornada com o Luar do Saber até hoje?
O facto de ser filha de uma família que não valida o empreendedorismo como uma forma de emprego e de autorrealização pessoal e profissional fez-me duvidar do caminho que estava a trilhar. Portanto, as barreiras que naturalmente foram surgindo e que qualquer empreendedor(a) enfrenta, no meu caso, foram sentidas de forma muito mais exacerbada: como se, por um momento, começasse a interiorizar o medo alheio, a visão derrotista de que ia falhar.
Esse medo que, diariamente, me acompanhava, na verdade, revelou-se numa verdadeira mentalidade resiliente e corajosa que continua a acreditar, piamente, que eu também podia (e posso) transformar vidas por via do empreendedorismo. Mas essa visão, não me impediu de viver um dos primeiros momentos marcantes e, de alguma forma, doloroso: quando recebi o primeiro pedido de demissão. Para mim, foi quase a confirmação de que não era suficientemente boa para aquele projeto. Foi conturbador pensar que a minha empresa, situada no bairro, de onde todos querem sair e ninguém quer voltar, não era suficiente para os meus funcionários. Hoje, sei que não é bem assim.
Outro grande momento, foi sem dúvida o arranque no nosso primeiro ano letivo, o setembro de 2022. Ver a casa cheia de meninos e meninas a correr, a brincar, ansiosos pelo início das aulas no novo colégio (que viram em construção e que aguçou o apetite de muitos por muito tempo); ver os professores vestidos de batas brancas e com um ar acolhedor; ver os meus funcionários felizes por poderem trabalhar perto de casa, sorridentes e a reforçarem o impacto que o colégio teria no bairro; ver os olhos do meu marido, ver-me distante, a assistir a tudo por uma lente, com o coração aos sobressaltos; ver os meus filhos incrédulos a ver a mamã que agora era diretora geral: afinal, o sonho acabava de se concretizar e essa sensação foi demasiado boa!
Lembro-me, igualmente, de quando paguei os primeiros salários, meu Deus, foi qualquer coisa de surreal, não dava para crer que aquela menina que só pensava em estudar e “ser alguém na vida” estava ali a pagar salários a tantas famílias. Lembro-me perfeitamente, de ouvir o meu marido dizer-me: pois é, agora já és importante para muitas famílias desse país, já não és qualquer pessoa!
O que podemos esperar do futuro do projeto Luar do Saber? Há novos sonhos por concretizar?
Eu e o meu marido somos a encarnação do sonho, a materialização da ideia de que sonhar é o primeiro e mais importante passo para se alcançar o que quer que seja.
Além do ensino, o projeto Luar do Saber apoia a vertente do desporto comunitário infantil, onde patrocinamos equipas com equipamento e, sobretudo, bolas de futebol. Acreditamos que o desporto em tenras idades é um forte mecanismo de combate ao abandono escolar, contribuindo, de igual modo, para a integração social dos jovens.
Tivemos, por dois anos consecutivos, aulas de alfabetização gratuitas, para maiores de 18 anos; infelizmente, essa iniciativa não teve a adesão esperada. Mas não desistimos do projeto, estamos em fase reformulação interna para que tenhamos em sala de aula as pessoas que, de facto, necessitam melhorar as suas competências de base ao nível da língua portuguesa, falada e escrita.
No futuro ano letivo (2025/2026), teremos uma salinha, uma espécie de oficina dedicada ao ensino de corte e costura de forma gratuita aos alunos da 3ª à 6ª classes; o intuito é fomentar o desenvolvimento de competências auxiliares ao ensino tradicional, de modo a permitir uma construção diversificada e experimentada do mundo das profissões e, consequente, importância de cada uma delas.
Além das visitas de estudo e outras atividades extracurriculares, o nosso projeto educativo realiza, anualmente, palestras sobre emprego e vocação profissional, direcionada aos alunos do primeiro ciclo; o objetivo é despertá-los para as várias ofertas profissionais disponíveis e, assim, ajudá-los a identificar a área de estudo que melhor se encaixa nas suas aptidões e preferências.
Mas, a ideia é ir muito além, é revolucionar o ensino privado e público em Angola: queremos propor um debate sobre os “tradicionalismos” que ainda imperam a educação e o ensino; queremos reforçar a relevância do ensino profissional já a partir da instrução primária (6ª classe, por exemplo); queremos nos sentar com os pais e mães que acreditam e sonham, fielmente, em ver os filhos “doutores” ainda que desempregados, mal-empregados, malformados do ponto de vista das competências ou até pouco realizados (há outros caminhos tão válidos quanto…); queremos introduzir a temática da saúde mental e alfabetização das emoções no programa educativo; queremos ensinar os nossos alunos sobre gestão financeira; queremos ajudar a fomentar a visão sobre as vantagens do autoemprego e do empreendedorismo.
Queremos fazer tanta coisa!!!
Por fim, como gostaria de ser lembrada no contexto da educação em Angola?
Quero ser lembrada como uma menina sonhadora, alegre, resiliente, nascida e criada numa família que, à semelhança de tantas outras enfrentou dificuldades financeiras, mas que entendeu que tinha de fazer diferente, de modo a obter os resultados também eles diferentes que tanto almejava. Quero ser referida como uma mulher que priorizou o conhecimento, focou-se nas situações que estavam ao seu controlo e atirou-se ao mundo com todos os medos e julgamentos. Quero ser recordada como alguém que não desistiu, que não deixou de acreditar na inclusão, no amor como a maior e mais importante arma de combate. Quero ser vista pelas múltiplas facetas que me definem como o ser humano que veio ao mundo para agregar, levar esperança e contribuir positivamente para um mundo saudavelmente equilibrado e próspero. Quero deixar no mundo coisas diferentes!!!


