Tecnologia, Inovação e Impacto na Lusofonia: Uma Década de Visão

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Neste mês de agosto, a Revista Pontos de Vista tem a honra de destacar Jurelmo Lopes, fundador e CEO da MAINSOL, que celebra quase 10 anos de atividade em Angola, marcando presença crescente na Lusofonia através de uma expansão estratégica para a Namíbia. Uma jornada marcada por inovação tecnológica, soluções inteligentes no setor de oil & gas e uma visão empresarial que transcende fronteiras. Nesta entrevista exclusiva, Jurelmo Lopes partilha a retrospetiva desta trajetória notável, os desafios e conquistas, e os planos ambiciosos que moldarão o futuro da empresa na região.

A MAINSOL foi fundada em 2015. Como nasceu esta empresa e qual foi a sua motivação para fundá-la?

A MAINSOL nasceu de uma observação muito simples, mas crucial: identificámos uma lacuna significativa na manutenção de equipamentos em Angola. Em 2015, éramos jovens empreendedores que reconheceram que existia uma necessidade não atendida na manutenção de equipamentos como bombas de água, unidades de ar-condicionado e geradores de média dimensão. Havia uma oportunidade clara no mercado angolano para quem pudesse oferecer soluções técnicas de qualidade com uma abordagem local. Os nossos sonhos nunca foram pequenos – são grandes. E sonhos grandes requerem muito esforço – força física, financeira e mental. Tivemos muito crescimento em todos esses aspetos ao longo desta jornada.

Quais os principais marcos que destaca nestes quase 10 anos de trajetória?

Cada fase teve os seus marcos distintivos. Em 2016, conseguimos os nossos primeiros contratos significativos, oferecendo serviços de manutenção preventiva e preditiva com uma pequena equipa de técnicos. Em 2017, tivemos um salto de 160% na receita devido a pré-encomendas de fornecimentos para clientes importantes, como as instalações do Belas Business Park em Talatona e as instalações de armazenamento de clientes de gestão documental em Viana. A reestruturação de 2022 foi crucial – redefinimos o nosso mercado-alvo e modelo de negócio, focando-nos no setor de Oil & Gas. Em 2023, conseguimos atrair novos investidores para impulsionar iniciativas de crescimento, e 2024 marca o início das nossas operações técnicas major. Foi um ano de crescimento, 2024 – por crescimento, quero dizer muito aprendizado para nós. E 2025 tem sido bom até agora, particularmente o primeiro trimestre foi muito positivo em termos de fecho de negócios. Temos alguns contratos novos. Não estamos onde queremos estar, mas fizemos muito progresso comparado ao ano passado. Hoje, orgulhamo-nos de ter completado mais de 50 horas sem acidentes em operações de manutenção.

Quais foram os maiores desafios enfrentados e como foram superados?

O impacto da COVID-19 em 2020 foi devastador. As disrupções nas cadeias de abastecimento globais levaram a escassez e atrasos na disponibilidade de peças e suprimentos. Os encerramentos de fábricas, restrições de transporte e aumento da procura criaram desafios enormes para empresas de manutenção e procurement como a nossa. Superámos isso através de uma abordagem proativa: diversificámos os nossos fornecedores, investimos em stock de segurança e, mais importante, mantivemos uma comunicação transparente com os nossos clientes. A crise ensinou-nos a importância da resiliência e da adaptabilidade.

Houve algum momento em que pensou em desistir? O que o motivou a continuar?

Durante a pandemia, admito que houve momentos difíceis. Mas o que me motivou a continuar foi ver a necessidade real dos nossos clientes e a confiança que depositavam em nós. Além disso, a nossa visão sempre foi maior – queríamos tornar-nos o principal fornecedor de soluções energéticas na região Sub-Sahariana, alinhados com princípios ambientais, sociais e de governança. Poucas empresas locais conseguiram celebrar 10 anos. Tivemos momentos difíceis como empresa, mas chegar ao décimo ano é uma bênção termos atingido este marco. Não podemos nos esconder, mas entendemos a necessidade de ter maior visibilidade. Isto é negócio, estamos a competir, e queremos celebrar ter durado tanto tempo.

Quais são hoje os principais serviços e soluções oferecidos pela MAINSOL?

Hoje somos uma empresa completamente diferente. Oferecemos três linhas principais de serviços: fornecimento de químicos para suporte a atividades de perfuração, fluidos de completação e produção, soluções de medição integradas de gás e líquidos, e soluções de automação; prestação de serviços, e aluguer de ferramentas e equipamentos para intervenção de poços.

De que forma a empresa se diferencia no mercado angolano?

A nossa diferenciação está na combinação única de conhecimento local profundo com tecnologia global de ponta. Somos uma empresa 100% angolana, registada e em conformidade com todas as autoridades locais – em particular o regulador do setor (Agência Nacional de Petróleo e Gás), a empresa nacional de petróleo e gás (Sonangol), bem como o nosso Ministério de tutela, Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, e as associações de relevância como a ASSEA. Para empresas locais em Angola, tudo gira em torno de pessoal e equipamento. Quando se trata de pessoal, pode tornar-se competitivo porque estamos realmente a competir com grandes empresas internacionais.

Pode partilhar alguns projetos ou clientes que simbolizam o impacto atual da MAINSOL?

Trabalhamos com alguns dos nomes mais respeitados da indústria – Azule Energy, MI SWACO, Sonangol, e CEGELEC para mencionar alguns. Estes são clientes que escolheram a MAINSOL não apenas pelos nossos produtos, mas pela nossa capacidade de entrega consistente e pela nossa compreensão das necessidades operacionais locais. Um exemplo que nos orgulha é o nosso trabalho com equipamentos de medição integrada e soluções de automação – são projetos tecnicamente complexos que demonstram como evoluímos de uma empresa de manutenção básica para um fornecedor sofisticado de soluções técnicas.

A MAINSOL está a expandir para a Namíbia. O que motivou esta decisão?

A Namíbia representa uma das oportunidades mais promissoras no setor energético atualmente. Desde 2022, temos visto descobertas significativas – a Shell com os campos Graff, La Rona, Jonker, Lesedi e Enigma; a TotalEnergies com as descobertas Venus e Mangetti; e a Galp Energia com a descoberta Mopane, que tem um potencial de cerca de 10 mil milhões de barris equivalentes. Olhando para Angola e Namíbia, o mercado está num estado de espírito diferente, numa fase diferente. Os serviços que estamos a tentar fornecer na Namíbia dependem muito mais de pessoas do que de equipamento. É muito mais fácil obter equipamento na Namíbia e ainda não é necessário o uso de equipamento pesado, isso dá-nos margem de prestar serviços similares aos que prestamos em Angola, aquando da nossa fundação em 2015.

Como está a ser estruturada esta expansão?

Criámos a Mainsol Energy Namibia como uma entidade 100% local, em plena conformidade com os requisitos regulamentares namibianos. A nossa abordagem estratégica foca-se em serviços de alto valor e baixos ativos, alavancando parcerias globais com entrega local. Temos parceiros experientes que fornecem formação profissional, virada para o setor – é por aí onde queremos que nossos serviços estejam virados.

Quais os serviços específicos que vão oferecer na Namíbia?

Na Namíbia, focamo-nos em quatro áreas principais: recursos humanos e formação profissional – treino abrangente em segurança e resposta a emergências, operações técnicas de oil & gas, controlo de poços e perfuração, com soluções digitais como plataformas de e-learning e simulação; consultoria técnica e suporte – planeamento de poços e engenharia, gestão de projetos e documentação técnica; suporte de procurement e logística.

Como funcionam as vossas parcerias estratégicas?

As parcerias são fundamentais para o nosso modelo de negócio. A nossa maior força está no conhecimento e conexões dentro do mercado local, enquanto os nossos parceiros são os desenvolvedores das tecnologias que oferecemos aos clientes. Somos parceiros locais de duas das maiores empresas prestadoras internacionais no sector (Baker Hughes e SLB). E isso dá-nos confiança suficiente para ajudarmos os nossos clientes a atingirem os seus objetivos.

Qual o papel da tecnologia e inovação no vosso modelo de negócio?

A tecnologia é o coração da nossa proposta de valor. Temos acesso às soluções digitais como plataformas de e-learning, salas de aula virtuais e opções de aprendizagem mista. Temos acesso a simuladores de perfuração, operação de guindastes e cenários de emergência. Estamos a trabalhar ao lado dos nossos parceiros no desenvolvimento de competências e capacidades de fabricação de alguns produtos a nível local.

Quais são os principais desafios que as empresas locais enfrentam no mercado angolano?

Para empresas locais em Angola, identifico três desafios principais: Desafios operacionais: Angola precisa uma abordagem muito criativa para garantir um modelo de negócio sustentável quando se trata de equipamento. Desafios financeiros: Os prazos de pagamento para empresas locais podem precisam de uma atenção especial, e a moeda de pagamento, se for feita de forma equilibrada ajudará as empresas a manter a estabilidade financeira e um crescimento sustentável. Recursos Humanos: Estamos a concorrer pelos mesmos quadros num mercado com empresas que têm receitas financeiramente saudáveis e outras que nem por isso. É preciso ser inovador para manter o interesse dos talentos mesmo quando a remuneração é razoável. Quando muito bons os quadros são exigentes e o ambiente trabalho pode ser o diferencial.

Como é que a MAINSOL consegue navegar estes desafios?

Para navegar estes desafios, consideramos sempre três aspetos fundamentais: Criatividade: Trabalhamos para desenvolver modelos de negócio inovadores e soluções não convencionais. É preciso pensar fora da caixa para encontrar formas de ser competitivo ao lado de gigantes internacionais. Disciplina: Mantermos rigor financeiro e operacional. Cada decisão é calculada, cada parceria é estratégica. Não podemos dar-nos ao luxo de improvisar como as grandes empresas. Resiliência: Aprendemos a adaptar-nos rapidamente às mudanças do mercado. A pandemia ensinou-nos que a capacidade de resistir e reinventar-se é crucial para a sobrevivência no mercado angolano. Mais do que isso, o setor está desenhado para testar a capacidade das empresas operadoras de se manterem ativas com os prazos de pagamentos prolongados em alguns casos.

Quais são as principais metas para os próximos 12 meses?

Temos quatro prioridades claras: primeiro, celebrámos 10 anos no negócio – a 17 de junho completámos uma década; segundo, abrir e começar operações na Namíbia; terceiro, ter as nossas plantas de manufatura a produzir em Angola; e quarto, diversificar o panorama de fornecimento de químicos em Angola. Muita gente está a entrar nos químicos, e alguns dos grandes fornecedores de serviços estão a tentar conseguir empresas locais para ajudar a proliferar os seus produtos. Vai ser um espaço competitivo para empresas locais, mas a competição ajuda as empresas a crescer.

Como vê o desenvolvimento do conteúdo local em Angola?

Falando sobre conteúdo local, foi publicado que as empresas angolanas controlam apenas 2-3% do volume de contratos no momento. Sendo membro da AECEP (a associação para empresas 100% angolanas), estamos a tentar mover este número de 2-3% para 20%. Precisamos de ter receita suficiente para empresas locais e usar isso para ajudar outras empresas locais a desenvolver-se, ajudando a indústria a crescer e garantindo que Angola beneficia dos negócios que estamos a fazer.

A internacionalização está nos planos? Quais os países lusófonos que são estratégicos?

A Namíbia representa uma das oportunidades mais excitantes no setor de oil & gas atualmente, e já estamos lá presentes. Mas a nossa visão é maior – queremos tornar-nos o principal fornecedor de serviços energéticos na região Sub-Sahariana. Quando se trata de volume, olhando para o tamanho da população e certos fatores, a Namíbia nem sequer é comparável a Angola. A Namíbia tem muita sorte em ter Angola onde está hoje. Esta experiência em Angola dá-nos uma vantagem competitiva única para outros mercados lusófonos.

Como avalia o ecossistema tecnológico na Lusofonia e que papel pretende desempenhar nele?

O espaço lusófono oferece oportunidades incríveis para quem souber navegar as suas especificidades culturais e regulamentares.
O futuro pertence a quem conseguir combinar tecnologia global com conhecimento local profundo, e isso é exatamente o que a lusofonia pode oferecer ao mundo. A nossa abordagem sempre foi de parcerias estratégicas – temos parcerias do estrangeiro que fornecem tecnologia e treino, mas não têm confiança para entrar sozinhos no mercado africano. Estão interessados em ter parceiros locais para partilhar o risco, e nós somos um desses parceiros.

Que mensagem gostaria de deixar a jovens empreendedores em Angola e no espaço lusófono?
Primeiro, vejam as oportunidades onde outros veem desafios. Quando começámos em 2015, muitos viam o mercado angolano como difícil, mas nós vimos potencial. Segundo, invistam em conhecimento e parcerias estratégicas. Não tentem fazer tudo sozinhos – encontrem parceiros que complementem as vossas competências. Terceiro, tenham paciência, mas sejam persistentes. Levou-nos quase uma década para chegar onde estamos, mas cada passo foi uma aprendizagem. Finalmente, pensem regionalmente desde o início.
O espaço lusófono oferece oportunidades incríveis para quem souber navegar as suas especificidades culturais e regulamentares. O futuro pertence a quem conseguir combinar tecnologia global com conhecimento local profundo, e isso é exatamente o que a lusofonia pode oferecer ao mundo.

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