“A consultoria em Cabo Verde continua exigente, mas é também o que me realiza: nenhum dia é igual ao outro”

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Nádia Évora é hoje uma das vozes mais inspiradoras do ecossistema empresarial e formativo em Cabo Verde. Com uma carreira iniciada em 2006 na área da Gestão de Recursos Humanos, seguiu-se em 2017, a concretização do sonho de empreender no seu país, fundando a SAL Consulting, e, no ano seguinte, a SAL Academy. Finalista do Women in Africa 2021, conta nesta entrevista à Revista Pontos de Vista a sua trajetória reflete a força de acreditar em novas histórias e de investir no potencial humano como motor de desenvolvimento.

Em traços gerais, como avalia o seu ponto de partida profissional em Gestão de Recursos Humanos à Fundação da SAL Consulting e da SAL Academy?

A minha carreira profissional começou em 2006, quando assumi o meu primeiro cargo como Diretora de Recursos Humanos de um hotel. O Diretor destacou, na altura, que era a primeira vez que contratava alguém com formação específica na área, o que lhe deu confiança e acreditou em mim ainda antes da entrevista. Mesmo sem experiencia o meu potencial estava aí e o currículo académico falava por si – e assim iniciei, com muita responsabilidade, a minha jornada profissional.

Depois da hotelaria, recebi o convite para trabalhar na aviação, acumulando as funções de Responsável de RH e de Formação, Assistente do Conselho de Administração e Secretária da Assembleia Geral. Foram 6 anos de intenso crescimento e aprendizagem. Em paralelo, atuei como formadora em diferentes entidades (IEFP e privadas), consultora de RH e, gradualmente, fui construindo um network sólido.

Esse percurso levou-me a ser convidada como Consultora do Governo em projetos ligados à Formação Profissional financiados pela Cooperação Luxemburguesa. Durante 3 anos integrei o Comité Técnico Sectorial, responsável pela elaboração de Perfis Profissionais e Módulos Formativos para o Catálogo Nacional de Qualificações de Cabo Verde. Fui nomeada coordenadora da Família Profissional AGE e participei no desenvolvimento de 11 perfis profissionais, entre os 45 elaborados na época. Essa experiência uniu as duas áreas centrais da minha vida: Recursos Humanos e Formação. Com o incentivo da perita internacional, investi no meu futuro e concluí o Mestrado em Desenho, Gestão e Direção de Projetos. A nova qualificação abriu portas à internacionalização. Antes, porém, aceitei ser Diretora de RH do Grupo Oásis Atlântico, para a abertura do Hotel Salinas Sea Resort, experiência enriquecedora que coincidiu com uma proposta desafiadora em Angola. Em 2013, iniciei em Luanda uma nova fase como Consultora Internacional da CESO CI, no âmbito do Plano Nacional de Formação de Quadros. Trabalhei com especialistas de vários países, participei em estudos de diversificação da economia, capacitação de empresas por competências e empregabilidade. Foram quase 4 anos intensos de consultoria internacional, que incluíram ainda uma experiência em Durban, África do Sul, onde ministrei um curso de Psicologia Organizacional e Liderança para a empresa ACE Consulting.

Durante essa missão em Angola tracei um objetivo: criar a minha própria empresa de consultoria. Regressei a Cabo Verde em dezembro de 2016 com esse propósito. A primeira sociedade não deu certo, mas em abril de 2017 nasceu a Aya Consulting, mais tarde renomeada SAL Consulting. Um ano depois, inaugurámos a SAL Academy. Desde então, ambas as empresas são geridas por mim, em parceria com a minha irmã e sócia, e com o apoio de uma equipa fantástica.

Nestes 8 anos de atividade, enfrentamos diariamente desafios e aprendemos com cada cliente. A consultoria em Cabo Verde continua exigente, mas é também o que me realiza: nenhum dia é igual ao outro. Novas leis, novos problemas, novas soluções – um ciclo constante de aprendizagem e superação.

Ao longo do meu percurso, acumulei papéis sociais e colaborações relevantes em áreas de associativismo, consultoria e formação. Sou Vice-Presidente da ANECPCV – Associação Nacional de Escolas e Centros Profissionais Privadas de Cabo Verde, Secretária da Assembleia da AJEC (Associaçã de Jovens Empresarios caboverdianos) e Membro do Conselho Consultivo da Câmara de Comércio de Barlavento.

Na consultoria, atuei junto da ARES, OIT, CTCV, EHTCV, CVIF e ProEmpresa, coordenando projetos estratégicos como o RVCC e Carteira Profissional, que já certificou mais de 650 profissionais em Hotelaria, Restauração e Turismo.

No campo da inovação e empreendedorismo, sou mentora e juri no Startup Weekend – Cheetastar e na Incubadora do Turismo da CTCV, além de Formadora Certificada pela OIT na metodologia CODE Empreender.

Apesar dos desafios, concretizei o sonho de regressar a Cabo Verde para empreender. A SAL Consulting e a SAL Academy são hoje o reflexo de um percurso marcado por resiliência, estudo, experiência internacional e paixão por desenvolver pessoas e organizações, sempre com o propósito de contribuir para o desenvolvimento local e do país.

Qual o papel da mentoria e da consultoria no apoio a startups e empresas?

Acreditamos que a mentoria e a consultoria desempenham um papel decisivo na vida das startups e das empresas já estabelecidas. Não basta apenas abrir um negócio; é preciso planeamento, acompanhamento e inovação contínua. Desde o início, a nossa ideia foi apoiar pessoas que sonham em abrir empresas, mas não sabem por onde começar. Orientamos desde a criação do negócio até à sua gestão corrente, oferecendo serviços como: Contabilidade e Fiscalidade; Controlo de Gestão; Gestão Administrativa de Recursos Humanos; Apoio no acesso a financiamento e preparação de dossiês de crédito; Estudos de viabilidade económica e financeira, Licenciamentos diversos, etc. Rapidamente percebemos que muitas empresas em Cabo Verde tinham uma vida útil inferior a 5 anos, sobretudo pela falta de assessoria e acompanhamento. Também identificámos que muitas empresas já estabelecidas necessitavam de inovação e reposicionamento estratégico para crescerem. O nosso percurso começou com clientes que nos procuravam por motivos fiscais, especialmente para negociar dívidas com o Estado. A partir daí, evoluímos para a elaboração de Planos de Negócio e Estudos de Viabilidade, conquistando a confiança de empreendedores que, até hoje, permanecem como clientes fixos. A nossa filosofia é simples: não nos limitamos a abrir empresas; caminhamos ao lado dos empreendedores. Queremos que estes se concentrem no seu core business, enquanto nós tratamos da parte burocrática, garantindo maior sustentabilidade, eficiência e redução de custos através da terceirização especializada. Ao longo de 8 anos e meio, já apoiámos inúmeros negócios a nascer e a consolidar-se. Claro que enfrentamos desafios, sobretudo financeiros, pois vivemos de avenças e nem sempre as empresas conseguem honrar os seus compromissos. Ainda assim, a nossa missão permanece firme: apoiar o ecossistema empresarial cabo-verdiano, tornando-o mais sólido, competitivo e inovador.

Qual é para si o significado de ser finalista do Women in Africa 2021?

Ser finalista do Women in Africa 2021 representou para mim um marco de reconhecimento internacional, validando o impacto do meu trabalho em Cabo Verde e em África. Entre 10.000 nomeadas, fui selecionada para o grupo das 4.000, depois finalista WIA540, e finalmente laureada WIA54, como representante de Cabo Verde. Esta conquista deu-me visibilidade, reforçou a credibilidade da SAL Academy – o projeto educativo e formativo que apresentei – e fortaleceu o meu compromisso com o desenvolvimento humano, sobretudo de mulheres e grupos mais vulneráveis. Acima de tudo, foi uma confirmação de que estou no caminho certo, motivando-me a continuar a apoiar negócios e pessoas a crescerem de forma sustentável.

Qual foi a motivação para criar a SAL Academy?

A ideia nasceu de uma necessidade clara que identificámos no mercado: os empresários queixavam-se da dificuldade em encontrar profissionais qualificados. Ao analisar currículos e perfis, vimos que havia uma oportunidade de transformar vidas através da formação, oferecendo às pessoas a possibilidade de aprender, requalificar-se e melhorar suas oportunidades profissionais. Inicialmente, tudo foi muito desafiante. Passámos um ano a preparar manuais pedagógicos, a estruturar o processo de certificação e a candidatar-nos ao programa Start Up Jovem da ProEmpresa. Mesmo depois de aprovados, houve atrasos burocráticos, obras no prédio escolhido e custos muito superiores aos previstos. Quando inaugurámos em maio de 2018, a adesão da população foi mais baixa do que esperávamos, e tivemos que reorganizar toda a estratégia, fundindo a SAL Consulting com a Academy e formando uma nova equipa técnica.

Que tipos de projetos e parcerias desenvolvem?

Trabalhamos com programas do Fundo de Promoção de Emprego e Formação, financiados por organizações internacionais como Banco Mundial, LuxDev e PNUD/UE, e outras cooperações e ONGs e beneficiando centenas de pessoas. Também promovemos projetos sociais para adolescentes em risco, Jovens NEET, pessoas com deficiência e mulheres chefes de família juntamente com instituições públicas como o ICCA, DGIS, África Avanza, Câmara Municipal. Além disso, temos parcerias com hotéis e instituições locais para formação em línguas técnicas, atendimento ao cliente, liderança, trabalho em equipa, e ainda oferecemos cursos especializados em Segurança Privada, Turismo, Gestão de empresa, Contabilidade, Comercio, Informática, etc. Os projetos e parcerias da SAL Academy têm como foco empregabilidade, desenvolvimento de competências e fortalecimento do tecido empresarial local, sempre em articulação com o setor público, privado e a cooperação internacional.

Qual é a filosofia da SAL Academy?

A nossa abordagem é prática, personalizada e orientada para resultados. Queremos transformar vidas, apoiar empresas e gerar impacto social positivo. Acreditamos que a formação é uma ferramenta poderosa de empregabilidade, inclusão e crescimento sustentável, e é isso que nos motiva todos os dias.

Existe uma mensagem que gostaria de deixar para os nossos leitores?

Sim, temos uma frase gravada na entrada do nosso prédio: “Imagine uma nova história na sua vida e acredite nela”. Acreditamos que esta é a única forma de transformar vidas, comunidades e um país.

Como foi desenvolver projetos de Cooperação Internacional e a experiência como Consultora pela CESO?

Durante quase quatro anos em Angola, atuei como Consultora Internacional pela CESO CI, empresa de referência em consultoria de desenvolvimento de competências e gestão de projetos. Neste período, participei em projetos estratégicos de cooperação internacional, que incluíram:

Plano Nacional de Formação de Quadros (PNFQ) – desenvolvimento do Sistema Nacional de Qualificações e Quadro de Qualificações de Angola, inspirado em modelos da SADC, Cabo Verde e União Europeia, com foco na mobilidade de quadros profissionais e alinhamento às necessidades do mercado.

Estudos de Diversificação da Economia Angolana – identificação de setores estratégicos e capacitação de empresas para aumentar a competitividade e produtividade. Diagnóstico de Necessidades de Competências – elaboração de planos integrados de formação para atender às exigências do mercado de trabalho em Angola, no IEF – Instituto de Fomento Empresarial do Ministério da Economia.

Estudo sobre Formação e Empregabilidade – análise das lacunas formativas e definição de estratégias para adequar a oferta educativa e formativa às necessidades reais do país (Angola).

Além disso, durante esta experiência, tive a oportunidade coordenar um processo de recrutamento e seleção de 20 jovens para uma empresa e também ministrei uma formação em Psicologia Organizacional e Liderança a equipas empresariais, incluindo uma missão na África do Sul (Durban), reforçando a aplicação prática de metodologias de desenvolvimento humano e organizacional.

Esta experiência proporcionou-me bagagem internacional, networking com consultores e instituições globais e consolidou a minha visão de como a formação profissional e a consultoria podem gerar impacto real no desenvolvimento de pessoas, empresas e países.

De que forma a formação e a educação continuam a ser motores do desenvolvimento em Cabo Verde?

A educação é, sem dúvida, a força que transforma sociedades. Sem ela, um povo permanece analfabeto, pobre e sem rumo. Países como Finlândia, Singapura, Canadá e Coreia do Sul mostraram que investir estrategicamente em educação e formação pode transformar economias e criar capital humano altamente qualificado para os desafios do século XXI.

Quais são os principais desafios do sistema educativo em Cabo Verde?

Precisamos repensar a educação. A gratuidade do ensino é importante para inclusão, mas não garante qualidade. As escolas devem ser inovadoras, com infraestruturas funcionais, laboratórios, tecnologia e professores qualificados. Além disso, é essencial cultivar valores como disciplina, respeito e empatia desde os primeiros anos, integrando desenvolvimento de carácter e habilidades sociais.

E quanto à formação profissional?

A formação profissional deve ser inclusiva e bem financiada, sem discriminação entre instituições públicas e privadas. Todos devem poder competir em igualdade de condições e contribuir para aumentar o número de quadros qualificados no país, especialmente agora que enfrentamos o êxodo de profissionais qualificados para o exterior.

Como a legislação recente impacta este cenário?

Com a Lei n.º 107/IX/2020, passou a ser obrigatória a posse de Carteira Profissional para determinadas profissões, com foco em Hotelaria, Restauração e Turismo (HRT). Isso aumentou a procura por certificação e tornou essencial garantir formação contínua e reconhecimento formal das competências.

Há resultados concretos dessa estratégia em Cabo Verde?

Sim. Na ilha do Sal, coordeno o processo RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competência) e já certificamos mais de 600 profissionais, sendo que 226 já receberam a Carteira Profissional e em breve faremos entregar mais 428 quem não tiver mais de 5 anos de experiência deve recorrer à formação profissional com cursos de níveis 2 a 5, que lhes irá conferir acesso à carteira profissional e estarem aptos a exercer no Mercado de trabalho.

Que mensagem deixaria para os jovens e profissionais cabo-verdianos?

Invistam na educação e na formação. Elas são as chaves para transformar vidas, comunidades e todo o país. É preciso acreditar no próprio potencial e na capacidade de mudança.

Qual tem sido o impacto da Sal Academy na ilha do Sal?

A ilha do Sal é a mais turística de Cabo Verde e, nesse contexto, a Sal Academy tem tido um papel muito relevante. Temos parcerias com a maioria das cadeias hoteleiras e empresas locais, que recebem os nossos formandos para estágios e, posteriormente, para oportunidades de emprego.

Dessa forma, estamos a contribuir de forma significativa para a melhoria do turismo e para o fortalecimento da sua cadeia de valor. Mais do que formar profissionais, trabalhamos para garantir que os jovens e adultos da ilha estejam preparados para responder às exigências do setor, elevando a qualidade do serviço prestado e, consequentemente, a competitividade do destino turístico.

Acreditamos que investir em educação e formação é investir no futuro da ilha do Sal e de Cabo Verde.

Como a inovação no ensino e na consultoria pode contribuir para sociedades mais inclusivas?

A inovação permite criar soluções adaptadas às necessidades reais do mercado, tornando a formação mais prática e acessível. Projetos sociais voltados para adolescentes em risco, pessoas com deficiência e mulheres chefes de família são exemplos de como podemos promover inclusão, desenvolver competências e gerar oportunidades de emprego. Na consultoria, inovar significa apoiar empresas e empreendedores para que possam crescer de forma sustentável, criando impacto positivo nas comunidades e na economia local.

Quais são os projetos futuros da Sal Academy Formação Profissional?

Estamos a finalizar o nosso projeto para a construção de uma escola de raiz com vertente técnica e profissional. O objetivo é oferecer formação nas áreas que concentram mais oportunidades de emprego para os jovens, como a Hotelaria, Restauração e Turismo, Eletricidade e Eletrónica, Administração e Gestão, além das novas Tecnologias de Informação e Comunicação. Ainda assim, praticamente todos os cursos que oferecemos têm boa aceitação por parte dos empregadores. A ilha do Sal não possui, até hoje, nenhuma estrutura de Ensino Técnico Profissional. A partir de um levantamento de necessidades, realizado em articulação com as estruturas educativas locais, diagnosticámos que investir numa solução educativa diferenciada tornou-se cada vez mais urgente. Queremos contribuir para diminuir a taxa de abandono escolar, melhorar a oferta formativa na ilha e capacitar mais jovens a nível profissional, permitindo-lhes garantir serviços de qualidade e aumentar a competitividade das empresas.

Pensar no desenvolvimento da ilha do Sal significa investir em educação e formação como ferramentas de acesso ao conhecimento e práticas diferenciadas. É também uma forma de permitir que a nova geração tenha mais alternativas num território cuja economia está fortemente ancorada no setor do turismo.

Como será estruturada a escola?

Já temos uma equipa técnica constituída para a montagem do projeto. Numa primeira fase, a prioridade será manter o foco na formação profissional, introduzindo novas áreas técnicas que respondam diretamente às necessidades da ilha. Paralelamente, vamos trabalhar o ensino secundário com via técnica de referência, qualificando jovens em regime diurno. Já no regime noturno, a escola será voltada para adultos, sobretudo para aqueles que saíram do sistema de ensino sem completar o secundário. Acreditamos que a Formação Profissional é hoje o patamar mínimo para dotar os cidadãos com as competências essenciais à economia moderna, preparar a força de trabalho e aumentar o número de pessoas qualificadas no mercado.

 

E quanto ao futuro?

O nosso é um projeto ambicioso, que comporta três grandes áreas de atuação. Neste momento, já conquistámos alguns potenciais parceiros, mas continuamos à procura de novos parceiros e doadores que possam ajudar-nos a materializar esta visão. Acreditamos que esta iniciativa é essencial para o desenvolvimento integral do país e, em particular, da ilha do Sal, pois alia formação profissional de qualidade à criação de oportunidades reais de emprego e crescimento económico.

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