A integração de setores tradicionais com inovação tecnológica de ponta é, para nós, uma das maiores oportunidades do presente

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Num ecossistema cada vez mais competitivo e orientado para a inovação, a AQL Engineering surge como um exemplo claro de como a tecnologia e a sustentabilidade podem caminhar lado a lado. Fundada pela engenheira eletrotécnica Andreina Janeth R. Cardoso e pelo software developer Alberto Duarte F. Moreira, a empresa nasce da complementaridade de percursos distintos, mas convergentes na mesma visão: desenvolver soluções tecnológicas que transformem setores estratégicos da Economia Azul e da indústria portuguesa. Nesta entrevista exclusiva à Revista Pontos de Vista, os fundadores partilham o percurso da empresa, os marcos já alcançados e as ambições que desenham o futuro da AQL Engineering, que se quer ver afirmada como referência internacional em inovação tecnológica, sustentabilidade marítima e diversificação industrial.

Pode começar por nos contar, em linhas gerais, o percurso da AQL Engineering até ao momento e como chega a esta colaboração com a Vodafone BoostLab?

A AQL Engineering nasceu da visão de Andreina Janeth R. Cardoso, Engenheira Eletrotécnica, e Alberto Duarte F. Moreira, Software Developer, unidos pela ambição de criar soluções tecnológicas ligadas à economia azul e à indústria, juntando experiência em engenharia eletrotécnica, desenvolvimento de software e inovação em sistemas inteligentes.

Nos primeiros tempos, a empresa estruturou-se como uma parceria 50/50 entre os sócios, explorando oportunidades em aquicultura marinha, energias renováveis e tecnologia aplicada ao mar. A missão era clara: trazer inovação e ferramentas digitais de apoio à produção e à sustentabilidade ambiental.

Um dos projetos emblemáticos nesse percurso foi o SISMEM, que tem origem em 2021 com o ALuna Kit, desenvolvido por Andreina Cardoso. Três anos mais tarde, Alberto Duarte F. Moreira juntou-se ao projeto, acrescentando portabilidade ao equipamento e aperfeiçoando diversos aspetos. A grande viragem aconteceu com a participação no concurso Blue Act (novembro 2024) – Economia Azul, promovido pela Câmara de Matosinhos, UPTEC e empresas de referência do setor, onde a AQL Engineering conquistou o 3.º lugar, alcançando visibilidade imediata.

O SISMEM afirma-se hoje como uma plataforma tecnológica que combina software e hardware, concebida para detetar precocemente patologias em espécies marinhas — incluindo macro/microalgas, bivalves e peixes — recorrendo a Inteligência Artificial e algoritmos de machine learning. Além disso, tem a capacidade de representar parâmetros adicionais da água, reforçando a sua utilidade em contextos de monitorização e prevenção. Este projeto marcou uma viragem na empresa, posicionando a AQL como um player inovador na interface entre engenharia, software e mar.

Paralelamente, a AQL expandiu competências no desenvolvimento de aplicações móveis e web, colocando o know-how em software ao serviço de clientes de diferentes setores.

Com a consolidação de projetos, a empresa começou a procurar parcerias estratégicas (FEUP, The Circle da Universidade do Porto) e apoios financeiros para acelerar a inovação.

Foi neste contexto que surgiu a ligação ao Vodafone Boost Lab, um programa que representa um passo importante para escalar ideias, testar em ambientes reais e ganhar tração junto de parceiros tecnológicos de referência onde a empresa foi reconhecida pela Start-up Portugal participando em eventos prestigiados como o SIM Conference, no Porto. Tem sido o nosso maior pilar desde a constituição da nossa empresa (feita em dezembro 2024).

 

Quais são as principais expetativas da AQL Engineering relativamente ao showcase em Lisboa?

As expetativas da AQL Engineering relativamente ao showcase em Lisboa são muito positivas. Este momento representa uma oportunidade para demonstrar a nossa plataforma tecnológica SISMEM, permitindo que o público tenha uma perceção clara do seu propósito e potencial.

Mais do que uma apresentação da empresa, este evento é relevante para todo o ecossistema ligado à aquicultura, desde o contexto nacional até uma perspetiva global, evidenciando como a inovação pode impactar o setor.

Ao mesmo tempo, o showcase reflete a ligação da AQL Engineering à economia azul e à tecnologia, destacando não só o valor da solução desenvolvida, mas também a importância das competências e do apoio proporcionado pelo Vodafone Boost Lab, fundamentais para escalar o projeto e posicioná-lo de forma sólida no mercado.

Com este evento, a empresa poderá ainda alcançar o TRL5 (Technological Readiness Level 5), consolidando a evolução tecnológica do SISMEM e reforçando a sua credibilidade perante investidores e parceiros estratégicos, onde de momento estamos em piloto com uma empresa de Mira que representa cerca de 80% da produção em Portugal, em produção intensiva de linguado e pregado.

 

O que significa, na prática, alcançar o aumento de TRL5 para a AQL Engineering e que impacto poderá ter no desenvolvimento dos vossos projetos?

Alcançar o TRL5 (Technological Readiness Level 5) representa um marco muito significativo para a AQL Engineering, pois significa que a nossa tecnologia não está apenas validada em laboratório, mas também em ambientes relevantes e com condições próximas das reais. Na prática, isso traduz-se em credibilidade acrescida junto de investidores, parceiros e potenciais clientes, ao mostrar que o SISMEM tem robustez suficiente para sair do conceito e entrar numa fase de aplicação prática no setor da aquicultura.

Este avanço permite-nos consolidar a integração entre hardware e software da plataforma, reforçar os algoritmos de Inteligência Artificial e Machine Learning aplicados à deteção precoce de patologias em espécies marinhas e preparar o sistema para escalar e ser replicado em diferentes contextos produtivos.

O impacto no desenvolvimento dos nossos projetos é duplo: por um lado, aproxima-nos do mercado, criando condições para futuras implementações comerciais; por outro, abre portas a colaborações estratégicas, tanto a nível nacional como internacional, fortalecendo a ligação da AQL Engineering à economia azul e ao ecossistema da inovação tecnológica aplicada ao mar.

 

Que papel tem o Vodafone BoostLab Hub na aceleração da vossa inovação e internacionalização?

O Vodafone Boost Lab Hub tem um papel determinante na aceleração da inovação da AQL Engineering, porque nos permite aceder a um ecossistema de mentores, especialistas e redes de contato estratégicas que seriam difíceis de alcançar sozinhos. Este apoio contribui para refinar o modelo de negócio, acelerar o processo de desenvolvimento tecnológico e validar soluções em ambientes reais.

No caminho da internacionalização, o programa funciona como uma rampa de lançamento: proporciona visibilidade junto de players globais, abre novas oportunidades de colaboração e dá-nos acesso a um quadro de competências e recursos tecnológicos que são fundamentais para posicionar o SISMEM e outros projetos da empresa em mercados internacionais.

Em resumo, o Vodafone Boost Lab Hub é mais do que um programa de aceleração — é um catalisador que nos ajuda a transformar inovação em impacto global.

 

A AQL Engineering tem vindo a investir em soluções ligadas à Aquacultura e Offshore Fisheries. Pode detalhar quais são os projetos em curso e o seu potencial para a Economia Azul em Portugal e na Lusofonia?

A AQL Engineering tem centrado a sua inovação em soluções que respondem a desafios críticos da aquacultura e das offshore fisheries, áreas estratégicas para a Economia Azul em Portugal e na Lusofonia.

O nosso projeto em destaque é o SISMEM, uma plataforma tecnológica que conjuga hardware e software para a deteção precoce de patologias em espécies marinhas, incluindo macro/microalgas, bivalves e peixes, recorrendo a Inteligência Artificial e algoritmos de machine learning. Além disso, integra a possibilidade de representar parâmetros da água, permitindo melhorar a gestão e sustentabilidade da produção aquícola.

O potencial do SISMEM é significativo: por um lado, pode reduzir perdas económicas associadas a doenças e más condições ambientais; por outro, contribui para aumentar a eficiência produtiva e reforçar a sustentabilidade ambiental — dois pilares fundamentais para a competitividade do setor.

Para a Lusofonia, o impacto é ainda mais amplo, já que falamos de um mercado com vastos recursos marinhos e com um forte potencial de crescimento. O SISMEM pode ser adaptado a diferentes contextos geográficos e produtivos, tornando-se uma ferramenta de referência na modernização e internacionalização da aquacultura, colocando Portugal como um hub de inovação tecnológica no Atlântico.

 

Que oportunidades e desafios identifica no cruzamento da tecnologia com a sustentabilidade no setor marítimo?

O cruzamento da tecnologia com a sustentabilidade no setor marítimo abre um vasto leque de oportunidades, mas também apresenta desafios relevantes.

Por um lado, a tecnologia permite otimizar a gestão dos recursos marinhos, através da monitorização em tempo real, da deteção precoce de patologias e da melhoria da eficiência produtiva. Estas soluções contribuem diretamente para a redução de perdas económicas, para a preservação ambiental e para o reforço da segurança alimentar, posicionando o setor marítimo como motor da Economia Azul sustentável.

Por outro lado, os desafios são igualmente claros: desde a necessidade de investimento em I&D e de financiamento adequado, até à adoção tecnológica por parte dos produtores, que muitas vezes enfrentam restrições de custos ou falta de literacia digital. Há ainda o desafio de assegurar que as tecnologias são escaláveis, fiáveis e adaptáveis a diferentes realidades geográficas, como Portugal ou outros países da Lusofonia.

Em suma, o futuro do setor marítimo passará inevitavelmente por este equilíbrio: usar a inovação tecnológica como ferramenta de sustentabilidade, transformando o mar num recurso valorizado de forma responsável, competitiva e global.

 

A empresa iniciou recentemente projetos na indústria cerâmica e da cortiça. O que motivou esta aposta e que soluções diferenciadoras pretendem trazer a estes setores?

A entrada da AQL Engineering na indústria cerâmica surgiu de uma oportunidade concreta para aplicar e testar a eficácia da Inteligência Artificial e dos algoritmos de machine learning na área da manutenção preditiva. Este desafio tem-nos permitido demonstrar, na prática, como a tecnologia pode antecipar falhas, otimizar processos e reduzir custos operacionais. Estamos, neste momento, a concluir uma primeira demonstração e já a projetar um piloto para o próximo ano, que representará um passo ainda mais sólido na validação desta abordagem inovadora.

No que diz respeito à indústria da cortiça, encontramo-nos ainda numa fase inicial, mais ligada a aspetos burocráticos e de enquadramento, mas acreditamos que também aqui a tecnologia poderá vir a desempenhar um papel diferenciador, ajudando a modernizar um setor com enorme valor para Portugal e para os mercados internacionais.

 

Como vê a integração de setores tradicionais com inovação tecnológica de ponta?

A integração de setores tradicionais com inovação tecnológica de ponta é, para nós, uma das maiores oportunidades do presente. Estes setores — como a cerâmica, a cortiça ou a aquicultura — transportam consigo décadas de experiência, valor cultural e peso económico, mas muitas vezes enfrentam limitações associadas à eficiência produtiva, custos e sustentabilidade.

É aqui que a tecnologia faz a diferença: ao introduzir Inteligência Artificial, machine learning, sistemas de monitorização e ferramentas digitais, conseguimos modernizar processos sem perder a identidade dos setores, acrescentando competitividade e abrindo portas para a internacionalização.

Na visão da AQL Engineering, esta integração é também um caminho para a sustentabilidade, porque permite produzir mais com menos recursos, reduzir desperdícios e responder às exigências de mercados cada vez mais atentos ao impacto ambiental.

Em suma, acreditamos que o futuro passa precisamente por esta fusão: aliar tradição e inovação, transformando setores históricos em motores de uma nova economia azul, verde e digital.

 

Onde gostaria de ver a AQL Engineering nos próximos cinco anos, sobretudo após este marco com o Vodafone BoostLab?

Nos próximos cinco anos, gostaríamos de ver a AQL Engineering consolidada como uma referência na inovação tecnológica aplicada à Economia Azul, com o SISMEM já implementado em contextos reais de aquacultura e reconhecido como uma solução de impacto no mercado ibérico.

Após este marco com o Vodafone BoostLab, acreditamos que estaremos em posição de escalar internacionalmente, iniciando a nossa “aventura” no mercado ibérico e expandindo depois para outros países lusófonos que enfrentam desafios semelhantes, onde a tecnologia pode transformar a forma como a aquicultura e os setores marítimos evoluem para maior sustentabilidade e eficiência produtiva.

Paralelamente, queremos continuar a diversificar a atuação em setores industriais, como a cerâmica e a cortiça, sem deixar de lado que a Defesa Nacional está também em cima da mesa como área estratégica de aplicação das nossas soluções.

Em suma, daqui a cinco anos, queremos que a AQL Engineering seja vista como uma empresa tecnológica de vanguarda, capaz de transformar desafios ambientais, industriais e estratégicos em oportunidades de crescimento sustentável e impacto global.

 

Que mensagem gostaria de deixar a parceiros e stakeholders que vão acompanhar o showcase em Lisboa?

A mensagem que gostaríamos de deixar a todos os parceiros e stakeholders que vão acompanhar o showcase em Lisboa é de confiança e abertura à colaboração. O SISMEM não é apenas um projeto da AQL Engineering — é uma plataforma criada para responder a desafios globais da aquacultura e da sustentabilidade marítima, onde acreditamos que a cooperação entre empresas, investidores, instituições e produtores será determinante para o seu sucesso.

Queremos mostrar que a inovação tecnológica portuguesa tem capacidade para competir ao mais alto nível, começando pelo mercado ibérico e projetando-se depois para a Lusofonia e além-fronteiras.

Acima de tudo, deixamos o convite: juntem-se a nós nesta jornada, porque acreditamos que só através de parcerias sólidas conseguiremos transformar a inovação em impacto real para o setor marítimo, para a indústria e para a sociedade.

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Revista Pontos de Vista Edição 149

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