“Acredito que a solução está em promover uma verdadeira cultura organizacional orientada para a segurança alimentar”

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O Dia Mundial da Alimentação é sempre uma oportunidade para refletir sobre os desafios e as responsabilidades que acompanham a forma como produzimos, consumimos e valorizamos os alimentos. Mais do que garantir abastecimento, trata-se de assegurar qualidade, confiança e sustentabilidade em toda a cadeia alimentar. É neste contexto que a Revista Pontos de Vista conversou com Filipa Ramos, fundadora da Simple2Work, uma empresa que há mais de uma década se dedica a apoiar organizações na implementação de sistemas de gestão de qualidade e segurança alimentar. Saiba mais!

Poderia partilhar connosco um pouco do seu percurso profissional e da sua ligação à área da Qualidade e da Segurança Alimentar com a Simple 2 Work? De que forma atuam no mercado nacional?

Acredito que os sistemas de gestão da qualidade e segurança alimentar só ganham força quando juntamos simplicidade, rigor e paixão pelo que fazemos. Licenciei-me em Engenharia Alimentar e, depois de ter passado pelo retalho, indústria e serviços, fundei em 2014 a Simple2Work, com o objetivo de apoiar organizações a crescer de forma sólida e sustentável.

Na Simple2Work não seguimos modelos pré-definidos, criamos soluções diferenciadas e ajustadas à realidade de cada cliente, porque acreditamos que cada organização tem os seus próprios desafios e forma de funcionar.

Atuamos em todo o território nacional, incluindo ilhas, ajudando as organizações a transformar processos complexos em processos simples, aplicáveis e eficazes, porque aquilo que nos move é podermos contribuir para que a qualidade e a segurança alimentar sejam vistas não como obrigação, mas como oportunidades de melhoria e confiança no mercado.

 

No âmbito do Dia Mundial da Alimentação, como avalia a importância de manter elevados padrões de segurança alimentar no contexto atual, tanto para empresas como para consumidores?

Num mundo globalizado, com cadeias de fornecimento cada vez mais complexas, a segurança alimentar é essencial. Os consumidores estão mais atentos e exigentes, e qualquer falha não afeta apenas a saúde pública, mas também a reputação e a sustentabilidade das organizações.

Mais do que um cumprimento legal, a segurança alimentar é um fator estratégico: reforça a credibilidade das organizações, diferencia-as no mercado e garante a confiança dos consumidores. Para os consumidores, é também um direito fundamental e permite fazer escolhas informadas e responsáveis.

 

Quais considera serem os maiores desafios na implementação de sistemas HACCP e boas práticas de higiene e segurança nas organizações do setor alimentar?

O HACCP e as Boas Práticas são muitas vezes vistos apenas como requisitos legais, quando na verdade deveriam ser encarados como ferramentas que acrescentam valor ao dia a dia das organizações. Ainda assim, há dificuldades reais: resistência à mudança, custos de implementação, falta de formação e, em muitos casos, a elevada rotatividade de pessoal que fragiliza a consistência.

Outro ponto crítico é a complexidade documental, que muitas vezes não acompanha a dimensão das organizações. Se os sistemas não forem proporcionais, adaptados a cada realidade e práticos, acabam por se tornar um peso em vez de uma mais-valia.

Acredito que a solução está em promover uma verdadeira cultura organizacional orientada para a segurança alimentar, uma vez que quando todos percebem o “porquê” e não apenas o “como”, a mudança acontece de forma mais natural, consistente e duradoura.

 

De que forma a certificação em qualidade e segurança alimentar contribui para a competitividade e credibilidade das empresas?

A certificação da qualidade e da segurança alimentar vai muito além do cumprimento de requisitos: é uma forma concreta de demonstrar credibilidade e compromisso com padrões internacionalmente reconhecidos. Permite às organizações aceder a novos mercados, estabelecer parcerias sólidas e reforçar a confiança dos consumidores. Mas, acredito, que o verdadeiro valor está em como se traduz no dia a dia das organizações: processos consistentes, qualidade e segurança alimentar contínuas e diferenciação real face à concorrência.

 

Como vê o papel das empresas e entidades na concretização dos objetivos da Agenda 2030, em particular na promoção de sistemas alimentares mais sustentáveis?

As organizações e entidades têm um papel central na concretização dos objetivos da Agenda 2030, especialmente na construção de sistemas alimentares mais sustentáveis. Ainda há muito trabalho a fazer, mas já se nota um esforço crescente por parte dos operadores do setor alimentar: na escolha de materiais de embalagem mais amigos do ambiente, na implementação de princípios de economia circular e no combate ativo ao desperdício alimentar.

Estas ações impactam diretamente vários ODS, como o ODS 2 (Fome Zero), o ODS 12 (Consumo e produção responsáveis), o ODS 13 (Combate às Alterações Climáticas) e o ODS 3 (Boa Saúde e Bem-Estar). Além de contribuírem para o planeta e a sociedade, traduzem-se em valor para as organizações: eficiência, inovação e reforço da confiança dos consumidores. A sustentabilidade deixou de ser apenas um conceito aspiracional e tornou-se um fator estratégico e competitivo para quem quer crescer de forma responsável.

 

Na sua perspetiva, quais as medidas mais eficazes para reduzir o desperdício alimentar, em linha com o PACDA e a Estratégia Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar, e como é que a Simple 2 Work contribui para reduzir desperdícios e promover práticas mais sustentáveis?

O combate ao desperdício alimentar é um desafio central em Portugal e está estruturado através do PACDA – Plano de Ação de Combate ao Desperdício Alimentar e da Estratégia Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar (ENCDA). Estas iniciativas definem medidas concretas para prevenir, reduzir e monitorizar o desperdício em todas as fases da cadeia alimentar, desde a produção até ao consumo, promovendo boas práticas, educação e sensibilização.

Na prática, as medidas mais eficazes passam por otimizar processos internos, melhorar planeamento e armazenamento, sensibilizar colaboradores e consumidores, e integrar a sustentabilidade como parte da operação diária.

Na Simple2Work, ao atuar diretamente com operadores do setor alimentar, ajudamos as organizações a identificar e implementar soluções adaptadas à sua realidade. Isso inclui otimizar fluxos, reduzir desperdícios em produção e distribuição, e promover práticas mais sustentáveis. Desta forma, contribuímos para que as medidas do PACDA e da Estratégia Nacional se traduzam em ações concretas e resultados visíveis, transformando o combate ao desperdício numa oportunidade de eficiência e inovação.

 

Que tendências e inovações acredita que irão marcar o futuro da segurança alimentar e da qualidade nos próximos anos?

Acredito que o futuro da segurança alimentar e da qualidade será marcado por tecnologia, sustentabilidade e cultura organizacional. Ferramentas como inteligência artificial e sensores inteligentes que monitorizam em tempo real condições como temperatura, humidade e transporte dos alimentos vão permitir rastreabilidade completa, monitorização de riscos e maior confiança do consumidor.

Ao mesmo tempo, a sustentabilidade vai continuar a ganhar peso, com embalagens inteligentes, redução do desperdício e reformulação de produtos para serem mais saudáveis. Mas tecnologia e sustentabilidade só funcionam se houver pessoas capacitadas: a formação contínua e uma cultura organizacional orientada para a segurança alimentar serão essenciais para manter padrões elevados e consistentes.

Os consumidores também estão a evoluir: exigem transparência, produtos sustentáveis e experiências alimentares de qualidade. Para as empresas, isso representa uma oportunidade de diferenciar-se e inovar. Na Simple2Work, ajudamos os nossos clientes a integrar estas tendências, transformando desafios em soluções práticas e eficazes.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores sobre a importância de assegurar qualidade, boas práticas e segurança alimentar no dia a dia? Quais são as vossas prioridades e objetivos estratégicos para os próximos anos?

A qualidade e a segurança alimentar são mais do que requisitos legais: são um compromisso com pessoas, com a saúde e com a confiança que os consumidores depositam nas organizações. Apesar de os consumidores partirem do princípio de que os alimentos que compram são seguros, é fundamental que saibam mais para fazer escolhas informadas, de qualidade e seguras, e para compreenderem o contributo da Engenharia Alimentar neste processo.

Na Simple2Work, queremos ajudar as empresas a transformar este compromisso em ações concretas: reduzir desperdícios, inovar de forma sustentável e integrar a segurança alimentar e a qualidade na cultura organizacional. O nosso objetivo é que, em cada produto e serviço, haja transparência, confiança e responsabilidade, tornando a qualidade e segurança alimentar uma prioridade natural e uma oportunidade de crescimento real.

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