“Acredito que saúde e desenvolvimento humano são inseparáveis”

Data:

No Dia Internacional da Saúde Mental, a reflexão sobre o equilíbrio entre corpo, mente e espírito torna-se ainda mais urgente. Neste cenário, práticas integrativas e humanizadas ganham cada vez mais espaço, não apenas como complemento aos tratamentos clínicos, mas como pilares fundamentais de prevenção e promoção do bem-estar. É neste cruzamento entre ciência, experiência e cuidado humano que se destaca a trajetória de Júlia Rocha, CEO da Júlia Rocha Integrative Health. À Revista Pontos de Vista, a especialista aborda o papel do Coaching, da Mentoria e da Consultoria na Saúde, os seus impactos no fortalecimento do bem-estar mental e as perspetivas de futuro para uma prática cada vez mais integrativa e personalizada.

 

Antes de falarmos sobre o tema central, poderia partilhar connosco um pouco do seu percurso profissional e o que a motivou a abraçar a área da Saúde Integrativa?

A minha formação inicial em Gestão, Saúde e Segurança, complementada por um Mestrado em Gestão de Recursos Humanos, despertou em mim uma profunda curiosidade sobre as pessoas — o que as motiva, como crescem e de que forma é possível criar ambientes que potenciem o melhor de cada uma. Essa base sustentou uma carreira de mais de três décadas, maioritariamente em contexto corporativo internacional, na área da saúde e do bem-estar.

Há cerca de uma década, a minha curiosidade pela saúde integrativa transformou-se em paixão. Desde então, formei-me em áreas específicas da Medicina do Estilo de Vida, integrando saberes da Medicina Alopática e da Medicina Natural. Atualmente, encontro-me em processo de acreditação pela ICF (International Coaching Federation) e pela NBHWC (National Board for Health & Wellness Coaching), entidade que regula globalmente a prática do coaching na área da Medicina do Estilo de Vida.

Acredito que saúde e desenvolvimento humano são inseparáveis. É neste ponto de encontro entre ciência, experiência e cuidado humano que coloco a minha energia, ajudando cada pessoa a cuidar de si e a alcançar a sua melhor versão.

 

Como surgiu a transição para funções de Coach e Mentora, aliando a vertente clínica à vertente de desenvolvimento humano?

A transição para funções de coach e mentora foi um passo natural, resultado de anos a trabalhar em saúde, tanto no contexto corporativo como no acompanhamento individual, e da perceção de que a mudança sustentável vai muito além do tratamento de sintomas. Com o tempo, compreendi que apoiar indivíduos — profissionais de saúde, pacientes, líderes ou colaboradores — exige mais do que conhecimento técnico: implica ajudá-las a desenvolver competências internas, gerir melhor a sua energia e tomar decisões conscientes, alinhadas com o seu propósito de vida.

O coaching e a mentoria na área da medicina do estilo de vida permitiram-me unir a vertente clínica e técnica à dimensão mais ampla do desenvolvimento humano, criando intervenções completas, personalizadas e baseadas em evidência científica. Acredito profundamente que saúde e desenvolvimento humano são inseparáveis. Defendo que cada pessoa deve assumir a responsabilidade de agir conscientemente em benefício do seu bem-estar, tornando-se protagonista ativo do seu processo de transformação.

 

Muitas vezes, “coaching”, “mentoria” e “consultoria” são confundidos. Como define e diferencia cada um destes papéis no contexto da saúde?

Embora existam pontos de contacto, coaching, mentoria e consultoria têm naturezas e objetivos distintos:

Coaching: processo estruturado e centrado na pessoa, que visa facilitar a descoberta, definição e concretização de objetivos de saúde e bem-estar. Não se trata de dizer o que fazer, mas de criar espaço e disponibilizar ferramentas para que o indivíduo encontre as suas próprias soluções e desenvolva competências para agir de forma consciente e sustentável.

Mentoria: baseada na partilha de experiência e conhecimento de alguém com percurso mais avançado numa área, oferecendo orientação estratégica, inspiração e apoio personalizado.

Consultoria: tem caráter técnico e analítico, em que o consultor avalia problemas ou oportunidades e apresenta recomendações e soluções específicas.

A diferença central está no protagonismo do cliente: no coaching e na mentoria, o foco é empoderar o indivíduo; na consultoria, o protagonismo recai mais sobre a implementação das soluções delineadas externamente.

 

Em que situações considera mais indicado o recurso a um coach, a um mentor ou a um consultor na área da saúde?

Coach de saúde: indicado para desenvolver competências internas, transformar hábitos, gerir energia e emoções, alcançar metas de bem-estar e alinhar a vida com os próprios valores e propósito.

Mentor: recomendado para orientação estratégica baseada em experiência, por exemplo em trajetórias profissionais ou liderança em projetos de saúde e bem-estar.

Consultor: adequado quando é necessária análise técnica, diagnóstico de processos ou implementação de soluções específicas, como programas de saúde corporativa ou protocolos específicos para grupos de risco. O foco aqui é a recomendação e execução de soluções externas.

 

No Dia Internacional da Saúde Mental, como vê o papel do coaching de saúde e da mentoria no fortalecimento do bem-estar mental de profissionais e coachees?

O coaching de saúde, especialmente com enfoque na medicina do estilo de vida, desempenha um papel central na promoção da saúde mental. Apoia os coachees a desenvolver hábitos saudáveis, gerir energia e emoções e adotar estratégias de prevenção que promovam equilíbrio físico, mental e emocional.

A mentoria complementa este processo, oferecendo orientação prática, partilha de experiência e inspiração para enfrentar desafios.

 

Que benefícios concretos a abordagem integrativa pode trazer para prevenir e tratar problemas de saúde mental?

O coaching de saúde intervém principalmente em dois momentos:

Prevenção e promoção de bem-estar: reconhecendo que mente e corpo estão interligados, o coach ajuda o coachee a fortalecer hábitos saudáveis, gerir emoções, cultivar relacionamentos positivos, cuidar do sono, nutrição e movimento. Esta abordagem integrada reduz fatores de risco e promove uma vida alinhada com valores e propósito.

Complemento ao tratamento clínico: quando existe uma condição instalada, o coaching atua em colaboração com profissionais de saúde — psicólogos, médicos e outros especialistas — apoiando a integração das recomendações clínicas em planos de ação realistas e aplicáveis no dia a dia. O objetivo é fomentar mudanças sustentáveis e garantir que o coachee seja protagonista ativo do seu processo de recuperação, respeitando sempre os limites éticos de cada especialidade.

 

Na sua experiência, que desafios ainda existem para integrar estas metodologias no sistema de saúde tradicional?

Em Portugal, o Sistema Nacional de Saúde continua focado sobretudo no tratamento, com recursos humanos limitados, deixando a prevenção e o bem-estar em segundo plano. Muitos profissionais também carecem de conhecimento sobre metodologias complementares que poderiam potenciar os resultados da sua prática clínica.

O Coaching de Saúde, cujos benefícios na prevenção e gestão de doenças crónicas são amplamente comprovados, já é integrado com sucesso em países como Reino Unido, Canadá, Austrália, e em várias nações nórdicas.

Trabalhando em colaboração com médicos, psicólogos e outros especialistas, o coach apoia a implementação de mudanças no estilo de vida e a integração das recomendações clínicas no dia a dia, potenciando o sucesso da recuperação. O resultado é um sistema de saúde mais eficaz e humano, onde os indivíduos assumem um papel ativo no seu bem-estar, beneficiando toda a comunidade.

 

Pode-nos apresentar alguns exemplos de resultados transformadores?

Recordo-me de dois casos que me marcaram pela rapidez dos resultados, fruto do forte compromisso dos coachees. No primeiro, uma pessoa sobrecarregada pelos múltiplos papéis na sua vida conseguiu reduzir a ansiedade, recuperar energia e tomar decisões mais conscientes, refletindo-se diretamente na sua qualidade de vida. No segundo, um coachee com fatores de risco cardiovascular e diabetes tipo II adotou pequenas mudanças graduais nos seus hábitos alimentares e exercício, melhorando os parâmetros de saúde e conquistando maior controlo sobre o seu bem-estar. Em ambos, o resultado foi uma transformação global do estilo de vida com impacto direto na sua vitalidade.

 

Como mede o impacto do seu trabalho?

O impacto avalia-se através de indicadores objetivos — como a mudança de hábitos e estilo de vida, parâmetros de saúde e grau de cumprimento dos objetivos — assim como pelo nível de energia, motivação e bem-estar percebidos ao longo do processo.
Em casos de condições clínicas pré-existentes, outro sinal evidente de impacto é o sucesso da integração em equipas multidisciplinares, refletido numa comunicação eficaz, relação de confiança e colaboração entre os profissionais, o que contribui para uma adesão mais consistente aos planos de tratamento e às recomendações clínicas.

 

Competências essenciais para atuar como coach, mentor ou consultor na área da saúde.

No caso do coach de saúde, é essencial dominar uma ou mais áreas da medicina do estilo de vida, com foco na prevenção, promoção da saúde, gestão de fatores de risco, bem como as teorias da motivação, mudança comportamental e psicologia positiva. As competências comportamentais devem estar alinhadas com os códigos de ética do ICF (International Coaching Federation) e do NBHWC (National Board for Health & Wellness Coaching), integrando escuta ativa, empatia, inclusão, comunicação clara e não violenta, entre outras. Assim, garante-se uma intervenção ética, humanizada e eficaz.

O mentor em saúde orienta e desenvolve competências de profissionais e clientes, promovendo confiança, partilha de conhecimento e aplicação prática. Já o consultor em saúde transforma processos e estratégias em resultados mensuráveis, com base numa análise crítica e comunicação assertiva.

 

Considera que os profissionais de saúde estão hoje mais recetivos a receber apoio nestas áreas do que há alguns anos?

Embora haja abertura crescente, ainda existem profissionais que estão presos a um sistema centrado na doença, limitado por tempo, recursos e desconhecimento sobre abordagens integrativas. Na prática, isso dificulta que a larga maioria dos pacientes adotem mudanças no seu estilo de vida e regressem às consultas.

O Coaching de Saúde oferece um suporte contínuo e personalizado que promove mudanças reais e sustentáveis, preenchendo uma lacuna que o médico, com tempo limitado, nem sempre consegue atender. Enquanto o clínico se concentra no diagnóstico e tratamento, o paciente recebe acompanhamento que fortalece a adesão às recomendações e ao estilo de vida saudável.

Assim, todos ganham – pacientes, profissionais e o sistema de saúde – mostrando que investir em prevenção e bem-estar é um benefício coletivo.

 

Quais as principais tendências que antecipa para o futuro da saúde integrativa e do apoio através de coaching e mentoria?

Na minha perspetiva, a saúde integrativa evoluirá cada vez mais para modelos personalizados e preventivos, integrando saberes da medicina convencional, do estilo de vida, práticas naturais e conhecimentos ancestrais. A tecnologia — inteligência artificial, wearables e plataformas digitais — permitirá monitorização contínua e recomendações individualizadas. O conhecimento humano continuará essencial, e a capacidade de adaptação dos profissionais de saúde tornar-se-á uma competência central para acompanhar estas mudanças.

Acredito que o modelo de prestação de cuidados de saúde precisará ser ajustado, evoluindo para um formato mais holístico, multidisciplinar e centrado no paciente, maximizando o potencial da tecnologia. Neste cenário, o coach ou mentor terão um papel determinante na motivação, empatia e capacitação do indivíduo, promovendo hábitos saudáveis, autonomia e bem-estar físico, emocional e espiritual, com a tecnologia a complementar e nunca a substituir a dimensão humana do cuidado.

 

Que mensagem gostaria de deixar, neste Dia Internacional da Saúde Mental?

Quero ir além do óbvio “levantar a mão e pedir ajuda” — embora isso seja essencial. A saúde mental começa antes, na prevenção, no cuidado diário e na forma como vivemos cada momento.

Para profissionais de saúde: cuidem-se com a mesma dedicação que cuidam dos outros. Reconheçam a vossa vulnerabilidade e fortaleçam-se através do autocuidado. Só assim poderão oferecer um cuidado genuíno e sustentável.

Para líderes e decisores: construam ambientes, políticas e culturas que coloquem o bem-estar e a prevenção no centro. A saúde mental não é um luxo — é a base da produtividade, da resiliência e da qualidade de vida coletiva.

Para todos: escolham-se todos os dias. Vivam com intenção, presença e plenitude. Abracem todas as vossas emoções: crescemos na dor, fortalecemo-nos na alegria, e cada sentimento deixa a sua marca no corpo e na mente. Aceitar a totalidade da nossa humanidade é o caminho para viver por inteiro e cultivar uma boa saúde mental.

Partilhar

Revista Digital

Revista Pontos de Vista Edição 147

Popular

Mais Artigos deste tipo

CHECK-UP PREVENTIVO PARA COMEÇAR BEM O ANO

Inicia-se um novo ano e muitas vezes sentimo-nos mais...

Divórcios em Janeiro

DIVÓRCIOS AUMENTAM EM JANEIRO? Todos os anos, um dos picos...

Resoluções de Ano Novo

Por que adiamos o que verdadeiramente desejamos? E porque...

CHECK-UP DENTÁRIO – O QUE É E A SUA IMPORTÂNCIA

A consulta de check-up dentário é de extrema importância...