“DEFENDER A MULHER É, em simultâneo, defender a criança, a família e a sociedade”

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Numa altura em que o papel da mulher africana ganha cada vez mais relevância nos espaços de decisão, Aríete Rebelo partilha com a Revista Pontos de Vista a sua visão sobre sustentabilidade no feminino, redes de apoio e cooperação, liderança transformadora e o poder do conhecimento como motor de mudança nos PALOP e em África. Fundadora da Inred Angola em 2013 (a empreendedora e académica prepara agora a reativação da mesma), Aríete Rebelo tem pautado o seu percurso pela aposta na educação, na liderança e na formação como pilares de transformação social. Saiba mais!

Como tem conciliado a vida familiar, profissional e social ao longo do seu percurso, e de que forma acredita que as mulheres africanas conseguem imprimir uma visão própria e sustentável na gestão destes equilíbrios?

Conciliar os papéis de mãe, esposa e profissional sempre foi para mim um grande desafio. A minha trajetória mostra que ser mulher é, muitas vezes, multiplicar-se e desdobrar-se em várias dimensões e ainda manter a serenidade. Apesar de ter assumido cargos de liderança e deter níveis académicos considerados elevados, mantenho-me uma pessoa humilde, despida de vaidades e sempre disposta a aprender.

 

O que significa para si “sustentabilidade no feminino”?

Acredito que a “sustentabilidade no feminino” traduz-se nessa capacidade de construir equilíbrio diários entre o afeto, a responsabilidade e o impacto social, imprimindo uma visão que alia resiliência à humanização.

 

Na sua experiência de liderança em instituições de ensino superior, quais foram os principais contributos que considera ter deixado e que refletem a força da mulher africana?

Na gestão universitária, tive a oportunidade de integrar processos de reestruturação, promoção de iniciativas de impacto social, programas de extensão e apoiar projetos que ligaram a academia à comunidade. Considero que o meu contributo foi demonstrar que a liderança feminina consegue transformar adversidades em oportunidades. Como então atleta de alta competição em Angola (voleibol) e como capitã da equipa, a experiência ensinou-me que disciplina, espírito de equipa e foco em resultados, são valores que levo sempre para a vida pessoal e profissional no que diz respeito à gestão institucional. Tudo isso considero que refletem a força da mulher africana.

 

Como enxerga a presença e o impacto da mulher africana nos espaços de decisão organizacional, académico e político?

Acredito que a presença da mulher nos espaços organizacionais, académicos e políticos já não é apenas necessária, é sim urgente. Como afirma Paulina Chiziane, a primeira romancista moçambicana, “a mulher é a raiz da sociedade” e tem provado que quando tem voz, transforma.

 

A violência de género, a insegurança alimentar e as questões de nutrição ainda são realidades marcantes em muitos países africanos. Que papel considera que a liderança feminina pode ter na transformação destas situações?

As realidades sobejamente conhecidas quer de violência de género como insegurança alimentar e fragilidades nutricionais em África, exigem coragem política e social. A liderança feminina pode assumir um papel catalisador tendo em conta a sua capacidade de transformar dor em força e propor soluções práticas e humanizadas.

 

Que chamada à ação gostaria de deixar aos decisores políticos e à sociedade civil no enfrentamento destes desafios estruturais?

A minha chamada à ação vai no sentido de investir-se sempre no capital humano da mulher africana, não apenas como beneficiária de políticas, mas como agente ativa do desenvolvimento. Defender a mulher é, em simultâneo, defender a criança, a família e a sociedade. Por isso, é urgente criar políticas de proteção mais efetivas e investir em programas de nutrição e educação que vão em grande medida impactar diretamente as comunidades.

 

A sua carreira está intimamente ligada à educação e à gestão do conhecimento. De que forma acredita que estes pilares podem acelerar o desenvolvimento dos PALOP e de África em geral?

Estou a retomar o meu doutoramento em Portugal, projeto este interrompido por razões pessoais e de conciliação de tempo, será focado na produção e gestão do conhecimento, com particular realce nas organizações africanas, e em especial nos PALOP. O objetivo é compreender como o conhecimento pode ser produzido, partilhado e ao mesmo tempo aplicado de forma transformadora, e como pode ajudar instituições a tornarem-se mais resilientes, inovadoras e conetadas com as reais necessidades da sociedade.

 

O seu projeto de retomar o doutoramento em Portugal, com enfoque na gestão do conhecimento, está fortemente ligado a este propósito. Quais os principais objetivos que pretende alcançar com esta investigação?

Como referi, este caminho é também pessoal, pela a minha filha, razão maior da minha resiliência, pois inspira-me a pensar num futuro melhor. É em sua homenagem que denominei uma das formações do meu projeto LUANARIE25, uma fusão dos nossos nomes, que simboliza força, esperança e legado: que ela possa um dia dar continuidade deste projeto, cujo propósito é valorizar o capital humano.

 

Fundou a Inred Angola, dedicada à consultoria e formação. Como vê o papel da mutualidade e das redes femininas para impulsionar oportunidades de educação e empreendedorismo em África? Que mensagem gostaria de deixar às mulheres africanas sobre a importância de criarem e fortalecerem redes de apoio e cooperação?

A criação da INRED Angola surge com essa missão de unir conhecimento, experiência e comunidade. Pretendo com isso dar espaço a professores reformados, que carregam não apenas saber académico, mas também como conselheiros pela sabedoria de vida que possuem, para partilharem com jovens, idosos e mulheres em situações de vulnerabilidade e não só. Pois, acredito que as redes femininas são essenciais para quebrar o isolamento e construir soluções coletivas. Juntas, conseguimos criar oportunidades de educação e empreendedorismo que não se limitam apenas ao presente, mas que moldam profundamente o futuro. É aqui que o “mutualismo” toma corpo.

 

Olhando para o seu percurso académico e profissional, quais foram os maiores desafios e conquistas que marcaram a sua caminhada?

A minha caminhada foi feita de muitos desafios, administrar uma instituição privada de ensino superior em Angola significava lidar com limitações financeiras das famílias e ainda com resistências culturais, mas uma instituição que nunca quis perder de vista a qualidade académica. Ao mesmo tempo, era necessário manter o equilíbrio entre a vida familiar e profissional. As conquistas, como tudo na vida, superaram as dificuldades, onde só é possível, quando como coletivo se pretende concretizar projetos relevantes e, apesar da dificuldade de um país atípico, tentar motivar equipas e inspirar jovens a acreditarem no poder transformador do conhecimento.

 

Quem ou o quê mais a inspira a continuar a investir na educação e na capacitação como motores de transformação social?

O que me inspira a seguir é exatamente a convicção de que educação e capacitação são as ferramentas mais poderosas para transformar sociedades.

Quais são as suas ambições pessoais e profissionais para os próximos anos, nomeadamente no relançamento da Inred Angola e na investigação científica que deseja desenvolver?

O meu foco é relançar a INRED Angola como espaço de formação, consultoria e inovação em produção e gestão do conhecimento, com programas formativos para jovens, executivos e comunidades.

Paralelamente, quero consolidar a investi- gação académica, em parceria com o professor catedrático de Cuba e meu mentor , com quem estou a preparar uma obra em formato de diálogo sobre este tema, pois pretendo “beber” do mesmo tudo que envolve um tema do seu domínio. Como podemos ver, é a prova viva de que o conhecimento não é obsoleto e cada vez mais o preconceito etarista vai perdendo espaço. Não é consensual atribuir essa condição à idade de uma pessoa, sem ter em linha de conta suas capacidades individuais de aprendizado e adaptação. É um erro etarista grave que reflete preconceito e descriminação.

 

Que legado gostaria de deixar às futuras gerações de mulheres africanas?

O legado que gostaria de deixar às futuras gerações é claro, que acreditem que o conhecimento não é um fim em si mesmo, mas uma ponte que liga passado, presente e futuro, que dá voz às mulheres africanas e que cria condições para um desenvolvimento sustentável e humanizado.

 

 

Mini bibliografia:

 

Licenciada em Gestão de Empresas pela Universidade Lusíada de Angola, com percurso inicial na Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto.

 

Possui MBA em Estratégia Empresarial (FGV), Pós-graduação em Docência do Ensino Superior (Instituto Piaget – Almada) e Mestrado em Gestão Aplicada pelo ISCTE, onde obteve também a certificação como Consultora em Skill Management.

 

Com mais de duas décadas de experiência no setor do ensino superior privado em Angola, exerceu funções de liderança nas áreas administrativa, financeira e executiva, acumulando sólida experiência em gestão universitária , no desenvolvimento de projetos educacionais e gestão estratégica das organizações.

Atualmente prepara-se para retomar em Portugal, os estudos de doutoramento com foco na produção e gestão do conhecimento em organizações africanas, em particular nos PALOP, interrompido por responsabilidades profissionais e familiares.

 

É fundadora da Inred Angola (2013), empresa que está a ser reativada com foco na consultoria e na formação – desde programas de curta duração e impacto imediato até formações executivas e avan- çadas –, acreditando que a educação é um dos grandes pilares do desenvolvimento de qualquer sociedade.

 

Informação adicional: A residir em Portugal desde 2019, por questões pessoais, Aríete Rebelo mantém- -se dedicada ao crescimento académico e pessoal, sempre com a convicção de que o conhecimento é a chave para transformar vidas e sociedades.

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Revista Pontos de Vista Edição 147

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