No âmbito do Dia Internacional da Saúde Mental, a Revista Pontos de Vista conversou com a psicóloga clínica e da saúde Marisa Marques, especialista em infância, adolescência, neuropsicologia e neuroterapia. Com uma experiência sólida no acompanhamento de crianças, jovens e famílias, partilha a sua visão sobre a importância de promover uma sociedade mais consciente e preparada para enfrentar os desafios da saúde mental. Nesta entrevista, fala-nos sobre os obstáculos atuais em Portugal, as estratégias para reduzir o estigma, a relevância da prevenção precoce e o papel crucial das instituições e da comunidade no futuro da saúde mental.
Qual é, na sua perspetiva, a importância deste dia para sensibilizar a sociedade portuguesa sobre os desafios da saúde mental?
O Dia Internacional da Saúde Mental, para mim, é uma data de grande importância. Que não é mais do que uma chamada de atenção à sociedade portuguesa para pararem durantes uns minutos e refletirem sobre algo que, embora muitas vezes invisível, tem um impacto profundo na vida de cada pessoa: a saúde mental.
Falarmos abertamente sobre saúde mental é um ato de coragem e resiliência. Porque é desta forma que uma sociedade conseguirá quebrar preconceitos, normalizar a procura de apoio e a dar voz a quem tantas vezes sofre em silêncio.
Em termos clínicos, ao olharmos para estes dias, o nosso foco é transmitir à sociedade que uma intervenção precoce pode transformar trajetórias de vida, atenuar sofrimentos e criar espaço para novas oportunidades de crescimento e equilíbrio. Enquanto elemento da nossa sociedade, e como psicóloga, ver diariamente a diferença que o apoio certo pode fazer. Ver alguém recuperar a confiança, reconstruir relações ou voltar a sentir esperança é, sem dúvida, um dos aspetos mais gratificantes que existe na área da saúde.
Por isso, este dia não deve ser visto apenas como simbólico, mas sim como um alerta coletivo para cuidarmos, não só de nós mesmo, mas também dos outros que nos rodeiam e muitas vezes vivem presos num sofrimento e na solidão de não mostrar o que está a acontecer. É preciso lembrar sempre que não existe saúde sem saúde mental.
Quais são os principais problemas e fragilidades que identifica atualmente no acesso a cuidados de saúde mental no nosso país?
Em Portugal, apesar de alguns avanços, ainda sentimos muitas fragilidades no acesso aos cuidados de saúde mental. A mais evidente é a falta de profissionais, que se traduz em listas de espera demasiado longas, muitas vezes desajustadas face à urgência do sofrimento de quem procura ajuda. Também noto uma grande desigualdade entre regiões: nas zonas urbanas a oferta é maior, mas no interior e em meios rurais o acesso continua a ser muito limitado.
Outro ponto que considero preocupante é a pouca aposta na prevenção e na intervenção precoce; continua-se a intervir sobretudo quando os problemas já estão instalados, em vez de se criarem respostas de proximidade que poderiam evitar a sua evolução. Além disso, a coordenação entre os diversos serviços de saúde, educação e estruturas sociais é frequentemente insuficiente, o que fragiliza a continuidade dos cuidados. E, apesar da crescente conscientização, o estigma ainda pesa e leva muitas pessoas a procrastinar ou evitar a procura de apoio.
Do ponto de vista clínico, esta realidade traz consequências muito claras: quanto mais tarde os pacientes chegam à consulta, maior é a gravidade dos quadros apresentados e mais desafiadora se torna a recuperação completa. Em crianças e jovens, por exemplo, a demora no acesso pode comprometer o desenvolvimento académico, social e emocional, com impacto prolongado na vida adulta. Por isso, na minha perspetiva, estes fatores acabam por tornar mais difícil uma resposta eficaz, rápida e humanizada às reais necessidades da população – o que torna isto um grande desafio está em assegurar respostas oportunas, multidisciplinares e próximas da comunidade.
Ainda existe muito estigma associado à procura de apoio psicológico. Que estratégias considera fundamentais para reduzir este preconceito e normalizar o cuidado da saúde mental?
Como psicóloga na área pediátrica e do neurodesenvolvimento, sinto diariamente o peso do estigma associado à saúde mental. Muitos pais procuram ajuda apenas quando o sofrimento da criança já é muito evidente, por receio de julgamento ou por medo de serem mal interpretados. Para mim, pedir apoio não é um sinal de fraqueza, mas sim de cuidado e de responsabilidade parental.
Acredito que a mudança começa pela educação para a saúde mental desde cedo, ensinando crianças e jovens a falar das suas emoções com naturalidade, tal como falam da saúde física. Também considero fundamental dar visibilidade a histórias reais de famílias que procuraram apoio e encontraram melhorias, pois isso ajuda a quebrar barreiras e a encorajar outros.
Enquanto observadora da realidade social e também na área clínica com adultos, vejo que o estigma acompanha muitas pessoas ao longo da vida. Muitos adultos cresceram a acreditar que “os problemas passam sozinhos ou com o tempo” ou que procurar um psicólogo era algo a esconder, e chegam à idade adulta a carregar esse peso. Isso mostra-me a importância de mudar a forma como olhamos para a saúde mental desde a infância, para que as próximas gerações encarem a procura de ajuda como algo natural.
Em suma, tanto em crianças como em adultos, é fundamental normalizar o cuidado psicológico como parte integrante da saúde global. Só assim conseguiremos uma sociedade mais consciente, solidária e saudável.
Em que medida investir na prevenção e no diagnóstico precoce pode reduzir custos sociais e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos?
Investir na prevenção e no diagnóstico precoce em saúde mental tem um impacto transformador, tanto no plano individual como no coletivo. Quando identificamos sinais de alerta logo nas primeiras fases, conseguimos intervir de forma mais eficaz, evitando que problemas ligeiros evoluam para perturbações graves e prolongadas. Clinicamente, isto significa intervenções mais curtas, menos invasivas e com maior probabilidade de sucesso.
Do ponto de vista social e económico, a prevenção reduz o absentismo escolar e laboral, diminui as taxas de abandono escolar, melhora a produtividade e evita custos elevados associados a internamentos, medicação prolongada ou perdas de capacidades académicas/laborais. Além disso, permite diminuir o impacto indireto nas famílias, que muitas vezes assumem encargos emocionais e financeiros quando não existe resposta precoce.
Sendo que na área pediátrica e do neurodesenvolvimento esta visão torna-se ainda mais clara. Na primeira infância (0-3 anos), uma deteção precoce de atrasos ou dificuldades no desenvolvimento pode fazer toda a diferença, porque o cérebro apresenta maior plasticidade e capacidade de reorganização. Quanto mais cedo se intervém, maiores são as probabilidades de potenciar competências cognitivas, emocionais e sociais, evitando trajetórias de risco. Ao longo da infância, a intervenção precoce ajuda a prevenir o agravamento de dificuldades de aprendizagem, de comportamento e de autorregulação emocional, que se não forem acompanhadas podem comprometer não só o percurso escolar, mas também a autoestima e as relações sociais da criança.
Em suma, na minha perspetiva clínica, investir na prevenção e no diagnóstico precoce é investir em futuro saudável, autónomo e funcional, reduzindo custos para a sociedade e promovendo mais qualidade de vida para as crianças e para as suas famílias.
A saúde mental no trabalho tem ganho mais destaque nos últimos anos. Que medidas as empresas e instituições devem implementar para promover ambientes mais saudáveis e inclusivos?
A saúde mental no trabalho é um tema que, enquanto trabalhadora e psicóloga, considero cada vez mais emergente. Passamos grande parte da nossa vida em contexto laboral e isso significa que o ambiente de trabalho tem um impacto direto na forma como nos sentimos, na nossa motivação e até na nossa saúde física e mental. Já não é possível olhar para o trabalho apenas em termos de produtividade. É preciso olhar para as pessoas na sua globalidade.
Na minha perspetiva, as empresas e instituições devem apostar em criar ambientes abertos e respeitadores, onde falar de bem-estar psicológico não seja um tabu. É fundamental garantir equilíbrio entre a nossa vida profissional e pessoal, respeitando horários, descansos e limites. Bem como acho ser indispensável proporcionar o acesso a apoio psicológico e apostar na formação de líderes, para que sejam capazes de identificar sinais de desgaste e consigam apoiar as suas equipas.
Mesmo não sendo a minha área direta de atuação, observo diariamente o impacto que condições laborais exigentes e pouco humanizadas têm na saúde mental das pessoas. Por isso acredito que investir em cultura organizacional saudável, inclusiva e empática não é apenas um benefício para os trabalhadores, mas também um investimento inteligente nas próprias organizações e saúde financeira empresarial.
Que oportunidades e riscos a digitalização e as novas tecnologias trazem para a saúde mental, nomeadamente no acesso a terapias online ou apoio remoto?
Na minha experiência, sobretudo na área pediátrica e do neurodesenvolvimento, não considero a tecnologia um verdadeiro aliado na intervenção psicológica com crianças pequenas — pelo contrário. A infância exige proximidade, interação direta, jogo partilhado e observação em contexto, dimensões que dificilmente se conseguem reproduzir num formato digital. As consultas online podem até facilitar a logística das famílias, mas perdem muito do valor clínico quando falamos de crianças em idade pré-escolar ou do primeiro ciclo, onde a relação terapêutica, a atenção conjunta e o vínculo humano são fundamentais.
Vejo, sim, algum potencial no uso da tecnologia como complemento para os pais — através de programas de psicoeducação ou de apoio remoto — mas nunca como substituto da intervenção presencial com a criança. Pelo contrário, um uso excessivo pode reduzir a qualidade da avaliação, empobrecer a relação terapêutica e atrasar progressos.
Já na área adulta, reconheço que a tecnologia pode ser uma ferramenta benéfica. O acompanhamento remoto facilita o acesso de quem vive em zonas mais isoladas ou tem horários exigentes, permite dar continuidade ao processo terapêutico em situações de deslocação ou doença e pode aumentar o conforto de quem sente dificuldades em iniciar acompanhamento presencial. Além disso, algumas ferramentas digitais de monitorização e de treino cognitivo ou emocional podem reforçar o trabalho clínico entre sessões.
Por isso, considero que o papel da tecnologia deve ser diferenciado: na infância, a intervenção direta é insubstituível; na idade adulta, a digitalização pode ser uma aliada importante, desde que usada com rigor e sempre sem perder de vista a dimensão humana da relação terapêutica.
A saúde mental das crianças e jovens, fortemente influenciada pelo mundo digital e redes sociais, é cada vez mais uma preocupação. Que caminhos devemos seguir para proteger e apoiar esta geração?
Na minha prática como psicóloga na área pediátrica e do neurodesenvolvimento, vejo diariamente como o mundo digital e as redes sociais estão a moldar a vida das crianças e jovens, não apenas nos comportamentos, mas também no próprio desenvolvimento cerebral e emocional. A exposição precoce e excessiva a ecrãs pode afetar a atenção, a qualidade do sono e a autorregulação, além de provocar um atraso em competências fundamentais como a interação social e linguagem. Nos adolescentes, observo frequentemente a comparação constante, a pressão estética, o cyberbullying e a ansiedade associada ao número de “likes” ou seguidores, fatores que fragilizam a autoestima e o bem-estar emocional.
Clinicamente, identifico riscos concretos: défices de atenção e concentração, alterações do sono, prejuízos na autorregulação, atrasos no neurodesenvolvimento, baixa autoestima e comparação social, risco de isolamento, exposição a conteúdos nocivos e cyberbullying, assim como padrões de utilização compulsiva que podem configurar uma adição digital.
Estes impactos não ficam circunscritos à infância e à adolescência. Eles prolongam-se na idade adulta, traduzindo-se em dificuldades de gestão emocional, relações interpessoais fragilizadas, maior vulnerabilidade à ansiedade e à depressão e até em padrões de dependência digital ou de baixa autoestima persistente. Ou seja, experiências precoces mal acompanhadas no mundo digital podem marcar de forma negativa e significativamente o percurso académico, profissional e relacional ao longo da vida.
Proteger esta geração implica educar para um uso saudável e consciente das redes sociais, com regras bem definidas em casa, acompanhamento parental ativo e modelos positivos por parte dos adultos. As escolas devem assumir um papel central, integrando a educação digital e promovendo competências socioemocionais que funcionam como fatores de proteção. Do ponto de vista clínico, reforço sempre a importância da proximidade e do diálogo aberto, sem julgamento, para que as crianças e jovens se sintam seguras em partilhar o que vivem no mundo digital.
Acredito que este é um desafio coletivo: famílias, escolas, profissionais de saúde e também as próprias plataformas digitais têm de assumir a sua responsabilidade. Só assim conseguiremos equilibrar os benefícios da tecnologia com a proteção do neurodesenvolvimento e da saúde mental, não só das nossas crianças e adolescentes, mas também dos adultos que eles virão a ser.
Qual deve ser o papel das Ordens profissionais, como a dos Psicólogos, em articulação com o Estado e outras entidades, para garantir uma resposta mais eficaz na saúde mental?
Enquanto psicóloga que estou diariamente no terreno, acredito que a Ordem dos Psicólogos Portugueses deve ter um papel central na articulação com as diferentes entidades da sociedade. Mais do que regular a profissão, é fundamental que a Ordem participe de forma ativa na construção de estratégias alinhadas com as necessidades concretas das pessoas. Pelo que, na minha ótica, a Ordem é como uma ponte: por um lado, assegura a qualidade e a ética da prática clínica, protegendo utentes e profissionais; por outro, deve assumir-se como uma voz ativa na sensibilização, ajudando a reduzir o estigma e a valorizar a saúde mental. Acredito ainda que tem um papel fundamental na promoção de redes de cooperação entre escolas, serviços de saúde, segurança social, autarquias e empresas, porque só com trabalho conjunto conseguimos dar respostas mais próximas e eficazes.
Diariamente na prática, sinto muitas vezes a falta dessa articulação e sei que, se fosse mais forte, permitiria um acompanhamento mais rápido e completo. Por isso, vejo a Ordem não apenas como regulador, mas como agente de mudança e facilitador de diálogo entre profissionais, instituições e a comunidade.
Que áreas prioritárias de investimento identifica como essenciais para que Portugal avance de forma sustentável na promoção da saúde mental?
Na minha perspetiva, enquanto psicóloga na área pediátrica e do neurodesenvolvimento, acredito que o investimento deve começar logo na base: na primeira infância e na intervenção precoce. É nesta fase que conseguimos prevenir dificuldades futuras, apoiar as famílias e potenciar o desenvolvimento saudável das crianças, evitando custos sociais e humanos muito mais elevados na idade adulta.
Vejo também como prioritário reforçar os recursos humanos, mais psicólogos nos cuidados de saúde primários, nas escolas e nas equipas sociais, onde o impacto é imediato e direto na vida das pessoas. Outra área fundamental é a literacia para a saúde mental, de forma que pais, professores e a própria sociedade reconheçam sinais de alerta e saibam como atuar e procurar ajuda sem receios ou preconceitos nas respetivas situações.
Por fim, considero essencial investir em respostas articuladas (saúde-educação-família-sociedade) dado que só com trabalho em equipa é que será possível darmos uma resposta eficaz, eficiente e sustentável.
Para mim, a saúde mental é um compromisso coletivo: começa no cuidado precoce, cresce na proximidade e floresce quando caminhamos juntos.
Que mensagem gostaria de deixar aos leitores da Revista Pontos de Vista neste Dia Internacional da Saúde Mental?
Neste dia deixo uma mensagem muito clara e que uso diariamente: cuidar da saúde mental desde a primeira infância é investir no futuro de todos nós. É nos primeiros anos de vida que se constroem as bases do desenvolvimento emocional, social e cognitivo, e cada gesto de cuidado, presença e escuta faz diferença. Se olharmos para as nossas crianças com atenção e lhes dermos espaço para crescerem seguras, estaremos a formar adultos mais resilientes, confiantes e capazes de viver em pleno.
O que fazemos pelas crianças hoje será refletido na sociedade de amanhã!


