“Gostaria de deixar um legado de coragem e de verdade”

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A advocacia é, por natureza, um espaço de confronto entre regras e pessoas, entre códigos e vidas que pedem soluções justas. Neste universo exigente e em constante transformação, a presença feminina tem vindo a ganhar força, não apenas pelo número crescente de mulheres que assumem protagonismo, mas sobretudo pelo impacto do seu estilo de liderança: firme, empático e transformador. Isabel Sobral, advogada da José Saramago & Associados, é um desses exemplos. O seu percurso traduz a resiliência de quem começou em prática isolada, a determinação de quem conciliou maternidade e profissão num setor ainda marcado por desigualdades. Saiba na Revista Pontos de Vista a visão de quem acredita numa advocacia mais humana, inclusiva e inovadora.

Quais os momentos que considera mais marcantes no seu percurso até à entrada na Sociedade de advogados?

Mais do que datas ou cargos, os momentos verdadeiramente marcantes foram sempre aqueles em que a confiança das pessoas me colocou à prova.

Comecei em prática isolada, com a insegurança natural de quem inicia o caminho sozinha, mas também com a coragem de quem sabe que não pode desistir. Recordo-me dos primeiros clientes que acreditaram em mim quando ainda não tinha reputação construída, apenas a minha entrega e a minha palavra. Essa confiança foi a base que me sustentou nos momentos mais difíceis.

Seguiram-se dez anos de colaboração e prestação de serviços, um período de grande exigência, que me ensinou resiliência, disciplina e, sobretudo, o valor de escutar antes de agir. Aprendi que o direito não se faz apenas de códigos e jurisprudência, mas de histórias de vida que pedem soluções justas.

A entrada na José Saramago & Associados, em 2017, foi uma verdadeira viragem. Mais do que integrar uma sociedade de referência, significou a confirmação de que a perseverança, a ética e a dedicação diária são sempre recompensadas. Chegar aqui foi o resultado de muito trabalho, noites em claro, desafios superados e conquistas que me deram alento.

Hoje, olhando para trás, percebo que cada etapa foi um degrau que me aproximou do essencial: construir um percurso sólido sem nunca perder a humanidade, a proximidade e o compromisso com quem me procura.

 

Quais os principais desafios que enfrentou como “mulher advogada”?

Ser mulher na advocacia é aprender a viver entre duas exigências que parecem incompatíveis: a dedicação total à profissão e a entrega à família.

A maternidade trouxe-me a experiência mais transformadora da vida, mas também me confrontou com a dureza da profissão. Os prazos não param porque tivemos uma noite sem dormir, as diligências não são adiadas porque o filho está doente. Foi um exercício diário de equilíbrio, feito de sacrifícios silenciosos, que só quem vive compreende.

Além disso, como em tantas outras áreas, enfrentei olhares de desconfiança e a necessidade constante de provar competência em ambientes tradicionalmente dominados por homens.

Mas esses desafios moldaram-me: ensinaram-me a ser firme, a não recuar perante a injustiça e, sobretudo, a transformar a vulnerabilidade em força.

 

Que impacto acredita que a liderança feminina tem na prática jurídica?

A liderança feminina traz algo que vai além da técnica: traz a capacidade de humanizar a prática jurídica.

As mulheres tendem a liderar ouvindo, integrando, conciliando, e isso não significa fraqueza, mas sim uma enorme força. É olhar para os problemas com racionalidade, mas também com empatia, percebendo que cada processo tem pessoas por trás dos papéis.

Acredito que este estilo de liderança não só enriquece a advocacia, como também contribui para decisões mais equilibradas e equipas mais unidas. Liderar não é impor, é inspirar, e é isso que as mulheres, cada vez mais, estão a provar ser possível na advocacia.

 

Sente que hoje existem mais oportunidades para mulheres na advocacia?

Sim, o caminho está a abrir-se. Já não somos uma exceção nas sociedades ou nos tribunais, mas uma presença ativa e crescente. Há mais espaço, mais visibilidade e mais reconhecimento para o talento feminino.

Contudo, as oportunidades não surgem sozinhas: continuam a exigir coragem, esforço redobrado e, muitas vezes, escolhas difíceis. Ainda existe desigualdade, mas já não é insuperável. A diferença está em termos agora mais exemplos de mulheres em cargos de liderança, capazes de inspirar outras a acreditar que também é possível chegar lá.

 

Que barreiras ainda persistem para que as advogadas assumam cargos de topo?

As barreiras são subtis, mas reais. Persistem preconceitos enraizados, a dificuldade em conciliar a vida pessoal com a exigência de horários intermináveis e a menor rede de contatos que muitas mulheres têm em comparação com os colegas homens.

Muitas vezes, as advogadas sentem que têm de escolher entre serem mães dedicadas ou líderes de topo. Essa falsa dicotomia continua a afastar muitas mulheres de cargos de liderança. A mudança exige coragem das mulheres, mas também visão das instituições, para que se compreenda que a diversidade não é um favor, é um valor estratégico.

 

De que forma a diversidade impacta positivamente a prática jurídica?

A diversidade é a chave para uma advocacia mais justa e mais próxima da realidade. Uma equipa diversa pensa melhor, porque olha para os problemas a partir de múltiplas perspetivas.

Quando se integram diferentes géneros, idades, origens e experiências, as soluções são mais criativas e mais eficazes. A diversidade combate os vieses inconscientes e ajuda-nos a construir respostas jurídicas mais humanas e equilibradas.

No fundo, quanto mais plural for a advocacia, mais próxima estará das pessoas que representa.

 

Quais as áreas jurídicas em que mais tem atuado e que considera críticas no atual contexto?

Tenho atuado sobretudo no Direito da Família, no Direito do Trabalho e no Direito Executivo.

No contexto atual, estas áreas são absolutamente críticas. O Direito da Família, porque traduz as fragilidades das relações humanas e a necessidade de proteger os mais vulneráveis, em especial as crianças. O Direito do Trabalho, porque num mercado em constante transformação é essencial garantir equilíbrio entre a competitividade das empresas e a dignidade dos trabalhadores. Já o Direito Executivo assume uma relevância crescente, pois a efetividade da justiça depende da capacidade de concretizar decisões e assegurar que os direitos reconhecidos em tribunal não ficam apenas no papel, mas se transformam em resultados reais.

Estas áreas lidam diretamente com a vida concreta das pessoas. São, por isso, um exercício permanente de sensibilidade, rigor e responsabilidade.

 

Como a liderança feminina influencia a forma de lidar com clientes e casos sensíveis?

Acredito que a liderança feminina acrescenta empatia e proximidade. Muitos clientes chegam-nos fragilizados, com histórias de dor, medo ou injustiça. Nestes contextos, a sensibilidade para ouvir e compreender sem julgamentos faz toda a diferença.

Não se trata de suavizar o direito, mas de o aplicar com humanidade. Um cliente que sente que foi escutado e respeitado tem mais confiança no processo e na justiça. Essa confiança é o primeiro passo para qualquer solução.

 

A advocacia preventiva pode ser uma ferramenta para criar sociedades mais justas?

Sem dúvida. A advocacia não deve ser apenas reativa, chamada quando o problema já existe. Deve ser também preventiva, ajudando famílias, empresas e instituições a tomar decisões seguras, antes de surgirem os conflitos.

Quanto mais preventiva for a advocacia, menos litigiosa será a sociedade. Prevenir é proteger, é poupar recursos, é evitar desgastes emocionais e financeiros. No limite, é construir uma sociedade mais equilibrada e mais justa.

 

Que tendências tecnológicas estão a transformar a advocacia em Portugal?

A digitalização e a inteligência artificial estão a mudar radicalmente a forma como trabalhamos.

Hoje já é possível automatizar tarefas repetitivas, organizar documentos com rapidez e aceder a jurisprudência em segundos. Estas ferramentas libertam tempo para o que é verdadeiramente essencial: pensar estrategicamente e acompanhar os clientes de forma próxima.

No entanto, é importante lembrar que a tecnologia deve ser um instrumento, não um substituto. O que distingue a advocacia é a capacidade humana de interpretar, de negociar, de compreender as emoções. E isso nenhuma máquina conseguirá replicar.

 

Qual é a sua visão para o futuro da JS&A e da advocacia nacional?

Vejo a JS&A como uma sociedade cada vez mais próxima das pessoas, com uma advocacia moderna, transparente e ética. Queremos ser referência não apenas pela competência técnica, mas também pelo impacto humano que geramos.

Quanto à advocacia nacional, acredito num futuro de maior especialização, com sociedades mais abertas à inovação tecnológica e ao talento jovem. Mas acima de tudo, acredito numa advocacia que se reaproxima das pessoas, recuperando a confiança e mostrando que a justiça não é distante nem inacessível.

 

Que legado gostaria de deixar às próximas gerações de advogadas e advogados?

Gostaria de deixar um legado de coragem e de verdade.

Coragem para não desistirem nos dias difíceis, porque eles fazem parte do caminho. Verdade, para nunca esquecerem que a advocacia só faz sentido quando é feita com ética, com humanidade e com compromisso com quem confia em nós.

Se conseguir inspirar uma nova geração a acreditar que é possível ser advogada ou advogado de excelência sem perder a integridade, então o meu percurso terá valido a pena.

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