“Na TPF, a meritocracia é um valor central”

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Num setor historicamente marcado pela predominância masculina, a presença de mulheres em cargos de liderança na engenharia e arquitetura continua a ser um sinal de transformação e de futuro. Carla Cascais é hoje membro do Conselho de Administração da TPF – CONSULTORES DE ENGENHARIA E ARQUITETURA, S.A. empresa de referência no setor, onde construiu uma carreira sólida ao longo de mais de duas décadas. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, partilha connosco a forma como tem conciliado a exigência técnica e de gestão com uma liderança inclusiva e orientada para o talento.

Como descreve o seu percurso profissional até integrar o Conselho de Administração da TPF Consultores? Que valores e experiências mais marcaram a sua visão de liderança numa empresa do setor da engenharia?

O meu percurso profissional confunde-se com a história recente da TPF. Entrei na empresa em 1998 e, desde então, cresci com ela — em desafios, responsabilidades e maturidade profissional. Comecei numa função técnica, na área financeira, mas nunca deixando de procurar entender o conjunto e não apenas a função que desempenhava. Fui assumindo responsabilidades até integrar o Conselho de Administração, função que exerço com enorme orgulho. A minha visão de liderança foi sendo moldada por valores muito claros: ética, coerência, responsabilidade e compromisso com as pessoas. Acredito numa liderança que sabe ouvir, que integra e que decide com clareza e empatia — mesmo quando as decisões são difíceis.

 

Gerir uma empresa altamente especializada em engenharia e arquitetura, sendo mulher, traz desafios particulares? Como equilibra a visão estratégica, a sensibilidade para o capital humano e a exigência técnica que o setor exige?

Sim, há desafios específicos, sobretudo quando se ocupa um lugar numa mesa maioritariamente masculina. Mas nunca me defini por ser mulher — defini-me pelo que entrego: visão, estratégia e resultados. A liderança neste setor exige uma articulação entre exigência técnica, visão de negócio e sensibilidade humana. Tento manter esse equilíbrio todos os dias: pensar a longo prazo sem perder o pulso ao presente. Ter empatia sem perder exigência. Ser próxima sem deixar de ser firme. É esse o estilo de liderança que mais mobiliza equipas.

 

De que forma a TPF Consultores tem vindo a integrar políticas de promoção da igualdade de género e meritocracia? Que práticas internas destacaria como exemplo de uma liderança inclusiva e orientada para o talento?

Para nós, a meritocracia é um valor central. Temos vindo a reforçar mecanismos que a tornam mais visível e justa — desde processos de avaliação mais estruturados, passando pela revisão dos critérios de progressão, até à introdução de indicadores de bem-estar e diversidade nos dashboards de gestão. Mais do que medidas simbólicas, acredito em mudanças estruturais. A nossa cultura está a evoluir, e isso nota-se nas conversas, nos planos de desenvolvimento e na forma como se reconhece o talento — independentemente do género.

 

Na sua perspetiva, que impacto tem a diversidade (de género, geracional ou cultural) na inovação e na qualidade dos serviços prestados por uma empresa como a TPF Consultores? Acredita que equipas diversas resultam em soluções mais completas e sustentáveis?

A diversidade é um ativo estratégico — não apenas uma questão de justiça social. Equipas diversas pensam melhor, antecipam melhor e executam com mais criatividade. Na TPF Consultores, temos projetos em contextos muito distintos, com equipas que cruzam gerações, culturas e experiências. Isso enriquece o que entregamos. Mas a diversidade não pode ser só presença — tem de ser participação. É isso que procuramos garantir com práticas de integração, escuta ativa e responsabilidade partilhada.

 

Acredita que a presença de mulheres em cargos de administração em empresas de engenharia tem um efeito multiplicador sobre o setor? Como vê o papel da liderança feminina na criação de ambientes mais equitativos e inspiradores?

Acredito no efeito multiplicador da liderança feminina porque muda o referencial. Quando uma mulher ocupa um lugar de decisão numa empresa de engenharia, está a ampliar a representação simbólica do que é possível. Está a abrir portas para outras se verem nesses lugares. E, mais do que isso, está a trazer perspetivas muitas vezes invisíveis. A liderança feminina tende a ser mais colaborativa, mais orientada para o propósito e para a sustentabilidade. E isso transforma a cultura.

 

Que obstáculos estruturais e culturais ainda persistem para as mulheres no universo das empresas técnicas e de engenharia? Que medidas considera prioritárias para acelerar a mudança?

Persistem obstáculos estruturais e culturais: preconceitos subtilmente instalados, assimetrias no acesso às oportunidades e a desigualdade na distribuição do tempo — que penaliza sobretudo quem tem responsabilidades familiares. A mudança começa por reconhecer o problema. Depois, é preciso agir: com políticas de conciliação, mentoring, formação em viés inconsciente e, sobretudo, com métricas que permitam monitorizar a equidade de forma objetiva. A mudança precisa de liderança comprometida — e persistente.

 

Na sua experiência, o que carateriza uma liderança verdadeiramente inclusiva? Que práticas têm sido decisivas para cultivar na TPF Consultores um ambiente de confiança, desenvolvimento e igualdade de oportunidades?

Uma liderança inclusiva é aquela que reconhece o valor do outro — mesmo quando pensa diferente ou traz experiências que nos desafiam. Cultivar confiança exige coerência, tempo e proximidade. Na TPF, temos investido na criação de espaços de alinhamento estratégico, redes de partilha interdepartamental e mecanismos de reconhecimento mais participativos. É um processo contínuo — mas começa sempre por quem lidera. A inclusão não se delega.

 

Que mensagem gostaria de transmitir a jovens mulheres que ambicionam ocupar cargos de decisão, independentemente da sua área de formação? Que papel desempenha o exemplo e a mentoria no encorajamento das novas gerações?

Às jovens mulheres, digo: não esperem pela permissão de ninguém para ocupar o vosso lugar. Formem-se bem. Sejam rigorosas. E não abdiquem da vossa autenticidade. Não há um modelo único de liderança — há o vosso. O exemplo é poderoso, mas a mentoria pode ser transformadora. Tive quem acreditasse em mim quando ainda não acreditava totalmente. Hoje, tento ser essa presença para outras. Ninguém chega sozinha.

 

Que papel tem o Conselho de Administração na definição de estratégias que posicionem a TPF como referência em sustentabilidade, inovação e responsabilidade social? Como equaciona o equilíbrio entre eficiência técnica, impacto ambiental e valor humano?

O Conselho de Administração tem um papel essencial na definição da estratégia da TPF Consultores, e a sustentabilidade está no centro. Trabalhamos com metas claras, dashboards de performance ESG e ferramentas digitais como Power BI e BIM. Mas a sustentabilidade só é real quando se articula com o valor humano. Não basta sermos tecnicamente eficientes — temos de ser socialmente responsáveis. É esse o equilíbrio que procuramos: resultados, com propósito.

 

Que legado gostaria de deixar na liderança da TPF Consultores e que transformações espera ver no futuro do setor? Acredita que uma maior participação feminina nas decisões é essencial para uma engenharia mais justa, moderna e preparada para os desafios do futuro?

Gostava que o meu legado fosse ter contribuído para uma TPF mais integrada, mais sustentável e mais consciente do seu impacto. Uma empresa que valoriza as pessoas tanto quanto valoriza os projetos. Que olha para a liderança não como privilégio, mas como responsabilidade. E sim, acredito que uma maior participação feminina é essencial — não para excluir, mas para somar. Precisamos da presença das mulheres, e precisamos de todos, lado a lado, a construir uma engenharia mais justa, mais consciente e mais preparada para os desafios do futuro.

 

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