“O maior desafio é, sem dúvida, quebrar paradigmas”

Data:

2024 © Creative Shooting – Todos os Direitos Reservados

Anabela Conceição Teixeira, Presidente do Conselho de Administração da Madz Global – SCVM, S.A., é um nome de referência no setor financeiro angolano. Com mais de três décadas de experiência, construiu um percurso sólido que a levou de assistente comercial no Banco de Comércio e Indústria à liderança de uma das primeiras sociedades corretoras de valores mobiliários em Angola. Numa área ainda marcada pelo predomínio masculino, a líder afirma-se à Revista Pontos de Vista como exemplo de resiliência, visão estratégica e compromisso com a inovação e a transparência.

Como descreve o seu percurso profissional até chegar à presidência da MADZ Global?

Iniciei a minha carreira em 1991, no Banco de Comércio e Indústria (BCI), como Assistente Comercial na área de apoio aos gestores de contas. À época, o sistema bancário angolano começava a estruturar-se, com o Banco Central (BNA) a afirmar-se como autoridade reguladora. O BCI tornou-se, assim, uma verdadeira escola, reunindo técnicos com vasta experiência no setor, altamente qualificados e com maturidade profissional. Foi nesse ambiente de intensa aprendizagem que nasceu a minha paixão pela Banca.

Após cinco anos, integrei a equipa fundadora do Banco BAI, o primeiro banco de capitais privado em Angola, marco histórico no sistema financeiro nacional. Anos depois, aceitei o convite para ingressar no BESA — atualmente Banco Económico —, instituição que representou uma viragem significativa na minha trajetória, pela sua forte cultura organizacional e liderança inspiradora.

Durante este período, tive a honra de liderar a abertura de mais de 70 agências bancárias, num ambicioso projeto de expansão do banco para todas as províncias do país. Posteriormente, assumi a criação, de raiz, da Direção de Controlo Interno e Risco Operacional do Banco Económico. Esta experiência concedeu-me uma visão transversal do Banco, desde o negócio, suporte e controlo, além da responsabilidade de articular diretamente com as entidades reguladoras e auditores externos.

Esse percurso deu-me visão estratégica e experiência prática em governança corporativa e sistemas de controlo interno, preparando-me para o desafio que hoje abraço de presidir o Conselho de Administração da MADZ Global, uma sociedade corretora de valores mobiliários que atua como catalisadora de oportunidades no mercado de capitais, impulsionando a inovação, a transparência e a confiança no setor financeiro angolano.

 

Quais os maiores desafios de liderar num setor ainda dominado por homens?

O maior desafio é, sem dúvida, quebrar paradigmas. Liderar num setor tradicionalmente dominado por homens exige consistência, resiliência e, sobretudo, coragem para firmar competência técnica em ambientes onde, por vezes, a presença feminina ainda é questionada.

Contudo, acredito firmemente que a liderança não tem género: ela manifesta-se pela capacidade de inspirar, de impulsionar e de transformar. As mulheres carregam consigo uma sensibilidade única, que advém da maternidade, da empatia e da capacidade de conciliar diferentes papéis. Essa visão diferenciada enriquece qualquer processo de decisão e agrega valor às organizações.

Acredito que toda mulher é, por natureza, uma líder. Já demonstrámos, na prática, que podemos ocupar qualquer espaço — não por concessão, mas por mérito. Liderar é abrir caminho para os outros, e quando uma mulher assume um papel de destaque, ela não se afirma apenas por si, mas também abre portas para que muitas outras possam seguir.

Portanto, ainda que um setor mantenha traços de domínio masculino, a nossa presença já não é exceção, mas sim uma força transformadora que veio para ficar. Afinal, todos os homens chegaram ao mundo através de uma mulher — e isso, por si só, é a maior prova do poder e da competência da Mulher na construção do Mundo, de um Mundo melhor.

 

Que momentos considera mais marcantes na sua trajetória?

Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de viver momentos muito marcantes que moldaram a minha visão de liderança e de impacto no setor financeiro. Destaco três em particular:

Ÿ A expansão da rede de agências — Liderar o projeto de crescimento que levou à abertura de mais de 70 agências em todo o país, incluindo um marco especial em 2013, quando conseguimos inaugurar trinta agências num único ano. Esse movimento foi determinante para democratizar o acesso aos serviços bancários e aproximar as instituições financeiras das comunidades.

Ÿ A criação de raiz da Direção de Controlo Interno e Risco Operacional — Numa altura em que o mercado era pressionado para garantir a plena implementação dos Avisos n.º 01 e 02/13 do Banco Nacional de Angola, assumi o desafio de estruturar e operacionalizar essa área estratégica. Essa iniciativa contribuiu para reforçar os padrões de governança e conformidade do BE, bem como a melhoraria da imagem do sector bancário angolano, tanto a nível nacional como internacional.

Ÿ A liderança da MADZ Global — Atualmente, tenho a honra de presidir o Conselho de Administração da MADZ Global, uma sociedade corretora de valores mobiliários que atua como catalisadora de oportunidades no mercado de capitais. O contexto atual apresenta-se particularmente desafiador, com o surgimento de novos players, muitos deles participados por grandes bancos, o que eleva substancialmente o nível de concorrência.

Esse cenário exige da MADZ uma postura visionária, diferenciada e resiliente, capaz de transformar desafios em oportunidades. O nosso foco é fortalecer a confiança, promover a inovação e contribuir para a sofisticação do mercado angolano, assegurando a nossa relevância e sustentabilidade num ambiente altamente competitivo.

Acreditamos que, ao atuar com rigor, transparência e dinamismo, não apenas nos mantemos no mercado, mas também acrescentamos valor ao ecossistema financeiro.

Esses momentos traduzem a essência da minha trajetória: transformar desafios em oportunidades e deixar contributos duradouros para o desenvolvimento do sistema financeiro. Mais do que conquistas pessoais, o meu desejo é deixar um legado que inspire as gerações vindouras — para que, ao olharem para o meu percurso, percebam que é possível romper barreiras e alcançar grandes realizações. Que a minha história seja um estímulo não apenas no mercado financeiro, mas em qualquer outro setor capaz de elevar Angola a patamares cada vez mais altos de desenvolvimento e reconhecimento.

 

Que transformações mais relevantes têm marcado o mercado de capitais angolano?

O mercado de capitais angolano deixou de ser apenas uma promessa para se afirmar como uma realidade em franca transformação. A emissão das obrigações da Sonangol marcou um ponto de confiança e maturidade, ao qual se juntaram a entrada de instituições como o Banco BAI, o Banco Caixa Angola e a ENSA, reforçando a credibilidade do setor.

Em breve, teremos a abertura do capital do BFA, com alienação de parte das participações da UNITEL e do BPI, paralelamente, o Programa de Privatizações do Governo, (PROPRIV), prevê a colocação em bolsa de diversas empresas, muitas delas com grande solidez e relevância estratégica, o que ampliará a diversidade de ativos disponíveis e fortalecerá a confiança dos investidores.

Esses movimentos demonstram que o mercado angolano entrou numa nova fase: aumento e diversificação da oferta de instrumentos, despertou o interesse de investidores nacionais e internacionais e consolida-se como uma verdadeira alternativa ao crédito bancário tradicional.

Mais do que transações financeiras, representam uma mudança estrutural que prepara Angola para um futuro de internacionalização, práticas ESG e inovação digital, elevando o país a um novo patamar de competitividade global.

 

Qual o papel da MADZ Global neste ecossistema em crescimento?

A MADZ Global tem o orgulho de ser uma das primeiras corretoras de valores mobiliários em Angola, o que nos confere uma responsabilidade acrescida neste ecossistema em crescimento. Posicionamo-nos como um parceiro de confiança, orientado para a gestão discricionária de carteiras e para a intermediação de operações que garantam a salvaguarda dos interesses dos investidores.

Mais do que executar transações, a MADZ Global atua como uma ponte estratégica entre investidores individuais, empresas e parceiros institucionais, conetando necessidades de financiamento ao capital disponível no mercado. O nosso papel é criar soluções que impulsionem o desenvolvimento económico, assegurando sempre a proteção dos interesses de todas as partes envolvidas.

Neste contexto de transformação, a MADZ Global afirma-se não apenas como participante, mas como catalisadora de confiança, transparência e novas oportunidades, contribuindo ativamente para consolidar a credibilidade e a sofisticação do mercado de capitais angolano.

 

Que oportunidades se abrem para investidores nacionais e internacionais?

Angola oferece hoje um mercado em transformação, capaz de unir retorno financeiro, impacto económico e relevância geopolítica, resultado das reformas em curso e da sua posição estratégica em África. Com um vasto potencial em recursos naturais, Angola apresenta-se como um destino cada vez mais atrativo para investidores. Neste sentido, vejo três grandes eixos de oportunidades para investidores nacionais e internacionais:

Ÿ Infraestruturas e energia — Angola tem ainda um défice significativo nestes setores. Títulos de dívida estruturados, como obrigações corporativas e project bonds, permitem financiar estradas, portos, logística e energia do petróleo às renováveis, com retornos atrativos e impacto direto no crescimento económico.

Ÿ Diversificação setorial — A transição para uma economia menos dependente do petróleo abre espaço para agroindústria, telecomunicações e fintechs. São setores com forte efeito multiplicador: reduzem importações, expandem serviços digitais e impulsionam a inclusão financeira, oferecendo investimentos de elevada escalabilidade.

Ÿ Integração regional — A posição geoestratégica de Angola na SADC e a adesão à Zona de Comércio Livre do continente, criam oportunidades em hubs logísticos, serviços financeiros e plataformas de comércio regional.

 

Como surgiu a ideia de criar a ACT – Consultoria?

A ideia nasceu da minha experiência na área comercial da banca, onde percebi que muitas empresas, apesar do seu potencial, tinham dificuldades em estruturar-se adequadamente, seja na governança, na otimização de processos ou no cumprimento das exigências regulatórias. A ACT surgiu da convicção de que as organizações precisam de mais do que soluções técnicas, necessitam de visão estratégica, compliance sólido, equipas capacitadas e processos bem estruturados. O nosso foco inicial recaiu sobre as instituições financeiras não bancárias, sujeitas a exigências rigorosas das entidades reguladoras. Hoje, a ACT apoia empresas de diferentes setores, oferecendo consultoria em gestão estratégica, gestão financeira, mapeamento e otimização de processos, controlo interno e formação profissional, complementada pela Academia do Ser, dedicada ao desenvolvimento humano e à capacitação de líderes e equipas.

 

Qual a importância da capacitação do capital humano para o sucesso das empresas?

O capital humano é o ativo mais valioso de uma organização. Empresas só alcançam vantagem competitiva se investirem em competências técnicas e comportamentais das suas pessoas. É o talento que sustenta a inovação, a produtividade e a sustentabilidade de longo prazo.

 

De que forma a cultura ética e de rigor influencia resultados de longo prazo?

Uma cultura ética cria confiança e reputação; o rigor garante qualidade e consistência. Quando estes valores estão enraizados na cultura de organização, atraem investidores e fortalecem as relações com stakeholders.

 

Quais os maiores desafios e oportunidades para Angola até 2030 no setor financeiro?

Os desafios passam por garantir a estabilidade macroeconómica, gerir o endividamento público e reduzir a dependência do petróleo. As oportunidades residem na digitalização dos serviços, na consolidação do mercado de capitais e no acesso a financiamento verde e sustentável. Angola tem condições para se afirmar como hub financeiro e económico da SADC, de alinhar inovação tecnológica, regulação eficiente e integração regional.

A médio prazo, Angola pode alcançar taxas de crescimento moderadas, com destaque para setores não petrolíferos, agricultura, energias renováveis, infraestruturas, turismo e logística, que serão motores de desenvolvimento e atração de investimento.

 

Que medidas podem fortalecer a presença de mais mulheres em cargos de decisão?

Antes de falar em medidas, é importante afirmar: competência não tem género. As mulheres têm a mesma capacidade que os homens para ocupar cargos de decisão. O que falta não é mérito feminino, mas sim oportunidades — a abertura de um sistema que ainda é restritivo. Para mudar esse cenário, podemos pensar em:

Ÿ Mentoria e redes de apoio que valorizem e acelerem o talento feminino.

Ÿ Políticas inclusivas e flexíveis, que permitam conciliar carreira e família.

Ÿ Maior visibilidade de exemplos reais, para inspirar novas gerações e normalizar a liderança feminina.

Em síntese: não precisamos provar capacidade, precisamos de sistemas mais justos que garantam igualdade de oportunidades.

 

Que legado gostaria de deixar como líder no setor financeiro e empresarial?

Gostaria de ser lembrada como alguém que abriu caminhos com integridade, unindo excelência profissional a valores humanos. No setor financeiro e empresarial, quero deixar a marca da dedicação, proatividade e empatia, trabalhando com foco, disciplina e fé para transformar o mercado num espaço mais sólido, inclusivo, ético e competitivo. Quero ser reconhecida não apenas pelo que construí, mas também por ensinar, inspirar e abrir portas para que outros também possam crescer.

Acima de tudo, desejo que as novas gerações entendam que a verdadeira liderança se constrói com respeito, humildade e integridade, e que cada conquista individual deve servir não apenas para elevar a carreira pessoal, mas também para impulsionar o crescimento do nosso país.

Partilhar

Revista Digital

Revista Pontos de Vista Edição 146

Popular

Mais Artigos deste tipo

“O papel do contabilista deixou de ser apenas cumprir obrigações”

Num contexto económico marcado pela crescente complexidade fiscal, pela...

Bem-Estar Organizacional em Tempos de Incerteza: BALANÇO DE 2025 E PRIORIDADES ESTRATÉGICAS PARA 2026

O bem-estar organizacional entrou definitivamente na agenda da gestão....

“A Épicas HUB não é apenas uma plataforma, é um espaço de apoio real”

Sandra Cristina, fundadora e CEO da Épicas HUB, é...