“Reinventar-se não é abdicar de um percurso, é questionar a lógica que o limita”

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Aos 50 anos, Carla Vendinha decidiu transformar a sua vasta experiência internacional em autonomia criativa, fundando o Aileu Lab, um laboratório de identidade, inovação e inclusão. Na conversa com a Pontos de Vista, partilha connosco a sua visão sobre liderança plural, os desafios de construir narrativas fora do óbvio e o papel das mulheres na economia criativa e social, num tempo em que reinventar-se deixou de ser exceção para se tornar necessidade vital.

Carla, como se descreve enquanto líder e empreendedora criativa?

Não me revejo no papel de líder. A palavra, tal como a usamos, vem carregada de expetativas de comando, autoridade e centralidade. O meu percurso sempre foi o oposto: trabalhei em contextos multiculturais, em ambientes de cooperação internacional, onde o essencial não era “liderar”, mas criar condições para que outros ganhassem voz, autonomia e espaço. Mas sinto-me de facto uma empreendedora criativa. Alguém que constrói sistemas e marcas como quem monta laboratórios de experimentação, onde a ideia central não é a hierarquia, mas a possibilidade de criar narrativas novas, testar caminhos e abrir espaço para o que ainda não foi pensado. O meu trabalho acontece nesse cruzamento entre narrativas, estética e propósito — porque acredito que é nesse ponto de encontro que se gera o verdadeiro impacto.

 

O que a inspirou a fundar o Aileu Lab e qual tem sido a sua principal missão desde o início?

Aileu Lab nasceu da ideia de que a reinvenção pessoal não é apenas possível, é uma necessidade vital. Mas reinventarmo-nos não é um gesto leve: exige preparação, exige a coragem de rever tudo o que acumulámos e de traduzir esse percurso em algo novo. Depois de anos a trabalhar em contextos multiculturais, na área do desenvolvimento e da capacitação de pessoas e instituições, percebi que queria criar um espaço onde pudesse aplicar essa experiência de forma absolutamente autónoma. Um lugar onde a diversidade fosse reconhecida como força, e não como obstáculo. É isso que a Aileu Lab representa: a síntese entre experiência e liberdade criativa. Um laboratório onde o que trazemos do passado — memórias, aprendizagens, vivências — se transforma em matéria-prima para imaginar futuros. Onde experimentar sem receio do erro é tão importante quanto criar novas linguagens para falar de inclusão e representatividade.

Aos 50, percebi que não estava a chegar a um fim de ciclo, mas a um ponto de viragem. Foi o momento em que a experiência se converteu em clareza, e a clareza em coragem para inventar novos caminhos. É o momento em que já temos bagagem suficiente para não andar às cegas e leveza bastante para arriscar tudo de novo. Aos 50 não se perde tempo: ganha-se liberdade — a liberdade de transformar tudo o que aprendemos em criação sem concessões.

 

Que desafios enfrentou como mulher à frente de um laboratório de engenharia criativa e como os superou?

As mulheres não enfrentam apenas obstáculos pontuais: enfrentam sistemas que, muitas vezes, foram desenhados sem a sua presença em mente. Ser mulher em posições de decisão significa, quase sempre, ter de negociar com barreiras visíveis e invisíveis — culturais, institucionais e até simbólicas. No meu caso, porém, essa não foi a batalha principal. O verdadeiro desafio esteve na escolha que fiz: aos 50, decidi não capitalizar a minha experiência internacional em cargos mais seniores ou em funções que representassem a “natural” progressão até ao topo. Preferi assumir uma viragem. E essa opção, mais do que a questão de género, confronta uma narrativa profundamente enraizada no mundo profissional: a de que só há legitimidade no crescimento vertical, no acumular de títulos e lugares de prestígio. O que eu quis provar foi outra coisa: que um desvio estratégico também pode ser progresso. Essa foi a dificuldade maior — não explicar porque não continuei a subir, mas afirmar que construir um novo caminho, com autonomia e liberdade criativa, pode ser tão válido quanto chegar a qualquer topo. Essa tensão não é exclusiva das mulheres, é partilhada por todos os que recusam uma trajetória linear. Reinventar-se não é abdicar de um percurso, é questionar a lógica que o limita. O desafio não foi ser mulher, foi ser livre — e essa liberdade de escolher uma rota não linear é um exercício que homens e mulheres partilham sempre que decidem escrever a sua própria narrativa. Há quem suba degraus, há quem desbrave atalhos. Ambos chegam longe — só não ao mesmo lugar.

 

O Aileu Lab nasce da ideia de construir marcas com identidade forte, propósito claro e um saudável desrespeito pelo óbvio. Pode aprofundar esta visão?

O Aileu Lab nasce da ideia de que uma marca não se sustenta apenas em estética ou em slogans bem afinados. Precisa de identidade forte — que significa coerência, consistência e a capacidade de se manter fiel ao que representa, mesmo quando a tendência muda. Precisa de propósito claro — não como chavão de marketing, mas como bússola que orienta decisões, escolhas criativas e impacto. E precisa, tal como diz, de um saudável desrespeito pelo óbvio — aprecio particularmente a forma como usou essa expressão, porque capta bem aquilo que sustenta o Aileu Lab. O óbvio raramente transforma. Não existimos para repetir fórmulas, mas sim para questioná-las. Para procurar referências fora do lugar habitual, dar voz ao que não costuma ser ouvido e traduzir invisibilidades em narrativas.

É nesse cruzamento entre identidade, propósito e inconformismo que se abrem caminhos novos. É aí que marcas deixam de ser apenas projetos de comunicação e passam a ser sistemas vivos de experimentação e significado — capazes não só de criar impacto real junto dos seus públicos, mas também de construir relevância duradoura. Uma marca só sobrevive se for lembrada, escolhida e defendida pelas pessoas.

 

Afirma que “a estética pode ser política, o marketing pode ser humano e a memória tem lugar na construção do futuro”. Como traduz estes princípios no dia a dia da sua atividade?

Quando digo que a estética pode ser política, não me refiro a slogans visíveis ou a campanhas declaradamente partidárias. Refiro-me à ideia de que toda a escolha estética — um tom de pele representado, um corpo visível, uma textura escolhida — é sempre uma decisão de inclusão ou de exclusão. A estética nunca é neutra; posiciona-se, e por isso é política. Da mesma forma, acredito que o marketing pode ser humano. Não apenas vender produtos, mas construir relações com significado, em que as marcas se reconhecem como parte de uma comunidade mais ampla e não apenas como emissores de mensagens. Esse olhar humanizado transforma o marketing num exercício de empatia e responsabilidade. E a memória, para mim, tem um lugar central no futuro. Trabalhar a memória é resgatar o que foi silenciado, invisibilizado ou descartado — e trazer essas narrativas para a criação contemporânea. É assim que, no Aileu Lab, olhamos para o design, para o storytelling e para o upcycling: como formas de dar continuidade ao que existiu, mas em linguagem nova.

Traduzo estes princípios no quotidiano ao tratar cada projeto não como uma encomenda isolada, mas como parte de um sistema de significados. O que criamos tem sempre de ser esteticamente relevante, socialmente consciente e culturalmente memorável. É nesse equilíbrio que se constrói impacto real.

 

De que forma o Aileu Lab se diferencia no panorama da criatividade e inovação em Portugal e na Lusofonia?

O Aileu Lab não existe apenas para criar campanhas bonitas. Existe para dar às empresas o que realmente importa: relevância, confiança e crescimento. Fazemo-lo ao transformar inclusão e representatividade em ferramentas estratégicas — não em adereços. Insistir em fórmulas repetidas é desperdiçar recursos. O que propomos é outra lógica: sistemas de comunicação e design que eliminam barreiras, ampliam públicos e criam ligações genuínas com as pessoas.

E é aqui que a nossa ligação à Lusofonia faz a diferença. Trabalhamos com a consciência de que estamos diante de um espaço multicultural imenso, que reúne mais de 260 milhões de falantes, com histórias, referências e sensibilidades diversas. Para as empresas, isto não é apenas uma questão cultural — é um potencial de mercado extraordinário. Setores como a hotelaria, o retalho, a educação ou a cultura podem beneficiar enormemente de estratégias que falem esta linguagem plural. O Aileu Lab ajuda a traduzir essa diversidade em narrativas que geram proximidade, confiança e crescimento real.

Para quem gere uma empresa, isto traduz-se em três resultados muito concretos: mais alcance, maior lealdade dos clientes e uma reputação sólida que se converte em vantagem competitiva duradoura. Uma marca pode comprar atenção, mas só ganha poder quando conquista confiança — e é isso que o Aileu Lab constrói.

 

O que motivou a criação da TAMANCA e como o storytelling inclusivo e multicultural pode contribuir para o impacto social?

A TAMANCA nasceu dentro do Aileu Lab para responder a um vazio: o marketing continua a excluir demasiadas pessoas. Inclusão, para nós, não é uma tendência ou uma “temática”, é um critério estrutural. Significa garantir que uma marca pode ser vista, lida, ouvida e reconhecida por todos — independentemente de se tratar de uma pessoa cega, surda, daltónica, neurodivergente ou de qualquer outra condição que, no dia a dia, é facilmente ignorada. É neste ponto que o storytelling inclusivo ganha relevância: não se limita a colocar diversidade em imagens, mas cria narrativas que dão palco a quem ficou invisível e, ao mesmo tempo, assegura que essas narrativas são acessíveis desde a origem. Essa combinação de representatividade e acessibilidade transforma a forma como as pessoas se veem e como se relacionam com as marcas.
O impacto social é evidente — quando alguém finalmente se reconhece numa história ou consegue aceder a um conteúdo, o sentido de pertença muda. Mas há também impacto empresarial: campanhas mais eficazes, públicos mais amplos, maior fidelização e reputação sólida. Porque, no futuro, não haverá marcas inclusivas e marcas não inclusivas; haverá apenas marcas relevantes e marcas esquecidas. E incluir não é um gesto de generosidade, é a condição mínima para que uma marca seja levada a sério.

 

E quanto ao projeto This Is Not a Chair – qual é a mensagem por detrás de transformar cadeiras descartadas em peças de luxo com histórias para contar?

A This Is Not a Chair é uma das expressões do universo Aileu Lab. Trabalhamos a partir de cadeiras que já não tinham interesse para ninguém — peças descartadas, fora de uso, destinadas ao esquecimento — e aplicamos-lhes o princípio do upcycling: reimaginá-las e reconstruí-las como objetos de sofisticação estética, memória cultural e consciência ambiental. Cada cadeira é concebida como uma conversation piece: algo que chama a atenção à primeira vista e que, ao mesmo tempo, transporta consigo uma história. Para isso recorremos a têxteis que carregam identidade cultural — de comunidades, de técnicas artesanais ou de geografias — e que tornam cada peça irrepetível, impossível de replicar em produção em massa.

Para o mercado, a proposta é clara: sustentabilidade e sofisticação não são polos opostos, são a nova linguagem do design contemporâneo. Por isso, a This Is Not a Chair interessa a colecionadores que procuram exclusividade, a hotéis boutique que querem afirmar identidade, a marcas de interiores que apostam em peças distintivas. Cada peça é simultaneamente uma conversation piece e uma statement piece — um objeto que não passa despercebido e que afirma presença e identidade no espaço que ocupa.

 

Estes dois projetos, embora distintos, parecem dialogar entre si. Em que medida se complementam?

A TAMANCA e a This Is Not a Chair são expressões diferentes da mesma visão do Aileu Lab: transformar invisibilidade em presença e traduzir inclusão em valor. A TAMANCA atua no campo do marketing narrativo, ajudando marcas a comunicar de forma inclusiva e multicultural. A This Is Not a Chair atua no campo do design, mostrando que até o descartado pode ser reimaginado como peça de identidade e sofisticação. Uma trabalha com histórias, a outra com objetos; uma amplia vozes, a outra reinventa matérias. Para as empresas, esta complementaridade é estratégica: tanto na comunicação como no design de produto ou de espaço, oferecemos soluções que combinam impacto social com vantagem competitiva. É essa coerência transversal que faz da Aileu Lab um ecossistema — capaz de construir campanhas, marcas e ambientes que se distinguem porque unem estética, propósito e consciência. Marketing ou design, comunicação ou produto — o fio é sempre o mesmo: criar impacto social e vantagem competitiva em simultâneo.

 

Como vê a evolução do papel das mulheres líderes na economia criativa e social em 2025 e nos próximos anos?

É verdade que as mulheres têm trazido à economia criativa e social formas de pensar distintas — mais relacionais, mais abertas à interdisciplinaridade — mas não devemos cristalizar essas caraterísticas como um “estilo feminino de liderar”. O essencial é criar condições reais de acesso e reconhecimento, para que diferentes modelos de liderança possam florescer. Prefiro não encarar as mulheres líderes como uma categoria à parte, porque isso perpetua a ideia de que a liderança feminina é exceção. O futuro que imagino não é apenas mais feminino, é mais plural: uma liderança capaz de refletir a complexidade do mundo, feita de múltiplas origens, vivências, corpos e perspetivas. Acredito que a liderança do futuro não terá género: terá pluralidade.

Que conselhos deixaria a jovens mulheres que querem empreender e liderar na interseção entre criatividade, inovação e impacto social?

Toda a gente tem ideias. Poucos têm a disciplina de as transformar em algo que resiste ao tempo. A criatividade só tem valor quando deixa de ser abstração e se converte em estruturas que funcionam.

Na inovação, o risco é confundir novidade com relevância. Nem tudo o que é novo é útil. O verdadeiro desafio é criar soluções que resolvem problemas reais e que se mantêm no tempo. A inovação sem propósito é fogo de palha.

E no impacto social, não é dizer “mudamos o mundo”; é provar que alguém vive melhor por causa do que fazemos. O resto é ruído.

E, talvez o mais importante: não esperem validação constante. Empreender é, muitas vezes, lidar com solidão, dúvidas e resistência. A coragem não está em sonhar alto, está em manter-se de pé quando tudo parece ir contra vocês.

Empreender não é um palco para brilhar, é uma oficina onde se constrói todos os dias. E é nesse trabalho duro que está a beleza: transformar esforço em criação e dúvidas em futuro.

 

Quais são as próximas ambições para si e para o Aileu Lab?

A grande ambição é afirmar a formação como eixo estratégico da Aileu Lab. Depois de anos em contextos internacionais de capacitação, quero traduzir essa experiência em programas que ajudem empresas e setores a integrar inclusão e representatividade de forma prática.

O foco imediato está na hotelaria e no retalho, mas também vemos espaço para intervir em áreas como a educação e a cultura, onde a diversidade pode e deve ser tratada como motor de inovação. O futuro passa por criar metodologias próprias, replicáveis e com impacto mensurável — porque só assim a formação deixa de ser teoria e se torna ferramenta real de transformação.

A ambição é clara: que a Aileu Lab seja reconhecida não apenas como espaço de criação, mas como escola de futuro, onde se aprende a transformar diversidade em valor económico e social.

No plano pessoal, a ambição é menos grandiosa, mas igualmente desafiante: ter carta de condução válida em Portugal. Afinal, criar sistemas criativos é importante, mas deixar de ir de boleia para as reuniões também é!!

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Revista Pontos de Vista Edição 147

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