Saúde Mental, um bem comum ou Saúde Mental um dever coletivo

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O Dia Mundial da Saúde Mental é mais do que uma data no calendário: é uma inscrição no tempo para lembrar que cuidar da mente é cuidar da vida; e que só cuida verdadeiramente da vida quem cuida também das relações que estabelece. Cada gesto que fazemos traz consigo aquilo que se passa dentro e fora de nós e tem impacto direto no nosso corpo e no corpo dos outros. Durante muito tempo reduzimos a ideia de saúde apenas ao corpo físico individual, esquecendo que a mente, as emoções e os vínculos são igualmente determinantes. Na realidade, não é possível falar de saúde sem falar de saúde mental, porque corpo e mente são inseparáveis: coexistem e vivem juntos tudo aquilo que nos acontece. Nem é possível falar em saúde, sem falar na atmosfera em que se vive.

Quando falamos de saúde mental não falamos apenas da ausência de doenças, mas da capacidade de lidar com as incertezas da vida, de reconhecer a vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, encontrar no outro apoio, cooperação e sentido. É também falar de confiança, esperança, criatividade e entusiasmo; recursos que nos tornam mais vivos e que não existem isoladamente, mas nascem na relação com os outros. Tão importante quanto tratar uma ferida no corpo é cuidar da dor na alma e reconhecê-la como sinal e sintoma de um mal-estar que precisa de ser compreendido. Muitas vezes o sofrimento psíquico foi visto como sinal de fraqueza, algo que se devia suportar em silêncio. Mas expressar a dor ou a angústia não é fraqueza: é ser-se humano, é ser-se portador de humanidade. A coragem não está em esconder o medo, mas em atravessá-lo acompanhado. E o entusiasmo, a curiosidade e o desejo de conhecer, mesmo em tempos difíceis, são a prova de que a vida insiste em continuar.

A saúde mental não depende apenas daquilo que se passa dentro de nós. O mundo que habitamos também nos atravessa profundamente. Vivemos, hoje, um momento global marcado por violência, crueldade e falta de esperança. As notícias, os conflitos, as desigualdades sociais e os discursos de ódio compõem uma atmosfera densa, que inevitavelmente nos afeta. Nós somos também o espaço que habitamos. Se esse espaço está cheio de dor, agressividade e ausência de empatia, é natural que também as nossas dores internas se tornem maiores e mais difíceis de suportar. Mas o contrário também é verdade: quando somos rodeados de cuidado, de confiança e de entusiasmo partilhado, a vida torna-se mais leve e possível.

Não surpreende, por isso, o alerta recente da Organização Mundial da Saúde para o aumento das perturbações mentais. O ambiente de incerteza e tensão que atravessamos tem impacto direto na nossa capacidade de resposta. Cada um de nós tem fragilidades singulares, mas estas podem ser amplificadas ou suavizadas pelo contexto em que vivemos. A etiologia multifatorial dos adoeceres mentais inclui inevitavelmente a qualidade das relações e do ambiente que nos rodeia. Muitas vezes, os sinais e sintomas que consideramos patológicos são avisos de uma patologia mais abrangente. O sofrimento individual é, em muitas situações, um espelho do mal-estar coletivo. Nem sempre um sintoma significa apenas doença; pode ser um sinal de que algo maior precisa de ser ouvido. E se a adversidade nos marca, os vínculos saudáveis podem, por sua vez, alimentar a esperança, tornando-nos mais conscientes da força que temos.

A hiperadaptação pode ser, também, uma forma de perder saúde. Quando nos ajustamos em excesso a ambientes adoecidos, corremos o risco de nos afastar daquilo que nos torna humanos. Silenciar sintomas, sem compreender a sua origem e significado, é perpetuar e ampliar o próprio adoecer. Não basta tomar antidepressivos para tratar uma depressão: é preciso compreendê-la, perceber o sentido que tem e o que quer transmitir. Só assim a sua diminuição é verdadeira e duradoura. Se não penso sobre o que me deprime e sobre a minha resposta aos acontecimentos da vida, perpétuo a minha própria depressão. O mesmo se pode dizer em relação à ansiedade. A depressão, a ansiedade, as insónias ou a exaustão não são apenas questões individuais; muitas vezes são mensagens que denunciam que o mundo exterior se tornou demasiado pesado para que alguém o carregue sozinho. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para transformar a dor em criação de novos sentidos, individuais e colectivos.

A forma como aprendemos a lidar com o sofrimento depende, em grande parte, da qualidade dos vínculos que construímos ao longo da vida. Desde a infância, cada olhar de cuidado ou de indiferença, cada gesto de presença ou de abandono, deixa marcas subtis, mas indeléveis que moldam a nossa capacidade futura de gerir a dor e de confiar no outro. As relações que temos no presente podem continuam a reforçar ou a fragilizar essa capacidade. Por isso, como exemplo, reduzir a depressão à ideia de ausência de força é redutor. O sofrimento psíquico mostra não apenas a dor singular de um indivíduo, mas também a fragilidade dos vínculos que sustentam as nossas sociedades. Uma pessoa em sofrimento não precisa apenas de medicação ou de psicoterapia: precisa igualmente de reconhecimento, apoio e acolhimento sem julgamento. É nesse reconhecimento mútuo que nasce a possibilidade de entusiasmo, porque o entusiasmo é, no fundo, uma energia relacional.

Tratar a saúde em fragmentos é, em si mesmo, uma forma de adoecer. A compreensão psicossomática mostra-nos que saúde e doença são processos integrados, que envolvem dimensões biológicas, psíquicas e sociais em constante comunicação. Desconsiderar qualquer uma dessas dimensões é empobrecer a própria ideia de saúde. Se a saúde mental é o “parente pobre” da saúde, então é a própria saúde que se torna um parente pobre de si mesma se incorrer neste engodo.

A promoção da saúde mental nunca pode ser encarada apenas como tarefa individual. É também uma responsabilidade coletiva e política. Famílias, escolas, locais de trabalho, comunidades e instituições públicas têm o dever de criar ambientes que favoreçam a sensação de pertença. Cuidar da saúde mental é cuidar do tecido vivo das relações que nos sustentam como sociedade. Quando aprendemos que a diversidade humana não é ameaça, mas riqueza, construímos os alicerces de comunidades mais equilibradas. A capacidade de respeitar a diferença, a alteridade, é um dos mais importantes sinais de sanidade coletiva. Mesmo no limite da existência, quando a vida se aproxima da sua finitude, a saúde mental é o que nos permite aceitar a realidade sem a negar, viver com dignidade o tempo que temos e encontrar serenidade mesmo na fragilidade.

O Dia Mundial da Saúde Mental não deve, portanto, ser reduzido a uma data simbólica. É um apelo a que não se banalize a dor, a que não se torne o sofrimento invisível e a que não se aceite o preconceito e o silêncio como respostas. A saúde mental não é um luxo, é condição essencial da existência. Mais do que nunca, é importante reiterar que a saúde mental não é apenas um tema clínico: é um tema humano, social e político. Se o mundo em que vivemos se torna hostil, tornam-se mais frágeis as nossas possibilidades de ter saúde. Mas se criarmos laços de cooperação, de cuidado e de entusiasmo partilhado, podemos ir transformando o medo em elaboração e o sofrimento em experiências criativas.

Assinalar este dia é, então, assumir um compromisso que implica olhar para nós mesmos e para os outros com compaixão, consciência, responsabilidade e ética. Afinal, não há saúde sem saúde relacional; e se a negligenciarmos, será a própria saúde quem empobrece.

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Revista Pontos de Vista Edição 147

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