Num contexto em que a transformação digital, a inteligência artificial e a sustentabilidade estão a redefinir o mundo empresarial, a profissão de contabilista assume um papel cada vez mais estratégico, transversal e inovador. Nesta conversa com a Revista Pontos de Vista, Sónia Nunes, Board Member e responsável pela área de People Management da Nucase, partilhou a sua visão sobre o futuro da profissão, os desafios na atração e valorização do talento, e o impacto da inovação tecnológica na evolução do setor.
A profissão de contabilista ainda é muitas vezes vista como “pouco atrativa e demasiado burocrática”. O que pode ser feito para mudar esta perceção junto das novas gerações?
A perceção do contabilista como uma profissão pouco atrativa e demasiado burocrática continua a ser frequente, sobretudo entre os mais jovens. No entanto, esta imagem tem vindo a mudar, impulsionada pela transformação digital e pela evolução do papel do contabilista no contexto empresarial.
Hoje, o contabilista assume um papel estratégico, próximo da tomada de decisões, e desenvolve competências em análise de dados, automação, inteligência artificial e sustentabilidade. Estas mudanças tornam a profissão mais dinâmica, inovadora e relevante.
Para atrair as novas gerações, é essencial apresentar o contabilista como um “tradutor de negócios”, com conhecimentos que vão além da técnica, incluindo fiscalidade, tecnologia e sustentabilidade. Assim, a contabilidade passa a ser vista como uma carreira mais atrativa, com propósito, crescimento e impacto social.
Quais são hoje os maiores desafios na captação e retenção de talento na contabilidade em Portugal?
O setor enfrenta uma grande escassez de profissionais qualificados, especialmente com competências digitais e consultivas, muito valorizadas atualmente. Estes perfis são muito disputados por outras áreas, como tecnologia e consultoria, o que aumenta a concorrência.
A contabilidade ainda sofre de uma imagem de profissão burocrática e pouco inovadora, dificultando a atração dos jovens. Para mudar esta perceção, é crucial reforçar o papel estratégico e inovador da profissão.
Além disso, a dificuldade em equilibrar carreira e vida pessoal, devido aos picos de trabalho e elevada responsabilidade, contribui para a saída de talento. A promoção de práticas como flexibilidade horária e trabalho remoto é fundamental para melhorar a retenção.
O capital humano é o maior ativo de qualquer organização. Como pode o setor valorizar mais os seus profissionais e oferecer perspetivas de carreira sólidas e motivadoras?
Valorizar os profissionais da contabilidade exige uma abordagem estratégica que alinhe a evolução da profissão com as expetativas das novas gerações. Para além de promover o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, é essencial oferecer percursos de carreira claros, formação contínua, oportunidades de crescimento, estabilidade, reconhecimento e um propósito motivador.
Estas ações devem fazer parte de uma cultura organizacional que valorize o bem-estar, o desenvolvimento e o envolvimento dos colaboradores.
Qual o papel da inovação tecnológica (IA, automação, digitalização) na evolução da carreira de contabilista e no rejuvenescimento da profissão?
O papel da inovação tecnológica é crucial nesta área. Quem dominar processos digitais e análise de dados, mantendo rigor técnico e ética, será mais influente e gerará maior valor junto dos clientes.
As competências‑chave para o “novo” contabilista, não são o que eram há alguns anos, a inovação tecnológica está a redesenhar o “perfil” do contabilista, de executante de tarefas repetitivas, para analista, consultor e parceiro de negócio com domínio da tecnologia à sua disposição.
A crescente digitalização reforça o papel estratégico do contabilista, que deve ser claramente comunicado para atrair e reter talento.
De que forma os jovens podem sentir que a contabilidade é uma carreira com futuro, que alia rigor técnico à inovação e à utilidade social?
A contabilidade está a evoluir de uma função técnica para um papel estratégico, usando tecnologia como automação e análise de dados para apoiar decisões empresariais. Esta transformação oferece aos jovens uma carreira dinâmica e cheia de oportunidades.
Além disso, a profissão ganha importância social ao contribuir para a transparência e sustentabilidade das empresas, tornando-se mais atrativa para quem procura um trabalho com propósito e impacto real na sociedade.
A literacia financeira é hoje um pilar essencial para a sustentabilidade das famílias e das empresas. Como pode o setor da contabilidade contribuir mais ativamente neste campo?
A resposta passa pelo papel que o contabilista possa ter, enquanto “educador financeiro” de confiança. Mais do que garantir o rigor técnico da informação, o contabilista deve ser capaz de comunicar de forma clara e com linguagem simples, interpretando e explicando os dados de modo acessível e relevante.
Só assim poderá contribuir ativamente para orientar empresas na tomada de decisões informadas, tornando a contabilidade um instrumento útil, prático e próximo.
No âmbito do Dia Mundial da Poupança, que mensagem deixaria aos portugueses sobre a importância de aprender a gerir e poupar desde cedo?
Desenvolver desde cedo hábitos de gestão e poupança, é um investimento pessoal na autonomia e tranquilidade futura.
Quanto mais cedo compreendermos o valor da poupança, mais facilmente conseguimos construir e planear uma vida financeira saudável e equilibrada, capaz de enfrentar imprevistos sem comprometer o que é realmente importante.
Acredita que sensibilizar crianças e jovens para a contabilidade e para a literacia financeira poderá também ajudar a atrair mais talento para esta área profissional?
Sem dúvida, quando os jovens percebem que a contabilidade não é apenas “lançar números”, mas uma função relevante para a vida real, para garantir transparência e apoiar nas decisões, passam a ver a área como uma carreira com propósito.
Quais são, na sua visão, os principais desafios e oportunidades que se colocam hoje à profissão de contabilista?
Um dos maiores desafios da contabilidade atualmente é a captação e retenção de talento, numa altura em que faltam profissionais que reúnam as competências técnicas e digitais exigidas. É também essencial transformar a perceção pública da profissão, deixando de a ver como um trabalho burocrático para reconhecê-la como uma função estratégica e multidisciplinar, com impacto direto na tomada de decisões empresariais.
Outro desafio relevante está ligado à transformação digital e à necessidade de reposicionar o contabilista como um agente-chave na geração de insights valiosos, incluindo a integração da sustentabilidade nas práticas contabilísticas, conferindo maior propósito à profissão.
A segurança e qualidade da informação ganham especial importância num contexto cada vez mais digital, tornando a cibersegurança um requisito imprescindível para garantir a confiança dos clientes e a integridade dos dados.
Por fim, há ainda o desafio de valorizar os serviços contabilísticos, que muitas vezes são vistos apenas como um custo. É fundamental demonstrar o valor estratégico da contabilidade, evidenciando como esta contribui para a eficiência, o cumprimento legal e a criação de valor nas organizações, através de informação relevante e comunicação eficaz.
Se pudesse deixar uma mensagem de inspiração para os jovens que estão a escolher o seu caminho profissional, o que diria sobre a contabilidade como carreira de futuro?
A contabilidade é muito mais do que números, é muito mais que um registo, é estar no centro das decisões que fazem as empresas crescer com ética e garantindo a transparência e responsabilidade.
É uma profissão que se tem reinventado no seu papel, que aposta em tecnologia para transformar informação em estratégia, e procura apoiar nas decisões e ajudar a criar valor para as organizações.
É sem dúvida uma escolha sólida e moderna, com desafios e propósito.


