OPINIÃO DE Marta Amorim, especialista em Genética Médica
O gene em causa é o CFTR, que codifica um regulador de condutancia transmembranar (Ui!). Digamos que é como um portão onde passa cloro (mais simples, não?)! Os sinais e sintomas da Fibrose Quística resultam essencialmente do comprometimento da atividade deste portão: iões de cloreto, que deixam de passar, seja para fora ou para dentro das células. No pulmão, intestino e pâncreas, os iões de cloreto, deviam sair e atrair água, para fluidificar secreções.
Secreções espessas no pulmão, enclausuram bactérias, que resultam em infeções respiratórias recorrentes, e por sua vez, na destruição da estrutura pulmonar (a principal causa de morte da doença).
Secreções encorpadas podem resultar num entupimento dos intestinos (oclusão – mais frequente no recém-nascido).
No pâncreas, levam à não libertação das enzimas pancreáticas que deveriam ajudar à digestão. Por um lado, sem enzimas no intestino haverá uma má nutrição, por outros, as enzimas cativadas no pâncreas acabarão por enquistá-lo (daí o nome da doença) e alterar a sua função. Uma função pancreática importante é a produção de insulina, para regular os níveis de açúcar no sangue (glicémia) e por isso, uma das complicações possíveis da doença é o desenvolvimento de diabetes (no contexto de insuficiência pancreática crónica).
Na pele, é ao contrário: o cloro deveria entrar. Sem grandes consequências clínicas, a não internalização dos iões de cloreto permite o diagnóstico através do seu doseamento – teste de suor.
O tratamento é dirigido aos diferentes sintomas, mas a genética tem ajudado a uma abordagem à origem do problema: o erro genético. Se na Fibrose Quística o erro está num gene que codifica um “portão” onde passa cloro, não é o mesmo o portão não estar a ser construído, ou instalado ou o problema ser no comando de abertura! A genética permite esta distinção e uma terapia que auxilie na medida exata: terapia personalizada. A existência de terapias moduladoras prolongou a esperança média de vida destes doentes dos 18 anos nos anos 80, para os 50 anos atualmente.
É uma doença de hereditariedade autossómica recessiva, significa isto que são precisos dois erros, um em cada cópia do gene, um herdado do pai, outro da mãe. Uma pessoa com apenas um erro num gene de hereditariedade autossómica recessiva diz-se portador dessa doença. Um casal em que ambos os elementos são portadores tem o risco de 25% de ter descendência afetada.
Ora os portadores não manifestam a doença e por isso vivem naquele sítio tranquilo que é o desconhecimento (para alguns… outros angustiam-se mais por não saberem).
Sabia que a prevalência de portadores de variantes patogénicas para a Fibrose Quística na população europeia é de 1/33? Um número que assusta um pouco não?
Pela elevada prevalência de portadores na população (sobretudo europeia) existem recomendações internacionais de rastreio de variantes patogênicas no gene CFTR a todos os casais com projeto parental (o painel deve ser definido de acordo com a população).


