“A mensagem é simples: investir em bem-estar não é um custo — é uma estratégia de valor”

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A saúde ocupacional, o wellness corporativo e a felicidade no trabalho deixaram de ser tendências para se tornarem fatores determinantes na eficiência, na retenção de talento e na reputação das empresas. Nesta edição da Revista Pontos de Vista destacamos a voz de profissionais que lideram e inspiram esta transformação. Nídia Costa, especialista em desenvolvimento humano e organizacional, cuja visão integra práticas modernas de saúde, segurança e bem-estar, com especial enfoque em ambientes de risco elevado, como o setor da Construção Civil em Angola. Nesta entrevista, sai reforçado um princípio fundamental: o bem-estar das pessoas é o maior alicerce do desempenho empresarial.

Na sua experiência profissional, como avalia a importância da saúde ocupacional e do bem-estar empresarial, especialmente em setores como a Construção Civil em Angola?

A saúde ocupacional e o bem-estar empresarial são pilares essenciais para a sustentabilidade de qualquer organização, mas tornam-se absolutamente críticos no setor da Construção Civil, onde o risco operacional é mais elevado. Em Angola, este tema tem vindo a ganhar relevância, uma vez que as empresas começam a reconhecer que o desempenho, a produtividade e a segurança dependem de equipas física e emocionalmente equilibradas. Uma abordagem estruturada ao bem-estar não é apenas uma obrigação legal — é um fator estratégico que reduz acidentes, aumenta a motivação e melhora a reputação corporativa.

 

Quais as iniciativas, políticas ou programas internos considera mais relevantes para promover a segurança, saúde e bem-estar dos colaboradores?

As iniciativas mais eficazes tendem a integrar três dimensões: prevenção, educação e suporte contínuo. Destaco:

  • Programas regulares de formação em segurança e cultura preventiva.
  • Avaliações periódicas de riscos ocupacionais com planos de resposta imediata.
  • Ações de promoção de saúde, como rastreios, ergonomia, consultas ocupacionais e campanhas temáticas.
  • Programas de bem-estar emocional, incluindo apoio psicológico, gestão de stress e literacia emocional.
  • Políticas claras de comunicação interna, para que o colaborador compreenda os procedimentos e se sinta parte ativa da cultura de segurança.
  • Programas de integração para colaboradores recém-chegados.
  • Politica de Cultura Organizacional Positiva, promovendo um ambiente de respeito, colaboração e comunicação clara, fortalecendo o compromisso e a motivaçãao das equipas.
  • Política de Desenvolvimento de Carreira e Crescimento Profissional garantindo a formação contínua e oportunidades de crescimento para que cada colaborador evolua e progrida profissionalmente.

 

Que desafios específicos observa na implementação de estratégias de wellness corporativo em Angola, particularmente em empresas de Construção Civil?

Os principais desafios incluem:

  • Falta de maturidade organizacional sobre o conceito de bem-estar integral.
  • Pressão por resultados imediatos, que leva a subestimar investimentos de longo prazo como saúde ocupacional.
  • Limitações de recursos para programas estruturados.
  • Ambientes laborais dispersos geograficamente — obras, estaleiros e projetos de curta duração dificultam ações contínuas.
  • Escassez de profissionais especializados em wellness corporativo adaptado à realidade angolana.

Quais são os principais obstáculos culturais ou estruturais que dificultam a implementação de boas práticas de bem-estar organizacional?

Existem ainda crenças culturais que normalizam o desgaste, a exaustão e a pressão extrema como sinónimo de dedicação. Muitas empresas operam com estruturas rígidas, pouco orientadas à escuta ativa do colaborador. Além disso, a informalidade nas relações laborais e a baixa literacia em saúde mental dificultam a adoção de políticas mais modernas e humanizadas.

 

De que forma acredita que a promoção do bem-estar dos colaboradores pode impactar a produtividade, retenção de talentos e qualidade do ambiente de trabalho?

Investir no bem-estar cria um ciclo virtuoso: colaboradores mais saudáveis adoecem menos, produzem mais e cometem menos erros. Equipas que se sentem cuidadas permanecem mais tempo na organização e tornam-se embaixadoras da marca empregadora. Além disso, um ambiente de trabalho seguro e equilibrado reduz conflitos e aumenta o sentimento de pertença, fatores indispensáveis para aumentar a qualidade dos projetos.

 

Pode partilhar exemplos ou casos concretos em que estas iniciativas tenham trazido resultados positivos, mesmo que em pequena escala?

Sim. Em várias empresas com que trabalhei ou observei de perto, a introdução de simples programas de pausas ativas, monitorização de fadiga e reforço de EPI resultou numa redução significativa de incidentes menores em obra. Em iniciativas mais abrangentes, programas de reconhecimento mensal, “Dia da Família na Empresa”, horários flexiveis e/ou teletrabalho, políticas de apoio psicológico e sessões de sensibilização sobre stress laboral melhoraram o clima de equipa e reduziram o absentismo. São pequenos passos que provam que o investimento em bem-estar traz retorno real.

 

Como perspetiva o futuro da saúde ocupacional e do bem-estar empresarial em Angola nos próximos anos?

O futuro tende claramente para a profissionalização da área. Vejo uma evolução marcada por maior regulamentação, maior exigência dos parceiros internacionais e uma mudança geracional que valoriza profundamente a qualidade de vida. As empresas que não acompanharem esta tendência ficarão para trás do ponto de vista competitivo e reputacional.

 

Que oportunidades enxerga para as empresas angolanas se destacarem como pioneiras nesta área?

Há uma oportunidade evidente de liderança estratégica: as empresas que implementarem programas robustos de bem-estar poderão diferenciar-se no mercado, atrair talento qualificado e posicionar-se como marcas empregadoras fortes. Além disso, iniciativas inovadoras — como plataformas digitais de saúde, programas de prevenção contínua e ações comunitárias — podem colocar Angola como referência regional.

 

Gostaria de destacar algum projeto, parceria estratégica ou experiência que considere inovadora ou inspiradora na área?

Sim o Projeto “Thrive Global” (EUA) — Inovação Mundial em Bem-Estar Corporativo, Fundado por Arianna Huffington, o Thrive Global é considerado um dos projetos mais disruptivos na área de bem-estar.

Combina neurociência, tecnologia, micro-hábitos e inteligência artificial para reduzir burnout e aumentar a produtividade em empresas de todo o mundo.

 

O que torna este projeto altamente inovador?

  • Introduziu o conceito de microsteps (mudanças pequenas, diárias e altamente eficazes).
  • Criou uma plataforma digital que identifica padrões de stress e recomenda ações personalizadas.
  • Trabalha com gigantes como Accenture, Walmart, Salesforce e Hilton.
  • Resultados comprovados: redução de burnout, melhoria do foco e aumento da produtividade.
  • É global, escalável e totalmente baseado em ciência e comportamento humano.

 

Qual a mensagem principal que pretende transmitir ao mercado sobre a importância de investir em saúde ocupacional e bem-estar no contexto empresarial angolano?

A mensagem é simples: investir em bem-estar não é um custo — é uma estratégia de valor. Empresas que cuidam das suas pessoas constroem marcas mais fortes, resultados mais consistentes e equipas mais comprometidas.

No contexto angolano, onde os desafios operacionais e sociais são significativos, esta aposta torna-se ainda mais urgente e diferenciadora.

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