Nesta edição da Pontos de Vista de Dezembro, novamente com um painel dedicado às líderes e empreendedoras, procuramos explorar o mundo das personalidades femininas +40/50. Exploramos momentos de viragem, autoconhecimento e redefinição profissional, destacando como a Mentoria, o Desenvolvimento Pessoal e a Gestão da Carreira podem ser forças transformadoras nesta nova fase. Para isso, conversámos com Filipa Teixeira, que partilha uma trajetória marcada por reflexão, coragem e reinvenção, depois de 15 anos a construir uma carreira intensa em marketing, vendas e estratégia – entre bancos, automóveis e agências criativas. Conheça o espaço em Lisboa que a empreendedora já abriu, após concluir o exame que a certificou como Biofeedback Specialist em Outubro, em Budapeste.
Em primeiro lugar, fale-nos um pouco de si e de quem é a Filipa Teixeira!
Vejo-me como alguém que sempre precisou de compreender o que vive e o que sente. Tenho uma mente muito racional — gosto de analisar, estruturar, perceber a lógica das coisas — mas tenho também uma intuição muito forte, uma capacidade natural de ler pessoas e contextos para além do óbvio. E o meu caminho tem sido, no fundo, aprender a integrar estas duas forças em vez de as colocar uma contra a outra.
Sou observadora, curiosa e exigente comigo mesma. Preciso de coerência entre o que penso e o que sinto, e isso marcou tanto a minha vida pessoal como o meu percurso profissional, ao longo de muitos anos, no universo corporativo em funções exigentes, estratégicas e criativas. Esse caminho deu-me rigor, visão e a capacidade de olhar para o todo sem perder o detalhe.
No essencial, sou alguém que procura viver alinhada consigo — com a razão que me ancora, com a intuição que me orienta e com a coragem de me reinventar quando é preciso. Uma mulher que quer viver cada vez mais inteira e consciente na própria vida, por dentro e por fora.
Na sua trajetória profissional, houve um momento claro de viragem. O que a fez perceber que era tempo de redefinir prioridades?
A viragem aconteceu quando me tornei mãe, mas não pelo lado romântico da palavra. Foi um momento transformador porque me obrigou a encarar algo que eu evitava há anos: os meus limites e a forma como vivia sempre em esforço, sempre projetada para fora de mim.
Nesse período percebi, com uma clareza quase brutal, que o mundo profissional onde estava já não refletia quem eu me estava a tornar, nem tinha espaço para a vida que eu queria construir. Havia uma desconexão evidente entre o que eu vivia e aquilo que, internamente, começava a ser essencial.
E houve também uma consciência muito simples, mas muito forte: eu queria que a minha filha crescesse a ver uma mulher inteira, e sentisse que um dia também poderia escolher uma vida que a fizesse feliz.
Não por coragem extraordinária, mas por verdade.
Portanto, não foi “a maternidade” em si mas o choque entre a vida que eu levava e a vida que eu já sabia, cá dentro, que precisava de construir — por mim e pelo exemplo que queria deixar.
Recomeçar deixou de ser uma ideia bonita e passou a ser uma necessidade de verdade, integridade e saúde.
Depois de tantos anos no universo corporativo, como descreveria o processo emocional e mental de “voltar a si mesma”? Que sinais o corpo e a mente lhe deram?
Foi um processo muito desconfortável e libertador ao mesmo tempo.
O corpo começou a falar antes de eu estar preparada para ouvir: insónia, ansiedade, exaustão emocional. Depois vieram também sintomas físicos — problemas digestivos, quebras de tensão constantes, dores inexplicáveis — e a sensação frustrante de fazer exames atrás de exames sem que nada tivesse explicação clínica.
Era como se o meu corpo estivesse a tentar comunicar algo que a minha mente insistia em ignorar.
Voltar a mim começou aí: no reconhecimento de que aquele desconforto não era fraqueza, era informação. Foi parar. Respirar. Admitir que, por dentro, eu já não estava a conseguir acompanhar a vida que mostrava por fora.
E foi também aprender que vulnerabilidade não diminui ninguém — lembra-nos do caminho de volta. Foi um regresso a um ritmo mais humano, mais meu. Um reajuste interno. Um reencontro comigo mesma, depois de anos a viver em aceleração.
De que forma a maternidade, a pandemia e o burnout contribuíram para despertar uma nova consciência sobre bem-estar, ritmo de vida e propósito?
Cada uma trouxe um espelho diferente. A maternidade trouxe Amor e trouxe verdade. A pandemia trouxe silêncio. O burnout trouxe limites. Juntos, obrigaram-me a olhar para a saúde não como algo “para gerir quando houver tempo”, mas como o ponto de partida da vida. Percebi que viver desligada do corpo é viver pela metade.
O propósito nasceu aí: querer viver de forma mais consciente — e ajudar os outros a fazer o mesmo.
O biofeedback entrou primeiro na sua vida como paciente. O que mais a surpreendeu nesta tecnologia e o que a levou a aprofundar a formação e transformar isso numa nova carreira?
Eu não dormia uma noite seguida há mais de três anos. E depois da primeira sessão… dormi. Uma noite inteira. Parecia impossível. Mas a verdadeira mudança não se ficou pela primeira sessão.
O que se seguiu foi um processo: noites melhores, menos tensão no peito, maior capacidade de me concentrar e, aos poucos, uma sensação de presença que eu pensava ter perdido.
Foi ali que percebi que isto não era um “alívio momentâneo”, era um treino — uma forma de ensinar o corpo a sair do modo de sobrevivência e a regressar ao equilíbrio. Quanto mais entendia isto na prática, mais curiosidade tinha em perceber o que estava por trás daquele efeito tão concreto.
Estudei. Li. Aprofundei toda a base científica por detrás do biofeedback. E fiquei fascinada com a capacidade do corpo de se autorregular quando recebe a informação certa. Para mim, fez sentido em todas as camadas: mental, emocional e física.
A mudança de carreira não foi um salto no vazio.
Pelo contrário: foi uma decisão sustentada por três coisas muito claras para mim:
- a minha própria experiência de recuperação, que trouxe resultados mensuráveis no sono, no stress e na energia;
- o estudo e a compreensão técnica de como o biofeedback atua no sistema nervoso, hormonal e emocional;
- a sensação profunda de propósito — de que eu podia levar a outras pessoas uma ferramenta que devolve qualidade de vida de forma real e consistente.
O que me levou a fazer desta a minha carreira não foi uma conjugação de acasos.
Foi a soma de evidência pessoal e científica, estudo rigoroso e um alinhamento interno que eu já não conseguia ignorar.
Com o Mandelay Q9 e a sua prática atual, quais têm sido os maiores desafios e também as maiores recompensas ao acompanhar pessoas que procuram recuperar equilíbrio, energia e qualidade de vida?
O maior desafio é acolher pessoas que chegam já no limite — cansadas, sem esperança, e com a sensação de que “se calhar sou mesmo assim agora”. Quando se vive muito tempo nesse lugar, nasce uma urgência quase instintiva de querer que tudo mude depressa — e eu compreendo profundamente essa pressa.
Mas o corpo tem o seu próprio ritmo.
E parte do trabalho é ajudar cada pessoa a perceber que a recuperação é um processo: é treino, consistência e respeito pelo tempo que o corpo precisa para voltar a equilibrar-se.
A maior recompensa é testemunhar esse regresso: quando alguém me diz “já durmo”, “já não acordo em ansiedade”, “tenho energia de manhã”. São vitórias pequenas na forma, mas gigantes no impacto — e mudam tudo.
É um privilégio assistir a alguém a reencontrar-se por dentro, passo a passo, no seu próprio ritmo.
O que sente que mudou na forma como hoje encara sucesso, ambição e carreira, comparando com a versão de si mesma de há 10 ou 15 anos?
Mudou tudo.
Antes, sucesso era velocidade, acúmulo, ultrapassar limites.
Hoje, sucesso é presença.
Ambição continua a existir — mas transformou-se. Agora é sobre impacto, sobre contribuir para que alguém volte a sentir-se inteiro. Sobre ter uma carreira que serve a vida, e não o contrário.
Para muitas mulheres +40/50, este é um período de reinvenção. Que mensagem deixaria a quem sente que o corpo e a mente já não acompanham o ritmo, mas não sabe ainda como iniciar uma mudança?
O corpo avisa, e quando o faz não é fraqueza — é sabedoria.
E antes de qualquer mudança grande, o que mais precisamos é de reconhecer esse aviso e dar o primeiro passo.
A mudança não tem de ser radical.
Pode começar com algo muito simples e muito honesto:
“Quero cuidar de mim.”
Só isto.
Sem planos perfeitos, sem a pressão de ter tudo definido. É permitido repensar o ritmo, redefinir prioridades, mudar de rota.
Errar faz parte. Recomeçar também. E não existe idade certa nem momento ideal para recuperar equilíbrio e sentido.
Reinventar-se não é abandonar quem fomos — é escolher, com mais lucidez, como queremos viver daqui para a frente.
Está aberta a colaborações e parcerias. Que tipos de projetos ou sinergias gostaria de desenvolver no futuro próximo?
Sim, muito. Acredito profundamente que o futuro da saúde é colaborativo: ciência, tecnologia, psicologia e terapias complementares a trabalharem lado a lado.
Lancei recentemente o The Stress Hackers Club — ainda é um projeto bebé, nos primeiros passos, focado em apoiar pessoas a recuperar energia e clareza num mundo cada vez mais exigente. Neste momento vive sobretudo com os meus clientes, mas a visão é que se torne um movimento de cooperação com profissionais que querem atuar sobre o stress crónico — a pandemia silenciosa da nossa era.
Quero crescer com outros.
Com propósito. Com ética.
Com impacto real.


