OPINIÃO DE Joana Menezes Nunes, Médica Endocrinologista
A diabetes mellitus tornou-se um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade. Embora frequentemente entendida como uma única doença, engloba na realidade várias condições distintas que têm em comum um desequilíbrio persistente dos níveis de açúcar no sangue. Com números que continuam a crescer em todo o mundo e em todas as idades, compreendê-la é fundamental para melhorar o diagnóstico e o tratamento.
A diabetes tipo 1 é uma condição autoimune, na qual o próprio organismo produz anticorpos que destroem as células produtoras de insulina (no pâncreas). Surge sobretudo em crianças e jovens, mas pode aparecer em qualquer idade. Os sintomas são rápidos e marcantes (mnemónica dos 4 P: polidipsia (muita sede), poliuria (muita urina), polifagia (muita fome) e perda de peso). O tratamento à data de hoje é a insulina.
Menos óbvia, mas igualmente importante, é a diabetes LADA (Latent Autoimmune Diabetes in Adults). Também autoimune, instala-se de forma lenta e discreta em adultos, sendo muitas vezes confundida com diabetes tipo 2. A resposta inicial aos comprimidos pode ser enganadora, porque a perda gradual das células beta acaba por exigir insulina. Especialistas defendem que esta forma está subdiagnosticada e deve ser considerada sempre que o tratamento parece “falhar cedo demais” ou os sintomas são muito marcantes ou o doente é adulto jovem e sem grandes comorbilidades que nos possam fazer pensar numa diabetes tipo 2.
Outra variante pouco conhecida é a diabetes MODY (Maturity Onset Diabetes of the Young). De origem genética, manifesta-se geralmente antes dos 25 anos e não está ligada ao peso ou estilo de vida. O diagnóstico exige atenção e, muitas vezes, testes genéticos, mas traz vantagens claras: alguns subtipos respondem muito bem a medicamentos específicos.
A diabetes tipo 2 continua a ser a forma dominante, responsável pela maioria dos casos. De mãos dadas com o sedentarismo, com a alimentação menos saudável, com o tabaco e com o envelhecimento populacional, porém a genética desempenha um papel decisivo, sendo uma doença claramente poligénica. A doença instala-se silenciosamente, podendo passar anos sem ser detetada (muitas vezes são as complicações cardíacas renais e/ou neurológicas que dão o primeiro sinal). A prevenção primária desempenha um papel essencial.
Existem ainda tipos de diabetes que surgem como consequência direta de outras condições ou tratamentos. A diabetes iatrogénica é um exemplo crescente, sobretudo associada ao uso prolongado de corticosteróides ou terapêuticas imunossupressoras. Em muitos casos, é transitória, mas exige vigilância apertada.
A diabetes gestacional é outro capítulo importante. Surge durante a gravidez devido à resistência à insulina induzida por alterações hormonais. Normalmente desaparece após o parto, mas deixa uma marca: aumenta o risco futuro de diabetes tipo 2.
Por fim, há formas associadas a doenças metabólicas ou endócrinas, como pancreatite crónica, hemocromatose ou síndrome de Cushing. Aqui, o controlo da doença de base é parte essencial do tratamento.
A multiplicidade de tipos de diabetes lembra-nos que esta não é apenas uma questão de “açúcar elevado”. É uma condição complexa, que exige diagnóstico preciso, terapêuticas personalizadas e, sobretudo, uma forte aposta na prevenção. Porque, apesar das diferenças, há um ponto comum a todas as formas de diabetes: quanto mais cedo forem reconhecidas e tratadas, melhores serão os resultados (para cada pessoa e para a sociedade).


