“Não esperes pelo momento perfeito. A mudança não exige perfeição, exige coragem”

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Nova edição, novos olhares. Nesta conversa inspiradora à Revista Pontos de Vista, Adriana Carneiro — Fundadora da Faz a tua Mudança e da Faz a tua Mudança Academy — partilha a jornada de reinvenção que a levou a transformar dor em propósito e experiência em método. Num tempo em que carreiras se redesenham e prioridades mudam, Adriana fala sobre coragem, autoconhecimento e liderança humana, especialmente no universo das mulheres que atravessam os 40 e 50 com uma maturidade que o mercado já não pode ignorar. A sua história é um convite a parar, olhar para dentro e escolher, com consciência, o rumo que realmente queremos seguir.

Ao longo da sua jornada profissional e pessoal, houve um momento em que percebeu que era preciso mudar o rumo?

Eu já recomecei várias vezes e mudei o rumo várias vezes porque a vida assim me impôs.

Contudo, em finais de 2022 quando estava a gerir a minha empresa de Marketing foi o grande ponto de viragem, aquele momento que veio em sequência de uma dor tão forte e intensa que te afunda.

O meu ponto de viragem surgiu quando percebi que estava a cumprir papeis que não representavam quem eu realmente era e sou. Liderei equipas, negócios, projetos e pessoas, mas faltava a liderança mais difícil, liderar-me a mim mesma e viver o meu próprio propósito e a minha identidade.

A vida obrigou-me a parar, com perdas pessoais e financeiras, desafios profissionais e responsabilidades que ultrapassaram o razoável.

Foi aí que entendi que, se não mudasse o rumo, perdia a minha identidade ainda mais no processo.

 

Que fatores — internos ou externos — mais influenciaram essa decisão de redefinir a sua trajetória?

Externamente, as dificuldades que estava a enfrentar, o comportamento de pessoas que me rodeavam, a exigência de ter de tomar uma decisão para não colocar ainda mais a minha vida e a dos meus filhos em causa.

Internamente, eu já não aceitava viver em esforço contínuo, a tentar encaixar onde não fazia sentido, a encolher-me para caber. Ninguém tem que se encolher para encaixar, valemos muito mais do que isso.

Descobri que não era falta de capacidade, era falta de alinhamento e clareza.

A decisão de mudar foi uma escolha estratégica, emocional e profundamente consciente. Quando encontrei a minha clareza, identidade e propósito tudo mudou e sou muito grata por isso.

 

O tema desta edição é “Novos tempos, novas prioridades”. Quais são, hoje, as suas principais prioridades enquanto mulher, líder e mentora?

A minha prioridade é a clareza e direção, saber onde quero estar, para onde quero ir, quem sou e quem quero ser. Saber o que quero, mas acima de tudo o que não quero.

Depois, impacto, gerar valor real nas pessoas e nas organizações porque sei que o conhecimento torna melhores pessoas, com mais resultados, com mais produtividade e alinhamento. Sei o que é ter adversidade, gerir uma equipa sem a conhecer e cometer erros cruciais. Ando tudo demasiado perdido e em piloto automático. As pessoas têm de se conhecer para se alinhar e respeitar o próximo, tem que se humanizar e envolver.

E finalmente, equilíbrio.

Hoje, lidero com foco na utilidade, na presença na disciplina e na humanização.

Treinar e motivar pessoas para o êxito com o meu conhecimento, experiência de vida e crença nas pessoas e nas suas potencialidades. Cada um de nós é responsável pelo nosso próprio caminho. O que nos define somos nós e não as circunstâncias do passado ou a opinião dos outros.

Todos os dias temos uma página em branco e que só a nós a compete escrever. Reinventar-nos todos os dias a ser mais e melhor. Melhores pessoas geram melhores resultados. Pessoas felizes geram melhores resultados.

Não procuro perfeição, procuro coerência entre quem sou, o que faço e o que ensino. Não prometo fórmulas mágicas, prometo trabalho, consciência e consistência que te leva a uma vida menos desgastada, mais feliz e realizada.

 

Como sente que a forma de liderar mudou — sobretudo para mulheres acima dos 40/50 anos — num contexto de transformação constante?

As mulheres +40/50 lideram hoje com um ativo que nenhuma formação compra, a experiência emocional e resiliência vivida.

A liderança tornou-se menos hierárquica e mais humana.

O mercado percebeu que maturidade traz estabilidade, visão estratégica e uma capacidade de decisão mais consciente.

Esta faixa etária não lidera pelo ego, lidera pelo impacto. E é isso que as empresas procuram ou deveriam procurar. Maturidade, resiliência, produtividade na adversidade não se compram em cursos ou livros. Exige experiência e prática, saber falar sobre isso porque o viveu e não é para todos.

 

O seu livro “Faz a tua mudança com apenas 4 passos” nasce de uma experiência de vida profunda. O que a inspirou a transformar essa vivência num método acessível a outros?

Porque percebi que a maioria das pessoas quer mudar, mas não sabe como começar, nem como manter consistência.

Eu própria passei por fases em que a vida parecia maior do que eu e passei a vida a ser desafiada pela vida.

O meu processo de reconstrução pessoal tornou-se um método, e esse método precisava de ser partilhado para facilitar o recomeço de quem sente que já tentou de tudo e ainda assim não avança. Este livro é uma primeira semente da mudança, aquela mudança em que és tu que decides mudar, em que és tu que decides desafiar a vida.

Ter o prefácio escrito pelos meus filhos, que acompanham toda esta jornada e se orgulham e também contribuíram para isso, é gratificante. Também eles têm autoconhecimento e ferramentas que todos os jovens deveriam ter.

 

Quais são, em síntese, os pilares ou etapas desses 4 passos — e como eles podem ser aplicados por quem hoje sente vontade de recomeçar?

Os quatro passos representam o Método M:

  1. Clareza– decidir, definir prioridades e disciplinar o foco. O que é que eu quero, porque é que eu quero, o que me está a impedir de fazer e o que tenho que fazer. O que estou a fazer a mais e tenho que fazer a menos e você versa. Vivo com propósito ou resposta ao medo? Atuo pela consciência do que quero ou pelo que estou formatado a fazer?
  2. Identidade– alinhar hábitos, valores e autoconsciência de quem sou, gosto e quero. Será que prego uns valores e vivo outros diariamente? Que alinhamento tenho de mim no dia a dia?
  3. Comunicação– transformar o diálogo interno e a expressão externa de forma a saber comunicar comigo e com os outros. Mudar o estado, fisiologia e conhecer os ambientes onde me coloco. 90% das pessoas não faz a mínima ideia da forma errada como comunica consigo ao longo do dia.
  4. Ação– agir com estratégia, mensurabilidade e consistência. Construir o Business Plan da sua própria vida.

Aplicam-se a qualquer área, carreira, liderança, equipas ou vida pessoal. Parecem simples, mas exigem compromisso, disciplina, consistência e determinação.

 

Em que medida acredita que a Mentoria e o Desenvolvimento Pessoal podem ser catalisadores reais de mudança, sobretudo nesta faixa etária de maior maturidade e experiência?

Nesta fase da vida, não falta inteligência nem capacidade, falta método, direção e alguém que nos ajude a quebrar padrões.

A mentoria acelera processos, encurta caminhos, dá estrutura e devolve força. Quando alguém está pronto e comprometido para mudar, o acompanhamento certo transforma meses em semanas.

E nos jovens, luto para ir a escolas e universidades com módulos de mudança. Faz a tua mudança Next Gen é um sonho para que os nossos jovens mais do que saber fazer ou ter, saibam ser e gerir as suas emoções e conhecerem-se melhor. Os jovens estão perdidos e sem rumo, sofrem em silêncio e precisam de saber que podem ter uma vida extraordinária desde que conheçam as ferramentas certas e saibam como as aplicar.

 

Fale-nos do papel do autoconhecimento neste processo: por que é tão importante parar, olhar para dentro e redefinir o caminho?

Porque sem autoconhecimento somos reatores, não autores da nossa própria história e andamos sempre em piloto automático a dizer que somos todos muito conscientes. Sofri muito e fui maltratada porque me coloquei a jeito e porque as pessoas sem auto liderança de si mesmas são cruéis com outras. Eu errei como líder porque também não sabia o que sei hoje e erraram muito comigo também, tive colaboradores difíceis e cruéis.

A auto liderança de cada um, é o pilar fundamental para uma pessoa, empresa e equipa serem efetivamente eficazes, colaborativas e humanas. Existem “dicas” a mais, treinadores de bancada mas o âmago da questão é por aqui.

Tudo fala em liderança, em felicidade, tudo sabe tudo e na verdade, poucos sabem do que falam.

A vida profissional pode empurrar-nos para rotinas que não questionamos e que podem ser fatais.

Olhar para dentro permite limpar o espelho da responsabilidade, perceber o que é nosso, o que é imposto e o que precisa de mudança imediata. Autoconhecimento é direção.

Sem direção, não existe produtividade, existe apenas ocupação. A Faz a tua Mudança vai percorrer o seu caminho com seriedade e vai lá chegar pois sei, que este é o caminho e com amor, coragem, verdade e consistência, vai acontecer.

 

Como é que pratica o autoconhecimento e a gestão emocio- nal na sua rotina profissional?

Pagando o preço todos os dias pelo meu propósito.

Com hábitos simples e consistentes: reflexão diária, escrita, silêncio, leitura, respiração consciente e disciplina mental. Compaixão e gratidão. Questiono-me com regularidade e ajusto o que for necessário. A gestão emocional é parte da minha agenda, não um improviso. E continuo a aprender, a pedir ajuda e a manter-me curiosa porque a liderança começa dentro.

Adoro conhecimento, estudo e constante inovação.

Em julho fiz o Master PNL Practitioner com Richard Bandler (Cofundador da PNL) em Orlando, 12 dias que solidificaram o meu conhecimento e me transformaram. Era a cereja que faltava no topo do bolo, após tanto investimento que tenho feito no meu conhecimento e desenvolvimento.

Estou muito feliz e realizada pois estou cada vez mais forte para dar o melhor de mim aos outros.

 

O que significa para si viver com propósito?

É viver alinhada com a verdade, com a identidade e com o impacto que quero deixar. É não me encolher para me encaixar, é não aceitar migalhas que são dadas com os pressupostos errados.

Propósito não é algo abstrato, é uma bússola que orienta decisões, hábitos e prioridades. É o que faz com que eu continue mesmo quando o caminho desafia. É a chama que me queima e me faz levantar todos os dias, mesmo nos dias mais desafiantes. Deixar um legado de amor, impacto e inspiração para que o acordar e o viver não seja uma “forca” mas uma esperança e propósito.

 

Que impacto deseja gerar nas pessoas e nas organizações através do teu trabalho e da tua mensagem?

Quero ajudar pessoas a reencontrarem força, clareza e direção. E quero apoiar organizações a desenvolver equipas produtivas, humanas e conscientes. O meu trabalho une dois mundos que muitas vezes vivem separados, resultados e pessoas. Sem equilíbrio entre ambos, nenhum negócio prospera e tudo começa em cada um.

 

Se pudesse deixar uma mensagem a quem se encontra num ponto de viragem da carreira, qual seria?

Não esperes pelo momento perfeito. A mudança não exige tempo exige coragem. Começa pequeno, mas começa. E lembra-te, a idade não é um obstáculo, é uma vantagem competitiva. Se vais à casa banho sozinho, se respiras sem ventilador, se comes sem sonda, então tens a tua vida nas mãos, é tudo uma decisão seguida de uma ação. A vida não está nem aí para ti, a vida acontece seja para o bem, como para uma doença repentina, o que queres fazer tu com a tua vida?

 

Que novas metas ou projetos tem para 2026, depois do lançamento do livro?

2026 será um ano de expansão internacional e consolidação da marca Faz a Tua Mudança. Pretendo aprofundar projetos com empresas, universidades e líderes em Portugal, Angola e Moçambique. Quero levar o Método M a equipas que precisam de produtividade consciente, liderança na adversidade, desenvolver novas masterclasses, fortalecer a M.U.D.A.N.Ç.A.® e preparar o grande evento anual.

Colocar a Faz a tua Mudança Academy em ação em diferentes áreas com as especialistas a terem a oportunidade de darem ao mercado o melhor do seu conhecimento, sabendo que é uma Academia com valor e mérito no valor que acrescenta.

É o ano da escalabilidade estratégica. Mentorias individuais e em Equipa, formações com praticidade e praticabilidade e não teorias, na verdade, fazer acontecer com mudança real e efetiva. Continuar os LIVE “Faz a tua Mudança” na área da Liderança e continuação do apoio a Associações de caridade.

O ano em que será lançado o livro com a minha história de vida.

 

Que tipo de mudança espera ver mais nas lideranças e nas mulheres empreendedoras nos próximos anos?

Quero ver mais autenticidade e menos comparação. Quero ver menos ego e menos competição. Mais ação e menos medo. Mais parcerias sem interesse pois somos parceiros e não concorrentes. Mais presença e menos correção forçada.

E desejo ver mulheres a liderar com a segurança da sua experiência, da sua história e da sua maturidade emocional, porque o mundo corporativo precisa desesperadamente disso.

Lidera a tua vida, antes que te liderem a ti. Faz a tua Mudança.

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Revista Pontos de Vista Edição 146

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