“O contabilista pode assumir um papel ainda mais estratégico, sendo uma peça central na gestão e na tomada de decisões”

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A contabilidade tem sido, por muitos, associada a números, burocracia e rotinas fiscais. No entanto, esta perceção está a mudar rapidamente. Em entrevista à Revista Pontos de Vista, Paula Franco, Bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, desafia esta visão tradicional e apresenta a profissão como uma carreira estratégica, inovadora e com múltiplas oportunidades para as novas gerações. Com mais de 10 mil novos candidatos apenas no último ano, a contabilidade revela-se cada vez mais atrativa e essencial para a sustentabilidade das empresas e da economia.  Para Paula Franco, a contabilidade não é apenas uma carreira; é uma profissão de futuro, cheia de propósito, relevância social e oportunidades de evolução para quem deseja fazer a diferença.

A profissão de contabilista ainda é vista como “pouco atrativa e demasiado burocrática”. O que pode ser feito para mudar esta perceção junto das novas gerações?

Permita-me discordar em grande parte da sua afirmação. Atualmente, o contabilista assume o papel de parceiro estratégico das empresas, quer na análise financeira, quer na tomada de decisões e na sustentabilidade dos negócios e esse papel é percebido pela sociedade e as novas gerações. A título de exemplo, desde o ano passado e após a entrada em vigor dos novos estatutos de acesso à profissão, tivemos mais de 10 mil novos candidatos – esses números, mostram a força, vitalidade e atratividade da profissão.

 

Quais são hoje os maiores desafios na captação e retenção de talento na contabilidade em Portugal?

Um dos principais desafios prende-se com o elevado número de tarefas administrativas e fiscais que têm recaído sobre os profissionais, aliado a prazos muito apertados que impedem que sejam concluídas tão atempadamente quanto seria desejável. Isso torna o ambiente exigente e nem sempre alinhado com as expetativas dos jovens, que procuram mais equilíbrio e flexibilidade.
Existem também desafios relacionados com a competitividade salarial e com a falta de tempo para formação contínua, que é essencial na nossa área.

Assim, captar e reter talento passa por criar melhores condições de trabalho, apostar em tecnologias que reduzam tarefas repetitivas e libertem os contabilistas das tarefas rotineiras por forma a promover um ambiente de desenvolvimento profissional.

 

O capital humano é o maior ativo de qualquer organização. Como pode o setor valorizar mais os seus profissionais?

A valorização começa por reconhecer que o contabilista de hoje faz muito mais do que cumprir obrigações fiscais. É um verdadeiro parceiro e gestor de informação estratégica que permite elevar as empresas a outro patamar.

É fundamental criar planos de carreira claros e motivadores, investir em tecnologia que permita libertar tempo ao contabilista para ter disponibilidade para outras tarefas de maior valor, promover formação contínua nas diversas áreas técnicas e que promovam competências transversais, oferecendo modelos de trabalho flexíveis de forma a promover o bem-estar e a produtividade no trabalho.

A partir do momento em que os profissionais se sentem ouvidos, reconhecidos e com perspetivas de evolução, o setor torna-se naturalmente mais atrativo.

 

Qual o papel da inovação tecnológica (IA, automação, digitalização) na evolução da carreira de contabilista?

A tecnologia desafia o contabilista certificado a evoluir, eliminando tarefas repetitivas e simplificando os processos, bem como a inteligência artificial que vem facilitar análises mais rápidas e rigorosas. O futuro da tecnologia na contabilidade não deve ser interpretado como uma ameaça, mas sim como uma oportunidade para valorizar e fortalecer a profissão.

Isto permite que o profissional se concentre no que realmente acrescenta valor, ou seja, facilidade na interpretação de dados, aconselhamento, apoio à gestão e planeamento estratégico.

A tendência que se verifica é que assistimos cada vez mais a uma maior abertura à inovação e à utilização de ferramentas digitais, o que é um sinal muito positivo. Há profissionais que já dominam bem ferramentas de automação e análise de dados, no entanto há ainda os que se estão a adaptar a esta nova realidade e a precisar de reforçar a sua literacia digital. Para as novas gerações, esta integração tecnológica torna a profissão mais moderna, estimulante e alinhada com o futuro.

 

Como fazer com que os jovens sintam que a contabilidade é uma carreira com futuro?

Os jovens já sentem isso, ainda há pouco tive a oportunidade de o referir e exemplificar. A profissão de contabilista é cada vez mais reconhecida como uma carreira sólida, versátil e com múltiplas possibilidades de especialização. Áreas como Auditoria, Fiscalidade, Controlo de Gestão, Análise de Dados e Consultoria Empresarial oferecem um vasto leque de oportunidades para os profissionais qualificados. Trata-se de uma disciplina que alia o rigor técnico à inovação tecnológica e à relevância social, desempenhando um papel central no funcionamento e na sustentabilidade das organizações e do nosso país. Esta é uma carreira que não só proporciona estabilidade, como também permite uma evolução natural para funções de maior responsabilidade e liderança.

 

Como pode o setor da contabilidade contribuir mais ativamente para a literacia financeira?

O setor da contabilidade tem naturalmente responsabilidade acrescida neste campo, uma vez que lida diariamente com informação financeira e económica. A literacia financeira depende muito de iniciativas de formação para empresas e utilizadores da informação, simplificando conceitos complexos e ajudando a interpretar dados.

A presença nas escolas e universidades é também um passo fundamental, uma vez que permite sensibilizar os mais jovens da realidade em que vivemos.

 

Recentemente  celebrou-se o Dia Mundial da Poupança, que mensagem deixaria aos portugueses?

A ideia principal a reter é que poupar é garantir liberdade e ter mais flexibilidade no futuro.

Não se trata de sacrifício, mas de equilíbrio. Pequenos gestos, mantidos com consistência, fazem toda a diferença. Quanto mais cedo criarmos hábitos financeiros saudáveis, como controlar despesas, definir objetivos e separar uma parte do rendimento, maior será a segurança e tranquilidade ao longo da vida.

 

Sensibilizar jovens para literacia financeira pode ajudar a atrair talento para a área?

Sim, sem dúvida. Quando as crianças e os jovens compreendem cedo como funciona o dinheiro, a economia e as empresas, ganham natural curiosidade sobre áreas ligadas à gestão e à contabilidade. Além disso, percebem o valor social da profissão reforçando a ideia de que o papel do contabilista como parceiro, é cada vez mais essencial nas organizações e no país.
Ao aproximá-los destes temas de forma prática, estamos também a abrir portas para que descubram uma área profissional com grande relevância e oportunidade de futuro.

 

Quais são os principais desafios e oportunidades para a profissão hoje?

O avanço digital não deve ser interpretado como uma ameaça, mas sim como uma oportunidade para valorizar e fortalecer a profissão. Ele está a transformar a contabilidade, e cabe-nos tirar o melhor partido dessas mudanças. Um dos grandes desafios passa por reduzir a carga burocrática, que irá permitir ao contabilista libertar-se de tudo o que é redutor na sua relação com as organizações e integrar a tecnologia de forma eficaz. A digitalização dos processos é uma oportunidade que vem possibilitar a análise de dados, a importância crescente da sustentabilidade e a necessidade das empresas de terem informação financeira cada vez mais fiável e atempada.

O contabilista pode assumir um papel ainda mais estratégico, sendo uma peça central na gestão e na tomada de decisões.

 

Que mensagem deixaria aos jovens que estão a escolher o seu caminho profissional?

Diria que a contabilidade é uma carreira com enorme potencial de crescimento. É uma profissão que contribui diretamente para o sucesso das empresas e por conseguinte para a saúde económica do país. É uma carreira de futuro e, acima de tudo, uma carreira com propósito, que permite a quem se adaptar ser ainda mais valorizado.

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Revista Pontos de Vista Edição 146

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