“O legado que a Histórias Felizes aspira deixar é profundo”

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No mês em que celebramos o Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, a Revista Pontos de Vista destaca mulheres que, pela sua visão e coragem, estão a redefinir o futuro da liderança em Portugal. Entre elas está Susana Lamego, cuja trajetória é um testemunho poderoso de como a experiência pessoal pode transformar-se numa missão social com impacto profundo. O projeto nasceu de um momento de vulnerabilidade familiar que iluminou uma realidade silenciosa: a solidão e a fragilidade emocional que afetam muitos idosos hospitalizados e no domicílio. Foi assim que surgiram A História Não Acabou e a marca Histórias Felizes: como resposta humanizada, científica e profundamente empática às necessidades da população sénior.

Como nasceu o projeto A História Não Acabou e, em particular, a marca Histórias Felizes?

A História Não Acabou, Lda. nasceu de uma experiência profundamente transformadora e de uma tomada de consciência sobre uma realidade invisível para muitos.

Em 2018, acompanhei a minha mãe no seu percurso hospitalar, após uma queda, e constatei uma realidade que não conhecia: a de que a maioria dos idosos hospitalizados se encontram sozinhos. Verificar a recorrência desta vulnerabilidade, e já estando sensibilizada para as angústias existenciais de alguns séniores em farmácia comunitária, fez-me querer mudar esta realidade. As Histórias Felizes são, no fundo, o resultado dessas experiências.

Após a hospitalização da minha mãe, inscrevi-me como voluntária num hospital da minha zona de residência e, dois anos depois, inscrevi-me no Mestrado de Gerontologia Social, onde pude aprender mais sobre o envelhecimento e me debrucei sobre o problema de base que encontrava ao balcão da farmácia.

 

O que motivou a criação de um serviço focado em cuidados personalizados para a população sénior?

A motivação pessoal para este projeto prende-se com a constatação diária desta realidade através da atividade profissional como farmacêutica, confrontando-me com a sensação de impotência no alívio do sofrimento psicológico dos utentes mais velhos. Muitos séniores partilhavam comigo sentimentos de solidão, falta de propósito e angústias existenciais que iam muito além das suas necessidades de saúde física.

A marca Histórias Felizes materializa esta filosofia, reconhecendo que cada sénior possui uma história única, rica em experiências, sabedoria e valor. O projeto surgiu da identificação de uma lacuna no setor: a necessidade de cuidados que fossem além das necessidades físicas básicas, integrando a dimensão emocional, espiritual e o respeito pela identidade individual de cada pessoa mais velha.

 

A empresa apresenta como pilares o Respeito, Empatia e Confiança. Como se traduzem estes valores no dia a dia da prestação de cuidados?

Os nossos valores não são apenas palavras bonitas num website. São a base de tudo o que fazemos diariamente. O Respeito manifesta-se no reconhecimento da autonomia de cada sénior. Nós não decidimos por eles, decidimos com eles. Ouvimos ativamente as suas preferências, valorizamos as suas decisões e preservamos a sua dignidade em todos os momentos do cuidado. Cada pessoa tem uma história de vida única e isso merece ser respeitado.

A Empatia vai muito além de ser simpático. É a capacidade de compreender verdadeiramente as emoções, os medos e as necessidades que muitas vezes não são verbalizadas. Os nossos colaboradores são formados para estabelecer conexões genuínas. Não oferecemos apenas cuidados técnicos, oferecemos presença humana, suporte emocional. É estar ali, verdadeiramente presente.

A Confiança constrói-se dia após dia, através da consistência, da transparência e da competência profissional. Estabelecemos relações duradouras com as famílias e com os séniores, criando um ambiente onde se sentem seguros, protegidos e valorizados. E isso não se conquista de um dia para o outro, é um trabalho contínuo.

 

De que forma garantem que cada Sénior é tratado de forma única e adaptada às suas necessidades individuais?

Utilizamos um software de gestão de cuidados de saúde, especializado em apoio domiciliário, para desenvolver planos de cuidados verdadeiramente individualizados. Consideramos não apenas as necessidades clínicas, mas também as preferências pessoais, as rotinas que cada pessoa tinha, a sua história de vida, os seus objetivos. Cada plano é co-construído com o sénior e a família, respeitando sempre a vontade de permanecer em casa e adaptando-se continuamente às necessidades em evolução. Fazemos avaliações regulares que nos permitem ajustar as intervenções, garantindo que continuam pertinentes e eficazes.

 

O que distingue o vosso modelo de cuidado em relação a outras entidades do setor?

A nossa diferenciação única reside numa combinação de fatores. Primeiro, os nossos cuidados domiciliários são baseados em evidência científica sobre o Sentido da Vida. Não é apenas intuição, é conhecimento fundamentado. Depois temos o serviço “Herança de Histórias”, que é único no mercado. Criamos livros personalizados que preservam as memórias e histórias de vida, promovendo um legado intergeracional. É algo que vai muito além do cuidado físico.

Temos uma abordagem verdadeiramente holística que integra as dimensões física, emocional, social e espiritual. Pretendemos que cada idoso possua um forte Sentido na Vida, porque sabemos que isso faz toda a diferença na qualidade de vida.

 

Que competências e qualidades considera essenciais para integrar a equipa da Histórias Felizes?

Obviamente temos requisitos técnicos mínimos: escolaridade ao nível do secundário ou 9º ano, experiência em geriatria e registo criminal limpo. Mas o que realmente procuramos vai muito além disso.

Procuramos pessoas com dedicação e paixão genuína pelo cuidado de pessoas mais velhas. Não basta fazer bem o trabalho tecnicamente, é preciso gostar verdadeiramente de estar com os séniores. Procuramos empatia e capacidade de estabelecer relações significativas. Procuramos resiliência emocional, porque este trabalho é emocionalmente exigente e é preciso saber lidar com situações desafiantes sem perder o equilíbrio.

É fundamental o compromisso com os nossos valores de Respeito, Empatia e Confiança. E claro, capacidade de trabalho em equipa e comunicação eficaz, porque ninguém trabalha sozinho nesta área.

 

Como promove a motivação e o bem-estar dos colaboradores que, muitas vezes, lidam com situações emocionalmente exigentes?

Temos um plano de formação contínua muito robusto. Inclui formação psicossocial para gestão emocional e prevenção de burnout, porque sabemos que este trabalho pode ser muito desgastante. Oferecemos formação técnica em saúde, equipamentos e práticas atualizadas, para que se sintam sempre competentes e seguros. E trabalhamos o desenvolvimento de competências relacionais.

Mas o que considero mais inovador é o nosso sistema de avaliação multidirecional. Os clientes avaliam o serviço, numa lógica bottom-up. A direção técnica avalia os colaboradores e a gerência. Os colaboradores avaliam a direção técnica e a gerência. E a gerência avalia a direção técnica. Este sistema promove transparência, reconhecimento e melhoria contínua. Cria uma cultura organizacional de verdadeira valorização e desenvolvimento profissional.

 

Que tipos de apoio domiciliário oferecem e como se adapta cada plano às necessidades específicas de cada Cliente?

Oferecemos um leque muito completo de serviços. Nos cuidados pessoais, fazemos higiene corporal, apoio na alimentação, mobilizações e transferências, administração de medicação. Temos enfermagem básica, com monitorização, cuidados pós-operatórios, gestão de medicação.

Fazemos apoio doméstico, que inclui limpeza, preparação de refeições, manutenção do lar. Mas também temos uma forte componente de apoio psicológico e social: companheirismo, atividades recreativas, suporte emocional, combate à solidão. Isto é fundamental.

E temos serviços especializados como terapia ocupacional, fisioterapia, consultas de enfermagem, e a preparação individualizada de medicação, o PIM, que é muito importante para evitar erros e garantir adesão terapêutica.

 

Que papel desempenham as famílias no desenho e acompanhamento do serviço de cuidados?

As famílias são parceiras ativas em todo o processo de cuidado. Não são espetadores. Participam desde o início no desenho do plano de cuidados. São consultadas sempre que precisamos fazer adaptações e ajustes.

Têm acesso a informação e orientação sobre serviços sociais disponíveis. E recebem apoio emocional e formação para melhor cuidarem dos seus familiares. Porque sabemos que cuidar de um familiar idoso é desafiante, e queremos apoiar as famílias nesse processo.

Como avaliam a eficácia e satisfação dos serviços prestados no domicílio?

Administramos inquéritos de satisfação três vezes por ano. Avaliamos a qualidade do serviço, o preço, o desempenho da equipa, recolhemos reclamações e sugestões. Fazemos uma avaliação contínua da qualidade de vida, da funcionalidade e da satisfação com o suporte social, o que nos permite fazer ajustes personalizados.

 

Qual a importância do Centro de Convívio na estratégia da empresa?

Infelizmente, o Centro de Convívio ainda não está ativo. Estamos a enfrentar algumas dificuldades no seu planeamento e instalação, o que tem atrasado a concretização deste projeto. Mas quero deixar claro que continua a ser um objetivo muito forte para nós, porque acreditamos profundamente no seu valor.

O Centro de Convívio representa uma resposta estratégica ao combate da solidão e do isolamento social, que são problemas muito sérios na população sénior. É uma prioridade nossa promover o envelhecimento ativo, saudável e inclusivo. E isto alinha-se perfeitamente com as diretrizes da Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável e com o Plano Municipal para o Envelhecimento Ativo, Saudável e Inclusivo de Sintra. Não desistimos deste sonho.

 

O setor dos cuidados a Séniores tem sofrido muitas transformações. Que tendências mais relevantes identifica neste momento?

Há várias tendências que considero muito relevantes. O envelhecimento no lugar, o Ageing in Place, é cada vez mais valorizado. Os séniores querem permanecer nas suas casas e isso é legítimo. Os cuidados centrados na pessoa, com abordagens holísticas que consideram todas as dimensões do ser humano, estão a ganhar força.

A integração da espiritualidade é algo que me é muito caro. O reconhecimento do Sentido da Vida como fator essencial de qualidade de vida está finalmente a ser valorizado. E a intergeracionalidade, programas que promovem troca de saberes entre gerações, são cada vez mais importantes.

 

Como integram tecnologia ou metodologias inovadoras sem perder o foco na relação humana?

Utilizamos o software de gestão de cuidados para gestão eficiente de planos de cuidados, agendamento e comunicação com famílias. Mas a tecnologia é sempre um meio, nunca um fim. Nunca pode substituir o contato humano.

O serviço “Herança de Histórias” exemplifica perfeitamente esta filosofia. Utilizamos ferramentas digitais para organizar e produzir os livros, mas o coração do serviço reside nas entrevistas pessoais, na escuta ativa e na valorização das histórias de vida. Cada projeto envolve cerca de 30 horas de dedicação humana. É tempo, é presença, é conexão.

 

Que desafios continuam por ultrapassar no campo da humanização dos cuidados?

Enfrentamos vários desafios. A perceção de valor é um grande problema. As famílias têm dificuldade em perceber o valor do apoio domiciliário e muitas vezes preferem lares de idosos, mesmo quando o sénior quer ficar em casa. O custo dos serviços também é um desafio. Como empresa privada sem comparticipação do estado, os nossos preços são elevados para muitas famílias.

Há uma falta de respeito pela vontade real do idoso em permanecer em casa. Muitas vezes a decisão é tomada pela família sem considerar verdadeiramente o que o sénior quer. Os estereótipos negativos sobre o envelhecimento persistem na sociedade. E temos dificuldade em encontrar recursos humanos com competências técnicas e humanas equilibradas. Não é fácil encontrar pessoas com ambas.

 

Na sua perspetiva, qual tem sido o impacto social da Histórias Felizes na comunidade onde atua?

A Histórias Felizes tem contribuído de várias formas significativas. Promovemos a dignidade, permitindo que os séniores permaneçam nas suas casas, mantendo a sua autonomia e identidade. Isto é fundamental.

Preservamos memórias. O serviço “Herança de Histórias” cria legados significativos para as gerações futuras. Transmitimos identidade familiar e queremos ajudar os mais novos a compreender o seu próprio processo de envelhecimento. É um trabalho de continuidade.

Apoiamos as famílias, aliviando a sobrecarga de cuidadores informais e oferecendo orientação especializada. Estamos a contribuir para uma mudança de paradigma, demonstrando que é possível envelhecer com qualidade, propósito e felicidade no domicílio.

E contribuímos para o desenvolvimento local, criando emprego qualificado e estabelecendo parcerias com entidades de saúde como a ADSE, Cruz Vermelha, clínicas médicas, centros de fisioterapia, farmácias… Somos parte da comunidade.

 

Como tem sido a sua experiência enquanto CEO de um projeto com tamanha responsabilidade social?

Liderar a Histórias Felizes representa uma responsabilidade social profunda e um privilégio. É um exercício diário de equilíbrio entre a sustentabilidade empresarial e a missão social de proporcionar Conforto, Dignidade e Felicidade. Não é fácil, mas é profundamente gratificante.

A minha experiência é enriquecida pela formação académica em Ciências Farmacêuticas e Gerontologia Social, que me permite tomar decisões baseadas em evidência científica, não apenas em intuição. E pela paixão genuína pelo bem-estar dos séniores, que é o que me move todos os dias.

Que competências considera fundamentais para liderar uma organização dedicada ao cuidado humano?

A empatia organizacional é fundamental. É preciso ter capacidade de compreender e responder às necessidades de clientes, famílias e colaboradores. Todos eles. Ter uma visão estratégica com propósito social, alinhando objetivos empresariais com impacto social positivo, é essencial.

O conhecimento técnico e científico em gerontologia, saúde e gestão é a base. A resiliência e gestão emocional são cruciais para lidar com situações complexas mantendo o equilíbrio. É preciso capacidade de inspirar, de motivar a equipa em torno de valores partilhados. E transparência e ética para construir confiança através de práticas íntegras.

 

Quais são as prioridades estratégicas da A História Não Acabou / Histórias Felizes para os próximos anos?

Planeamos um crescimento sustentável para 24 clientes nos próximos 12 meses. Vamos focar a nossa ação no concelho de Sintra, por razões logísticas. A expansão geográfica é uma prioridade: queremos expandir para todo o distrito de Lisboa nos próximos 2 anos.

Precisamos melhorar o nosso posicionamento no Google Ads e fortalecer as parcerias com entidades de saúde. E queremos continuar a desenvolver parcerias institucionais com outras entidades do setor da saúde.

 

Planeiam ampliar serviços, abrir novos Centros ou apostar em novas áreas de atuação?

Estamos a considerar o desenvolvimento de novos serviços, como programas específicos de estimulação cognitiva, atividades intergeracionais e workshops de preparação para a reforma. E estamos a pensar na possível criação de programas de formação para cuidadores informais, para partilhar o nosso conhecimento.

 

O que gostaria que fosse o legado da Histórias Felizes para a sociedade?

O legado que a Histórias Felizes aspira deixar é profundo. Queremos uma sociedade que valoriza os seus séniores, reconhecendo-os como portadores de sabedoria, história e contributos essenciais. Um novo paradigma de cuidado, onde o Sentido da Vida é tão importante quanto a saúde física, e onde cada pessoa envelhece com dignidade, propósito e felicidade.

Queremos famílias conectadas através de gerações, com memórias preservadas e histórias transmitidas, fortalecendo a identidade e coesão familiar. Profissionais inspirados e valorizados, que encontram significado no cuidado humano e são reconhecidos pela sua dedicação.

E uma comunidade mais inclusiva e empática, onde o envelhecimento é celebrado como continuação da história de vida, não como um fim. Porque a história não acabou. Continua todos os dias.

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Revista Pontos de Vista Edição 146

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