A celebração do Dia Europeu do Antibiótico, assinalado a 18 de novembro, constitui uma oportunidade para refletir sobre um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI: a utilização indiscriminada de antibióticos e o consequente aumento da resistência antimicrobiana que, como veremos a seguir, pode ser um caminho sem saída. Este problema continua profundamente enraizado no quotidiano clínico e social, especialmente durante as estações de Outono e Inverno, quando as infeções respiratórias virais aumentam significativamente e se toma, por hábito ou desinformação, inadequadamente antibióticos.
Quantos de Nós não conhecemos pessoas que julgam precisar de antibióticos nestas situações, e sistematicamente tentam procurar um médico para tal?
De facto, os antibióticos não têm qualquer eficácia contra vírus, mas continuam a ser solicitados por muitos utentes e, em alguns casos, ainda prescritos por profissionais de saúde pressionados pelo tempo, pela insistência dos doentes ou pelo receio de “não fazer o suficiente”. Este comportamento resulta num consumo excessivo e desnecessário, contribuindo diretamente para o desenvolvimento de microrganismos resistentes, que deixam de responder a tratamentos habituais e obrigam ao uso de antibióticos mais fortes, mais dispendiosos e com mais efeitos adversos.
Que tipo de erros são habitualmente cometidos na utilização dos antibióticos?
Um dos erros mais usuais é a duração incorreta da toma. Muitos doentes interrompem o antibiótico assim que se sentem melhor, portanto muito antes de concluírem o esquema terapêutico recomendado. Este abandono precoce permite que as bactérias sobreviventes, e que são as mais resistentes, se multipliquem de novo, perpetuando a infeção e aumentando o risco de resistência.
Da mesma forma, a autoadministração de antibióticos “que sobraram da última vez”, sem indicação médica, alimenta o uso desajustado de substâncias antibióticas que podem não ser adequadas ao tipo de infeção ou utilizados nas doses necessárias.
Mas são só os doentes (utilizadores) que têm responsabilidade?
A responsabilidade não recai apenas sobre os doentes.
Os profissionais de saúde têm um papel central na educação, prescrição responsável e comunicação eficaz. Devem ser claros ao explicar que a maioria das infeções respiratórias de Outono/Inverno são virais, orientando o doente para medidas de alívio, como sejam a hidratação, controlo da febre e repouso, reservando os antibióticos apenas para situações com critérios clínicos bem definidos.
Que consequências têm para a sociedade?
No plano populacional, o uso inadequado de antibióticos tem consequências sérias a médio e longo prazo.
A resistência antimicrobiana reduz a eficácia das terapêuticas atualmente disponíveis, aumentando a mortalidade por infeções anteriormente simples, prolongando internamentos hospitalares e elevando custos de saúde.
Estima-se que, nas próximas décadas, infeções resistentes possam tornar-se uma das principais causas de morte no mundo, ultrapassando alguns tipos de cancro.
Sem antibióticos eficazes, procedimentos tão comuns como cirurgias, tratamentos oncológicos, hemodiálise ou cuidados intensivos tornam-se extremamente arriscados.
Apelo, pois a que faça a sua parte; informe-se devidamente e não tome antibióticos sem a orientação de um profissional de saúde; médico, farmacêutico ou enfermeiro, entre outros.


