Arquiteta paisagista e cofundadora da Play Planet, Milva Maggioni é uma voz incontornável no cruzamento entre design, inclusão e espaço público. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, partilha o percurso, a visão e os valores que deram origem a uma empresa criativa, ousada e profundamente centrada nas pessoas.
O que a motivou, em 2010, a fundar a Play Planet?
Antes de fundar a Play Planet, em 2010, trabalhei dez anos numa empresa onde desempenhei funções de diretora do departamento de mobiliário urbano e paisagismo. As minhas atuais sócias, Mafalda Antunes e Ana Correia, faziam já parte dessa equipa, assim como outras colaboradoras que continuam hoje connosco e que acompanharam a Play Planet desde os seus primeiros dias. Foi um período de enorme aprendizagem técnica e profissional, sem dúvida, mas também de grande exigência pessoal.
Apesar dos excelentes resultados alcançados de forma consistente ao longo dos anos, o nosso departamento nunca conseguiu libertar-se de uma visão redutora e profundamente desigual, frequentemente tratado internamente como “o departamento das meninas”. Inseridas numa cultura claramente misógina, enfrentávamos diferenças salariais significativas face a colegas homens em funções equivalentes, condições de trabalho desiguais e episódios recorrentes de falta de respeito que hoje seriam impensáveis, mas que à época eram tolerados.
Tínhamos uma pequena equipa, mas com resultados muito acima da média, frequentemente superando os objetivos definidos no início do ano, ao ponto de estes serem revistos e aumentados a meio do exercício. Ainda assim, o reconhecimento, os meios e a valorização nunca acompanharam esse desempenho. Em termos pessoais, chegámos a um ponto de total esgotamento, depois de tentadas, sem sucesso, todas as vias possíveis para alcançar paridade, respeito e reconhecimento profissional.
Em paralelo, existia também uma forte vontade de crescimento e afirmação profissional. No meu caso particular, sentia a necessidade de concretizar ideias e visões que vinha a desenvolver há anos, muitas delas já partilhadas internamente, mas sistematicamente desvalorizadas ou ignoradas. A principal passava por criar equipamentos e soluções feitas por medida, que aliassem função, inovação e um design cuidado e premium, preenchendo uma lacuna clara num mercado dominado por soluções tradicionais, repetitivas e descontextualizadas.
Enquanto arquiteta paisagista, acreditava — e continuo a acreditar — numa abordagem verdadeiramente holística ao espaço público. Não se tratava apenas de desenhar ou vender equipamentos, mas de pensar o espaço como um todo: a relação entre o desenho, o uso, os percursos, os pavimentos, os materiais, o conforto, a segurança e a forma como as pessoas vivem e se apropriam desses lugares. A Play Planet nasce também dessa ambição de fazer verdadeiro paisagismo aplicado aos espaços de fruição, criando ambientes completos, com projetos arrojados e distintos, onde os equipamentos, os pavimentos inovadores e as soluções técnicas são parte integrante de uma visão coerente e centrada nas pessoas.
A fundação da Play Planet marca, assim, um ponto de viragem claro: a vontade de criar uma empresa com outra cultura, outra ambição e outro olhar sobre o design, o espaço público e o papel do brincar — não como um elemento isolado, mas como parte essencial da qualidade de vida, da inclusão e da relação das pessoas com o território.
Como descreveria a essência e a visão da Play Planet após 16 anos de atividade?
A essência da Play Planet mantém-se profundamente fiel àquilo que esteve na sua origem. Continuamos a querer criar espaços de qualidade, inovadores, com respeito pelo ambiente e, acima de tudo, pelas pessoas que deles usufruem. Ao longo destes 16 anos, essa visão não se diluiu; pelo contrário, foi-se aprofundando, ganhando consistência, maturidade e maior alcance.
Em cada projeto que abraçamos procuramos inovar e surpreender pela positiva, criando espaços intemporais, com identidade, história, sumo, corpo e alma. Não acreditamos em soluções neutras ou descartáveis. Acreditamos em lugares que se constroem com significado, que dialogam com o contexto, que envelhecem bem e que continuam a fazer sentido ao longo do tempo.
Somos, antes de mais, uma empresa criativa, com uma enorme abrangência disciplinar. Atuamos na arquitetura paisagista, no desenho industrial e na engenharia de equipamentos — sejam eles infantis, desportivos, de mobiliário urbano, esculturas ou instalações artísticas —, mas também no desenvolvimento de identidade corporativa e de marca, através do nosso departamento de design de comunicação e gráfico. A isto soma-se a componente construtiva, onde procuramos integrar técnicas inovadoras nos processos de obra e desenvolver soluções próprias, nomeadamente ao nível de pavimentos e revestimentos, sempre com um olhar atento à durabilidade, segurança e impacto ambiental.
A inclusão é um pilar absolutamente central da nossa forma de pensar e projetar. Não a encaramos como um tema acessório ou como uma resposta pontual a um requisito específico, mas como um princípio base, integrado por defeito em todas as nossas criações. Projetar espaços verdadeiramente inclusivos significa desenhar para a diversidade humana, para diferentes idades, capacidades, ritmos e formas de apropriação do espaço — e isso é indissociável da qualidade do projeto.
Após 16 anos, a visão da Play Planet é clara: continuar a criar espaços de fruição pensados para as pessoas, onde o design, a técnica, a paisagem e a sensibilidade social se cruzam de forma coerente, responsável e criativa.
Quais foram os principais marcos e momentos de crescimento da Play Planet ao longo destes 16 anos?
O percurso da Play Planet é marcado por um crescimento construído de forma muito orgânica, assente mais na determinação, na criatividade e na capacidade de trabalho do que em meios ou apoios externos. Começámos literalmente do zero. Antes mesmo de conseguirmos alugar o espaço que viria a funcionar como o nosso primeiro escritório, começámos a trabalhar todas juntas na sala da minha casa. Éramos apenas seis mulheres, a tentar lançar uma empresa sem estrutura, sem recursos, sem rede de segurança — mas com algo absolutamente fundamental: muita amizade, confiança mútua e uma enorme vontade de fazer diferente.
Pouco depois, alugámos uma antiga garagem de automóveis, que transformámos no nosso primeiro escritório, com uma sala de reuniões improvisada e uma pequena copa. No início não tínhamos sequer internet – preparávamos propostas e documentos e íamos enviá-los da rua, encostadas à janela do café da frente, aproveitando a sua rede Wi-Fi, cuja palavra-passe conhecíamos. Não tínhamos plano B. Éramos uma equipa reduzida, sem rede de apoios, mas com uma convicção muito forte no projeto que estava a nascer.
Um dos primeiros grandes marcos surge logo em 2011, com menos de um ano de empresa, quando aceitámos o desafio de projetar e construir o Live Beach, em Mangualde. Tratava-se de uma obra de enorme complexidade: uma praia artificial com restaurante, edifício VIP, bares de praia, lojas, receção, parque infantil, zonas concessionadas, uma grande piscina com painel panorâmico, jardins e toda a envolvente, tudo para ser concebido e executado em apenas 90 dias. À época, todos consideraram o desafio impossível — menos nós, claro. Aceitámo-lo porque acreditávamos profundamente na capacidade, na energia e na resiliência da equipa. Foi um projeto de conceção/construção extremamente exigente, mas também fundador da nossa identidade. Costumamos dizer que, depois dessa experiência, nada mais nos assusta: tudo passou a parecer possível e simples.
Outro momento absolutamente estruturante foi o lançamento da marca Play in Art®, em 2013, já num segundo escritório, também alugado, e com uma equipa um pouco mais alargada, embora ainda muito reduzida face à dimensão atual da empresa. Este lançamento marcou uma viragem clara, permitindo-nos afirmar uma linguagem própria, mais artística e autoral, e foi decisivo para a internacionalização da Play Planet. A partir daí, começámos a desenvolver peças e projetos tanto para Portugal como para o estrangeiro, dando um salto qualitativo e criativo que nos abriu novas geografias e novos públicos.
Nesse mesmo período, outro sinal importante de maturidade e consolidação foi o reinvestimento consciente na própria estrutura da empresa. Em 2013, adquirimos o nosso escritório em São Domingos de Benfica, no Alto dos Moinhos, em Lisboa, marcando a passagem de uma fase de adaptação permanente para uma etapa de maior estabilidade e afirmação. Mais tarde, em 2017, esse percurso foi reforçado com a aquisição do complexo de armazéns e da unidade industrial no Montijo, criando as condições físicas e operacionais para sustentar o crescimento da Play Planet, aumentar a capacidade produtiva e integrar de forma mais eficiente as áreas de criação, produção, armazenamento e logística. Estes investimentos refletiram uma aposta clara no futuro da empresa, no seu património e na sua autonomia.
Ao longo dos anos seguintes, a internacionalização tornou-se um eixo natural do crescimento da Play Planet, com projetos em países como os Emirados Árabes Unidos, Austrália, Angola ou Turquia, levando ideias, conceitos e soluções desenvolvidas em Portugal para contextos culturais e territoriais muito distintos. Em paralelo, em território nacional, projetos em grandes centros comerciais — como o Colombo ou os Alegro de Setúbal e Alfragide — marcaram o início de uma nova abordagem aos espaços comerciais, mais orientada para o lazer, a experiência e o público familiar, antecipando o conceito de shopping entertainment.
Outro marco determinante no amadurecimento da empresa foi a conquista de autonomia ao nível da construção. Nos primeiros anos, essa componente era subcontratada. A partir de 2016, começámos a investir de forma consistente nesta área, inicialmente com equipas próprias de montagem, equipamentos e manutenção, e mais tarde com técnicos especializados de construção civil. Hoje, essa evolução permite-nos assumir internamente todo o tipo de trabalhos, desde construção e requalificação até pavimentos, revestimentos e pinturas, garantindo maior controlo de qualidade, coerência de execução e uma integração total com a visão do projeto.
O crescimento da equipa acompanhou este percurso de forma sustentada e responsável, passando de uma estrutura muito pequena para uma equipa multidisciplinar capaz de responder a projetos cada vez mais complexos, em Portugal e além-fronteiras. Olhando para trás, cada um destes marcos reflete não apenas crescimento, mas sobretudo uma forma muito própria de estar: começar com pouco, confiar profundamente umas nas outras, afirmar-se num setor tradicionalmente muito exigente, arriscar quando ninguém arriscava, aprender com cada desafio e construir, passo a passo, um caminho sólido, coerente e diferenciado.
Que papel tem a cultura interna da empresa — incluindo a abordagem multidisciplinar da equipa — no sucesso dos vossos projetos?
A cultura interna da Play Planet tem um papel absolutamente central no sucesso dos nossos projetos. Desde o primeiro dia que a empresa nasce com uma base profundamente multidisciplinar, e essa caraterística nunca se perdeu. Começámos por ser uma equipa com valências muito distintas — arquitetura paisagista, engenharia agronómica, matemática aplicada, ergonomia, marketing — e cada uma de nós trouxe consigo um universo de conhecimento próprio, que alargou fronteiras, questionou certezas e abriu novas formas de olhar para os problemas e para as soluções.
Essa diversidade permitiu, desde cedo, cruzar abordagens muito diferentes e complementares: da minha parte, uma visão mais conceptual, criativa e orientada para o desenho, para o risco e para a inovação, aliada a uma forte exigência técnica; do lado das minhas sócias, uma enorme capacidade de estruturar processos, garantir rigor, tratar a logística, a documentação e toda a componente operacional e administrativa que sustenta os projetos. Este equilíbrio entre visão, ambição e estrutura foi — e continua a ser — absolutamente determinante para o sucesso da Play Planet.
Ao longo dos anos, esta cultura foi-se consolidando e expandindo, integrando novas valências fundamentais para o crescimento da empresa, como o design de produto, o design gráfico e a engenharia civil, mas também reforçando uma forte componente operacional, com equipas de obra, encarregados, técnicos de instalação de equipamentos e pavimentos, todos com saberes muito específicos e um papel determinante na concretização dos projetos.
Mais do que olhar para currículos ou percursos formais, na Play Planet focamo-nos sobretudo no que cada pessoa aporta, no que é capaz de fazer e, acima de tudo, na vontade que demonstra em aprender, evoluir e assumir responsabilidades. Nunca fui particularmente guiada por um CV. Ao longo dos anos, integrámos pessoas que desempenhavam funções pouco técnicas, como por exemplo nas limpezas, e que hoje assumem responsabilidades relevantes dentro da empresa. O que nos interessa é identificar qualidades, potencial e atitude, mais do que centrar-nos nas oportunidades que cada pessoa teve, até então, para expor essas capacidades.
Temos várias pessoas na equipa com percursos de crescimento interno muito claros, que encontraram na Play Planet um espaço para desenvolver competências, ganhar confiança e evoluir profissionalmente. Essa lógica aplica-se também à inclusão de pessoas com deficiência. Ao longo do nosso percurso, tivemos e temos colaboradores com deficiência na equipa, incluindo um técnico de construção que trabalha connosco há cerca de dez anos e que é surdo. Para nós, o foco está sempre nas capacidades das pessoas — nunca nas suas incapacidades.
No final, esta diversidade de percursos, saberes e experiências aporta um valor imenso aos projetos que desenvolvemos. A multidisciplinaridade e a inclusão permitem-nos olhar para os mesmos temas a partir de ângulos diferentes, enriquecer as soluções e criar espaços mais completos, mais humanos e mais ajustados à complexidade real das pessoas e dos lugares para os quais projetamos.
A Play Planet é conhecida pela criatividade e soluções personalizadas em design de espaços de brincar. Como equilibra arte, funcionalidade e segurança nos vossos projetos?
Nos nossos projetos partimos sempre de um princípio muito aberto: no início, nada é rejeitado. Começamos por assumir que tudo é possível. Construímos uma ideia-base e, a partir daí, vamos consolidando esse conceito por camadas, vestindo-o de possibilidades, acrescentando materiais, funções, detalhes, adereços e significados. Esse processo criativo é livre numa primeira fase, mas assenta num saber acumulado muito sólido. Ao fim de 16 anos, há fatores que já estão profundamente interiorizados na forma como pensamos e desenhamos — a segurança, a funcionalidade e a durabilidade fazem parte da “carga genética” dos nossos projetos.
Trabalhando maioritariamente para o espaço público e para zonas recreativas e de lazer, destinadas a serem usufruídas por pessoas de todas as idades e com diferentes capacidades, a integridade estrutural e a segurança absoluta são inegociáveis. Desde o primeiro esboço, os nossos projetos de conceito já incorporam essa preocupação, não como um constrangimento à criatividade, mas como parte integrante dela.
Ainda assim, numa fase posterior, já em projeto de execução, todas as soluções passam por um segundo crivo técnico, muito mais apertado, onde cada detalhe é revisto com foco na segurança, na resistência e na viabilidade construtiva. Não corremos riscos nesta matéria. Preferimos sempre pecar por excesso do que por defeito. Por exemplo, sempre que é identificado um perfil mínimo para o desenvolvimento de uma determinada estrutura, optamos deliberadamente por utilizar um perfil superior, reforçando não só a segurança, mas também a durabilidade e o comportamento a longo prazo das peças.
Toda a equipa da Play Planet passa por formação interna contínua e, sempre que necessário, por formações externas, nomeadamente no que respeita à legislação e às normas aplicáveis às nossas criações, incluindo certificações específicas como a Safe2Play. Para além disso, somos uma empresa certificada ISO 9001 e ISO 14001, o que significa que todos os nossos processos são organizados, documentados, controlados e permanentemente avaliados.
Esse enquadramento permite-nos equilibrar arte, funcionalidade e segurança de forma natural. A criatividade não é sacrificada pelo rigor técnico; pelo contrário, é sustentada por ele. É assim que garantimos que cada projeto que entregamos reúne qualidade, inovação e expressão criativa, mas também segurança, durabilidade, responsabilidade ambiental e respeito absoluto por quem vai usufruir desses espaços.
A inclusão é um valor central nos vossos projetos (ex.: LINC — Laboratório de Inclusão). Pode descrever como a Play Planet integra princípios de acessibilidade e inclusão nos espaços?
Para a Play Planet, a inclusão é algo intrínseco e absolutamente não negociável. Infelizmente, continua a ser um tema porque ainda não é respeitado como algo obrigatório, quer do ponto de vista moral, quer do ponto de vista legal. Se hoje alguém propusesse criar um espaço apenas para meninas ou apenas para meninos, isso seria imediatamente considerado inaceitável e discriminatório. No entanto, quando desenhamos espaços onde algumas crianças — ou algumas pessoas — ficam de fora, continuamos a aceitar isso como normal. E isso também é discriminação.
Estamos ainda muito longe de um cenário em que a inclusão seja um dado adquirido, automático, integrado por defeito em todos os projetos. No entanto, todos somos, mais cedo ou mais tarde, destinatários da inclusão. Seja porque engravidamos, porque adoecemos, porque sofremos um acidente ou simplesmente porque envelhecemos. Numa sociedade cada vez mais envelhecida, onde felizmente a longevidade aumenta, surgem naturalmente limitações motoras, receios de queda, perdas de visão ou audição, alterações cognitivas. O problema não são estas incapacidades — o problema é o espaço público não estar preparado para as acomodar. Isso não é uma limitação individual; é falta de planeamento, de civismo e, acima de tudo, de humanidade.
Muitas vezes, a consciência para a inclusão surge a partir de um “gatilho” pessoal — alguém próximo, um familiar ou amigo com deficiência, que torna o tema real, urgente e impossível de ignorar. No meu caso, esse gatilho foi o meu tio-avô, Jaime Magalhães Filipe, engenheiro pioneiro da engenharia de reabilitação em Portugal, que dedicou grande parte da sua vida e dos seus inventos a melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência. Foi, acima de tudo, um humanista. Através dele, aprendi aquilo que deveriam ser conceitos básicos para todos: reconhecer que estas pessoas existem, que fazem parte integrante da sociedade e que têm exatamente os mesmos direitos.
Foi com esta visão que criámos o LINC — Laboratório de Inclusão, um grupo de trabalho que reúne a equipa da Play Planet e consultores externos, como terapeutas ocupacionais, psicólogos, pessoas com deficiência — incluindo pessoas cegas e surdas —, entre outros especialistas. Este laboratório permite-nos cruzar conhecimento técnico com experiência vivida, algo absolutamente essencial quando se pretende projetar espaços verdadeiramente inclusivos.
No âmbito deste trabalho nasceu também a linha Jaime Filipe, uma linha declaradamente inclusiva da Play in Art®, que dediquei ao meu tio-avô. Mais do que criar equipamentos ou projetos “adaptados”, o nosso objetivo é desenvolver soluções inclusivas de raiz, pensadas para todos, reunindo a experiência profissional e pessoal de quem participa neste processo. Queremos fazer sempre os melhores projetos inclusivos possíveis, conscientes de que a inclusão não é um extra, nem uma exceção — é uma responsabilidade coletiva e uma medida real da qualidade de uma sociedade.
Que tendências em design de espaços recreativos e urbanos vê emergir para a próxima década?
As principais tendências que observamos para a próxima década, sobretudo no período pós-pandemia, apontam claramente para uma maior proximidade com a natureza e para uma relação mais consciente com o espaço público. Há um despertar crescente para temas como a sustentabilidade, o bem-estar e a necessidade de ambientes mais saudáveis, menos artificiais e mais humanos.
Do ponto de vista estético e material, isso traduz-se num regresso a linguagens mais naturais. Materiais que durante algum tempo foram preteridos por exigirem maior manutenção, como a madeira, voltaram a ocupar um lugar central nas preferências das pessoas. Se antes os pedidos recaíam sobretudo sobre metais, HPL ou soluções muito industrializadas — pela sua resistência e baixa manutenção —, hoje há uma procura clara por materiais mais quentes, orgânicos e próximos da natureza. Observamos uma valorização crescente de madeiras naturais, como a robínia, peças naturalmente torneadas e esculpidas, em detrimento de soluções demasiado processadas, laminadas ou excessivamente tratadas.
Existe também uma atenção muito maior aos pavimentos, com uma procura crescente por soluções mais drenantes e permeáveis, que respeitem o solo, contribuam para uma melhor gestão da água e reduzam o impacto ambiental dos espaços construídos.
Curiosamente, num contexto em que as crianças estão cada vez mais expostas à tecnologia, a incorporação de componentes tecnológicas nos espaços de brincar deixou de ser uma novidade ou um fator diferenciador. Pelo contrário, há hoje uma clara valorização de soluções que promovam o movimento, o estímulo físico, a mobilidade, o jogo livre e a interação com o corpo e com o espaço, funcionando quase como um contraponto ao excesso de ecrãs.
Dito isto, é fundamental abordar estas tendências com espírito crítico e informação sólida. Existe o risco real de cair numa lógica de “gato por lebre”, em que muitos produtos são vendidos como sustentáveis sem o serem verdadeiramente. O simples facto de um produto ser em madeira não o torna automaticamente mais sustentável. Em muitos casos, implica tratamentos frequentes, maior perecibilidade, ciclos de vida mais curtos e, consequentemente, mais desperdício.
A verdadeira sustentabilidade passa por escolhas informadas, por soluções de maior qualidade e maior ciclo de vida, independentemente dos materiais utilizados. O desafio para os próximos anos será precisamente esse: criar espaços mais naturais, mais permeáveis e mais próximos da natureza, sem abdicar da durabilidade, da segurança e da responsabilidade ambiental real, para além do discurso
Qual tem sido o impacto da Play Planet em comunidades locais — em Portugal e no estrangeiro?
O impacto da Play Planet nas comunidades onde intervém manifesta-se de formas muito diferentes, mas há um denominador comum que sentimos tanto em Portugal como no estrangeiro: o reconhecimento da qualidade do trabalho, do rigor profissional e do envolvimento genuíno com cada projeto, independentemente da sua escala ou localização.
Trabalhamos sempre com a mesma entrega, seja num pequeno parque de proximidade ou num projeto internacional de grande complexidade. Esse empenho reflete-se não apenas no resultado final, mas também em todo o processo — na forma como escutamos, acompanhamos, explicamos, formamos e apoiamos as equipas locais. Muitas vezes, o impacto não está apenas no espaço construído, mas na relação que se cria com quem vai viver, gerir e cuidar desses lugares.
Ainda muito recentemente, recebemos uma mensagem de um cliente no Kuwait que ilustra bem esse impacto. Para além de elogiar o resultado do projeto, destacou o profissionalismo, a dedicação da equipa e o apoio contínuo ao longo de todo o processo, incluindo as fases de formação e acompanhamento pós-instalação. Esse tipo de retorno é particularmente significativo para nós, porque confirma que o nosso trabalho vai muito além da entrega de um equipamento ou de um espaço: cria confiança, capacita pessoas e deixa conhecimento instalado.
Em contexto local, sentimos frequentemente que os nossos projetos transformam espaços antes subutilizados ou descaraterizados em verdadeiros pontos de encontro, onde diferentes gerações convivem, onde as crianças brincam com segurança, onde as famílias permanecem e onde o espaço público ganha nova vida. Em contexto internacional, o impacto passa também por levar uma determinada forma de pensar o design, a inclusão e o espaço público, adaptando-a a culturas, climas e realidades sociais muito distintas, sempre com respeito pelo contexto local.
No fundo, o maior impacto da Play Planet está talvez na consistência: na forma como somos reconhecidos pela seriedade, pela criatividade aliada ao rigor e pela dedicação total a cada projeto. Saber que o nosso trabalho é valorizado pelas comunidades e pelas equipas com quem colaboramos, cá e fora, é um dos maiores indicadores de que estamos no caminho certo.
Quais são os maiores desafios que a empresa enfrenta hoje e como os está a abordar?
Um dos maiores desafios que a Play Planet enfrenta hoje está relacionado com aquilo a que costumo chamar as “dores do crescimento”. A empresa cresceu muito nos últimos anos, não apenas em volume de projetos, mas também em equipa, responsabilidades e complexidade operacional. Esse crescimento implica um investimento contínuo em pessoas, meios, equipamentos e estrutura, acompanhado de uma enorme pressão para garantir sustentabilidade financeira, qualidade e coerência em tudo o que fazemos.
Outro desafio estrutural prende-se com o facto de operarmos a partir de um país pequeno, com um mercado interno limitado, muito competitivo e, muitas vezes, pouco informado. Em Portugal, continua a existir uma forte tendência para a valorização do preço mais baixo em detrimento da qualidade, da durabilidade, do ciclo de vida dos produtos e do respeito pela propriedade intelectual. Isso cria espaço para soluções pouco cuidadas, cópias de projetos originais e propostas que sacrificam materiais, segurança e longevidade, sem uma verdadeira reflexão sobre o impacto a médio e longo prazo.
Gerir este contexto exige da nossa parte uma enorme capacidade de resistência e de afirmação de valores. Temos optado por responder não entrando em lógicas de corrida para o fundo, mas reforçando aquilo que nos distingue: qualidade, inovação, rigor técnico, responsabilidade e uma visão de longo prazo. Continuamos a apostar em soluções bem pensadas, duráveis e coerentes, mesmo quando isso implica explicar melhor, educar o cliente e, por vezes, recusar projetos que não se alinham com estes princípios.
No plano internacional, o desafio passa também pela localização geográfica e pelo enquadramento económico do país. Estar na extremidade da Europa, num contexto em que as pequenas e médias empresas têm poucos apoios efetivos à internacionalização, obriga-nos a assumir praticamente sozinhos todos os custos de presença em feiras internacionais, promoção externa e abertura de novos mercados. Enquanto noutros países existem políticas ativas de apoio às empresas — desde incentivos diretos à participação em eventos internacionais até estratégias concertadas de promoção externa —, em Portugal esse esforço recai quase sempre exclusivamente sobre as próprias empresas.
Por fim, existe um desafio crescente relacionado com a escassez de mão de obra especializada. A expansão de unidades produtivas, o aumento da capacidade de fabrico ou a assunção de compromissos internacionais de maior escala dependem da existência de recursos humanos qualificados, algo que nem sempre é fácil de garantir no contexto atual. Este fator obriga-nos a crescer de forma responsável e ponderada, investindo na formação interna e ajustando expetativas à realidade disponível.
Em resposta a todos estes desafios, a Play Planet tem procurado crescer com consciência, mantendo os seus valores, investindo nas pessoas, apostando na diferenciação pela qualidade e pela criatividade, e construindo um caminho sólido, mesmo quando o contexto externo é adverso. Preferimos um crescimento mais exigente e sustentável a curto prazo, mas coerente e robusto a longo prazo.
Olhando para o futuro, que metas e sonhos tem para a Play Planet nos próximos cinco a dez anos?
O meu principal desejo para os próximos cinco a dez anos é que a Play Planet se afirme, de forma cada vez mais clara, como aquilo que sempre foi a sua essência: uma empresa profundamente criativa. Durante muito tempo fomos rotuladas quase exclusivamente como uma empresa de parques infantis, quando, na realidade, isso é apenas uma pequena parte do que fazemos hoje.
A Play Planet funciona, na prática, como uma grande agência criativa, com capacidade para atuar em múltiplas escalas e áreas. Desenvolvemos projetos de excelência no âmbito do Design & Build, onde concebemos e construímos espaços de raiz, mas também trabalhamos na criação de marcas, identidades, logótipos e mascotes. Exemplos disso são projetos como a criação da marca OH!, o desenvolvimento do Gulas, mascote da Comunidade Intermunicipal do Ave com uma forte componente de sensibilização para a sustentabilidade, ou a Missão Galileu, um espaço privado de festas em Braga, onde o conceito, a narrativa e a experiência foram pensados de forma integrada.
Gostava de poder potenciar ainda mais esta veia criativa da Play Planet, explorando novas parcerias com empresas e entidades que partilhem os mesmos valores, no sentido de acrescentar valor através da soma de criatividade, conhecimento e visão. Vejo-nos a colaborar no desenvolvimento de novas linhas de produtos, mas também na criação de soluções inovadoras e sustentáveis, que cruzem design, funcionalidade, narrativa e impacto social.
Em paralelo, ambiciono que a empresa continue a consolidar-se como uma estrutura sólida, consistente e sustentável, tanto em Portugal como no estrangeiro. Um crescimento que não seja apenas quantitativo, mas sobretudo qualitativo, mantendo a identidade, a coerência e os valores que nos trouxeram até aqui.
No fundo, o sonho é simples e exigente ao mesmo tempo: continuar a fazer projetos com significado, criatividade e propósito, expandindo horizontes, aprofundando impacto e afirmando a Play Planet como uma referência criativa, responsável e inovadora no desenho de espaços, experiências e marcas.
Que aprendizagens pessoais destacaria durante estes 16 anos de liderança?
Ao longo destes 16 anos aprendi, antes de mais, que nada é garantido e que nada é imutável. Tudo se transforma. Aquilo que hoje está no topo pode amanhã já não ter interesse ou relevância. Os mercados acompanham as modas, os contextos políticos, as mudanças do tempo e até os estados de alma coletivos. Essa consciência ensinou-me a importância de estar permanentemente alerta, de manter a mente aberta e a capacidade de ver mais além, sem nunca assumir que algo está definitivamente conquistado.
Aprendi também o valor da resiliência. A capacidade de não desistir, mesmo quando o caminho é exigente ou incerto, e de continuar a avançar mesmo quando os resultados não são imediatos. A liderança, sobretudo em contextos criativos, pede persistência, mas também confiança no processo e no tempo.
Ao mesmo tempo, aprendi a importância da empatia. Ser empática ajudou-me a compreender melhor as pessoas, os contextos e os momentos, mas também a perceber quando é necessário dar um passo atrás para ganhar perspetiva. Recentrar objetivos, observar de fora, ajustar o rumo e fazer escolhas mais conscientes. Muitas vezes, avançar implica primeiro saber parar, escutar e reposicionar.
Aprendi que se aprende verdadeiramente todos os dias. Que evoluir é um processo contínuo e que não devemos ter medo de mudar, de experimentar, de arriscar e de crescer. Essa disponibilidade para aprender e reinventar-se é, para mim, uma das maiores forças de quem lidera.
Hoje, acima de tudo, acredito na importância de escolher o que nos acrescenta. Pessoas, ideias, projetos e caminhos que nos inspiram, que nos desafiam de forma positiva e que nos fazem crescer. A filosofia que me guia é simples: avançar com curiosidade, empatia e entusiasmo, mantendo sempre viva a vontade de criar, de aprender e de construir algo melhor.
Que conselho daria a jovens profissionais de design e arquitetura paisagista que querem inovar no setor?
O primeiro conselho que daria é muito simples: enviem o vosso CV para a Play Planet. Nós valorizamos verdadeiramente quem quer trabalhar, quem o faz de coração, com vontade, responsabilidade e, sobretudo, com brio profissional. O brio é essencial. Não basta querer inovar; é preciso querer fazer bem, com cuidado, com exigência e com respeito pelo trabalho — o próprio e o dos outros.
Inovar também implica errar, aprender com esses erros e ter a capacidade de reintegrar o que se aprendeu nas criações seguintes. É assim que o conhecimento se consolida e que a experiência ganha corpo. Não existe inovação sem tentativa, sem falha e sem persistência.
Diria também para acreditarem em Portugal e no seu potencial. Apesar de todas as dificuldades, as oportunidades existem. Nós começámos do zero, sem rede, sem apoios, e hoje somos uma empresa de referência no nosso setor. Isso prova que é possível crescer em Portugal. Não apenas no design ou na arquitetura paisagista, mas em qualquer área, desde que exista uma boa dose de loucura saudável, coragem, resiliência e uma atitude proativa.
Quando estamos a começar, temos muito pouco a perder. Por isso, arrisquem. Lutem. Corrijam. Voltem a arriscar. Aprendam pelo caminho e não desistam à primeira dificuldade. O percurso constrói-se passo a passo.


