Num tempo em que as carreiras deixaram de ser linhas retas para se tornarem percursos de sentido, propósito e impacto, Guida Leal de Sousa surge como um exemplo claro de maturidade profissional consciente. Com mais de 25 anos de experiência em liderança, gestão financeira e coordenação de equipas a nível nacional, a sua trajetória reflete uma evolução sólida, marcada pela exigência, resiliência e capacidade de adaptação. Hoje, numa nova fase como Consultora Estratégica, Guida assume que os novos tempos pedem novas prioridades: menos foco na ascensão formal e mais na relevância, no equilíbrio e na capacitação de pessoas e organizações. Nesta entrevista, partilha o “clique” que a levou a redefinir rumos, a importância do autoconhecimento na gestão de carreira e a sua visão sobre liderança consciente, mentoria e legado — numa conversa que inspira quem procura alinhar sucesso profissional com humanidade e propósito.
Poderia fazer uma breve síntese da sua trajetória profissional até hoje — quais foram os marcos mais importantes que a definiram?
A minha trajetória profissional é marcada por uma evolução contínua, como a maior parte das pessoas. Comecei muito nova como professora de matemática, o que me deu a base pedagógica para a formação, e transitei para o mundo financeiro e de gestão, onde fui Diretora Administrativa e Financeira. O marco mais recente foi o percurso de onze anos, com funções de coordenação de equipas e projetos de uma marca, a nível nacional.
Chegou a um ponto da sua carreira em que sentiu necessidade de redefinir prioridades e repensar rumos. O que foi esse “clique”? Pode descrever esse momento de viragem?
Após 25 anos em funções de liderança intensas, o “clique” surgiu em meados de 2024. Percebi que, para continuar a crescer com qualidade, precisava de uma paragem estratégica para descansar e redefinir o foco do meu impacto. Foi o reconhecimento de que a minha ambição e resiliência precisavam de um novo veículo, mais alinhado com a consultoria e o desenvolvimento de pessoas.
Quais foram os principais desafios (internos e externos) que sentiu ao longo deste percurso, antes de decidir mudar o rumo ou rever prioridades?
O principal desafio externo foi gerir o crescimento exponencial de uma rede, num mercado altamente competitivo. Internamente, o desafio foi manter o equilíbrio entre a objetividade necessária para alcançar objetivos e a sensibilidade exigida na gestão de recursos humanos e mediação de conflitos.
Hoje, como define seu propósito profissional e pessoal? Esse propósito mudou com tempo? Se sim — de que forma?
O meu propósito hoje é capacitar líderes e organizações através da minha experiência acumulada em gestão, finanças e desenvolvimento humano. Se antes o propósito era construir estruturas, hoje é sustentar e elevar as pessoas que as compõem.
Como avalia sua identidade enquanto mulher, líder/empreendedora e profissional experiente nesta fase da sua vida? O que mudou nessa autoimagem?
Vejo-me como uma profissional madura, que combina a precisão técnica financeira com a empatia da liderança. Deixei de ser apenas a gestora de resultados para ser a mentora estratégica que compreende que o sucesso financeiro é indissociável do bem-estar das equipas.
Que valores guiam atualmente as suas decisões de carreira e de vida?
Os valores que guiam as minhas decisões nesta fase de maturidade profissional são integridade, responsabilidade, autonomia e lealdade.
Que medos, resistências ou incertezas surgiram quando pensou em redefinir sua carreira — e como os superou?
A transição de uma posição de topo consolidada para a disponibilidade para novos desafios traz sempre incertezas. Superei-as apoiando-me na minha formação sólida e na confiança de que a minha visão holística do negócio é um ativo diferenciador.
O que para si significa “sucesso” agora, aos 40/50+ (ou na maturidade de carreira)? Essa visão difere muito da que tinha no início da sua trajetória?
Hoje, sucesso é ter a liberdade de escolher projetos onde possa aplicar o meu know-how com impacto real. No início, o sucesso era a ascensão e a afirmação; agora, é a relevância e o equilíbrio.
Quais são as suas expetativas e ambições para esta nova fase como Consultora Estratégica? O que gostaria de construir, aprender, contribuir, criar?
Pretendo contribuir para a profissionalização de diretores executivos e de equipas, utilizando o meu domínio de estratégia, de negócio e de gestão financeira, para criar modelos de negócio robustos e líderes mais resilientes.
Na sua opinião, que papel a mentoria (ou coaching/aconselhamento) pode ter numa mudança de carreira consciente e alinhada com identidade e valores? Já experienciou isso diretamente? Como?
A mentoria é o catalisador que transforma experiência em sabedoria aplicada. Como mentora e consultora, vejo diariamente como o aconselhamento estratégico acelera o alinhamento de valores com os objetivos de negócio.
Que tipo de desenvolvimento pessoal (autoconhecimento, formação, soft skills, equilíbrio vida/trabalho…) considera essencial nesta fase da carreira?
Nesta fase, considero vital o domínio de soft skills como a Programação Neurolinguística (PNL) e o equilíbrio vida/trabalho, que foi o que me motivou a fazer a pausa recente.
Como imagina a “gestão de carreira” ideal — para si e/ou para quem assiste como mentora — num momento de transição? Que ferramentas ou estratégias considera fundamentais?
A ferramenta fundamental é o planeamento estratégico aplicado à própria vida. Como mentora, promovo a “contabilidade emocional”: avaliar regularmente se os nossos recursos (tempo e energia) estão a gerar o “lucro” (realização) esperado.
Quais são hoje as suas principais prioridades — a nível profissional, pessoal e emocional? E por que são essas?
As minhas prioridades principais são o bem-estar físico e mental, a partilha de conhecimento e a consultoria de alto nível em organizações inovadoras e credíveis. São estas, porque a maturidade ensina que só produzimos excelência, quando estamos em harmonia.
Como concilia (ou pretende conciliar) trabalho, vida pessoal e bem-estar neste novo ciclo? Que mudanças concretas já fez (ou planeia fazer)?
A minha paragem profissional foi o passo concreto para este novo ciclo. Agora em 2026, planeio selecionar projetos que permitam uma gestão de agenda mais autónoma, mantendo o dinamismo, mas respeitando sempre o descanso necessário.
Sentindo que já acumulou experiência e maturidade, o que considera essencial para manter motivação, propósito e realização daqui para frente?
O que me mantém motivada é a capacidade de gerar impacto tangível, na vida e nos negócios das pessoas. A minha maturidade permite-me identificar rapidamente onde está o obstáculo e ajudar a criar o ‘clique’ necessário para a mudança. Encontro realização, em aplicar a resiliência e objetividade que acumulei em 25 anos de liderança, para capacitar outros. Para mim, o sucesso agora é ver a evolução — desde a superação académica à excelência na gestão empresarial — sabendo que a minha experiência foi a ferramenta que permitiu essa evolução.
Que legado gostaria de deixar — para si, para quem a segue, para o mercado ou para a sociedade?
Gostaria de ser recordada como alguém que provou ser possível conciliar a determinação e o foco em resultados, com uma profunda humanidade. O meu legado, tanto para quem me segue como para o mercado, é a demonstração de que a liderança de sucesso não se faz apenas com métricas e gestão financeira, mas com a capacidade de inspirar e elevar as pessoas. Quero deixar um mercado mais consciente, onde a competência técnica e a empatia sejam vistas como forças complementares e não opostas.
Que mensagem daria a outras mulheres +40/50 (ou em transição) que sentem necessidade de reinventar-se ou redefinir carreira?
O vosso percurso é o vosso maior património. Aos 50 anos, temos a combinação perfeita de competência técnica — acumulada em décadas de prática — e inteligência emocional para liderar com serenidade. Não tenham medo de parar para redefinir o rumo; uma pausa não é um retrocesso, mas o balanço necessário para um salto mais consciente. Reinventar-se nesta fase não é começar do zero, é começar com uma base sólida de resiliência e objetividade que nenhuma formação teórica consegue substituir.
Como imagina o futuro da liderança feminina e do empreendedorismo consciente nas próximas décadas?
Imagino uma liderança mais consciente e transparente, onde a sustentabilidade dos negócios seja medida não só pelos números, mas pela saúde das relações e pelo desenvolvimento pessoal dos colaboradores.
Se pudesse voltar no tempo, dar um conselho à “Guida” de 20 ou 30 anos, o que diria?
Se pudesse falar com essa Guida, diria: ‘Acredita na força do teu trabalho. Essa dedicação que colocas na gestão e no ensino é o que te permitirá, aos 50 anos, ter a liberdade de escolher o teu próprio rumo. Estás a construir uma base técnica inabalável que, aliada à tua determinação, fará de ti uma líder capaz de simplificar o complexo e de inspirar equipas inteiras. Continua, porque cada desafio de hoje é o superpoder que terás amanhã para transformar a vida de muitos profissionais.’”
Quais são os seus sonhos profissionais e pessoais ainda por concretizar?
Nesta fase da minha vida, o meu foco central é a consolidação. Sinto que acumulei um património de conhecimento vasto e o meu grande sonho é agora projetar essa experiência num plano global.
No plano profissional: Quero ser a ponte que permite a outras organizações alcançarem a excelência, através de métodos que já testei e refinei ao longo de décadas.
No plano pessoal: A minha grande ambição é continuar a realizar-me através da mentoria. É profundamente gratificante sentir que o meu percurso serve não só de inspiração, mas como uma ferramenta prática e real para que outros profissionais possam desbloquear o seu potencial e concretizar os seus próprios sonhos.
Em suma, o meu sonho atual é transformar o sucesso que já alcancei num legado de capacitação para o mercado global.


