Abrimos o novo ano com uma escolha que é tudo menos aleatória na Revista Pontos de Vista. Sónia Melo, Private Chef nos Açores e fundadora do projeto Chez Sónia, é a nossa primeira personalidade em destaque de 2026 — num momento em que vida, carreira e propósito parecem alinhar-se com rara clareza. Entre a renovação do Quality Award – Escolha do Consumidor 2026, 2025 foi um ano de confirmação: da identidade do projeto, da força da relação criada à mesa e da confiança contínua dos clientes que reconhecem na sua cozinha muito mais do que técnica — reconhecem acolhimento, emoção e verdade. Nesta entrevista, falamos de percurso pessoal, de escolhas conscientes, dos desafios e conquistas que marcaram o último ano, mas sobretudo sobre identidade, maturidade e a arte de receber bem.
Antes de falarmos de gastronomia: como está a viver este novo ano de vida? O que significa para si celebrar este aniversário numa fase tão especial da sua carreira?
Estou a viver este novo ano de vida com mais consciência e serenidade. Celebrar este aniversário junto dos meus pais (que já não acontecia há 20 anos) e numa fase tão especial da minha carreira tem um significado profundo, porque coincide com um momento de confirmação: de quem sou, do caminho que escolhi e dos valores que quero preservar. É uma fase de colheita, sim, mas também de responsabilidade e gratidão. Mais do que celebrar conquistas, celebro a coerência entre a pessoa que sou e o trabalho que faço.
Que momentos mais marcaram o seu percurso pessoal e profissional em 2025?
2025 foi um ano muito intenso, vivido com muita entrega e também com algum cansaço bom — aquele que vem quando sabemos que estamos a dar tudo. Houve reconhecimentos, convites inesperados e momentos de grande gratidão, mas também decisões difíceis, tomadas com maturidade e silêncio.
Foi um ano que me obrigou a abrandar, a ouvir-me mais e a proteger aquilo que é essencial: a identidade do projeto, o meu equilíbrio pessoal e a verdade do trabalho que entrego.
Acima de tudo, confirmou-me que a autenticidade, tanto na vida como na cozinha, continua a ser o meu maior alicerce.
Como descreveria o ano de 2025 em três palavras?
Exigente, significativo e gratificante.
Quais foram os maiores desafios que enfrentou este ano no seu trabalho como Private Chef?
Gerir o crescimento sem perder identidade. Dizer “não” quando foi preciso, proteger o meu tempo e a qualidade do serviço.
E as maiores conquistas? Há algum momento particularmente marcante que queira destacar?
A maior conquista tem sido, sem dúvida, o reconhecimento contínuo dos clientes. O amor que depositam no meu trabalho, a confiança que demonstram e ver tudo isso refletido nos seus olhares, nas palavras e nos gestos mais simples. É aí que sinto que o meu trabalho tem impacto real nas pessoas — e isso vale mais do que qualquer prémio. Ainda assim, não posso deixar de reconhecer com alegria os dois reconhecimentos que recebemos, porque também são um reflexo dessa confiança e de todo o meu empenho. Houve uma frase de um cliente que levo para a vida e que me marcou profundamente (resume bem aquilo que procuro fazer): “Toda a gente pode saber cozinhar, mas nem todos sabem ser “hosts”.
Que aprendizagens leva de 2025 — tanto na cozinha como na gestão do seu projeto?
2025 ensinou-me que a simplicidade exige maturidade — na cozinha e na forma como se gere um projeto. Aprendi que menos pode ser muito mais quando há intenção, clareza e respeito pelo produto, pelas pessoas e por mim própria. Também confirmei que um projeto só cresce de forma verdadeiramente saudável quando respeita quem o constrói: o tempo, os limites, a energia e os valores de quem está por trás dele. Crescer não é fazer mais, é fazer melhor e com sentido.
O que representa para si a conquista e renovação do Quality Award da Escolha do Consumidor?
Representa, acima de tudo, confiança e continuidade. É a validação de um trabalho feito com consistência, verdade e proximidade ao longo do tempo. Saber que os clientes reconhecem esse esforço dá-me segurança para continuar fiel à identidade do projeto.
Como interpreta o facto de este prémio ser atribuído diretamente pelos consumidores?
Para mim, é o reconhecimento mais honesto que pode existir. Vem de quem vive a experiência de forma real, dentro das casas, à mesa, nos momentos que realmente contam. Não há filtros nem discursos — há vivência e sentimento.
Esta distinção traz mais responsabilidade? Como se prepara para corresponder às expetativas para 2026?
Traz, sem dúvida, uma responsabilidade acrescida. Obriga-me a manter o nível de exigência, a não facilitar e a evoluir com critério. Preparo-me investindo no detalhe, na escuta ativa dos clientes e numa melhoria contínua que respeite a essência do projeto.
Em que aspetos do serviço acredita que este reconhecimento mais reforça a identidade do projeto “Chez Sónia”?
Reforça aquilo que sempre esteve no centro do projeto: a atenção ao detalhe, a personalização de cada experiência e a relação humana que se cria à mesa. Mais do que pratos bem executados, trata-se de fazer as pessoas sentirem-se verdadeiramente acolhidas.
Como descreveria hoje a essência da sua cozinha? Há uma assinatura Sónia Melo?
A minha cozinha é emocional, honesta e profundamente ligada à memória. A assinatura está no respeito pelo produto e na história que cada prato conta.
O que diferencia uma experiência Chez Sónia de outros serviços de Private Chef?
Não vendo menus, crio experiências. Cada serviço é pensado para aquela casa, aquelas pessoas, aquele momento.
Há ingredientes, técnicas ou produtos açorianos que considera indispensáveis no seu trabalho?
Sim. O ananás dos Açores, o peixe fresco, a carne dos nosso belíssimos pastos, os laticínios, os produtos da terra. São a minha base e a minha identidade.
Que novidades pode revelar sobre 2026? Estão previstos novos menus, eventos temáticos ou experiências?
Não gosto muito de falar do futuro, porque acredito que o futuro é agora e prefiro deixar que o trabalho fale por si. Nem tudo depende apenas de planos, e gosto de ser prudente nas promessas. Ainda assim, posso dizer que estou a pensar em novas experiências gastronómicas e projetos ligados ao turismo gastronómico, sempre com algum secretismo — porque também faz parte do encanto.
Pretende reforçar a presença mediática ou criar conteúdos para o público?
Sim, com foco na partilha de conhecimento, histórias e cultura gastronómica.
Podemos esperar colaborações com outros chefs, produtores locais ou marcas regionais?
Sem dúvida! Sempre que fizer sentido e respeitar os valores do projeto.
Vai apostar em áreas como sustentabilidade, formação ou turismo gastronómico?
Sim. São áreas que considero essenciais para o futuro da gastronomia.
Como imagina o futuro da marca “Chez Sónia” nos próximos 2–3 anos?
Imagino a marca mais estruturada e consciente do seu lugar, mas sem perder o propósito que sempre a definiu. Vejo um crescimento mais seletivo, que privilegie a qualidade das experiências em vez da quantidade de serviços. Acima de tudo, um projeto ainda mais fiel à sua essência, aos seus valores e à forma como gosto de estar à mesa com as pessoas.
O que ainda ambiciona alcançar como Private Chef?
Ambiciono continuar a fazer sentido — para mim e para quem me escolhe. Crescer sem perder alma, sem me afastar daquilo que me trouxe até aqui: a verdade, a emoção e a ligação humana. Se conseguir continuar a criar experiências que ficam na memória das pessoas, então sinto que estou a cumprir o meu propósito.
Qual considera ser o maior desafio do setor gastronómico atualmente? E como pretende posicionar-se perante ele?
A banalização da experiência. Vivemos um tempo de excesso, de rapidez e de fórmulas repetidas. O meu posicionamento é precisamente o oposto: menos quantidade, mais significado. Acredito numa gastronomia com tempo, contexto e intenção, onde cada detalhe conta e cada experiência tem identidade.
Que mensagem deixa aos clientes, parceiros e comunidade que a tem acompanhado?
Deixo, acima de tudo, um profundo agradecimento. Obrigada por confiarem no meu trabalho, por regressarem e por valorizarem aquilo que é feito com verdade, tempo e intenção. Cada serviço é uma partilha, e nada disto faria sentido sem pessoas que reconhecem que estar à mesa é mais do que comer: é sentir-se acolhido, respeitado e cuidado. Essa confiança é a base de tudo o que faço.
E que desejo faz para este novo ano — pessoal e profissionalmente?
Desejo “tempo e saúde”, “equilíbrio” e “inspiração”. Tempo e saúde para continuar presente em cada experiência, equilíbrio para cuidar de mim e do projeto, e inspiração para continuar a receber bem — não apenas cozinhando, mas criando momentos onde as pessoas se sentem verdadeiramente em casa. Se conseguir continuar a ser uma boa “host”, no sentido mais humano da palavra, então estarei exatamente onde devo estar.


