Na rubrica Lusofonia da Revista Pontos de Vista, conversamos com Stelia Manjate, Diretora Geral, e Hernâni Lopes, Diretor Adjunto da Mainsol Energy Mozambique sobre a entrada estratégica da empresa no mercado moçambicano. Nesta entrevista, partilham a visão por trás da expansão da Mainsol para Moçambique, os desafios e oportunidades associados aos megaprojetos de GNL, bem como o compromisso da empresa com o desenvolvimento do conteúdo local, a transferência de conhecimento e a criação de valor sustentável para o ecossistema energético nacional.
O que motivou a Mainsol a escolher Moçambique como próximo território lusófono para expansão?
A escolha de Moçambique não foi apenas uma decisão de expansão, mas um passo estratégico natural e profundamente alinhado com a nossa visão. A motivação principal reside na convergência de três fatores críticos: a oportunidade de mercado sem precedentes, o alinhamento regulatório e a nossa identidade cultural.
Primeiro, os megaprojetos de GNL na Bacia do Rovuma representam uma das maiores transformações energéticas do continente. Estar presente neste momento é fundamental. Segundo, a legislação de conteúdo local em Moçambique cria um ambiente favorável para empresas genuinamente moçambicanas, como a nossa, que se comprometem com o desenvolvimento nacional.
Por fim, como empresa com raízes profundas em África e no espaço lusófono, entendemos as nuances culturais e de negócio, o que nos permite operar com uma eficácia que outros players internacionais dificilmente alcançam.
Quais são os principais objetivos que a Mainsol pretende alcançar com esta entrada no mercado moçambicano?
Os nossos objetivos são multifacetados e vão muito além do crescimento financeiro. O nosso principal objetivo é posicionar a Mainsol Energy Mozambique como a parceira de referência em serviços integrados para o setor energético moçambicano. Para isso, definimos três metas claras:
Crescimento Sustentável e Liderança de Mercado: Pretendemos capturar uma quota de mercado significativa, estabelecendo parcerias estratégicas com os principais operadores (Tier 1) e empresas de serviços.
Transferência de Conhecimento e Tecnologia: O nosso objetivo não é apenas prestar serviços, mas construir capacidade local. Iremos implementar programas de treinamento avançado e certificações internacionais (como OPITO e GWO) para desenvolver talentos moçambicanos.
Criação de Valor na Cadeia Local: Queremos ser um catalisador para o ecossistema empresarial moçambicano, desenvolvendo fornecedores locais e gerando empregos qualificados e sustentáveis.
Como carateriza o potencial de mercado em Moçambique para os serviços que a Mainsol oferece?
O potencial é imenso e diversificado. O epicentro da oportunidade está, sem dúvida, nos projetos de GNL, que demandam uma vasta gama de serviços, desde manpower especializado e consultoria HSE até procurement complexo e logística integrada. No entanto, a nossa visão vai além. Vemos oportunidades significativas em:
Infraestruturas de Suporte: Construção e manutenção de bases logísticas, campos de trabalho e outras infraestruturas essenciais.
Energias Complementares: À medida que o país se desenvolve, haverá uma crescente necessidade de diversificar a matriz energética, abrindo portas para projetos de energias renováveis onde a nossa expertise em gestão de projetos e manutenção será igualmente relevante.
Manutenção e Operações (O&M): Após a fase de construção, os projetos entrarão numa longa fase de operação e manutenção, que é um dos nossos core services.
A nossa abordagem de 4 pilares (Manpower & Training, Consultoria Técnica, Procurement & Logistics, e Serviços Adicionais) foi desenhada precisamente para capitalizar esta diversidade de oportunidades.
Quais foram os maiores desafios identificados até agora na entrada em Moçambique?
Como em qualquer projeto de grande escala, os desafios são inerentes. O maior desafio não é a burocracia ou a regulamentação – que consideramos parte do ambiente de negócios e estamos preparados para navegar – mas sim a gestão das expectativas e a garantia de execução com excelência desde o primeiro dia.
Os operadores internacionais têm padrões de qualidade e segurança extremamente elevados.
O nosso desafio é demonstrar, através da ação, que uma empresa 100% moçambicana não só cumpre, como excede esses padrões. Outro desafio é a competição com empresas internacionais já estabelecidas.
No entanto, a nossa vantagem competitiva reside precisamente na nossa identidade local, agilidade e profundo conhecimento do contexto africano, o que nos permite transformar este desafio numa oportunidade.
De que forma esta expansão vai impactar o core business da Mainsol?
Esta expansão não vai diluir o nosso core business; pelo contrário, vai fortalecê-lo e validá-lo a uma escala maior. O modelo de serviços integrados que foi aprimorado em Angola será agora aplicado e adaptado ao contexto moçambicano.
O impacto será positivo, pois a experiência em Moçambique irá gerar novas aprendizagens, otimizar processos e enriquecer o nosso portfólio com estudos de caso de megaprojetos de GNL.
A principal adaptação será a customização dos nossos programas de treinamento e desenvolvimento de conteúdo local para responder às necessidades específicas da indústria de gás em Moçambique.
Existem áreas específicas de serviços que serão mais relevantes em Moçambique?
Sim, sem dúvida. Embora todos os nossos 4 pilares sejam relevantes, prevemos uma procura inicial mais acentuada em três áreas:
Manpower & Training: A necessidade de mão de obra qualificada e certificada para os projetos de GNL é imediata e massiva. A nossa capacidade de recrutar, treinar e gerir grandes equipas será um diferencial crítico.
Consultoria Técnica e HSE: Com os elevados padrões de segurança dos operadores, a consultoria em HSE, gestão de risco e compliance será fundamental.
Procurement & Logistics: A complexidade da cadeia de abastecimento para os projetos em Cabo Delgado exige um parceiro logístico robusto e com experiência, capaz de gerir desde o sourcing global até à entrega last-mile.
Como a Mainsol planeia integrar conhecimento e competências locais no novo mercado?
Este é o coração da nossa estratégia. A integração de competências locais não é uma opção, é o nosso modelo de negócio. Planeamos fazê-lo através de uma abordagem tripla:
Programas de Formação e Certificação: Estabelecer um centro de treinamento de classe mundial em Moçambique, com certificações internacionais, para capacitar técnicos e engenheiros locais.
Parcerias com Instituições Locais: Colaborar ativamente com universidades e institutos técnicos moçambicanos para desenvolver currículos alinhados com as necessidades da indústria e criar programas de estágio e mentoria.
Desenvolvimento de Fornecedores Locais: Implementar um programa para identificar, capacitar e integrar pequenas e médias empresas moçambicanas na nossa cadeia de valor, ajudando-as a cumprir os padrões internacionais.
A entrada em Moçambique traz risco à consolidação já alcançada noutros mercados como Angola?
É uma preocupação legítima, e a nossa estrutura de gestão foi desenhada para mitigar esse risco. A Mainsol opera com uma estrutura de gestão descentralizada, onde cada país tem uma liderança local forte e autónoma, como a minha aqui em Moçambique. Esta liderança é responsável pelas operações e resultados locais, garantindo foco e qualidade.
Ao mesmo tempo, partilhamos um back-office centralizado para funções como finanças, tecnologia e estratégia global, o que garante a consistência dos padrões de qualidade e a partilha de melhores práticas. Desta forma, a expansão para Moçambique não só não dilui a qualidade, como beneficia de toda a experiência acumulada em Angola, enquanto Angola beneficia das novas aprendizagens que iremos gerar aqui.
De que forma a cultura corporativa da Mainsol será mantida e adaptada neste novo contexto?
A nossa cultura, baseada em Excelência, Integridade e Segurança, é o nosso ativo mais importante e não é negociável. A forma de a manter é através da liderança pelo exemplo. A minha presença aqui como Diretora Geral, juntamente com uma equipa de gestão local forte, garante que estes valores são vividos no dia a dia.
A adaptação virá na forma como aplicamos estes valores. Em Moçambique, isso significa um foco ainda maior no desenvolvimento comunitário e na transparência com todos os stakeholders, desde os operadores até às comunidades locais. A estrutura de liderança é 100% local para garantir que as decisões são tomadas com um profundo entendimento do contexto moçambicano.
Qual o papel da gestão multicultural e adaptação organizacional neste projeto de expansão?
É fundamental. O setor energético é, por natureza, global e multicultural. A nossa equipa de gestão combina experiência internacional com um profundo conhecimento local. O principal desafio é criar uma linguagem comum de trabalho que respeite as diferentes culturas empresariais – a dos operadores internacionais, a nossa (Mainsol) e a cultura de trabalho moçambicana. Superamos este desafio através de comunicação constante, treinamento intercultural e processos de trabalho claros e bem definidos. A nossa experiência em Angola, a trabalhar com uma vasta gama de nacionalidades, preparou-nos bem para este desafio.
Que valor acrescentado esta expansão trará à Mainsol como empresa?
Esta expansão é transformadora. O valor acrescentado é imenso:
Escala e Complexidade: Entrar no mercado de GNL, um dos mais exigentes do mundo, eleva as nossas competências e o nosso portfólio a um novo patamar.
Reconhecimento de Marca: Consolida a Mainsol como um player de referência em toda a África Austral, não apenas em Angola.
Acesso a Novos Clientes e Parcerias: Trabalhar com os consórcios de GNL abre portas para relações estratégicas com os maiores players energéticos do mundo.
Inovação: Os desafios técnicos e logísticos dos projetos em Moçambique irão forçar-nos a inovar constantemente em tecnologia, processos e modelos de serviço.
A presença em Moçambique abre portas para colaborações com outros players internacionais ou instituições do sector?
Absolutamente. Já estamos em fase de desenvolvimento de parcerias estratégicas. A nossa presença como empresa moçambicana certificada torna-nos o parceiro ideal para empresas internacionais que precisam de cumprir os requisitos de conteúdo local. Estamos a desenvolver colaborações com:
Grandes Empresas de Serviços Internacionais para sermos o seu braço de execução local.
Fornecedores de Tecnologia Especializada para trazermos as melhores soluções para o mercado.
Instituições Financeiras para criar modelos de financiamento para a nossa cadeia de fornecedores locais.
A ENH e o Governo Moçambicano para alinhar a nossa estratégia com os objetivos de desenvolvimento nacional.
Plataformas de Associativismo Económico como a AIMO – Associação Industrial de Moçambique, bem como o Bureau de Conteúdo Local, o braço operacional da CTA – Confederação das Associações Económicas de Moçambique.
Esta iniciativa pode potenciar uma estratégia de internacionalização mais ampla no espaço lusófono ou africano?
Sim, Moçambique é a peça-chave na nossa estratégia de nos tornarmos um hub regional de serviços energéticos para a África Austral. Depois de consolidarmos a nossa presença em Angola, Namíbia e Moçambique, os próximos passos lógicos seriam explorar oportunidades em países vizinhos quando tivermos resultados sólidos neste mercado – o nosso modelo é replicável e escalável. Moçambique é a prova de fogo que validará este modelo a uma escala de grandes projetos.
Que estratégias a Mainsol pretende implementar em Moçambique em termos de sustentabilidade e responsabilidade social?
A nossa abordagem à sustentabilidade é integrada no negócio, não um apêndice. As nossas estratégias incluem:
Desenvolvimento de Capital Humano: O nosso principal projeto social é a criação de empregos qualificados e o desenvolvimento de carreiras para moçambicanos através de formação e certificação.
Crescimento da Cadeia de Valor Local: Implementaremos um programa de desenvolvimento de PMEs locais, oferecendo capacitação técnica, acesso a financiamento e integração na nossa cadeia de fornecedores.
Sustentabilidade Ambiental: Adotaremos as melhores práticas internacionais em gestão de resíduos e eficiência energética nas nossas operações, e ajudaremos os nossos clientes a fazer o mesmo.
Impacto Comunitário: Iremos colaborar com as comunidades locais em Cabo Delgado para desenvolver projetos de impacto social nas áreas de educação e saúde, garantindo que o crescimento do setor energético beneficia a todos.
Como avalia o impacto desta operação no ecossistema empresarial local?
Avalio o nosso impacto como transformador e multiplicador. Não estamos a chegar a Moçambique apenas para prestar serviços; estamos a chegar para construir um ecossistema. O nosso impacto será sentido em três níveis:
Criação de Emprego Direto e Indireto: Iremos criar centenas de empregos qualificados diretamente, e milhares indiretamente através da nossa cadeia de fornecedores.
Transferência de Tecnologia e Conhecimento: Ao trazermos as melhores práticas e tecnologias internacionais e as adaptarmos localmente, estamos a elevar o padrão de toda a indústria em Moçambique.
Desenvolvimento Industrial: Ao capacitarmos e contratarmos PMEs locais, estamos a contribuir para a criação de uma base industrial moçambicana robusta e competitiva, capaz de servir o setor energético a longo prazo.
A nossa visão é que, daqui a 10 anos, a indústria de serviços energéticos em Moçambique seja liderada por empresas e profissionais moçambicanos, e a Mainsol terá orgulho de ter sido um dos principais catalisadores dessa transformação.


