Liderança, Visão e Rigor na Farmacovigilância Europeia

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Com uma carreira construída entre a ciência, a prática regulatória e a liderança de equipas em contextos internacionais exigentes, Cecília Antão da Silva afirma-se como uma referência na área da Farmacovigilância e Segurança do Doente. Bilingue desde muito jovem, formada pela Universidade de Lisboa e com experiência em organizações globais como a IQVIA e a Gilead, alia conhecimento técnico profundo a um estilo de liderança democrático, assente no diálogo, na meritocracia e na formação contínua. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, partilha os momentos decisivos do seu percurso, reflete sobre o papel das mulheres em áreas altamente reguladas e analisa as transformações que irão marcar a farmacovigilância europeia nos próximos anos.

Que momentos considera mais decisivos na sua trajetória até se afirmar na Farmacovigilância, e o que mais moldou o seu estilo de liderança?

Destaco três momentos determinantes no meu percurso na Farmacovigilânica. Ainda antes de entrar para a Universidade, já tinha concluído, aos 17 anos, estudos superiores de francês na Alliance Française – esse foi o primeiro momento. Ser bilingue em português e francês, dominando a escrita e a conversação com sotaque nativo permitiu-me conquistar o respeito dos clientes franceses, com as suas idiossincrasias, e comunicar de forma eficaz com pacientes, profissionais de saúde e colegas sedeados em França. O segundo momento é, sem dúvida, ter a Universidade de Lisboa como “alma mater” – ter feito a licenciatura na UL é um orgulho porque, para além dos sólidos conhecimentos de biologia e de química que ali adquiri, fez parte do meu crescimento enquanto mulher e cidadã, abriu-me novos horizontes e permitiu-me desenvolver o meu pensamento analítico e crítico. Ser capaz de analisar de forma rigorosa os chamados casos de farmacovigilância ou ICSRs (‘individual case safety reports’) e ter espírito crítico para saber distinguir o essencial do acessório são qualidades que fazem a diferença. O terceiro momento que me forneceu as bases do conhecimento técnico para singrar na farmacovigilância foi o meu trabalho como especialista em operações médicas para os mercados francês e britânico na IQVIA. Quanto a ser líder ou coordenadora de grupos creio que é algo inato. Identifico-me com um estilo democrático de liderança, assente no diálogo com todos os membros da equipa e na liberdade individual de escolha para obter os melhores resultados para a equipa. Diria que a melhor líder que tive foi a Diretora da equipa global de segurança do Reino Unido da Gilead: para além da sua inteligência e foco, a Sarah Lilley sabia em quem confiar, mantinha coesa a equipa e não hesitava em delegar responsabilidades quando necessário.

 

Ao longo das suas funções, destacou-se pela criação de rotinas, formação e mentoring. Como constrói equipas eficazes em ambientes de alto volume e pressão?

Essa é uma questão de um milhão de Euros! A eficácia de uma equipa só é avaliada quando os seus membros são sujeitos a fases de elevado volume de trabalho em que a pressão para obter rapidamente bons resultados atinge picos consecutivos. Essa pressão não é para todos e, nestes casos, funciona a lei da seleção natural: quem não aguenta, fica pelo caminho. Todavia, numa equipa coesa em que cada pessoa conhece bem as suas funções e tem maturidade suficiente para saber quais os seus próprios limites, dificilmente alguém fica para trás. Da mesma forma que eu tenho apostado e investido na minha aprendizagem e formação contínua, da minha equipa de 4-5 pessoas, haveria forçosamente valores e prioridades em comum. Essa equipa cumpre rotinas de trabalho que incluem obrigatoriamente ser pontual, dar retorno, e criar uma rede de contatos profissionais, disponibilizando-a a todos os membros. Saber manter essa rede exige dedicação e esforço diários e há que tratar os outros com respeito, amabilidade e sem bajulação. No fundo, como deveríamos todos ser tratados.

 

Na sua experiência, quais são hoje os principais obstáculos à progressão de mulheres para funções de liderança em farmacovigilância e áreas reguladas, e como podem ser ultrapassados?

Esta questão fez-me refletir muito… Penso que não há propriamente obstáculos visto que a maioria dos cargos de liderança em farmacovigilância e assuntos regulamentares são desempenhados por mulheres, especialmente em Portugal. São posições técnicas que, tradicionalmente, eram ocupadas por licenciadas em ciências farmacêuticas, mas que hoje já são desempenhadas por profissionais das ciências de vida, nomeadamente biólogas (como eu), químicas e bioquímicas. A haver algum obstáculo seria a falta de autoconfiança, resultado de décadas em que as mulheres foram relegadas para segundo plano e alvo de menorização por parte de colegas de ambos os sexos. É um facto que somos mais competitivas que os homens, o que condiciona o entendimento mútuo em equipas exclusivamente femininas. Por isso, diria que a nossa progressão enquanto líderes depende, principalmente de acreditarmos em nós próprias e na capacidade de estabelecer relações construtivas, enquanto membros da mesma equipa.

 

Como se promove meritocracia real em equipas multiculturais e multidisciplinares, com critérios claros de avaliação, feedback e evolução?

A meritocracia é um conceito relativamente recente no nosso país e resulta, felizmente, da abertura ao mercado internacional que nos proporcionou conhecer uma realidade diferente da portuguesa. Julgo que foi só na minha geração, a geração X ou ‘silver generation’, que a economia nacional deixou de ser liderada por grandes famílias cuja fortuna e apelido eram uma garantia de emprego e de ascensão profissional. A democracia veio baralhar as cartas e permitir a mudança, ainda que lenta, de mentalidades. Atualmente há muitas mulheres da classe média que, como eu, começaram a trabalhar durante a faculdade e foram acumulando experiência em diferentes áreas profissionais. Essa conquista foi recompensada financeiramente e algumas líderes femininas fundaram as suas empresas ou são consultoras na indústria farmacêutica. Houve mérito individual e, como a espécie humana age sobretudo por imitação, as gerações mais jovens querem também chegar ao topo e reconhecem que esse percurso só pode ser feito com regras do jogo bem definidas – formação, conhecimento sólido, desempenho, avaliação, retorno e desenvolvimento pessoal. Evidentemente, neste percurso, nem todos chegam, ou optam por não chegar, a posições de liderança. E está tudo bem – ‘il faut de tout pour faire un monde’…

 

O que considera decisivo para garantir qualidade e eficiência no case processing, desde a recolha de informação à submissão e fecho?

Há que começar por estudar o(s) medicamento(s) que faz(em) parte do ‘pipeline’ e os efeitos adversos descritos no RCM (Resumo das Características do Medicamento). Em seguida, compreender bem o funcionamento da plataforma informática onde se registam os dados. Cumprir os prazos de submissão, de acordo com as boas práticas de farmacovigilância é essencial, mas extrair a informação importante do relatório inicial de caso não é menos importante.

Considero que o seguimento do caso, ou seja, o contacto posterior com o repórter que notificou o caso, é determinante para obter dados de qualidade para submissão e rápido fecho do caso. Saber fazer as perguntas certas para conseguir obter a informação que, sem querer, o paciente ou o profissional de saúde não se lembra de transmitir, podem levar à deteção de sinais. Na prática, um sinal é um novo efeito adverso, não descrito na literatura existente e potencialmente grave, que pode comprometer a saúde dos pacientes e justificar uma nova regulamentação do medicamento. No pior dos cenários, o medicamento pode mesmo ser retirado do mercado por constituir um risco superior ao seu benefício.

 

Trabalhou com ferramentas como Veeva Vault Safety e Argus Safety. Que boas práticas ajudam a manter compliance, auditabilidade e produtividade?

Adoro aprender a trabalhar com novas plataformas informáticas! Já utilizei três e posso dizer que a Argus Safety é a mais adequada para a obtenção e análise de dados de farmacovigilância. No entanto, a plataforma Veeva Vault Medical reúne informação médica, medicamentosa e de farmacovigilância, o que permite evitar não-conformidades e obter dados mais robustos para análise. Mas como nem tudo são vantagens, visto que o processo de inserção de dados e narrativas médicas é mais moroso na Veeva Vault, a produtividade é maior com o uso de Argus Safety. Só passei por uma auditoria de farmacovigilância e com Argus Safety: foi um sucesso, não tendo sido identificada nenhuma não-conformidade.

 

Partilhou recentemente reflexões sobre a EMA Industry Platform e o que está a mudar na farmacovigilância na UE, incluindo o papel da IA. Que mudanças considera mais relevantes para 2026?

Uma das principais conclusões pós-reunião foi reconhecer que a digitalização dos serviços de saúde constitui um benefício para a saúde pública. Foi decidido ainda que a indústria terá um papel de liderança na disponibilização da informação eletrónica aos pacientes e profissionais de saúde. Isto faz todo o sentido porque a indústria tem o dever de melhorar o acesso à informação sobre os medicamentos, tornando-a mais simples e compreensível para todos. Quanto à farmacovigilância, em 2026, haverá mudanças extremamente relevantes e que estão descritas no documento EMA/370879/2025. Assim, os módulos das EU-GVP serão atualizados ao longo de todo o ano e alguns deles – módulos II (PSMF, Sistema Nacional de Farmacovigilância), IV (auditorias de farmacovigilância) e VI (Gestão e Notificação de Reações Adversas), estarão sujeitos a consulta pública. O módulo VI teve a sua última versão ainda antes da pandemia de COVID-19, pelo que estou curiosa em saber o que aí vem. Também em 2026, o Portal Web de Medicamentos Europeu (EMWP) dará um passo em frente, com a aposta na pesquisa exploratória e no design da experiência do utilizador.

 

Se tivesse de deixar uma mensagem final a mulheres que ambicionam liderar em áreas técnicas, que conselho prático partilharia para crescer com consistência e credibilidade?

Não sou muito adepta de dizer às pessoas o que devem fazer da sua vida, do mesmo modo que não gosto que me digam o que fazer da minha. Em termos gerais, desejo às outras que trabalhem no que as faz felizes. Trabalhar numa área técnica requer muito estudo, capacidade para comunicar com colegas mais experientes e estar ciente de que a tentativa-erro faz parte do processo de aprendizagem. Há que ser credível e consistente para se ser um(a) líder, todavia, também há que aceitar que falhar é parte importante do crescimento pessoal e profissional porque nos indica o caminho que não devemos tomar. Ou seja, como escreveu o poeta, “não sei para onde vou — sei que não vou por aí.”

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Revista Pontos de Vista Edição 146

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