Num contexto económico marcado pela crescente complexidade fiscal, pela aceleração tecnológica e por exigências cada vez maiores de transparência e rigor, a Contabilidade afirma-se como muito mais do que uma função de cumprimento legal — assume-se como um verdadeiro pilar da sustentabilidade e da governação das organizações. Mas o que faz, afinal, da Contabilidade uma profissão de futuro? Para refletir sobre esta questão, a Revista Pontos de Vista esteve à conversa com Daniel Rocha Cardoso, Contabilista Certificado e Fundador da FA Accounting & Management, que partilha uma visão clara e pragmática sobre a evolução da profissão, o papel estratégico do contabilista nas empresas e os desafios colocados pela inovação tecnológica, pela normalização contabilística e pela constante mutação do enquadramento fiscal.
Quais são, na sua opinião, os fatores que sustentam esta ideia?
A contabilidade é uma profissão de futuro porque acompanha a evolução económica, social e tecnológica das organizações. A crescente complexidade fiscal e regulamentar exige profissionais altamente qualificados, capazes de interpretar normas, garantir conformidade e transformar dados em informação de gestão. A digitalização trouxe mais exigência no controlo interno, na validação de processos e na transparência — fatores que reforçam a necessidade de intervenção do contabilista. As empresas dependem cada vez mais de informação rigorosa, tempestiva e contextualizada para sobreviver e crescer, e essa informação nasce na contabilidade. O papel do contabilista deixou de ser apenas cumprir obrigações: é agora um agente central na sustentabilidade e governação das organizações.
De que forma o contabilista se está a transformar num consultor estratégico das empresas, com impacto direto na tomada de decisão?
A proximidade do contabilista ao dia a dia da empresa permite-lhe antecipar problemas e identificar oportunidades antes de qualquer outro interveniente. Os dados contabilísticos transformam-se em insights estratégicos quando analisados de forma crítica — margens, rentabilidade por produto, indicadores de tesouraria, projeções e cenários. A capacidade de interpretar estes elementos e comunicá-los de forma clara faz com que o contabilista seja hoje um parceiro ativo na gestão. A sua intervenção influencia decisões de investimento, estrutura de custos, modelos de negócio e gestão de risco. É cada vez mais um conselheiro com visão integrada, e essa evolução é altamente valorizada pelas empresas.
Que competências — técnicas e comportamentais — serão indispensáveis para o contabilista do futuro?
Do lado técnico, o conhecimento atualizado das normas contabilísticas e fiscais continua a ser a base. A isto junta-se a capacidade de trabalhar com sistemas integrados, compreender processos digitais, interpretar grandes volumes de dados e dominar ferramentas de automação. Do lado comportamental, destacam-se a comunicação eficaz, a capacidade analítica, o pensamento crítico e a adaptabilidade. O contabilista do futuro precisa de ser tão competente tecnicamente quanto hábil na comunicação com empresários que nem sempre dominam conceitos financeiros. Ser orientado para soluções e saber antecipar cenários será uma mais-valia essencial.
Como avalia o nível atual de literacia financeira das empresas e dos particulares em Portugal?
Apesar de progressos nos últimos anos, a literacia financeira continua aquém do desejável. Muitas empresas dominam a operação, mas não têm ferramentas nem conhecimento para interpretar indicadores económicos e financeiros cruciais. A nível particular, a compreensão de rendimentos, deduções, impostos e noções básicas de planeamento financeiro ainda não é generalizada. Isto conduz a decisões menos informadas, menor capacidade de previsão e maior risco de incumprimento — fiscal, laboral ou contratual. Uma empresa com baixa literacia financeira tende a reagir tarde, o que agrava problemas que poderiam ser evitados.
Que papel pode e deve o contabilista assumir para elevar a literacia financeira e ajudar na sustentabilidade das empresas?
O contabilista deve assumir um papel pedagógico, garantindo que a informação é explicada de forma acessível e útil para a tomada de decisão. Mais do que entregar relatórios, deve interpretar, explicar e contextualizar. Ao aproximar o cliente dos números, reduz o risco, melhora a capacidade de planeamento e contribui para a continuidade da empresa. Este papel educativo não é apenas desejável — é fundamental para a maturidade financeira do tecido empresarial.
A FA Accounting desenvolve iniciativas ou metodologias próprias para promover a literacia financeira junto dos seus clientes?
Sim. Acompanhamos os clientes através de reuniões regulares, relatórios adaptados ao seu perfil e ferramentas visuais que simplificam a leitura financeira. Criamos rotinas de comunicação proativa sempre que ocorre alteração legislativa relevante, e dedicamos tempo a formar o cliente para interpretar indicadores-chave. O objetivo é que cada empresário entenda o impacto real das suas decisões e tenha autonomia para gerir o negócio com maior segurança.
A inovação é cada vez mais associada à contabilidade, seja pela automação, digitalização ou integração de sistemas.
Como vê esta transformação tecnológica?
Esta transformação representa uma oportunidade sem precedentes. A automação reduz tarefas manuais, elimina erros e acelera a disponibilidade da informação. A digitalização permite maior controlo e auditabilidade dos processos. A integração de sistemas reduz falhas, liga áreas do negócio e permite análises mais profundas. Tudo isto aproxima o contabilista de um papel mais consultivo e menos administrativo. A tecnologia não substitui o profissional — reforça a sua capacidade de entregar valor.
A tecnologia está a eliminar tarefas ou a criar novas oportunidades para os profissionais de contabilidade?
Ambas, mas a balança pesa claramente para o lado das oportunidades. Tarefas repetitivas e de baixo valor estão a desaparecer, mas em contrapartida nasce espaço para novas especializações: sistemas ERP, análise de dados, auditoria digital, gestão de risco, cibersegurança aplicada a informação financeira, entre outras. Os contabilistas que se adaptarem serão mais relevantes e mais valorizados do que nunca.
Que investimentos ou ferramentas tecnológicas a FA Accounting prioriza para garantir um serviço moderno e eficiente?
Investimos em soluções que integrem dados, automatizem lançamentos, facilitem o controlo documental e disponibilizem indicadores em tempo real. Privilegiamos softwares certificados, plataformas colaborativas, armazenamento seguro e ferramentas de análise preditiva. A tecnologia é encarada como um meio para reforçar o nosso compromisso de qualidade e proximidade.
Atualmente, quais são os maiores desafios na aplicação das normas contabilísticas em Portugal, especialmente no contexto das PME?
O principal desafio é a complexidade crescente do enquadramento contabilístico e fiscal. As PME, por natureza, têm recursos limitados e muitas vezes processos internos pouco estruturados. Isto cria dificuldades na aplicação correta das NCRF, no registo de operações complexas e no alinhamento entre contabilidade e fiscalidade. A interpretação das normas exige tempo, formação contínua e capacidade de adaptação — três elementos nem sempre disponíveis nas empresas.
Como é que a FA Accounting assegura uma articulação eficaz entre a normalização contabilística e o enquadramento fiscal?
Através de formação, revisão interna e análise detalhada de cada caso. Acompanhamos orientações da AT, CAAD, CNC e jurisprudência relevante, garantindo que o tratamento contabilístico é coerente com o enquadramento fiscal, sempre que tal seja exigido. A relação próxima com cada cliente permite-nos adaptar soluções às especificidades de cada negócio, sem comprometer o rigor técnico.
Na prática, onde observa maior dificuldade por parte das empresas no cumprimento das normas?
Sobretudo na documentação de suporte, inventários, contratos e na correta classificação de operações. Muitas dificuldades surgem por falta de processos internos: falhas no arquivo, atrasos na entrega de documentos, ausência de políticas formais e falta de controlo sobre determinadas operações.
Considera que existe um desfasamento entre a legislação e a realidade prática do tecido empresarial? Se sim, como pode ser mitigado?
Existe, e é significativo. As PME nem sempre têm capacidade para acompanhar a velocidade e complexidade das alterações legislativas. A mitigação passa por maior simplificação fiscal, por orientações mais claras e por sistemas mais intuitivos. A digitalização ajuda, mas é necessária uma abordagem legislativa mais alinhada com a realidade do dia a dia das pequenas empresas.
Com a constante evolução legislativa, como mantém a equipa atualizada e preparada para atuar com rigor e segurança?
Com formação contínua, acompanhamento das fontes oficiais, partilha interna de casos práticos e criação de mecanismos de revisão. A atualização é incorporada como rotina, não como exceção. A equipa está permanentemente envolvida em processos de melhoria e de reforço de competências.
Quais serão, na sua opinião, as grandes tendências futuras na normalização contabilística e fiscal?
A digitalização total das obrigações, a automatização da informação, a utilização de dados em tempo real, a simplificação de processos e a integração progressiva com normativos internacionais. A contabilidade será cada vez mais analítica e preditiva, com foco na utilidade da informação, e não apenas no cumprimento formal.
A harmonização internacional das normas é um caminho inevitável? Que impactos poderá ter no trabalho dos contabilistas portugueses?
Sim, é inevitável. A globalização e a necessidade de comparabilidade exigem normas convergentes. Para os contabilistas portugueses, isso significa maior rigor técnico e mais exigência, mas também novas oportunidades de atuação internacional e de valorização profissional. A harmonização ampliará competências e elevará padrões.
O que gostaria de ver melhorado ou reformulado no sistema fiscal ou contabilístico nacional?
Gostaria de ver maior simplificação e estabilidade legislativa. Um sistema fiscal mais previsível favorece o investimento, a competitividade e a gestão de longo prazo. A redução de redundâncias, a integração digital plena e orientações mais claras seriam passos importantes para facilitar o cumprimento e melhorar a eficiência.


