No âmbito da celebração dos 25 anos de atividade da Pluribus II Internacional, a Revista Pontos de Vista apresenta uma entrevista aos Eng. Ricardo Colarinha e Dr. José Diogo Barata, que fazem uma viagem pelos principais marcos da presença da organização em África, em particular em Angola. Desde os primeiros passos em contexto de guerra civil até à consolidação como parceiro estratégico no tratamento da doença renal, esta conversa revisita conquistas, desafios, investimento na formação de quadros nacionais e a visão de futuro da Pluribus, sempre guiada pelo compromisso com a qualidade, a inovação e a melhoria da vida dos doentes.
Como descreve os primeiros passos da Pluribus II Internacional em África há 25 anos?
A história da Pluribus começou em tempos muito desafiantes, tendo em conta que Angola ainda estava em guerra civil, e um grupo de médicos angolanos fizeram os primeiros contactos com a Pluribus no ano 1997. Na altura, a Faculdade de Medicina em Luanda e o Professor Doutor João Colarinha (acionista e principal mentor da Pluribus), ligado à Faculdade de Medicina de Lisboa, proporcionaram o estreitar das relações com as Autoridades Angolanas. Ainda no ano de 1997, foi assinado um Protocolo entre a Pluribus, a Cooperação Portuguesa e o Ministério da Saúde de Angola, que contou com a presença do Dr. José Diogo Barata e o Professor Doutor João Colarinha, em representação da Pluribus. O Hospital Universitário Américo Boavida cedeu espaço para instalar o Centro de Hemodiálise e foi firmado um Contrato de Parceria Público-Privada entre a Pluribus e o Ministério da Saúde de Angola para a Realização de Obras do Centro de Hemodiálise e o fornecimento de equipamentos médicos, formação dos profissionais e a realização dos tratamentos aos Doentes Renais, por um período de 15 anos. Este contrato tem sido sucessivamente renovado, comprovando a sua utilidade e eficácia no atendimento aos doentes renais em Luanda.
Que papel teve a formação inicial dos profissionais angolanos em Portugal para o desenvolvimento da hemodiálise no país?
Enquanto decorriam obras em Luanda, estiveram, em Portugal, nas várias Clínicas de Hemodiálise que a Pluribus tinha na região da Grande Lisboa, vários grupos de profissionais: médicos, enfermeiros, técnicos de electromedicina e outro pessoal técnico e administrativo. Os grupos vinham por períodos diferentes entre algumas semanas e vários meses e eram integrados nas equipas de trabalho nas Clínicas, onde aprenderam as diversas técnicas e normas de funcionamento de uma Unidade de Hemodiálise.
Qual foi o impacto simbólico e operacional da inauguração da Clínica de Luanda no ano 2000?
A obras foram acompanhadas por profissionais da Pluribus finalizando com a montagem de todos os equipamentos até à inauguração a 17 de setembro de 2000. Mesmo após essa data, os técnicos foram-se assegurando que tudo ficava a funcionar com normalidade, fazendo visitas regulares para apoio e consolidação de conhecimentos do pessoal técnico e de enfermagem. Para os doentes renais crónicos, que se encontravam em tratamento no exterior, significou o “regresso a casa” e os reencontros familiares sucederam-se. Foi também uma enorme esperança, para todos os doentes que necessitavam do tratamento, mas que, por várias razões, não tinham oportunidade de serem evacuados para o estrangeiro.
Quais consideram ser as maiores conquistas alcançadas pela Pluribus II Internacional ao longo destas duas décadas e meia em Angola?
Com o Centro de Hemodiálise Pluribus África em pleno funcionamento e com os seus profissionais plenamente capacitados para garantir um tratamento de elevada qualidade aos seus pacientes, a Pluribus realizou um segundo processo de Investimento Estrangeiro e nasceu a Pluribus Angola. Em 2009, o Ministério da Saúde de Angola reconheceu a Pluribus Angola como um parceiro qualificado para levar o tratamento da doença renal para algumas províncias, deixando de estar concentrados todos os serviços em Luanda. A partir de 2012 foram construídas as Clínicas de Hemodiálise de Benguela e do Lobito, do Instituto Angolano do Rim, as primeiras fora de Luanda e que, até 2017, deram assistência a todos os doentes renais da região sul de Angola. Nestas unidades foram formados muitas dezenas de enfermeiros de hemodiálise ao longo destes 13 anos. A formação de quadros angolanos, altamente treinados e capacitados para atender os doentes renais será uma das maiores conquistas que a Pluribus alcançou.
Como evoluiu a equipa técnica e clínica desde os primeiros anos até à atualidade?
A equipa do CHPA, em Luanda, mantem-se consolidada ao longo destes 25 anos. Na província de Benguela, a equipa conta com 3 Nefrologistas, médicos residentes, enfermeiros, psicóloga, farmacêutica, técnicas de laboratório e técnicos de electromedicina, além dos serviços administrativos e de apoio.
Que mudanças estruturais e tecnológicas marcaram este percurso?
A Pluribus teve contrato de distribuição com a multinacional Baxter, desde 2012, para os países da CPLP, o que garantia ter acesso sempre aos produtos e equipamentos mais avançados do mercado. No início dos tratamentos foram usados os monitores AK200, depois tivemos acesso aos primeiros Artis que foram instalados em todo o continente africano. Actualmente estão também em uso monitores AK98. Já nos dialisadores, a evolução também foi grande: distribuímos a gama Pulifux (que ainda mantemos nos tamanhos pediátricos), depois vieram as gamas Revaclear e Theranova. Nos Cuidados Intensivos, mantemos as PrismaFlex nalgumas unidades.
Como carateriza atualmente a operação da Pluribus II Internacional em Angola e o estado dos serviços prestados aos doentes renais?
A prestação de serviços de hemodiálise foi muito difundida pelo território nacional, especialmente no programa dos novos hospitais que o governo tem construído. A Pluribus, por várias razões, não teve até ao momento oportunidade de equipar nenhum dos novos serviços, mas mantemos essa disponibilidade de vir a estar presentes em mais 3 ou 4 Serviços de Hemodiálise. Atualmente, temos presença no Lobito, Luanda e Malange para o fornecimento de consumíveis de Hemodiálise; e no Lubango e Luanda nos Cuidados Intensivos. A distribuição de medicamentos está concentrada em mais de 90% nos Hospitais da região de Luanda.
Que desafios continuam a marcar este setor no país e como a organização tem respondido a eles?
Um desafio que enfrentamos durante este ano de 2025, foi a alteração de fornecedores de equipamentos e consumíveis, uma vez que a Vantive – empresa que nasceu de um spinoff da área renal da Baxter, deixou de operar no setor da hemodiálise a nível global e nos cuidados intensivos na região da SADC, onde estão inseridos os mercados de Angola e Moçambique. A Baxter continua como nossa parceira na área dos medicamentos, nomeadamente nas áreas da anestesia e alimentação parentérica. Neste sentido, promovemos vários encontros exploratórios com fabricantes e distribuidores, e a opção foi estabelecer acordos separados. Para a hemodiálise, contamos com a representação exclusiva da WEGO; para os mercados da CPLP, em África, e nos cuidados intensivos o acordo para a mesma área foi com a NorrDia, que representa os equipamentos Nikkiso. Ambos os parceiros desafiaram a Pluribus para iniciar atividade no mercado português. Portanto, estamos numa fase muito inicial que irá garantir a operação da Pluribus também em Portugal.
Qual é hoje o perfil da equipa e como se mantém o espírito de dedicação referido pelos profissionais e doentes?
Na Pluribus acreditamos na aposta na formação dos profissionais e na importância de incentivar à realização de trabalhos de caráter científico. Este posicionamento tem demonstrado eficácia e desenvolvimento da qualidade dos serviços prestados e das dinâmicas no seio da equipa.
Que prioridades estratégicas estão definidas para os próximos anos no continente africano?
Atualmente temos presença em Moçambique e na Guiné Equatorial, onde fornecemos alguns Hospitais e Clínicas nos equipamentos e consumíveis de hemodiálise. No final do ano passado, a operação em Moçambique teve alguns percalços. Contudo, aprendemos com esses obstáculos e mantemos a intenção de crescer neste mercado. Em relação a outras partes do mundo, estamos em fases iniciais, mas muito prometedoras.
Existem planos de expansão, modernização ou novas parcerias institucionais em perspetiva?
A Pluribus sempre se destacou pela sua intenção de crescer com razoabilidade e abertos a desenvolver soluções e cooperar no desenvolvimento de políticas públicas na área da saúde renal. Participamos em vários concursos para fornecimentos nas áreas da hemodiálise e num próximo futuro também nos cuidados intensivos. Tendo essa visão em conta, também pretendemos consolidar a vertente da formação de profissionais de saúde, aproveitando a grande experiência que os nossos profissionais em Angola têm nesta área e levar para os países, proporcionando um intercâmbio de conhecimentos e capacitação de novos profissionais.
Como imagina a Pluribus II Internacional nos próximos 25 anos em África?
Imagino a Pluribus com uma maior equipa de profissionais muito qualificados e com trabalho científico desenvolvido nas áreas com maior impacto na saúde renal e na malária, que sempre foi uma área de interesse, visto ser a maior causa de novos doentes que nos chegam às Clínicas de Hemodiálise e nos Cuidados Intensivos.
Que mensagem gostaria de deixar para os profissionais, parceiros e doentes, neste momento de celebração dos 25 anos de atividade?
Agradecemos a todos os nossos profissionais de saúde, colaboradores e parceiros, que sempre se alinharam com a nossa visão e que se mostram avidamente disponíveis para continuar a crescer connosco. Pretendemos continuar a trazer qualidade de vida para os pacientes, através de excelência e de inovação! ▪


