“A colaboração, a empatia e o propósito são os pilares que elegi e que não encaro como conceitos abstratos”

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Em 2026, falar de liderança feminina na diáspora é falar de colaboração, empatia e propósito como eixos estratégicos de atuação no mundo empresarial e organizacional. É neste enquadramento que a Revista Pontos de Vista conversa com Dra. Graça Silva, Diretora de Vendas e Marketing do Grupo SATA, uma líder que alia visão estratégica, proximidade humana e um profundo sentido de identidade. Com raízes açorianas bem presentes no seu percurso profissional, Graça Silva reflete sobre o papel das líderes na diáspora, os desafios e oportunidades de liderar no feminino, e a forma como valores como a escuta ativa, a resiliência e o propósito podem transformar organizações e equipas.

Em 2026, que caraterísticas considera essenciais na agenda das líderes na diáspora, particularmente num contexto empresarial cada vez mais global e exigente?

Inspirar confiança, estabelecer ligações e transformar desafios em oportunidades são caraterísticas que devemos cultivar em todas as circunstâncias. No contexto da diáspora, porém, existe um lado afetivo que reforça o nosso propósito, que nos fortalece e nos fornece uma energia suplementar. Partilhamos as mesmas raízes e esta afinidade cultural ajuda-nos a consolidar um propósito comum e a criar equipas mais dedicadas e motivadas para alcançar resultados duradouros. No entanto, este contexto não nos dispensa de cultivar aspetos essenciais à liderança: a resiliência, a capacidade de adaptação a cenários voláteis e a atenção às dinâmicas globais continuam a ser fundamentais para sobreviver no mundo empresarial atual.

 

A colaboração, a empatia e o propósito surgem hoje como pilares da liderança. De que forma estes valores se refletem no seu estilo de liderança?

A colaboração, a empatia e o propósito são os pilares que elegi e que não encaro como conceitos abstratos. Estabeleço-os como objetivos e práticas diárias. Acredito que as melhores decisões surgem da confluência de ideias e da inteligência coletiva. Procuro promover ambientes saudáveis, em que as pessoas se sintam seguras e à vontade para discordar, criar e contribuir. Tento compreender as motivações, as dificuldades e os contextos de cada pessoa, de modo a gerir expetativas e a estabelecer relações de confiança duradouras. Procuro explicar o “porquê”. Quando as pessoas compreendem o impacto do seu trabalho na equipa, na organização e na sociedade, tornam-se mais focadas e produtivas. Quando compreendem o propósito do que fazem, o que lhes é imposto passa a ser voluntário. Sentir-se envolvido faz toda a diferença.

 

Ser mulher e líder na diáspora representa desafios acrescidos ou oportunidades diferenciadoras? Como tem vivido esse percurso?

Liderar no feminino é unir estratégia e empatia. É tomar decisões firmes sem perder a visão humana e o propósito. É conduzir com firmeza sem abrir mão da sensibilidade, é entender que a empatia também é estratégia, que a vulnerabilidade pode caminhar de mãos dadas com a força. Que liderar seja sinónimo de impacto, respeito e consciência. A liderança constrói-se todos os dias, com o exemplo.

Como qualquer mulher, tenho a minha história pessoal, feita de momentos muito felizes, mas também de momentos mais difíceis, que me desafiaram e obrigaram a superar as minhas dificuldades e a ultrapassar os meus medos. Tudo isso moldou a mulher que sou hoje e a forma como trabalho. O facto de ser mulher não me limitou; pelo contrário, criou uma energia inabalável, tão necessária nos momentos desafiantes que enfrento na minha vida profissional. De resto, estou certa de que muitas mulheres que lideram na diáspora se identificarão com esta descrição. Liderar na diáspora é escolher um percurso que exige a coragem indispensável a quem empreende e que, ao mesmo tempo, se procura fazer com empatia, cuidado e a ambição necessária.

Neste percurso nem sempre fácil, luto por criar relações mais humanas no contexto de trabalho e por um futuro em que a mulher nunca seja vista como um limite à ambição, mas sim como uma força que impulsiona todos os sonhos.

 

De que forma a identidade açoriana influência a sua forma de liderar e de se relacionar com equipas, parceiros e clientes?

A identidade açoriana influência profundamente a minha forma de liderar e de me relacionar. Nos Açores, aprende-se desde cedo que ninguém consegue fazer nada sozinho. Esta realidade reflete-se numa liderança próxima, onde a confiança, a lealdade e o compromisso mútuo são valores centrais. Há também uma resiliência tranquila que nasce da geografia e do isolamento. Liderar com esta base significa aprender a conviver com a incerteza. Um traço que me apontam por vezes é ter um trato  humilde.

Acreditar no que me dizem, diria que a humildade  é um traço de caráter  que se herda da identidade açoriana, cujo povo é corajoso e trabalhador, mais inclinado a fazer do que a dizer o que faz. Nas relações com equipas, parceiros e clientes, isso traduz-se numa comunicação autêntica, sem rodeios, mas genuinamente empenhada em compreender as circunstâncias, em ouvir e continuar a aprender.

Por fim, sinto um forte sentido de responsabilidade: o nosso trabalho tem um impacto real nas pessoas e nas comunidades. Essa consciência orienta as minhas escolhas. Julgo que a identidade açoriana influência uma liderança que favorece relações genuínas e de longo prazo.

 

A insularidade pode ser vista como limitação ou como vantagem estratégica. Qual é a sua leitura, enquanto dirigente de um grupo com forte ligação ao território?

A insularidade só é uma limitação quando é encarada como uma fronteira. Quando compreendida como identidade, transforma-se numa vantagem estratégica. Considero a insularidade um fator que proporciona clareza de propósito e capacidade de diferenciação.

A proximidade às comunidades, o conhecimento aprofundado do contexto local e a relação direta com pessoas e recursos possibilitam a tomada de decisões mais rápidas, informadas e responsáveis. A insularidade também promove a agilidade e a criatividade. Num território onde os recursos são limitados, aprende-se a inovar e a cooperar.

Esta lógica é valiosa em contextos competitivos e globais. Claro que existem constrangimentos, mas estes obrigam a estabelecer estratégias alicerçadas em parcerias de longo prazo. Podemos considerar o território como um ponto de partida e não como um limite à nossa ação.

Quando bem integrada na visão estratégica, a insularidade fortalece a identidade, aprofunda o compromisso e cria vantagens competitivas difíceis de replicar. É precisamente essa singularidade que permite ao grupo SATA crescer sem perder as suas raízes.

 

Que valores dos Açores considera mais presentes na cultura organizacional do Grupo SATA?

Nos valores da SATA, destaco a hospitalidade e a genuinidade, atributos muitas vezes associados à cultura açoriana, conhecida pela amabilidade com que recebe e pela autenticidade das suas tradições. A valorização do território e o compromisso com as comunidades onde opera estão profundamente enraizados na gestão e no espírito de missão do Grupo SATA. Na prática, estes valores não só orientam a gestão da empresa, como também reforçam o papel fundamental da SATA no desenvolvimento da região.

Outro valor corporativo é o trabalho de equipa, tendo em conta a importância da colaboração nas comunidades insulares, onde, por vezes, é necessário superar desafios como o isolamento geográfico ou as adversidades naturais. Por fim, a preocupação com a sustentabilidade ambiental, fortemente presente na cultura corporativa da SATA, evidencia a ligação dos açorianos à natureza, uma cultura que, historicamente, valoriza a conservação ambiental e o turismo sustentável.

 

Como descreve a sua forma de estar enquanto líder, especialmente na relação com as equipas?

Diria que sou uma líder próxima, acessível e transparente. Gosto de trabalhar lado a lado com as equipas, ouvir diferentes perspetivas e criar um ambiente de confiança. Defino objetivos claros, dou autonomia e acompanho de forma regular, sempre com feedback honesto e construtivo. Acredito que quando as pessoas se sentem valorizadas e envolvidas, os resultados surgem naturalmente

 

A empatia é muitas vezes apontada como uma soft skill, mas cada vez mais estratégica. Como a transforma numa ferramenta concreta de gestão?

Vejo a empatia como algo muito prático. Uso-a para compreender o contexto, as motivações e as dificuldades de cada pessoa, o que me permite ajustar a comunicação, distribuir melhor as responsabilidades e antecipar problemas antes de se tornarem bloqueios.

Na prática, traduz-se em escuta ativa, feedback personalizado e decisões mais equilibradas, que têm em conta tanto os resultados como as pessoas. Isso acaba por fortalecer a confiança, o compromisso e o desempenho da equipa.

 

Que importância atribui à escuta ativa e ao diálogo na construção de organizações mais humanas e eficazes?

Atribuo uma importância central. A escuta ativa e o diálogo são a base da confiança e do alinhamento dentro das organizações. Quando as pessoas se sentem realmente ouvidas, envolvem-se mais, comunicam melhor os problemas e contribuem com soluções. Isso torna a organização mais humana, porque respeita as pessoas, e mais eficaz, porque decisões informadas e partilhadas tendem a ser mais sólidas e sustentáveis.

 

Num mundo empresarial marcado pela velocidade e pela incerteza, como mantém o foco estratégico?

Defino prioridades claras, alinhadas com a visão e os objetivos de longo prazo, e revisito-as com regularidade para garantir que continuam relevantes. Ao mesmo tempo, procuro manter flexibilidade para ajustar o caminho quando o contexto muda, sem perder o rumo. A clareza de propósito, aliada a uma leitura contínua do contexto, ajuda-me a tomar decisões consistentes mesmo em ambientes de incerteza.

 

O propósito é hoje um fator-chave de atração e retenção de talento. Como é trabalhado e comunicado no Grupo SATA?

No Grupo Sata o propósito corporativo é estruturado em torno de uma missão, visão e valores que orientam não só a operação aeronáutica, mas também a forma como a empresa se relaciona com as pessoas e com o território onde está inserida. Esses elementos são comunicados interna e externamente como um guia de ação e um fator de ligação entre os colaboradores e a identidade da organização

Que legado gostaria de deixar, enquanto líder, no setor da aviação e nas organizações por onde passa?

Como líder, espero deixar um legado de confiança e propósito: inspirar pessoas, fortalecer equipas e criar impacto positivo que dure além do meu tempo na organização

 

Que conselhos deixaria a jovens mulheres, particularmente da diáspora açoriana, que ambicionam posições de liderança?

Que sejam confiantes, que mantenham a vossa identidade açoriana, que enfrentem desafios com coragem e exerçam uma  liderança pelo exemplo, pois é uma importante mensagem que fica para as equipas que lideramos e  para  os que temos a responsabilidade de acompanhar no seu percurso profissional.

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Revista Pontos de Vista Edição 148

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