Empreender num mercado emergente exige coragem, visão e capacidade de adaptação. Foi com essa combinação que
Patrícia Mesquita co-fundou a Cabo MICE Events, uma empresa que veio responder a uma lacuna no turismo empresarial e de eventos em Cabo Verde. Desde 2018, a sua liderança tem sido marcada pelo rigor, pela proximidade ao cliente e por uma forte aposta na qualificação de equipas e parceiros locais. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, a gestora reflete sobre crescimento, sustentabilidade, liderança feminina e o futuro do turismo MICE no arquipélago.
O que a motivou a construir a Cabo MICE e quais foram os marcos mais determinantes desde 2018?
A Cabo MICE surgiu da necessidade de uma empresa especializada na indústria do turismo MICE (Meetings, Incentives, Conferences & Events), ou seja, o turismo empresarial. Já existiam várias empresas internacionais interessadas em levar os seus colaboradores ou parceiros à Ilha do Sal, em Cabo Verde, para as suas viagens de incentivo, apresentações de produto ou conferências.
Em 2018, quando surgiu a oportunidade de abrir a Cabo MICE, o objetivo foi criar uma empresa que conseguisse dar resposta a este segmento ainda muito pouco explorado no país, o que implicou vir criar uma estrutura para uma área de negócios nova no país. Eu que trabalhei desde sempre com eventos em Portugal, Brasil, entre outros países europeus, tentei trazer os standards de qualidade e organização que aprendi e desenvolvi na minha carreira, para a realidade de Cabo Verde.
Ao longo destes anos, a empresa cresceu e expandiu-se, e temos realizado vários tipos de eventos, não só na Ilha do Sal, mas também em outras ilhas de Cabo Verde, sendo que a nossa sede se mantém no Sal.
Já organizámos e coordenamos mais de 200 eventos desde então, muitos deles dentro da área dos eventos corporativos: reuniões, conferências, viagens de incentivo, inaugurações, aniversários de empresas ou atividades de Team Building, com conceitos criados por nós.
Mas após a pandemia, começamos a ter muitas solicitações para eventos sociais: casamentos, cerimónias simbólicas de casamentos intimistas, renovações de votos, festas de aniversário, despedidas de solteiro ou pedidos de casamento. Tem sido neste tipo de eventos que a Cabo MICE events se tem especializado e posicionado cada vez mais nos últimos anos, oferecendo soluções personalizadas a cada cliente e sempre a criar soluções inovadoras, dentro dos recursos que temos.
Como define hoje o posicionamento da Cabo MICE e o que a diferencia num mercado cada vez mais exigente?
Diferenciamo-nos sobretudo pelo nosso serviço de event ou wedding planning, que é um conceito bastante novo na realidade do país, mas que traz uma grande mais valia aos clientes que nos contratam, uma vez que colocamos ao dispor o nosso know how, a rede de parceiros de confiança com quem trabalhamos, o nosso rigor e exigência no planeamento e operacionalização dos eventos e, ao mesmo tempo, entendemos as necessidades dos nossos clientes e sabemos gerir as suas expetativas face ao que é possível de ser feito na realidade local, que em muitas coisas difere do que estamos habituados na Europa ou América.
Quais são os seus princípios inegociáveis de liderança, rigor, proximidade ao cliente, consistência, qualidade e detalhe?
Acima de tudo, penso que o nosso trabalho se distingue pela entrega da nossa equipa, pelo amor pelo que fazemos e a dedicação a cada detalhe de cada evento. Costumamos dizer que ajudamos a concretizar sonhos e é na realidade o que acontece. Quando os clientes, sobretudo noivos, nos contatam inicialmente, chegam cheios de sonhos e projetos que gostavam de pôr em prática, mas não sabem como começar nem como os tornar realidade. A Cabo MICE começa um plano estratégico personalizado às necessidades de cada cliente, e pensamos e planeamos toda a logística e recursos necessários para que se possam concretizar o mais parecido possível ao que os nossos clientes idealizaram.
Como gere expetativas e garante previsibilidade quando o sucesso de um evento depende de múltiplas variáveis e equipas?
Tenho muito orgulho na minha equipa, que chegaram praticamente sem nenhuma experiência na organização de um evento, mas que depois de uma formação intensiva feita por mim, estão cada vez mais Gestoras de eventos de sucesso!
Que tendências identifica hoje no turismo MICE e nas viagens de incentivo e como Cabo Verde pode posicionar-se melhor?
O turismo MICE tem muito potencial para Cabo Verde, por ser um destino emergente para este setor, ainda com algum fator surpresa. Na ilha do Sal, temos vários fatores que fazem do destino uma excelente escolha para a viagem de incentivos de uma empresa – cada vez mais existem hotéis com condições parecidas ao que estamos habituados no resto do mundo, cada vez há mais voos diretos para várias cidades, sendo um destino exótico, de sol e mar o ano inteiro, mas a poucas horas de distância, tanto da Europa, como do continente americano.
É um destino que marca pelas pessoas, pela cultura, pela gastronomia e, obviamente, pelo clima e paisagens, mas infelizmente nestes últimos anos sentimos a ilha muito sobrecarregada com o turismo de massas, e com preços cada vez mais altos. temos sentido alguma dificuldade, sobretudo na disponibilidade de alojamento, para podermos atrair mais grupos de incentivo.
Felizmente, começámos a ter melhores estruturas para este tipo de eventos também em outras ilhas e acreditamos que muito em breve, a Ilha de São Vicente, terá igualmente muito potencial para desenvolver o turismo MICE.
Que papel têm parcerias com hotelaria, operadores e instituições para elevar o padrão do destino?
Temos parcerias com alguns dos principais hotéis da ilha do Sal, o que traz bastante estabilidade e oportunidades ao nosso negócio. Em Cabo Verde, e no mundo dos eventos, as parcerias são um fator-chave de sucesso e termos uma rede de fornecedores de confiança, os quais têm crescido e se qualificado também em conjunto connosco. é também para mim uma das grandes realizações da Cabo MICE events em Cabo Verde – ajudamos todos os dias os fornecedores locais a serem mais profissionais, mais cuidados, mais organizados e nestes 7 anos já sentimos muitas melhorias na rede de serviços oferecidos, que era demasiado informal e desestruturada quando começámos.
Como se constrói uma experiência memorável que gere retorno, recomendação e reputação internacional?
Para criarmos experiências memoráveis nos nossos eventos, além de uma organização de extremo rigor, tentamos sempre envolver negócios locais e manifestações culturais de Cabo Verde, tentando trazer sempre uma vertente de promoção do melhor das tradições locais aos participantes dos nossos eventos. Acreditamos que com o nosso trabalho, ajudamos também a dar a conhecer ao mundo o que de melhor tem Cabo Verde para oferecer e mostrar dentro das nossas possibilidades, o Cabo Verde autêntico até numa ilha, a do Sal, que por ser tão turística, já perdeu um pouco a essência. Por isso tentamos sempre criar atividades e conceitos, que tragam elementos autênticos e representativos desta cultura crioula que é tão rica em tantas valências.
Como integra sustentabilidade na prática, escolhas de fornecedores, logística, resíduos, impacto local e consciência ambiental?
A sustentabilidade dos nossos eventos, e sobretudo da ilha onde trabalhamos, preocupa-nos muito e, por essa razão, tentamos ao máximo incentivar os nossos clientes a escolherem fornecedores locais, e ajudamos os nossos parceiros a profissionalizarem-se cada vez mais, para estarem aptos a dar resposta a clientes internacionais.
Criámos também um projeto na área da sustentabilidade ambiental – um dos grandes problemas em Cabo Verde, é o tratamento do lixo, a educação ambiental e os detritos marinhos que chegam diariamente à nossa costa, arrastados pelo vento. E a maioria dos nossos eventos tem como pano de fundo as lindas praias da Ilha do Sal e não podíamos continuar indiferentes.
Criámos em 2020, em conjunto com vários parceiros, um movimento chamado #SALAPENTEFINO, uma das mais ambiciosas campanhas de limpeza já realizadas na ilha do Sal, em Cabo Verde. Esta iniciativa de responsabilidade social mobiliza comunidades locais, empresas, ONGs, sociedade civil e instituições para limpar praias e zonas remotas afetadas pelo lixo costeiro e pela atividade turística, organizados em grupos em apenas uma manhã.
Já realizámos algumas edições, mas nestes últimos 2 anos ainda não foi possível dar continuidade, por falta de financiamento. A campanha vai além da sustentabilidade, procurando restaurar e revitalizar os ecossistemas da ilha e contribuir para a reversão dos impactos do turismo de massas. Os grupos participantes, previamente inscritos, atuam de forma coordenada em diferentes locais da ilha, através da organização feita pela Cabo MICE events.
Mais do que uma ação de limpeza, trata-se de um movimento de consciencialização, com forte enfoque na educação ambiental.
Que barreiras ainda observa para mulheres em liderança no setor dos eventos e turismo e como as ultrapassar com método e cultura?
A liderança no feminino em Cabo Verde ainda é desafiante, sobretudo quando vimos de outro país. Mas vejo cada vez mais mulheres empreendedoras e empoderadas a gerirem negócios com confiança, e no caso da Cabo MICE, neste momento a equipa é formada por 5 mulheres, e acredito que o paradigma está a mudar bastante, as mulheres cada vez mais saem do papel de dona de casa, para terem importantes papéis na sociedade e eu, com o meu estilo de liderança, tento no dia a dia poder ajudar a minha equipa a crescer
Temos uma estrutura baseada no companheirismo, no brainstorming, no incentivo à autonomia e no crescimento em conjunto, sempre com o meu apoio em todos os momentos e parece-me que é um modelo que funciona bastante bem e que cada vez mais as empresas deveriam apostar.


