Num contexto marcado pelo aumento persistente do custo de vida, pela manutenção de encargos elevados com crédito ao consumo e por uma crescente pressão sobre os orçamentos familiares, o crédito consolidado tem assumido um papel cada vez mais relevante na prevenção do incumprimento e na reorganização financeira das famílias portuguesas. Em 2025, os dados revelam um crescimento expressivo da procura e um aumento significativo das aprovações, refletindo não só a gravidade do cenário económico, mas também uma maior maturidade e literacia financeira por parte dos consumidores.
Para compreender as causas deste fenómeno, os riscos enfrentados pelas famílias e os desafios que se colocam ao mercado, a Revista Pontos de Vista esteve à conversa com Rita Quaresma, COO da Gestlifes e responsável pelo CréditoConsolidado.pt, que partilha uma visão clara e fundamentada sobre a evolução do setor e as perspetivas para o futuro.

Quais foram os principais fatores que impulsionaram o aumento dos pedidos de crédito consolidado em 2025?
O aumento resulta da combinação de três fatores claros: subida continuada do custo de vida, manutenção de encargos elevados com crédito ao consumo e maior consciencialização das famílias para a necessidade de reorganizar as suas finanças antes de entrar em incumprimento. Em 2025, muitas famílias deixaram de conseguir absorver aumentos sucessivos nas despesas correntes e procuraram soluções estruturais como a consolidação.
O que explica a duplicação do número de aprovações face ao ano anterior?
A duplicação das aprovações reflete uma maior maturidade dos pedidos. As famílias chegam hoje mais informadas, com documentação organizada e objetivos claros. Em paralelo, houve melhorias nos critérios de análise e na articulação com as entidades financeiras, o que permitiu transformar mais pedidos viáveis em contratos efetivamente financiados.
Que riscos financeiros enfrentam as famílias antes de recorrerem à consolidação de crédito?
O principal risco é a escalada para o incumprimento. Taxas de esforço próximas dos 60% tornam qualquer imprevisto, como uma despesa médica ou uma quebra de rendimento – num fator de rutura orçamental. Antes da consolidação, muitas famílias já estão a pagar créditos com atraso, a recorrer a novos empréstimos para cobrir prestações antigas ou a sacrificar despesas essenciais.
De que forma o crédito consolidado contribui para a prevenção do incumprimento?
Ao reduzir o valor da prestação mensal e simplificar a gestão financeira, o crédito consolidado devolve previsibilidade ao orçamento familiar. Uma taxa de esforço mais próxima dos limites recomendados permite às famílias cumprir as obrigações de crédito, criar margem para imprevistos e evitar a entrada em processos de incumprimento que têm consequências duradouras.
Porque se verificou um crescimento tão expressivo da procura por parte dos reformados?
Os reformados têm rendimentos fixos e foram fortemente penalizados pelo aumento do custo de vida. Muitos acumularam pequenos créditos ao longo dos anos, muitas vezes para apoiar familiares ou responder a despesas de saúde. A consolidação surge como a única forma de recuperar equilíbrio financeiro sem recorrer a novas dívidas.
O aumento de contratos com dois titulares reflete uma mudança estrutural nas finanças familiares?
Sim. Reflete o facto de a pressão financeira deixar de ser individual e passar a afetar o agregado como um todo. Hoje, mesmo famílias com dois rendimentos sentem dificuldade em absorver encargos elevados. A decisão de consolidar passa a ser assumida como uma estratégia conjunta de gestão familiar.
A sazonalidade identificada tende a manter-se?
Tudo indica que sim. Os picos no início do ano e após as férias estão diretamente ligados a momentos de balanço financeiro. Após períodos de maior despesa, as famílias fazem contas, identificam desequilíbrios e procuram soluções. Esta lógica comportamental é consistente e deverá manter-se.
Que nível de literacia financeira existe hoje em torno do crédito consolidado em Portugal?
Existe mais conhecimento do que há alguns anos, mas ainda com lacunas relevantes. Muitas pessoas já percebem que consolidar não é “contrair mais um crédito para pagar outros empréstimos”, mas antes reorganizar a dívida. No entanto, persistem mitos e decisões tardias, quando a margem de manobra já é reduzida.
Que erros mais comuns cometem as famílias antes de optarem por esta solução?
O erro mais frequente é adiar a decisão. Muitas famílias tentam resolver o problema com novos créditos ou cartões, agravando a situação. Outro erro é não analisar o custo total da dívida e focar-se apenas na prestação mensal, sem uma visão global do impacto financeiro.
Quais são as principais perspetivas e desafios para o mercado de crédito consolidado em 2026?
A procura deverá continuar a crescer. O desafio estará em garantir que a consolidação é usada de forma responsável, como ferramenta de reequilíbrio financeiro e não como prolongamento de situações insustentáveis. Transparência, acompanhamento e educação financeira serão decisivos para a credibilidade do mercado.


