Num momento em que a Lusofonia se reposiciona no tabuleiro económico e geopolítico global, o debate sobre liderança ganha renovada centralidade. É neste contexto que conversamos com Estanislau de Jesus Baptista, Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Petrofund – Sociedade de Investimento de Capital de Risco, S.A., uma sociedade financeira não bancária sob tutela da Comissão do Mercado de Capitais de Angola. Ao longo desta entrevista à Pontos de Vista, Estanislau Baptista aborda o seu percurso pessoal e a visão para o futuro, oferecendo pistas relevantes sobre como a liderança pode — e deve — contribuir para transformar realidades locais e fortalecer a comunidade lusófona no seu conjunto.
Pode contar-nos brevemente a sua trajetória até chegar ao cargo de PCA da Petrofund SCR S.A? Quais foram os momentos mais decisivos da sua carreira?
A minha trajetória profissional, cingiu-se na Engenharia Civil, pois sou Engenheiro Civil e Industrial. Planeando e dirigindo obras civis e publicas, avaliação de projetos e planificação de obras, primeiro como Técnico e depois como Engenheiro Sénior.
Seguiu-se também a área de manutenção de edifícios, e de seguida, a projeção, avaliação e execução de projetos de Agências Bancárias. Sempre estive comodo na Engenharia, e somente quando exerci como funcionário de uma Entidade bancária, me interessou imenso outras áreas, dentro do sistema bancário. Com o aprendizado no dia a dia, e também com formações promovidas pelo Entidade patronal.
Portanto, estive na Banca durante 11 anos, de seguida estive num Fundo de Garantia tutelado pelo Ministério das Finanças, durante 4 anos, e de seguida estive a dirigir minha empresa pessoal de Consultoria Internacional na área de Petróleo e Gás e Minérios, durante 3 anos.
E foi durante este período em que fui convidado para abraçar o projeto Petrofund, primeiro como Administrador Executivo e de seguida como PCA, sendo uma Sociedade Financeira não bancária, tutelada pela Comissão de Mercado de Capitais.
Como a sua experiência em engenharia civil e industrial, mas também no setor bancário, moldou a sua visão de liderança?
Certamente, que a visão de um Engenheiro Sénior, e eu tendo já trabalhado em empresas como Técnico antes de ser Engenheiro, adicionada a experiência de Sénior, me proporcionou uma experiência profissional e ter uma visão de liderança mais ampla e mais comedida na tomada de decisões e na gestão da empresa.
Visão para a Lusofonia
O que significa para si “Lusofonia” no contexto atual económico e geopolítico?
Para mim, a Lusofonia neste contexto atual, representa nem mais nem menos, uma comunidade sem barreiras linguísticas, culturais, fronteiriças, tecnológicas, e respeitosas entre todos estes povos que falam a mesma língua, e têm quase os mesmos costumes. Países com suas leis e Estados próprios, mas unidos pela lusofonia, que os engrandece como uma mais valia, pois unidos, somos sempre mais fortes, a começar pela língua oficial destes povos.
Quais são, no seu entender, os principais desafios para os líderes lusófonos no início da década de 2020?
Na minha opinião, os principais desafios são a estabilidade política, social e militar, maximizar ao máximo os projetos macros para o bem-estar das populações, inclusão mais assertiva na resolução dos problemas mais candentes até nas regiões mais recônditas de cada país. Traçar um plano estratégico, para a proteção a mulher e crianças em todos os aspetos.
E que oportunidades vê emergir, especialmente entre os países lusófonos africanos?
Os países lusófonos africanos, devido à geografia de cada um, deveriam potenciar sinergias em: uma boa rede de telecomunicações entre os países, melhor conexão aérea entre estes países, maior intercambio cultural, académico e científico, criar Câmaras de Comércio entre todos, para fluir mais negócios, e acima de tudo, deveria existir mobilidade sem vistos de entrada entre os respetivos países.
A Nova Agenda de Liderança
Se tivesse que definir uma “nova agenda” para os líderes lusófonos, quais seriam os três pilares que a sustentam?
Para nova agenda, sugeria: diplomacia económica para execução de bons negócios, isenção de vistos entre a comunidade lusófona e maior mobilidade entre os povos, efetivação de investimentos macros em setores chave de cada país.
Como os líderes lusófonos podem conciliar crescimento económico com sustentabilidade social e ambiental?
Os líderes lusófonos podem conciliar crescimento económico com sustentabilidade social e ambiental adotando uma abordagem integrada, prática e adaptada à realidade de cada país. A reter os principais pontos:
– Crescimento com inclusão social
Investir em educação, formação profissional e saúde, pois vai permitir aumentar a produtividade sem deixar populações para trás. Executar programas de apoio a pequenas e médias empresas e economia informal, também.
– Valorização dos recursos locais de forma sustentável
A agricultura, pesca, florestas e turismo são setores fortes no espaço lusófono. Devemos apostar em práticas sustentáveis (agricultura regenerativa, pesca responsável, turismo de baixo impacto) criar empregos e proteger o ambiente.
– Transição energética gradual e justa
Devemos investir em energias renováveis (solar, eólica e hídrica).
Esta transição energética vai criar emprego local e não agrava desigualdades.
– Políticas públicas coerentes e estáveis
Deve se aplicar Leis claras sobre ambiente, trabalho e investimento, que irão dar confiança a empresas e cidadãos. Deve se fomentar incentivos fiscais verdes, e aplicar penalizações para práticas poluentes, também ajudam a orientar o mercado.
– Parcerias entre Estados, empresas e comunidades
Sabemos que os Projetos de desenvolvimento têm mais sucesso quando envolvem as comunidades locais desde o início, respeitando culturas, territórios e necessidades sociais.
– Cooperação entre países lusófonos
Partilha de conhecimento, tecnologia e boas práticas (por exemplo, entre Portugal, Brasil e países africanos lusófonos).
Em resumo, o crescimento económico sustentável no espaço lusófono passa menos por “crescer a qualquer custo” e mais por crescer melhor: com visão de longo prazo, justiça social e respeito pelo ambiente.
Inovação e sustentabilidade
Na sua empresa (Petrofund), que estratégia inovadora tem sido implementada para promover a sustentabilidade no setor de energia e infraestruturas?
Somos uma empresa financeira, e neste contexto, apenas promovemos as melhores decisões financeiras e a melhor Governance para alavancar as empresas nos setores de Oil & Gas e setor mineiro.
A sustentabilidade dos projetos, nós a definimos como prioritário, pois somente nessa base, se consegue definir as melhores linhas de ação, para implementação.
Como acha que os líderes podem incentivar uma transição energética responsável na Lusofonia?
Os líderes têm que traçar as melhores estratégias e melhor comunicação, para elucidar como está o mundo atual, principalmente, nas energias alternativas e sustentáveis.
Os líderes devem traçar e fazer implementar, as melhores políticas, e saber que como se produzia a energia convencional, agora temos muitas outras alternativas, menos poluídas, mais leves, mais sustentáveis, e mais baratas. Deve haver mais inter-relações entre os países lusófonos.
Governança e Bom Governo
Em muitos países lusófonos, a governança corporativa e institucional enfrenta desafios significativos. Como acha que a “boa governação” pode ser reforçada no setor privado e público?
A “boa governação” pode ser reforçada no setor público e privado, cumprindo com boas medidas de “compliance”, e executar na integra todos os regulamentos, normas e condições de boa governação. Com a diferença, que o setor privado são os Acionistas das empresas e o seu Conselho de Administração que o implantam, e no público, são medidas exaradas do Executivo que governa cada país.
Capital Humano
Você fala de “maximizar o capital humano” como um lema. O que isso representa para si na prática — recrutamento, formação, retenção?
Exatamente, isso significa que devemos obter o máximo das capacidades técnicas ou profissionais, de quem faz parte da equipa. Todo o expertise de cada colaborador, deve ser posto ao serviço da Instituição no seu máximo. E maximizar, significa sair de um ponto razoável, e chegarmos ao ponto de excelência.
Como os líderes lusófonos podem investir nas próximas gerações para assegurar uma liderança sustentável e inclusiva?
Devemos investir primeiro na edução e formação das novas gerações. E os países lusófonos têm jovens com muita capacidade intelectual.
Estando eles formados, a sustentabilidade será mais inclusiva desde a liderança até ao menor escalão.
Rede lusófona e cooperação
De que maneira a cooperação entre empresas lusófonas pode ser fortalecida para gerar valor mutuamente?
Criando plataformas empresárias entre os países, bem como o intercâmbio direto entre as empresas. O mundo hoje é global, e com um “clique”, chegamos a outros pontos do mundo.
Há iniciativas concretas (ou que gostaria de ver) para criar plataformas de colaboração entre líderes empresariais lusófonos?
Gostaria que existisse uma Instituição Lusófona forte financeira, rotativa, que englobasse vários setores de negócio, desde Petróleo, Gás, Minérios, Agricultura, Construção e outros.
Desafios regulatórios
e institucionais
A regulação nos setores de energia e finanças varia bastante entre os países lusófonos. Como isso afeta a inovação e o investimento?
São setores que têm que ser bem regulados, pois são áreas chave para o desenvolvimento dos países. Investir na energia, implica ter boas finanças, e tudo bem sincronizado, teremos desenvolvimento.
Para a inovação, é preciso muito investimento, e não podemos estar estáticos, e devemos usar os novos mecanismos para inovarmos cada vez melhor.
Que papel podem ter os líderes para influenciar reformas institucionais em prol de um ambiente mais favorável ao empreendedorismo lusófono?
Sendo Líderes, quer dizer que lideramos Instituições e Equipas, e desse jeito as políticas de reforma, devem ser bem equacionadas para que as políticas de empreendedorismo sejam reais e efetivas.
Os Líderes devem estabelecer programas com mestas concretas, e criar mecanismos eficazes de implementação dessas medidas.
Responsabilidade social
e impacto
Na sua opinião, qual deve ser a responsabilidade social das grandes empresas lusófonas, especialmente em países com desigualdades marcantes?
As grandes empresas lusófonas, devem ter uma responsabilidade social de impacto, para apoiar os mais desfavorecidos, os mais necessitados, em vários projetos, principalmente em zonas rurais, e zonas circundantes das grandes cidades.
Pode dar um exemplo de projeto social ou de impacto que a Petrofund ou outras entidades lideradas por si estejam a desenvolver?
A Petrofund participou e contribuiu em Dezembro de 2025 na Marcha de apoio a luta contra o cancro da mama, e cancro da próstata.
No mesmo mês, participamos na Comuna de Calumbo, província do Bengo, na ação de necessidades solidárias a crianças em Escolas Primárias.
Liderança
em tempos de crise
Como avalia a resiliência dos líderes lusófonos frente a crises económicas, políticas ou sanitárias (como a pandemia)? Que lições de liderança emergiram para si nos tempos desafiantes recentes?
Na liderança, posso afirmar que uma das melhores lições é a perseverança e a resiliência.
Tecnologia e digitalização
Qual é o papel da transformação digital para liderar no contexto lusófono?
A transformação digital é necessária e deve estar presente, na sustentabilidade de ação, em todas áreas, utilizando as novas plataformas de tecnologia. Hoje já está tudo interligado, e as performances digitais são de louvar.
Parcerias internacionais
Como vê o papel das parcerias entre países lusófonos e outras potências globais (por exemplo, europeias, asiáticas) no desenvolvimento sustentável?
As parcerias são necessárias, visto que dentro dos países lusófonos, esta comunidade, precisa de fazer parcerias estratégicas para o desenvolvimento dos seus países, europeias e asiáticas e ate americanas. Estas parcerias trarão a melhor sustentabilidade necessária para todas as esferas de desenvolvimento de cada país.
Devemos priorizar alianças dentro da Lusofonia ou com atores externos?
Sim, estou de acordo que devemos priorizar alianças dentro da lusofonia, e depois seguir com os outros parceiros externos. A comunidade lusófona tem que ter mais expressão, tem que ser mais forte economicamente e financeiramente.
Mentoria e legado
Tem mentores ou referências lusófonas que influenciaram a sua maneira de liderar?
Tenho sim, e como primeiro Mentor, tenho o meu Avô materno, senhor com uma verticalidade e princípios fora de série, como referências tenho Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto.
Que legado gostaria de deixar para a próxima geração de líderes lusófonos?
Para a próxima geração, gostaria de deixar um testemunho de trabalho feito e talvez não concluído de desenvolvimento do nosso país, no sistema financeiro e no conteúdo local, nas áreas aonde atuamos. Deixar uma marca de trabalho bem feito com excelência, aonde a nova geração, deverá assumir a continuidade.
Mensagem para futuros líderes
Que conselho daria a jovens profissionais lusófonos que aspiram a liderar empresas ou instituições?
Os meus conselhos: perseverança, resiliência, foco e traçar objetivos e metas dentro do bom Compliance e boa Governance.
Se pudesse escrever uma “carta” para os líderes lusófonos de daqui a 10 anos, o que lhes diria?
Escreveria apenas, “que devemos trabalhar e dirigir as Instituições, para o bem-estar do povo e para o desenvolvimento de cada país”, devemos pensar sempre nas “pessoas”.
Perspetiva de futuro
Olhando para os próximos 5–10 anos, quais são as suas previsões para a Lusofonia no plano económico e de cooperação?
Nos próximos 5-10 anos, a perspetiva é sempre de haver um maior crescimento nas relações económicas de cooperação, dentro da Comunidade Lusófona, fazendo com que haja mais crescimento populacional, mais crescimento demográfico, mais intercâmbio financeiro, e os governos e Instituições, deverão estar mais capacidades tecnologicamente e deverão ter maior sustentabilidade.
Em que medida acredita que uma “nova agenda de líderes” lusófonos poderá transformar realidades locais e globais?
Com a vaga de “nova agenda de líderes”, a comunidade lusófona sai a ganhar, pois terá mais líderes capacitados para poder transformar as realidades locais e globais, rumo a maximizar todo o potencial nas comunidades.
BIOGRAFIA
Estanislau Baptista
» Presidente do Conselho de Administração da Petrofund (Sociedade de Investimento de Capital de Risco)
» Estanislau Baptista é Engenheiro Civil e Industrial, com uma carreira sólida e multidisciplinar construída ao longo de mais de duas décadas de experiência profissional nos setores da engenharia, banca, finanças e consultoria internacional.
» Iniciou a sua trajetória profissional como Técnico Médio, evoluindo posteriormente para Engenheiro Sénior no setor da construção civil e industrial. Ao longo do seu percurso, aprofundou de forma consistente os seus conhecimentos nas áreas de finanças, fundos, garantias bancárias e mercado de capitais, tendo concluído diversas formações especializadas nestes domínios.
» Possui uma experiência profissional diversificada, incluindo 11 anos no setor bancário, 4 anos num Fundo de Garantia Público, e mais de 14 anos como consultor internacional nas áreas de Oil & Gás e Minerais, atuando através de empresa privada própria.
» Fluente em português, inglês, russo e espanhol, Estanislau Baptista dispõe de uma ampla rede de contactos estabelecida nos cinco continentes, o que reforça a sua capacidade de atuação em contextos multiculturais e internacionais.
» Reconhecido pela sua proatividade, liderança eficaz e sólida compreensão do sistema bancário angolano, destaca-se ainda pela sua competência em negociações estratégicas e por uma visão orientada para a sustentabilidade empresarial e a adaptação regulatória.
» Atualmente, exerce o cargo de Presidente do Conselho de Administração (PCA) em exercício da Petrofund, contribuindo de forma estratégica para o crescimento, inovação e posicionamento institucional da organização.


