No âmbito do tema “A Nova Agenda das Líderes em 2026 – Colaboração, Empatia e Propósito”, a Revista Pontos de Vista entrevistou Beatriz Martins, Founder da Beatriz Martins Real Estate. Seis anos após a criação do projeto, a empresária faz uma retrospetiva marcada pela resiliência, pela proximidade humana e por uma liderança orientada por valores. Numa conversa que cruza imobiliário, inovação, habitação e liderança feminina, Beatriz Martins partilha a sua visão sobre os desafios do setor e o papel transformador de uma liderança mais empática e consciente.
Em Fevereiro, a Beatriz Martins Real Estate celebra seis anos de existência. Que balanço faz deste percurso e que momentos mais marcaram a afirmação da marca?
Na verdade, ao refletir sobre este percurso, é impossível não sentir um misto de gratidão e surpresa. Desde o início, este projeto não foi planeado de forma convencional, pelo contrário, nasceu como uma resposta autêntica às dificuldades que a pandemia do COVID-19 impôs. Foi uma decisão forçada pelas circunstâncias com o intuito de manter a minha independência num momento de incerteza e absolutamente avassalador, transformando um desafio numa oportunidade renovadora.
Vários momentos marcaram este período, que começou como BM Home e foi agora alvo de rebranding para Beatriz Martins Real Estate, e foram, sem dúvida, todos fundamentais para o meu crescimento. Cada conquista foi um passo em direção à construção de relacionamentos sólidos com os nossos clientes e parceiros. Mas cada desafio também me ajudou a crescer. A confiança que os clientes depositaram em mim, em cada angariação, pouco a pouco, reforçou o nosso compromisso em servir com excelência, rigor e empatia. A resiliência demonstrada durante períodos desafiadores não só revelou uma determinação sólida, mas também me transformou. Cada venda faz parte do caminho. Cada negócio, cada família feliz.
Que valores considera terem sido determinantes para o crescimento e consolidação do projeto ao longo destes seis anos?
Os valores essenciais que me guiaram neste percurso foram e são a transparência, o rigor, a empatia e a atenção aos detalhes. Acredito que cada cliente merece uma atenção especial e uma abordagem personalizada, e foi essa filosofia que me permitiu consolidar a minha posição no mercado, e ainda por cá andar. Ao olhar para o futuro, tenho a convicção de que esta história é feita de desafios superados e conquistas celebradas, que surgiram de todos os potenciais fracassos de que não desisti, sempre com o intuito de fazer a diferença na vida das pessoas.
Como carateriza o atual estado do setor imobiliário em Portugal e quais são hoje os seus principais desafios e oportunidades?
Atualmente, o setor imobiliário em Portugal apresenta um crescimento constante, ainda que existam períodos com menos transações.
De acordo com declarações da APEMIP (Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal), o mercado recuperou significativamente após os impactos da pandemia, mas eu constato que também enfrenta novos desafios que precisam de ser abordados para garantir a sua sustentabilidade e crescimento.
Um dos principais desafios atuais é o acesso à habitação. Com o aumento da procura e escassez de produto, e os preços a subir, sem que os rendimentos das famílias acompanhem esse ritmo de crescimento, especialmente nas grandes cidades, muitas famílias estão a sentir a dificuldade para encontrar casa. Segundo dados do INE (Instituto Nacional de Estatística), os preços das habitações aumentaram de forma acentuada nos últimos anos, tornando a compra de casa um desafio para muitos. Além disso, as taxas de juro que aumentaram nos últimos anos podem dificultar ainda mais o acesso ao crédito.
Contudo, continua a ser um mercado vivo, rápido e desafiante, há sempre possibilidade de encontrar o imóvel que necessita.
Existem também várias oportunidades a serem consideradas. Comprar em planta, num dos vários empreendimentos com quem tenho parcerias, é ainda uma forma muito interessante de se conseguir comprar casa nova, e com condições ainda muito interessantes. A crescente procura por habitação sustentável e a digitalização dos processos imobiliários são tendências que também podem impulsionar novos modelos de negócio.
O que considera essencial para tornar o setor mais competitivo, inovador e capaz de alavancar a economia nacional?
Para tornar o setor mais competitivo e inovador, é essencial que haja uma colaboração mais estreita entre os diferentes stakeholders e, na minha opinião, seria muito importante a regulação do setor para garantir padrões de qualidade e confiança o que, por sua vez, reforça a confiança dos clientes.
Que impacto têm a inteligência artificial e a digitalização no presente e no futuro do setor imobiliário?
Confesso que reconheço a importância de nos adaptarmos às novas tecnologias e reconheço que a IA veio transformar várias áreas e o imobiliário não é exceção.
Mas o acompanhamento personalizado e a empatia e cuidado próximo com o cliente não têm substituto.
De que forma estas ferramentas podem tornar o negócio mais eficiente sem perder a proximidade e a vertente humana?
Estas ferramentas são, sem dúvida, muito úteis para gerar leads, otimizar tarefas administrativas, e para estratégias de marketing. A sua capacidade de analisar dados e facilitar a comunicação pode otimizar muitos processos no setor imobiliário. No entanto, não creio que possamos depender exclusivamente da inteligência artificial uma vez que a empatia e o cuidado são requisitos fundamentais para um bom consultor imobiliário. Este é um setor de pessoas para pessoas.
A relação humana e a compreensão das necessidades dos clientes vão muito além de análises de dados. É no ouvir atentamente, no profundo conhecimento do mercado e em oferecer soluções personalizadas que se constrói a confiança e se estabelece um bom relacionamento com os clientes. A empatia é um elemento essencial que, por mais avançadas que sejam as tecnologias, ainda é uma competência exclusivamente humana. E ainda bem que assim é.
A escassez de habitação é um dos grandes temas da atualidade. Que soluções considera prioritárias para responder a este desafio?
A escassez de habitação é, sem dúvida, um dos grandes desafios que enfrentamos atualmente em Portugal.
Para responder a este problema estou convicta que a construção de habitação acessível deve ser uma prioridade. O incentivo à construção de imóveis destinados a rendas controladas e a reabilitação de edifícios devolutos pode contribuir significativamente para aumentar a oferta habitacional.
Além disso, medidas que promovam parcerias entre o setor público e privado para o desenvolvimento de projetos de habitação também devem ser opção, uma vez que podem acelerar a resposta a esta emergência habitacional. A redução de IVA para a construção também é uma medida importante já que também é preciso aliciar o setor privado a construir, mas precisa ser acompanhada de medidas concretas e eficazes sobre o excesso de burocracia, precisamos que o setor privado tenha também interesse em se manter na área da construção, tanto os pequenos como médio e grandes promotores, todos contam. São transformações longas, infelizmente não se verão resultados imediatos.
Outro aspeto crucial é a promoção de políticas que facilitem o acesso à habitação para jovens e famílias de rendimentos mais baixos, onde hoje em dia se inclui a classe média. Não falo de habilitação social só, mas criar oferta no mercado para a procura de casa pela classe média.
Como avalia as atuais condições de crédito, em especial os apoios dirigidos aos jovens até aos 35 anos?
No que diz respeito às atuais condições de crédito, é bom observar que existem várias medidas de apoio dirigidas aos jovens até aos 35 anos, como taxas de juro mais baixas e a possibilidade de acesso a créditos com condições mais favoráveis. Não creio, no entanto, que deva, face à crise de falta de habitação, ser restrito este apoio só até aos 35 anos.
A implementação de soluções de habitação, como começar efetivamente por transformar os ativos imobiliários estatais devolutos em casas para arrendamento ou venda a preços controlados, aumentaria significativamente a quantidade de produto disponível, aliada a condições de crédito adequadas, na minha opinião não deve ser restrito até aos 35 anos, mas alargado a uma franja maior da população, seria fundamental para ajudar a mitigar a escassez de habitação.
Enquanto mulher líder no setor imobiliário, que desafios enfrentou e que mais-valias acredita que a liderança feminina traz ao negócio?
Enquanto mulher no setor imobiliário, tenho enfrentado diversos desafios, desde a construção de credibilidade, mais desafiante ainda para quem trabalha sem o respaldo duma marca mais conhecida, até à superação de estereótipos.
Acredito firmemente que a liderança feminina traz uma visão distinta e uma abordagem mais próxima que valoriza a empatia e o propósito. Como disse Michelle Obama: “Leadership is not about being in charge. It’s about taking care of those in your charge”. Trata-se de elevar os outros, reflete os valores que ela própria promoveu ao longo da sua vida, tanto como primeira-dama dos Estados Unidos, quanto nas suas intervenções públicas e discursos.
Esta citação, como muitas das suas reflexões sobre liderança, pode ser encontrada no seu livro, “Becoming” (2018), onde descreve as suas experiências e os desafios enfrentados durante a sua vida e carreira. A ideia central é que uma verdadeira liderança se concentra em ajudar e elevar os outros, colocando as necessidades e o desenvolvimento das pessoas à frente de interesses pessoais.
De que forma a empatia, o propósito e uma abordagem mais humana influenciam a relação com clientes e equipas?
Esta filosofia faz-me todo o sentido e é fundamental, pois é numa abordagem mais humana que se alteram profundamente os paradigmas de relações com clientes e equipas ou parceiros, criando um ambiente de confiança e colaboração onde todos se sentem valorizados e motivados a contribuir para o sucesso coletivo.
O que mais gosta na sua atividade profissional?
O que mais gosto no meu trabalho… A liberdade de gerir os meus horários! Muitos acreditam que isso significa trabalhar menos, mas, na verdade, é o oposto. Poder acompanhar o crescimento dos meus filhos é uma alegria que não tem preço e, essas horas extra, muitas vezes durante a noite no computador, que dedico ao trabalho tornam-se muito mais leves quando comparadas a este privilégio.
A cada dia, tenho o privilégio de conhecer pessoas fantásticas e sinto que a minha profissão desempenha um papel crucial na transformação de vidas. Eu não vendo casas; ajudo a descobrir novos lares cheios de sonhos. A satisfação que vejo nos rostos das famílias ao longo deste processo é uma recompensa inestimável.
Mas nem tudo são rosas, também há desafios inesperados e surpresas de última hora que parecem por os negócios em cheque. São poucos os negócios simples do início ao fim, mas até esse desafio me dá um certo gosto. Gosto de resolver problemas aparentemente “impossíveis”. Vivem-se momentos bastante stressantes muitas vezes, mas até hoje nenhum ficou sem solução.
Acho que esta minha capacidade resolutiva e de nunca desistir dos meus clientes me torna também diferente no setor.
Para mim não há impossíveis. Não os aceito de ânimo leve. E apesar de nunca descurar o rigor não paro até resolver.
Para isto os meus parceiros são fundamentais, sobretudo advogados, notários, contabilistas, arquitetos, etc.
Não trabalho sozinha, ainda que o cliente me veja só a mim na maioria das vezes.
Sou muito atenta aos detalhes. Tento sempre antecipar tudo para que o processo seja o mais simples possível para os clientes.
Que metas estratégicas define para a Beatriz Martins Real Estate nos próximos anos?
As minhas metas estratégicas nos próximos anos não se concentram na construção de uma grande equipa, mas sim em manter relações de parceria estáveis e duradouras, que constituem um dos meus grandes apoios. Acredito que a força de um negócio reside na qualidade das interações e na confiança mútua que se estabelece com todos os nossos colaboradores e clientes sem nunca perder a minha essência e o meu cunho pessoal. O meu objetivo é cultivar e manter esses laços, proporcionando um ambiente de colaboração onde todos possam crescer juntos. Criar novas parcerias também está no horizonte.
Que mensagem gostaria de deixar a mulheres líderes e empreendedoras que desejam construir projetos sustentáveis e com impacto?
Às mulheres líderes e empreendedoras que aspiram a construir projetos sustentáveis e com impacto, a mensagem que gostaria de transmitir é esta: não desistam. Ser mulher é sinónimo de força e resiliência. Valorizem a autenticidade e a empatia nas vossas decisões e ações. Criar algo significativo não se trata apenas de resultados financeiros, trata-se de impactar a vida das pessoas à sua volta.
Invistam nas relações que constroem, ouçam ativamente quem têm por perto e estejam dispostas a adaptar-se e aprender. É nesse espaço de partilha e compreensão que surgem as melhores ideias e oportunidades. Muitas vezes de surgem de sítios e pessoas que não imaginávamos. Acreditem no vosso propósito e não percam a vossa essência. A nossa marca somos nós! Cuidemo-nos.


