Filipe Gaspar, Diretor Geral, e Lúcia Pereira, Diretora de Recursos Humanos da Groupe Bénéteau Portugal, personificam uma nova geração de líderes que coloca as pessoas no centro da decisão, sem perder de vista a performance económica e a competitividade industrial. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, partilham como a Groupe Bénéteau Portugal tem vindo a estruturar a sua missão, visão e valores, transformando o propósito em comportamentos concretos no dia a dia. Uma conversa inspiradora sobre o equilíbrio entre resultados e bem-estar, sobre sustentabilidade como vantagem estratégica e sobre o papel do líder enquanto facilitador da inteligência coletiva — pilares essenciais da nova agenda da liderança em 2026.
O que significa, para si, liderança consciente num grupo industrial global como a Groupe Bénéteau Portugal?
Este tema é de atualidade pois tivemos um evento de 2 dias fora das nossas instalações com a equipa de Direção da Groupe Bénéteau Portugal principalmente para nos alinhar neste início de ano. Aproveitamos este momento para definir e escrever conjuntamente a nossa Visão, a nossa Missão, os comportamentos esperados relacionados com os nossos Valores, assim como as 10 regras de ouro da Liderança à Bénéteau Portugal.
Para nos, liderança consciente é saber cuidar de nos para poder cuidar dos nossos com a devida atenção. Acreditamos que um lider auto-consciente, capaz de reconhecer e idenficar as suas emoções e compreender as causas tera uma maior capacidade de gerir e adaptar-se a cada situação e assim estar mais motivado.
A empatia faz parte das caraterísticas que procuramos desenvolver na nossa liderança para acompanhar melhor os nossos colaboradores pois nunca sabemos o que cada um de nos vive nas nossas vidas pessoais.
Mas liderança consciente também se aplica à nossa comunidade e ao nosso meio ambiente. Encorajamos os nossos colaboradores através o nosso Grupo de Responsabilidade Social a organizar atividades ao longo do ano sempre com cariz social e apoiando uma instituição local.
Que mudanças teve de fazer no seu próprio estilo de liderança para responder às exigências atuais dos líderes?
A liderança é um exercicio complexo pois cada pessoa é uma pessoa, com as suas caraterísticas, as suas expetativas e o seu modo de comunicação. Consideramos que um bom lider não deve ter o seu próprio estilo de liderança mas sim saber adaptar o seu estilo a cada colaborador e ao contexto.
Vivemos num mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo) com equipas cada vez mais multiculturais e diversas, e por isso é importante comunicar de forma clara e dar visibilidade do futuro a cada colaborador. Esse é um dos nossos maiores desafios nos dias de hoje.
Os denominadores comuns a liderança são manter o otimismo, ter as pessoas no centro de cada decisão com uma liderança de “servir” e não ter receio de mostrar a nossa vulnerabilidade.
Como se equilibra performance económica, bem-estar das pessoas e responsabilidade ambiental num setor altamente competitivo?
Tratando-os como interdependentes: maior eficiência, foco na redução de desperdicios aliados a ambientes nos quais as pessoas se sentem bem resultam no aumento da produtividade, na melhoria dos resultados e, consequentemente, na proteção do negócio a longo prazo.
Neste sentido, por exemplo, a nossa Missão centra-se precisamente nestes 3 eixos: acrescentar valor, cuidar da nossa gente e responsabilidade social e ambiental. É como a questão indica um equilíbrio entre estes três pilares de uma empresa.
Nos momentos menos bons nunca deixamos de dar alguns “miminhos” às nossas pessoas nem deixamos de colaborar com a comunidade. E isso foi muito importante para nós.
Não podemos deixar de dizer que sem a parte económica, o resto também não pode existir. Devemos primeiro criar para depois distribuir para com os nossos e a comunidade. Criar um círculo virtuoso onde quanto mais temos, mais damos e mais contribuímos a nível social e ambiental. É alinhar a exigência de alcançar os resultados, com “pequenas” atenções aos nossos colaboradores e ações a nivel da comunidade e do ambiente.
Atenções como cabazes de Natal, chocolatinhos ou miminhos ao longo do ano ou um postal e uma lembrança no dia de anos. Ações como projetos de zero papel à instalação de paneis solares.
De que forma a gestão responsável e a sustentabilidade deixaram de ser um custo para se tornarem uma vantagem estratégica?
A sustentabilidade bem feita não é discurso, é disciplina de gestão. Uma empresa com um propósito claro é mais atrativa e cria um maior sentimento de pertença para com os nossos talentos.
De um foma mais concretas, a estratégia de sustentabilidade passa pela inovação ao nivel da propulsão híbrida e electrica, novos materiais compósitos e desenvolvimento de parceiros locais para reduzir as emissões de CO2 no transporte de componentes. Como referido, também o investimento em paneis solares permite uma real redução de custos operativos.
Para além disso, cada vez mais sentimos que os nossos clientes e colaboradores são influenciados por estes valores na altura de fazer as suas escolhas, relativamente a se querem os nossos serviços, ou se faz sentido fazer parte das nossas equipas. Integrar estes princípios na nossa estratégia de liderança, ajuda-nos a ganhar reputação, resiliência e acesso a mercados cada vez mais exigentes.
Em resumo, não é so uma questão de imagem ou obrigação legal, mas de vantagem competitiva.
Quais são hoje os principais dilemas éticos que os líderes enfrentam em cadeias de valor globais?
Os nossos fornecedores, colaboradores e parceiros precisam estar alinhados com os nossos valores. Não vale tudo, e mesmo que possa implicar perder negócio ou abrir mão de um colaborador técnico muito bom, a ética deve sobrepor-se ao benefício e ao lucro. Daí a importância da transparência, de saber a origem das nossas matérias primas e avaliar a pegada ambiental, assim como de desenhar critérios claros sobre o que é ou não aceitável para nós. Não pode haver dúvidas relativamente a isso nem para nós como lideres nem para os nossos parceiros e colaboradores.
Qual é o propósito da Groupe Bénéteau Portugal para além dos resultados financeiros?
A nossa missão e visão passam pela melhoria constante em tudo aquilo que empreendemos, acrescentar valor em todo o processo administrativo e produtivo, sempre com as pessoas e o seu desenvolvimento no centro com responsabilidade social e ambiental.
Como garantir que esse propósito é vivido de forma consistente por equipas diversas e internacionais?
Operacionalizando-o, isto é, traduzí-lo para comportamentos concretos que consigamos observar e, se possível, até medir. Isto poderá passar por traçar e definir objetivos claros para as nossas equipas, criar condições de reconhecer estes comportamentos e valorizá-los para que aumentem e sobretudo através de uma liderança pelo exemplo. As lideranças devem ser as primeiras a aplicar estes valores. Não se pode pedir, receber, àquilo que não damos. A cultura vive-se na simplicidade do dia a dia, não nas páginas de um código de ética ou em publicações nas redes sociais.
Para além disso, a diversidade é dos pontos que mais nos orgulha pois temos 14 nacionalidades diferentes, nomeadamente Portugal, Espanha, França, Brasil, México, Argentina, Venezuela, Colômbia, Índia, Paquistão, Bangladesch, Nepal …. É um verdadeiro desafio quotidiano responder as necessidades de culturas tão diferentes.
Que papel desempenha o propósito na atração e retenção de talento, especialmente das novas gerações?
Um papel crucial. As novas gerações são cada vez mais exigentes com o propósito. Ele deixou de ser um elemento de inspiração, um “nice to have” e passaram a tornar-se um fator de decisão. Cada vez mais os candidatos procuram organizações onde sintam que aquilo que fazem tem impacto real, contribui para algo maior e sobretudo que esteja alinhado com os seus princípios e valores. E não basta que tenham essa perceção ao inicio, é preciso “viver” esse propósito no dia a dia. Porque quando o propósito é vivido na prática, isso aumenta o compronmisso, a identidade e identificação com a empresa e a vontade de permanecer e continuar a crescer connosco.
O futuro da liderança passa cada vez mais pela colaboração. Como isso se reflete no seu dia a dia como líder?
A transmissão é um dos quatro valores do nosso grupo. Aquando da definição dos comportamentos a ter acerca deste valor, perguntámo-nos se teria sentido acrescentar um quinto valor: a Colaboração! O trabalho em equipa é essencial para o sucesso da empresa. Ninguém consegue sozinho. Poderia dizer-se que a colaboração contribui para a reconceptualização constante do conceito de liderança. O perfil de líder com o qual cresci, deixou de fazer sentido na realidade atual. Cada vez mais, o líder atual toma menos decisões centralizadas, e cada vez mais contruídas em conjunto. Eu diria que o líder de hoje é um moderador ou facilitador da “inteligência coletiva”, que liga pessoas, promove a partilha e o diálogo entre diferentes áreas de conhecimento e responsabilidade e cria condições para que as melhores ideias tem espaço para aparecer, crescer e acontecer no terreno. Afinal não se trata de trabalhar uns com os outros, mas sim uns para os outros.
Que importância têm as parcerias e ecossistemas de inovação na estratégia da Groupe Bénéteau Portugal?
A Direção da Groupe Bénéteau Portugal tem uma equipa de Desenvolvimento ao nivel do Produto e também a equipa de Informática. A inovação é sempre uma questão em cima da mesa em qualquer projeto que empreendemos, seja ele um novo produto, seja um novo processo ou indicador. A nivel global a Groupe Bénéteau tem parcerias estratégicas e está atenta a novos negócios nos quais pode tirar vantagem competitiva, ao nivel da propulsão hibrida e elétrica, novos materiais compósitos e outras técnicas industrias, como por exemplo o foil.
A nivel local, a digitalização e a inteligência artificial fazem parte do nosso dia a dia pois também são areas de interesse das novas gerações e assim estratégica para atrair e fidelizar a nossa gente.
Quais são as competências-chave que um líder precisa de desenvolver hoje para estar preparado para 2026?
Um líder necessita criar proximidade, respeito e igualdade para com os colaboradores. Ser autêntico e genuíno, permite criar confiança. Acima de tudo tem de gostar de pessoas! Deve comunicar com clareza e transparência e ter empatia para ter uma escuta ativa das necessidades dos seus colaboradores. Delega, resolve conflitos e promove a colaboração interdepartamentos para desenvolver o potencial das suas equipas. Procura alcançar os resultados sem sacrificar o bem-estar das pessoas. É exemplar no seu comportamento e espalha energia positiva. Inovador, procura soluções simples mas disruptivas. Visionário e estratégico, procura implementar solução com visão longo prazo. E, por fim, é ético e responsável nas suas decisões.
Se tivesse de deixar uma mensagem aos líderes do futuro, qual seria o princípio essencial da nova agenda da liderança?
Liderem com consciência do impacto da sua liderança. As nossas decisões influenciam pessoas, negócio e até a sociedade. Essa é uma grande responsabilidade e deve ser assumida com consciência. Os líderes que conseguirem equilibrar entrega de resultados com responsabilidade pelas pessoas e pela sociedade serão os que constroem equipas robustas e organizações relevantes e duradouras.


