Resoluções de Ano Novo

Data:

Dra. Francisca Silva Ferreira, psicóloga clínica do Núcleo CASA no Porto

Por que adiamos o que verdadeiramente desejamos?

  • E porque (quase) nunca cumprimos as resoluções de Ano Novo

Abrimos a porta a um 1 de janeiro como quem abre uma janela para um outro futuro.

O ar frio da meia-noite ainda toca a pele, o brilho dos foguetes desfaz-se no céu e, entre abraços e taças erguidas, contamos as doze badaladas. Engolimos as doze passas como quem tenta encaixar doze desejos em segundos apressados, acreditando que este pequeno ritual simbólico basta para inaugurar uma vida nova.

 

É belo, é humano, é ancestral. Mas é também uma forma de desejar depressa demais.

Naquele instante, estamos a escolher desejos que ainda não escutámos, intenções que ainda não pensámos, promessas que nascem mais da urgência do calendário do que da verdade interior.

Porque, enquanto abrimos a porta ao novo ano, não abrimos necessariamente a porta a nós mesmas.

 

O desejo que não cabe em contagem decrescente

O desejo verdadeiro não se revela ao som das badaladas.

É lento, subterrâneo, íntimo.

É um murmúrio que pede tempo antes de pedir forma.

A psicologia lembra-nos que não desejamos com a cabeça — desejamos com a alma. E a alma não trabalha em urgências. Não responde a listas, nem a metas apressadas.

 

O desejo profundo jamais nasce em contagem decrescente.

 

E é por isso que tantas resoluções falham: porque não nascem de um desejo pensado, mas de uma vontade improvisada.

Usamos as listas para organizar a superfície da vida e evitar o desconforto do fundo.

São práticas, sim, mas muitas vezes são também um desvio perfeito: uma forma sofisticada de fugir ao pensamento íntimo.

 

Pensar antes de desejar: o gesto que quase nunca fazemos

Antes das metas, há algo mais radical: pensar.

Pensar intimamente. Pensar com a dureza doce da verdade. Pensar o que nos dói, o que nos falta, o que nos chama — e o que já não queremos carregar.

 

Perguntas simples, mas raramente feitas:

— O que está vivo em mim?

— O que já não encaixa?

— Que desejo tenho medo de admitir?

— Que mudança me pede coragem?

 

Às vezes, o desejo revela-se em pequenos gestos: talvez não seja simplesmente “ir ao ginásio”, mas sentir energia suficiente para subir as escadas sem cansaço; talvez não seja trocar de emprego, mas retomar um projeto que adiámos; talvez não seja fazer mais amigos, mas finalmente ligar àquela pessoa que nos traz conforto e alegria. São nuances, mas fazem toda a diferença, porque traduzem o íntimo em ação possível.

Sem este pensamento íntimo, não há desejo verdadeiro.

Há apenas expectativas, deveres, idealizações, e na verdade, tudo isso se desfaz ao fim de algumas semanas.

O sonho como guia do desejo

O desejo verdadeiro também nasce do sonho. Não do sonho dormido ou de fuga, mas daquele sonho que nos atravessa de dia, silencioso e insistente, que nos faz imaginar possibilidades que ainda não existem. Sonhar é permitir que a alma nos fale sem regras, sem urgência, sem pressão de calendário.

 

O sonho mostra caminhos que a razão ainda não reconhece. Ele não se escreve em listas, não se cumpre com força de vontade. Ele surge como um farol delicado, chamando-nos para aquilo que realmente nos move. Muitas vezes, adiamos o que desejamos porque ignoramos este sonho, tentando preencher a vida com metas tangíveis que não respondem àquilo que nos chama.

 

Integrar o sonho no nosso desejo significa escutá-lo, deixar que ele nos inspire, mesmo que ainda não saibamos como se tornará realidade. Quando o sonho encontra o pensamento íntimo e o pensamento conjunto, o desejo ganha forma, clareza e, finalmente, ação.

 

 

O desejo precisa de relação: do íntimo ao conjunto

Há um momento precioso no processo de desejar: quando o pensamento íntimo encontra o pensamento conjunto (na psicoterapia por exemplo).

 

É quando dizemos em voz alta aquilo que ainda estava disperso dentro de nós.

Quando partilhamos com alguém que escuta: alguém que não apressa nem julga — e o desejo ganha nitidez. A palavra organiza o que estava difuso.

Pensar sozinha é necessário.

Pensar com alguém é transformador.

 

Porque o desejo, para se tornar caminho, precisa de eco: não para ser aprovado, mas para ser compreendido.

 

Então por que adiamos o que verdadeiramente desejamos?

Porque desejar de verdade é arriscado.

É entrar em confronto com o que evitamos.

É assumir o que sentimos antes de assumirmos o que queremos.

É abandonar a fantasia e tocar o real.

 

Adiamos não por falta de vontade, mas porque ainda não nos sentámos verdadeiramente connosco.

 

Não adiamos o desejo: adiamos o encontro com ele.

E sem encontro, há apenas intenção.

E sem intenção verdadeira, não há transformação.

Quando deixamos de fugir, o adiamento torna-se escolha

Quando finalmente paramos, pensamos e escutamos — quando o íntimo encontra o conjunto — o adiamento deixa de ser fuga e torna-se escolha consciente.

E a mudança deixa de ser resolução e passa a ser consequência.

 

É assim que o desejo profundo se torna ação:

não pela força, mas pela verdade.

Não por pressão, mas por clareza.

Não por listas, mas por autenticidade.

Se este ano começasse de outra maneira?

Com menos pressa e mais presença.

Com menos metas e mais perguntas.

Com menos calendário e mais consciência.

Talvez então percebêssemos que as resoluções não são promessas para cumprir, mas sinais para escutar.

Que o novo ano não começa a 1 de janeiro, mas no momento em que nos sentamos connosco — sem fuga, sem listas, sem pressa.

Porque só se cumpre o que se deseja verdadeiramente. E só se deseja verdadeiramente o que se pensa com profundidade.

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