“A autoridade constrói-se pela qualidade do trabalho e não pela imposição”

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Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, sobe ao palco da nossa Revista Pontos de Vista Maria Ana Real Geraldo Dias, Managing Partner da Real Avocat à la Cour, e Principal Teacher and Manager da Real Academy of Dance, ambas as instituições no Luxemburgo. Com um percurso que cruza exigência, rigor e liderança em contextos altamente especializados, concilia a advocacia com a direção e o ensino da dança clássica. Nesta entrevista, reflete sobre liderança feminina, autoridade construída pela competência e pelo método, e sobre a importância de padrões elevados de qualidade — tanto no exercício do Direito como na formação artística.

Março é um mês simbólico para refletir sobre o papel das mulheres na sociedade e nas organizações. Na sua visão, o que distingue a liderança feminina hoje e que contributos específicos ela traz para contextos profissionais exigentes, como o jurídico?

Entendo a liderança feminina como uma forma de liderar orientada para resultados, assente em rigor, método e precisão, com particular atenção à execução e à qualidade do serviço prestado. Na realidade atual, distingue-se pela capacidade de decidir com firmeza e serenidade, assegurando clareza na atuação e alinhamento entre objetivos e responsabilidades.

No exercício da advocacia, essa liderança traduz-se numa atuação que fortalece a confiança do cliente e estrutura decisões tecnicamente consolidadas. Implica preparação exigente, estudo contínuo e atualização permanente. O propósito é assegurar uma prestação de serviços tecnicamente sólida, coerente na atuação e reconhecida pela sua credibilidade.

 

Enquanto Advogada e Law Managing Partner, lidera num setor tradicionalmente marcado por estruturas hierárquicas rígidas. Como tem vivido esse percurso enquanto mulher e que desafios — ou oportunidades — encontrou ao longo do caminho?

Num setor historicamente hierarquizado, liderar implica responsabilidade acrescida num contexto multicultural e competitivo, onde a credibilidade se constrói pela consistência, pela discrição e pela qualidade do trabalho, bem como pela proximidade e acompanhamento criterioso do cliente. As oportunidades surgiram na consolidação de um modo próprio de trabalhar, assente em método e exigência, com fundamentação jurídica cuidada e atenção efetiva à realidade concreta de cada situação. Na direção de equipas, a liderança não se confunde com comando; traduz-se numa atuação concertada, com reflexão técnica fundamentada e definição de orientações claras, garantindo qualidade na execução e no resultado.

 

A sua liderança estende-se também ao mundo artístico, através da Real Academy of Dance. Que aprendizagens da dança e da arte considera que influenciam a sua forma de liderar equipas e projetos?

A formação em dança clássica desenvolve uma disciplina particular, assente em trabalho diário, repetição disciplinada e atenção rigorosa ao detalhe. A qualidade constrói-se pela constância, pela correção técnica e pela continuidade, até que a exigência se traduz numa execução tecnicamente segura.

Na Real Academy of Dance e no meu ensino no Conservatoire du Nord, essa abordagem concretiza-se numa pedagogia estruturada, com progressão técnica contínua, correções precisas e acompanhamento atento.

Na advocacia, encontro o mesmo princípio de base: preparação minuciosa, raciocínio organizado e exigência constante na preparação e na execução. Em ambos os contextos, liderar é definir padrões elevados, formar com disciplina e assegurar que a exigência se converte efetivamente em qualidade.

Muitas vezes associa-se a liderança feminina a caraterísticas como empatia, escuta ativa e sensibilidade. Como integra estas dimensões na tomada de decisões estratégicas e na gestão de pessoas?

A empatia, a escuta ativa e a sensibilidade funcionam como instrumentos de análise e decisão. Permitem apreender o que é verdadeiramente relevante, captar as subtilezas pertinentes, antecipar constrangimentos e escolher a abordagem mais adequada, quer na relação com o cliente, quer na liderança de equipas e alunos. Na gestão de colaboradores e no ensino, privilegio uma proximidade assente em comunicação precisa, instruções claras e aplicação coerente das orientações definidas. As decisões são tomadas com ponderação e, quando adequado, precedidas de consulta à equipa, assegurando qualidade e maior estabilidade no plano decisório.

 

Na sua experiência, de que forma uma liderança mais humana e inclusiva impacta a cultura organizacional, a motivação das equipas e os resultados a longo prazo?

Uma liderança atenta e inclusiva impacta diretamente o desempenho ao consolidar confiança e ao criar um ambiente de trabalho onde o mérito é reconhecido e as expetativas são claras.

Esse enquadramento promove maior envolvimento e implicação, traduzindo-se numa melhoria do desempenho e da qualidade dos resultados. No escritório, reflete-se numa colaboração técnica mais eficaz, numa preparação mais aprofundada e numa análise jurídica mais completa. Na escola, manifesta-se numa progressão técnica consistente e numa melhoria da qualidade de execução. A médio e longo prazo, esse trabalho contínuo reforça reputação, credibilidade e confiança.

 

Olhando para o seu percurso profissional, houve momentos decisivos em que sentiu que precisou de desafiar modelos tradicionais de liderança? Que lições retirou dessas experiências?

A criação e direção de projetos próprios, tanto na advocacia como no ensino da dança clássica, implicaram opções claras quanto à organização, aos padrões de qualidade e à gestão integral do resultado. Em determinados momentos, foi necessário reformular práticas e afastar modelos mais convencionais de autoridade, afirmando uma liderança exigente na definição de orientações e firme na execução. As lições foram claras. A autoridade constrói-se pela qualidade do trabalho e não pela imposição. A firmeza, quando acompanhada de discernimento, reforça a decisão. É quando a exigência aumenta que a liderança se confirma pelo exemplo, pelo método e pela consistência do trabalho entregue.

 

A conciliação entre exigência profissional, responsabilidade e desenvolvimento pessoal continua a ser um tema central para muitas mulheres. Que práticas ou princípios considera essenciais para uma liderança sustentável?

Conciliar exigência profissional e desenvolvimento pessoal exige prioridades claras, organização disciplinada e continuidade.

Pressupõe planeamento consistente, gestão criteriosa do tempo e espaço dedicado à preparação, estudo e atualização, bem como capacidade de delegar mantendo o mesmo nível de exigência. A conjugação da advocacia com a direção e ensino da dança clássica reforçou a importância da formação contínua e de rotinas bem definidas. É a dedicação que mantenho às duas disciplinas, aliada à disciplina exigente e à motivação que lhe é inerente, que sustenta esse equilíbrio.

 

Como vê a evolução do papel da mulher em posições de liderança nos próximos anos, em particular em áreas como o Direito, a Educação e a Cultura?

Vejo uma evolução consolidada, com presença crescente de mulheres em funções de decisão e direção e com maior valorização do mérito e da especialização.

No Direito, a consolidação da liderança feminina decorrerá da capacidade de dirigir estratégias complexas, da qualidade técnica e da competência na gestão de equipas e de relações profissionais exigentes. Na Educação e na Cultura, a liderança feminina continuará a ser determinante na formação e no desenvolvimento de projetos com exigência e continuidade. Essa evolução será tanto mais sólida quanto mais assentar em princípios claros e em condições que permitam percursos profissionais consolidados.

 

Que conselho deixaria a jovens mulheres que ambicionam liderar com propósito, sem abdicar da sua identidade e dos seus valores?

O primeiro conselho é investir seriamente na competência, com estudo consistente e dedicação continuada, pois a credibilidade constrói-se com rigor técnico e qualidade demonstrada.

O segundo é decidir com firmeza serena, mantendo princípios claros e exigência constante. A liderança exige clareza na definição de princípios e coerência na sua concretização. O terceiro é manter uma ligação genuína ao que se faz, aliando disciplina exigente e motivação intrínseca. É essa combinação que permite crescer com identidade e consistência.

 

Para si, liderar é sobretudo…?

Liderar é estabelecer um padrão de excelência e assegurar a sua continuidade. É decidir com convicção serena, agir pelo exemplo e criar um ambiente de disciplina e preparação constante. É traduzir exigência em resultado. É, sobretudo, compreender que a autoridade se legitima pela qualidade do trabalho entregue.

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