“A distinção está na capacidade de transpor a visão do gabinete para o chão de fábrica”

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Nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, a Revista Pontos de Vista entrevistou Sónia Claro, Board Advisor da Monteiro Fabrics, para uma reflexão aprofundada sobre liderança feminina na transformação industrial, excelência operacional e crescimento sustentável no setor têxtil. Nesta conversa, partilha aprendizagens sobre liderar em contextos de incerteza, transformar organizações a partir do chão de fábrica, integrar inovação, ESG e sustentabilidade de forma pragmática e garantir meritocracia real num setor historicamente exigente. Uma entrevista que cruza rigor operacional com visão humana e estratégica, mostrando como a liderança pode ser um verdadeiro motor de competitividade e transformação.

Que momentos do seu percurso foram mais determinantes para a sua forma de liderar e para a sua visão sobre a transformação industrial?

Foi a transição da Direção de Operações para a liderança executiva, um marco que implicou elevar a visão da eficiência tática para a agilidade estratégica. Enquanto na produção o foco era a otimização de processos e o controlo técnico, como CEO da Monteiro Ribas Revestimentos, compreendi que a verdadeira transformação industrial não se faz com máquinas, mas com pessoas; elas são o único ativo insubstituível. Liderar a modernização de uma PME exige converter a resistência em compromisso, priorizando uma cultura de confiança. Hoje, a visão de liderança funde o rigor operacional do chão de fábrica com a convicção de que o crescimento sustentável só é possível quando cada colaborador se sente parte integrante da estratégia.

 

Ao longo da sua experiência como CEO e Diretora de Operações que aprendizagens considera mais valiosas sobre liderança em contextos de incerteza?

A incerteza exige “agilidade analítica”. Em crises, a comunicação deve ser constante e como CEO, ao liderar 90 colaboradores, centramo-nos no facto que a resiliência não é apenas aguentar a pressão, mas manter a agilidade e a capacidade de decidir com dados incompletos. Durante a expansão para a Alemanha, com a gestão da equipa multicultural foi crucial a liderança ser um porto seguro, aliando a visão estratégica a uma escuta ativa das pessoas no seu habitat.

 

O que considera inegociável numa liderança orientada a resultados, sem perder foco no desenvolvimento de pessoas e cultura?

A responsabilidade (accountability). É possível ser empático e focado em pessoas, mas os resultados são o que garante a sustentabilidade dos empregos. O foco em P&L é inegociável, tendo como base metodologias como OKRs e KPI para que cada colaborador entenda como o seu trabalho impacta os resultados.

 

O que distingue uma transformação “bem pensada” de uma transformação “bem executada”?

A distinção está na capacidade de transpor a visão do gabinete para o chão de fábrica, onde a execução falha quase sempre na ‘última milha’. Uma estratégia brilhante morre sem o compromisso cultural e o envolvimento de toda a organização. É fundamental estabelecer um feedback constante, garantindo informação em tempo real sobre o que funciona e o que precisa de ajuste, transformando a resistência em agilidade operacional.

 

Que indicadores e rotinas considera essenciais para elevar eficiência e rentabilidade sem comprometer qualidade e capacidade de resposta ao cliente?

A rentabilidade não pode ser inimiga da qualidade; por isso, o foco da gestão em indicadores que mostram o pulso real da fábrica. É necessário olhar para mais do que folhas de Excel ao fim do mês; há rotinas de acompanhamento direto no chão de fábrica para detetar problemas na hora e garantir que a eficiência interna nunca atropele o compromisso com o cliente.

 

Que papel atribui à inovação e à melhoria contínua na indústria, e como se evita que fiquem apenas como intenção?

A inovação só cumpre o seu papel quando é operacionalizada e integrada na cultura da organização; caso contrário, não passa de uma intenção. A inovação faz parte do meu ADN e não é apenas criar o ‘novo produto’, mas sim manter uma curiosidade constante e investir em formação contínua para antecipar o futuro. É também com este pragmatismo que devemos encarar o potencial da IA e todo o seu potencial.

 

Como defende que o ESG deve ser integrado na gestão industrial, sem burocracia e com impacto real no negócio?

O ESG não deve ser um silo, mas uma responsabilidade transversal onde cada métrica de sustentabilidade, seja a eficiência carbónica ou a retenção de talento, é tratada com o mesmo rigor que um KPI financeiro. Menos burocracia significa menos indicadores irrelevantes e mais foco em como o desempenho não-financeiro mitiga riscos e abre novos mercados. Em suma, o impacto real acontece quando se compreende que o ESG não é sobre ‘como gastamos o dinheiro’, mas sim sobre ‘como geramos valor’ de forma sustentável e competitiva.

 

Como se garante que a sustentabilidade reforça competitividade, e não apenas reputação?

Através da certificação e da economia circular. Clientes de alta gama exigem rastreabilidade. Ao fazer parte de organizações como a GRACE, posicionamos a empresa como um parceiro de baixo risco para os clientes, o que permite o upselling do produto.

 

Que práticas ajudam a garantir progressão justa e reconhecimento de mérito, com critérios claros e consistentes?

Para garantir uma progressão justa, é essencial substituir a subjetividade por critérios de mérito objetivos, garantindo que as decisões de promoção se baseiam em resultados mensuráveis e não em perceções. A chave reside na institucionalização de boas práticas: descritivos de funções claros, grelhas de competências públicas e um sistema de feedback contínuo que elimine enviesamentos inconscientes.

 

Que barreiras ainda persistem para mulheres em funções de liderança e de decisão na indústria?

Existem barreiras subtis, como o acesso a redes de influência informais dentro e fora da própria empresa. No entanto, defendo que a liderança focada, competência e a orientação para resultados são os fatores diferenciadores que são independentes do gênero.

 

Que mensagem gostaria de deixar a mulheres que querem liderar transformação em contextos exigentes, com ambição, método e consistência?

Que a ambição deve ser alimentada pela curiosidade constante. Sou uma life-long learner e acredito que o mérito, aliado a um método rigoroso e à coragem de decidir em ambientes complexos, é o que quebra barreiras. Liderar na indústria exige resiliência, muita agilidade e acima de tudo a capacidade de desenvolver outras pessoas para que o crescimento seja coletivo.

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