“A diversidade de género aumenta a qualidade de decisão”

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Em África — continente em acelerada transformação digital — e no mundo, a diversidade de género nas áreas da tecnologia, engenharia e finanças deixou de ser apenas uma questão reputacional para assumir um papel central na sustentabilidade e escalabilidade dos negócios globais. É neste contexto que a Angola Cables se destaca como um caso de referência e na qual está Laura Carneiro, board member e Chief Financial Officer. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, mostramos a trajetória profissional desta personalidade e que espelha a evolução de uma liderança técnica para uma liderança estratégica, orientada para resultados, governança sólida e consolidação internacional.

Que momentos do seu percurso profissional forma mais determinantes para a construção da sua visão de liderança?

Muito resumidamente, ao longo destes mais de dez (10) anos no exercício da função de administradora, destaco alguns momentos particularmente relevantes:

  1. O alinhamento consensual no seio do Conselho Executivo, determinante para o alcance dos resultados estratégicos do Grupo.
  2. A mudança de modelo de gestão para um ambiente orientado à diversificação, que impulsionou uma reestruturação profunda na criação e gestão de processos e procedimentos financeiros, com impacto estrutural no negócio e tornando a organização mais ágil e resiliente.
  3. Enquanto líder servidora, o desafio permanente tem sido conciliar e fortalecer equipas multiculturais. Nesse percurso, a minha visão foi moldada pela transição de contextos predominantemente técnicos para a gestão estratégica de pessoas em ambientes globais. A minha principal motivação é o empoderamento das equipas, de forma consistente e orientada a resultados que efetivamente façam a diferença.

 

De que forma a experiência anterior em telecomunicações contribuiu para a abordagem estratégica que hoje aplica na Angola Cables?

O setor das telecomunicações é intensivo em capital, o que exige uma mentalidade de longo prazo, altamente regulado e dependente de infraestruturas críticas. A experiência prévia deu-me uma compreensão profunda da relação entre investimento, risco, ciclos de retorno e sustentabilidade financeira. A Angola Cables é uma empresa com cinco subsidiárias distribuídas por três continentes, com uma infraestrutura que liga mercados estratégicos e suporta conetividade intercontinental. A área financeira, neste contexto, não é apenas suporte; é parte integrante da estratégia de expansão e consolidação internacional.

 

Que princípios orientam a sua forma de liderar equipas e de tomar decisões em contextos de exigência e responsabilidade?

No contexto atual tenho como importantes os seguintes princípios:

  1. Valorização das diferentes forças e valências dentro das equipas
  2. Motivação de forma empática e escuta ativa
  3. Acompanhamento de forma transparente com foco nos objetivos
  4. Qualidade significa a conciliação de comunicação, procedimentos, disciplina, consistência e resultados
  5. Responsabilização clara
  6. Decisão fundamentada em dados.

Num grupo internacional, a coerência entre estratégia global e execução local é determinante. Liderar é garantir alinhamento, promover autonomia responsável e assegurar consistência financeira e reputacional.

 

Como avalia a evolução da presença feminina em áreas como tecnologia, engenharia e telecomunicações nos últimos anos?

Primeiramente, quero agradecer a todas as mulheres que têm contribuído para o desenvolvimento e a inovação tecnológica nas diversas áreas do nosso mercado. A evolução é crescente e positiva, mas ainda insuficiente. O setor continua historicamente marcado pela predominância masculina, sobretudo nas áreas de engenharia, infraestrutura de rede e nos centros de decisão. Observamos uma quebra gradual de padrões, embora o enviesamento inconsciente em ambientes técnicos ainda represente um desafio relevante. Ainda assim, os números demonstram que o caminho está a ser construído de forma consistente. No Grupo Angola Cables, alcançámos 31% de representatividade feminina no universo total de colaboradores. Mais do que um indicador estatístico, trata-se de uma vantagem competitiva num mercado de engenharia tradicionalmente masculino. Estes dados evidenciam progresso, mas também reforçam a oportunidade estratégica de ampliar a participação feminina, especialmente em funções técnicas especializadas e posições de liderança.

 

Que desafios continuam a existir para mulheres que ambicionam funções de liderança neste setor?

Persistem desafios estruturais, como estereótipos associados a funções técnicas, sub-representação em áreas de engenharia avançada e a necessidade de conciliar exigência executiva com responsabilidades pessoais. Em mercados africanos que se abrem ao mundo, essa transformação está em curso. Mas requer políticas claras, métricas objetivas e compromisso institucional consistente.

 

Que mudanças considera mais urgentes para acelerar uma maior igualdade de oportunidades em contextos técnicos e executivos?

Indico algumas frentes que considero prioritárias:

ŸCritérios transparentes de progressão e avaliação

ŸProgramas estruturados de mentoria

ŸCultura organizacional orientada para o desempenho e não para as perceções

ŸDesconstrução da fragilidade

ŸIgualdade de oprtunidades e posicionamentos, respeitando as diferenças.

Na sua perspetiva, de que forma a diversidade de género contribui para equipas mais fortes, inovadoras e preparadas para o futuro?

A diversidade de género aumenta a qualidade de decisão. Equipas diversas analisam risco sob múltiplas perspetivas e reduzem o pensamento homogéneo. Esta pluralidade permite-nos abordar o mercado de forma mais resiliente, cruzando a maturidade operacional de diferentes geografias para fortalecer a nossa cultura organizacional.

 

Que práticas organizacionais considera essenciais para atrair, desenvolver e reter talento feminino?

Recrutamento baseado em competências:

ŸIgualdade salarial por função e desempenho

ŸAcesso a projetos estratégicos de elevado impacto

ŸVisibilidade de modelos de liderança feminina.

O talento retém-se quando existe mérito reconhecido e oportunidade real de crescimento.

 

Como se constrói, na prática, uma cultura que concilia desempenho, crescimento profissional e respeito pelas diferentes realidades de vida?

Com clareza de metas e confiança na execução. Alta performance não exige rigidez excessiva: exige alinhamento, responsabilidade e compromisso com resultados. A cultura constrói-se através de consistência e exemplo da liderança.

 

Que papel tem a área administrativa e financeira na consolidação e expansão internacional de uma empresa tecnológica?

A área financeira é a estrutura que sustenta crescimento. Gerimos operações em seis moedas (USD, AOA, EUR, BRL, ZAR e NAD) e a gestão cambial é determinante para proteger margens e assegurar fiabilidade das contas perante acionistas, parceiros e mercado. A expansão internacional, o investimento em infraestrutura e o desenvolvimento de soluções digitais exigem disciplina financeira rigorosa, governação sólida e visão de longo prazo.

 

Como equilibrar metas de crescimento com disciplina financeira, eficiência operacional e visão de longo prazo?

O segredo está na escalabilidade. Mantemos um controle rigoroso para garantir que cada investimento na nossa rede de cabos submarinos e data centers tenha um retorno que sustente a nossa visão de ligar África ao resto do mundo. Crescimento sem disciplina compromete sustentabilidade. Disciplina sem visão limita escala.

 

Que competências considera hoje indispensáveis para líderes que atuam na interseção entre estratégia, finanças e inovação?

Literacia tecnológica:

ŸCapacidade analítica avançada

ŸVisão sistémica

ŸGestão de risco

ŸComunicação clara com stakeholders técnicos e financeiros.

Que mensagem considera importante deixar às jovens mulheres africanas que pretendem construir carreira em tecnologia, gestão ou finanças?

A minha mensagem é: dominem a vossa técnica e não peçam licença para liderar. O conhecimento é a vossa maior moeda de troca. Através do nosso trabalho, estamos a provar que a liderança feminina africana é o catalisador para uma economia digital mais inclusiva, sustentável e preparada para os desafios internacionais da próxima década.

 

Como imagina a evolução da liderança feminina africana na próxima década, especialmente em setores estratégicos para a transformação digital?

Vejo uma evolução sustentada, especialmente em setores estratégicos para a transformação digital, como infraestrutura de dados, conetividade internacional e serviços tecnológicos avançados. À medida que África reforça o seu posicionamento global, a diversidade na liderança será um fator determinante de competitividade.

 

Que legado gostaria de continuar a construir através do seu trabalho e da sua atuação na Angola Cables?

Gostaria de ser recordada como a líder que consolidou a robustez financeira da Angola Cables no mercado global, mas que também abriu portas para que outras mulheres ocupassem o seu lugar no topo.

 

Dra. Laura Carneiro  | ADM. Financeira

Laura Carneiro é Administradora na Angola Cables desde 2012, responsável pela área Administrativa e Financeira, onde planeja, monitora e define estratégias de acordo com as metas da organização. Já trabalhou na Startel e na Mundo Telecomunicações. Possui formação em Gestão Financeira pela Universidade Católica de Angola e curso de liderança estratégica. Com habilidades em comunicação, resolução de problemas e liderança de equipas.

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