No âmbito do editorial “Saúde, Vidas que Cuidam”, a Revista Pontos de Vista apresenta uma entrevista à Bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Sofia Ramalho, uma das vozes mais relevantes no panorama nacional da Psicologia e da saúde pública. Num país marcado pelo envelhecimento demográfico, pelo aumento da doença crónica e por novos desafios sociais e humanos, esta conversa propõe uma reflexão aprofundada sobre o papel da Psicologia enquanto pilar da saúde global, da prevenção, da dignidade e da qualidade de vida ao longo de todo o ciclo vital.
A Psicologia tem vindo a afirmar-se como um pilar fundamental da saúde. Na sua perspetiva, qual é hoje o papel da Psicologia na promoção da saúde e do bem-estar ao longo da vida?
Sim, a Psicologia é hoje um pilar da saúde global. Como temos sempre vindo a afirmar, a saúde não é apenas ausência de doença. É a capacidade de adaptação ao longo da vida, de participação plena na sociedade, e de construção de sentido e propósito, bem como a capacidade de cada um de elevar ao máximo o seu potencial de realização.
A evidência científica demonstra que a saúde psicológica está profundamente interligada com a saúde física. Por exemplo, pessoas com doença crónica têm duas a três vezes maior probabilidade de desenvolver problemas de saúde mental, e sabemos que entre 50% a 70% das consultas nos cuidados de saúde primários estão associadas a fatores psicológicos.
Aqui, a Psicologia contribui para promover comportamentos e estilos de vida saudáveis, aumentar a adesão comportamental à intervenção, seja de que natureza for, prevenir a doença mental, reforçar competências de resolução de problemas, e apoiar processos de adaptação ao longo de toda a vida.
Hoje, falar de saúde global sem integrar a dimensão psicológica é tentar tratar o corpo ignorando a dimensão psicológica e a mente. Seria sempre uma abordagem incompleta e menos eficaz.
Num país cada vez mais envelhecido, que contributos específicos pode a Psicologia oferecer para um envelhecimento ativo, saudável e consciente?
Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Desde o início da década, mais de 20% da população da União Europeia tem 65 ou mais anos, e Portugal ocupa posições cimeiras neste ranking. Importa ainda sublinhar que o impacto da solidão e do isolamento na mortalidade é comparável ao do tabaco.
A Psicologia oferece contributos essenciais para um envelhecimento ativo, saudável e consciente, através da literacia sobre envelhecimento, combatendo mitos e estereótipos, intervindo para a estimulação cognitiva e reabilitação neuropsicológica, nomeadamente na demência, intervindo na solidão e no isolamento, promovendo a participação social e intergeracional, ou apoiando aos cuidadores informais.
Na verdade, envelhecer ativamente não é “fazer mais coisas”, é continuar a ter propósito, vínculos e autonomia.
De que forma a intervenção psicológica pode ajudar a preservar a dignidade, a autonomia e a qualidade de vida das pessoas em idade mais avançada?
A dignidade está profundamente ligada à autonomia e ao direito à participação e à autodeterminação. A intervenção psicológica pode ajudar a reforçar a capacidade de decisão das pessoas mais velhas, a apoiar na adaptação às perdas (referimo-nos, por exemplo, à reforma, viuvez, alterações funcionais que a pessoa enfrenta), a intervir na depressão (que afeta 10% a 15% dos idosos com mais de 65 anos), a promover estratégias para ajudar as pessoas a lidar com a doença crónica ou com a dor persistente, e a apoiar no fim de vida, por via de cuidados paliativos. Para mim, preservar dignidade é permitir que a pessoa continue a ser autor e interventor na sua própria história, mesmo quando se encontra numa situação de maior vulnerabilidade.
A prevenção continua a ser um grande desafio. Que importância atribui à literacia em saúde psicológica e que papel tem a OPP na sensibilização da sociedade?
A prevenção é um investimento com retorno comprovado. A literatura demonstra a bem o custo-efetividade da intervenção psicológica na população idosa. A literacia em saúde psicológica permite reconhecer sinais precoces de sofrimento, reduzir estigma, aumentar a procura atempada de ajuda e promover estilos de vida saudáveis. A OPP tem desenvolvido várias campanhas públicas ao longo dos anos, bem como recursos técnicos, pareceres estratégicos e contributos científicos para políticas públicas. A Campanha Comunidades Pró-Envelhecimento é um dos exemplos, e pretendeu-se divulgar boas práticas junto dos munícipes, bem como contribuir para contextos institucionais com mais dignidade, autonomia e participação cívica, nomeadamente nas IPSS’s.
Quais considera serem hoje as principais boas práticas em Psicologia no contexto do envelhecimento e da promoção do bem-estar?
Entre as principais boas práticas destacaria, aliás privilegiadas no âmbito da Campanha Comunidades Pró-Envelhecimento, programas especializados de estimulação cognitiva, a intervenção precoce na depressão e na ansiedade, a intervenção junto de cuidadores formais e informais, ou programas de base comunitária para combater o isolamento. A coordenação entre saúde física e psicológica e a integração de cuidados reduz claramente a procura de consultas médicas ou o uso de medicação, o que salienta o impacto sistémico que a intervenção psicológica pode ter.
Como avalia a integração dos psicólogos no Serviço Nacional de Saúde, nas autarquias, instituições sociais e comunidades, particularmente no apoio às populações mais vulneráveis?
Os avanços na integração de psicólogos no SNS e em respostas sociais têm sido escassos e claramente lentos. Temos apenas cerca de 1.200 psicólogos no SNS, somando os cuidados de saúde primários e os contextos hospitalares, e estes números são manifestamente insuficientes face ao envelhecimento demográfico a que assistimos. No setor social, temos um número significativo de psicólogos, mas que se dividem por uma diversidade de áreas e contextos de intervenção muito variados, para além de que estes profissionais estão particularmente afetos a projetos que vivem de subfinanciamento e de um financiamento temporário. Nas ERPI’s (Estruturas Residenciais para Idosos), o número de psicólogos é muito reduzido face às necessidades.
Quais são, na sua opinião, os principais desafios que a Psicologia enfrenta atualmente em Portugal no âmbito da saúde e do envelhecimento?
Os desafios são muitos. Eu destacaria primeiramente o envelhecimento acelerado da população, a multimorbilidade a que assistimos, a demência, já que Portugal é dos países da OCDE com maior prevalência, a solidão e o isolamento, e mesmo o idadismo, de que se fala ainda muito pouco.
Por outro lado, precisamos de políticas públicas estruturais e de uma visão de longo prazo, com um modelo de atuação muito mais abrangente em termos de uma ação nos diferentes contextos da vida da pessoa, da família ao trabalho/reforma, à sua vida social, e uma ativação clara de diferentes respostas sociais e políticas.
Que iniciativas ou projetos da OPP destacaria como exemplos de compromisso com a promoção da saúde mental, do envelhecimento ativo e do bem-estar social?
A OPP assumiu um papel ativo com contributos para a Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável, na promoção de Comunidades Pró-Envelhecimento e na defesa clara da necessidade de reforço da integração da saúde psicológica nas diferentes estratégias e políticas públicas intersetoriais. O compromisso da OPP é com o presente e o futuro do país, que passa por promover um envelhecimento saudável, ativo e com dignidade.
Num mundo cada vez mais exigente e acelerado, como pode a Psicologia contribuir para uma sociedade mais empática, consciente e humanizada?
Vivemos num tempo acelerado, muitas vezes fragmentado e individualista. As pessoas centram-se muito nas suas “dores”, mas é importante construir empatia, e reconstruir pontes entre as pessoas e entre gerações. E uma sociedade empática é aquela que reconhece valor em todas as fases da vida. Esta é uma cultura que precisamos trabalhar mais.
Que mensagem gostaria de deixar aos leitores da Revista Pontos de Vista sobre a importância de cuidar da saúde psicológica em todas as fases da vida?
Cuidar da saúde psicológica em todas as fases de vida é um ato de responsabilidade individual e coletiva. Envelhecer é um privilégio, mas envelhecer com qualidade, autonomia e dignidade é um direito. Não esqueçamos que a saúde psicológica não começa aos 65 anos. Cada decisão que tomamos hoje, enquanto cidadãos, profissionais e decisores políticos, afeta o modo como viveremos amanhã ou nas futuras gerações. Investir em Psicologia significa investir numa sociedade mais saudável, mais justa e seguramente mais humana.


