OPINIÃO DE Francisca Silva Ferreira, Psicóloga Clínica do Núcleo CASA, no Porto
O sono é um território onde o corpo e a mente se encontram sem máscaras. Ao longo da vida, revela-se não apenas como uma necessidade biológica, mas como um espelho silencioso do nosso mundo emocional. Dormir é entregar-se à vulnerabilidade e, muitas vezes, aquilo que não conseguimos expressar durante o dia manifesta-se na forma como dormimos ou na dificuldade em fazê-lo. O sono torna-se, assim, um espaço privilegiado de diálogo entre o psicológico e o físico.
Nos primeiros meses de vida, o bebé alterna entre vigília e sono de forma quase instintiva. Dorme longas horas, acorda, chora, procura conforto. O seu corpo ainda aprende a organizar ritmos, mas já responde ao ambiente emocional que o rodeia. Um clima de tensão pode refletir-se em maior agitação; um ambiente seguro favorece um descanso mais tranquilo. Mesmo sem linguagem verbal, o corpo do bebé reage às emoções dos cuidadores. Desde cedo, o sono revela a sua dimensão psicossomática: o estado emocional influencia diretamente as manifestações físicas.
Na infância, os rituais da hora de deitar tornam-se fontes de segurança. Contudo, surgem também pesadelos, terrores noturnos e medos aparentemente inexplicáveis. A imaginação intensa da criança prolonga-se na noite e transforma receios difusos em imagens vívidas. Muitas vezes, conflitos internos, mudanças familiares ou inseguranças encontram expressão num sono perturbado. O corpo inquieta-se quando a mente ainda não consegue organizar plenamente as emoções. O que é vivido psicologicamente ganha forma somática através de suor, choro ou despertares súbitos.
Durante a adolescência, ocorre uma alteração natural do ritmo biológico, acompanhada por profundas transformações emocionais e identitárias. O jovem tende a deitar-se mais tarde, mas as exigências escolares mantêm horários rígidos. A privação de sono torna-se frequente. Ansiedade, pressão académica e uso excessivo de dispositivos eletrónicos contribuem para noites curtas e pouco reparadoras. Dores de cabeça, fadiga persistente, irritabilidade e dificuldade de concentração evidenciam como a tensão emocional se traduz no corpo. A ligação psicossomática torna-se clara: o desequilíbrio psicológico repercute-se no funcionamento físico.
Na idade adulta, o sono passa a ser frequentemente condicionado por responsabilidades e preocupações. O stress profissional e pessoal pode manter o organismo em estado de alerta constante. Mesmo em repouso, a mente permanece ativa, gerando pensamentos repetitivos e inquietação. A insónia surge muitas vezes como manifestação de uma sobrecarga emocional prolongada. Sintomas como tensão muscular, problemas gastrointestinais ou cansaço crónico revelam como o corpo expressa aquilo que a mente não consegue apaziguar.
Ao longo de todas as etapas da vida, o sono funciona como um barómetro da saúde global. Quando é reparador, contribui para a regulação emocional, para a consolidação da memória e para o fortalecimento do organismo. Quando é perturbado, denuncia desequilíbrios que atravessam simultaneamente o plano psíquico e o corporal. A perspetiva psicossomática recorda que mente e corpo não são entidades separadas, mas dimensões interligadas da mesma experiência humana.
Cuidar do sono é, portanto, cuidar da própria integridade física e emocional. No silêncio da noite, o organismo recompõe-se e a mente reorganiza o vivido. É nesse espaço invisível, entre o cansaço e o sonho, que se constrói diariamente o equilíbrio que sustenta a nossa saúde e a nossa humanidade.


