Ligia Koijen Ramos não fala para convencer. Fala para acordar. Há uma precisão quase cirúrgica na forma como escolhe as palavras, mas também uma humanidade crua que não pede licença. Filósofa, autora e oradora, tem vindo a desafiar líderes e organizações a repensarem a ideia de força, decisão e presença. No centro da sua visão está uma afirmação simples e desconfortável: viver não é controlar, é assumir.
Costuma dizer que a vida não é para ser explicada, mas assumida. O que quer dizer com isso?
Explicar é uma tentativa de dominar. Assumir é um ato de responsabilidade.
Quando explicamos demasiado, muitas vezes estamos a tentar reduzir o desconforto da incerteza. Criamos narrativas que nos tranquilizam. Mas a vida não se deixa reduzir a uma narrativa fechada. Ela acontece em camadas, em ambiguidades, em decisões que não trazem garantias.
Assumir é diferente. É dizer: isto é o que sinto, isto é o que escolho, mesmo sem saber tudo. É uma posição adulta perante a existência. Não é impulsiva, é consciente. A diferença é subtil, mas muda tudo.
No seu novo livro fala de presença como um ato radical. Porquê radical?
Porque presença exige que fiquemos. Hoje vivemos numa cultura de fuga sofisticada. Estamos sempre ocupados, sempre informados, sempre a reagir. Mas pouco presentes. Estar presente significa suportar o que está a acontecer sem anestesia. Significa não escapar para distrações quando algo dói.
Radical vem de raiz. Presença é ir à raiz do momento. É não fragmentar a experiência. Quando um líder está presente, muda a qualidade da decisão. Quando um pai ou mãe está presente, muda a qualidade da relação. Não é intensidade dramática. É inteireza.
Fala frequentemente sobre liderança feminina. O que distingue essa liderança?
Não é uma questão biológica, é uma questão de integração. A liderança feminina, como eu a entendo, integra firmeza com sensibilidade, decisão com escuta, estratégia com cuidado. Durante décadas associámos liderança a dureza, a distanciamento emocional, a controlo.
O que começa a emergir agora é outra forma de poder. Um poder que não precisa de esmagar para existir.
Que não confunde agressividade com autoridade. A liderança feminina tem a capacidade de sustentar complexidade sem a simplificar à força. E isso é extremamente necessário num mundo polarizado.
Onde está hoje o maior erro nas organizações?
Na obsessão pela eficiência sem consciência. Queremos resultados rápidos, métricas claras, respostas imediatas. Mas esquecemo-nos de perguntar: a que custo humano? Uma organização não é apenas um sistema de processos, é um sistema nervoso coletivo. Se esse sistema está em constante estado de ameaça, as decisões serão defensivas.
Muitos líderes acreditam que precisam de controlar para garantir segurança. Mas controlo gera dependência, não maturidade. Segurança verdadeira nasce da confiança e da clareza de critérios. É mais exigente. Dá mais trabalho. Mas cria autonomia.
A sua abordagem cruza filosofia, neurociência e embodiment. Como se articulam essas dimensões?
A filosofia dá-nos as perguntas certas. A neurociência mostra-nos como o cérebro responde à ameaça, à recompensa, à pertença. O embodiment lembra-nos que não somos apenas pensamento, somos corpo.
Uma decisão não é apenas lógica. É também hormonal, emocional, relacional. Quando ignoramos o corpo, ignoramos dados fundamentais. Um líder que não percebe o próprio estado interno projeta-o na equipa. Uma pessoa que não reconhece o medo chama-lhe prudência. Uma pessoa que não reconhece o desejo chama-lhe estratégia.
Vivemos numa cultura que valoriza a performance. Como sair dessa armadilha?
Primeiro, reconhecendo-a. A performance constante é insustentável. Quando transformamos cada área da vida numa vitrine, deixamos de viver para começar a representar. A longo prazo, isso cria exaustão e perda de sentido.
Sair da armadilha não significa abandonar ambição. Significa reconfigurá-la. Perguntar: isto é coerente comigo? Estou a escolher ou estou a reagir a expetativas invisíveis? Muitas vezes, a coragem não está em fazer mais. Está em parar.
No livro fala do luto como laboratório. O que quer dizer com isso?
O luto é um dos momentos mais despojados da vida. Retira-nos as ilusões de controlo. Obriga-nos a confrontar a fragilidade. Nesse sentido, é um laboratório humano. Mostra-nos o que permanece quando tudo o resto cai.
Mas não é apenas sobre morte. É sobre qualquer perda: de identidade, de papel, de narrativa. Se aceitarmos atravessar essa experiência sem a transformar imediatamente numa lição motivacional, há uma profundidade que emerge. Ficamos mais reais. E paradoxalmente, mais vivos.
O que é, para si, força?
Força não é ausência de medo. É capacidade de permanecer apesar dele. Não é rigidez, é elasticidade. A árvore que não dobra parte. A que sabe ceder ao vento mantém-se.
Força feminina, humana, consciente, é aquela que não precisa de provar nada. Age a partir de um centro interno estável. Isso não significa que não duvide. Significa que sustenta a dúvida sem se dissolver nela.
Que mensagem gostaria que os leitores levassem consigo?
Que viver é um ato de coragem quotidiana. Não é heroísmo permanente. É responsabilidade constante. É deixar de procurar explicações que nos aliviem e começar a assumir escolhas que nos definem.
A vida não é um problema a resolver. É uma experiência a habitar. E isso exige presença, verdade e uma certa dose de humildade. Porque não sabemos tudo. Mas podemos escolher com integridade.
Ligia Koijen Ramos é filósofa, autora e oradora internacional. Trabalha com líderes e organizações na interseção entre consciência, decisão e cultura. O seu livro “A Vida que Ficou” explora o viver como laboratório humano, cruzando experiência pessoal com reflexão filosófica e científica.


