“Acredito que o conhecimento é essencial, mas é a forma como o aplicamos, com discernimento e equilíbrio, que define a liderança”

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Carla Borges, Partner da De. Gaveto Lda, volta a associar-se à Revista Pontos de Vista numa edição especial dedicada ao Dia Internacional da Mulher. Com um percurso sólido na engenharia e na gestão técnica, partilha uma reflexão clara e consistente sobre a presença feminina num setor historicamente masculino, abordando liderança, rigor, responsabilidade e a importância de normalizar o talento feminino na engenharia e na construção.

Ao longo da sua carreira no setor de engenharia e gestão técnica, como tem percebido a evolução da presença e do papel das mulheres em posições de liderança nesse setor tradicionalmente masculino?

Sinto que a presença feminina na engenharia e na construção tem vindo a consolidar-se de forma progressiva e consistente. O setor, historicamente marcado por uma predominância masculina, começou nos últimos anos a integrar cada vez mais mulheres em funções técnicas, de coordenação e de decisão estratégica. Esta evolução, em minha opinião, resulta de uma transformação cultural mais ampla que reconhece a diversidade como um fator de robustez organizacional. A liderança passou a ser entendida como um conjunto de competências técnicas, estratégicas e relacionais.

Contudo acredito que importa distinguir entre representatividade e influência efetiva. O aumento do número de mulheres em cargos de liderança é relevante, mas a normalização dessa presença e a igualdade real no acesso às oportunidades, devem ser os fatores pelos quais avaliamos essa evolução. O setor está, a meu ver, num momento próximo de deixar de discutir se as mulheres podem ou não liderar, para passar a discutir como potenciar o talento disponível, independentemente do género. Sempre acreditei que, quando a competência encontra coragem, a liderança deixa de ter género e passa a ter propósito…

 

Que valores e princípios norteiam a sua forma de liderar — especialmente em contextos em que é preciso articular componentes técnicas e humanas?

Os valores e princípios que me norteiam são elevados, porque acredito que a liderança não pode ser circunstancial nem moldada pela conveniência, mas acima de tudo é a seriedade que define a minha forma de estar. Seriedade na preparação, no compromisso assumido, no respeito pelas pessoas e pelas decisões que impactam o seu trabalho. Num setor exigente como a engenharia, não há espaço para superficialidades. Cada decisão tem consequência e isso obriga a uma postura firme, ponderada e responsável. Não concebo liderança sem coerência entre o que se diz e o que se faz. Nem sem assumir, com clareza, as decisões tomadas, mesmo quando difíceis. A componente técnica exige rigor e a componente humana exige equilibro, sendo nessa responsabilidade consciente que procuro sustentar a minha liderança.

 

Pode identificar um momento — pessoal ou profissional — que tenha sido decisivo na forma como encara a liderança hoje?

Não identifico um único momento transformador, mas reconheço que assumir responsabilidades em fases muito precoces da minha carreira foi determinante. Liderar equipas mais experientes, em ambientes exigentes, obrigou-me a perceber que a autoridade não decorre da posição hierárquica, mas sim da preparação, da clareza e da consistência. Num setor tradicionalmente masculino, a credibilidade nem sempre é concedida de imediato; é conquistada através de solidez técnica, postura firme e equilíbrio emocional. Essa consciência moldou a minha forma de liderar: pela consistência e pelo exemplo, e não pela imposição.

 

No contexto das suas funções técnicas e de gestão, de que forma procura equilibrar a exigência técnica dos projetos com a criação de culturas de trabalho mais colaborativas e humanas?

A exigência técnica é intransigente. A engenharia não admite decisões superficiais. Contudo, a forma como essa exigência é operacionalizada faz toda a diferença. Procuro criar equipas onde o rigor não seja confundido com rigidez e onde a responsabilidade não seja imposta pelo receio, mas assumida por compromisso. Acredito que a colaboração não reduz a exigência, eleva-a. Quando diferentes perspetivas são consideradas, as soluções tornam-se mais robustas e sustentáveis. Hoje, liderar implica garantir solidez técnica sem perder a qualidade das relações, é dessa conjugação que nasce a consistência de resultados.

 

Quais foram os principais desafios que enfrentou como líder ao longo da sua carreira — relacionados com estereótipos de género ou estruturas organizacionais convencionais — e como os ultrapassou?

O maior desafio não foi técnico; foi conquistar, desde o primeiro momento, uma confiança que nem sempre era automaticamente atribuída. Num setor tradicionalmente masculino, percebi cedo que a competência, para uma mulher, muitas vezes não é presumida – precisa ser demonstrada de forma inequívoca. Essa realidade exigiu preparação acrescida, consistência e um padrão elevado de exigência comigo própria. Nunca encarei essa circunstância como um obstáculo intransponível, mas como um contexto que me obrigava a ser clara nas decisões e rigorosa na execução. Nunca senti necessidade de adotar uma postura de confronto. A forma mais eficaz de desconstruir qualquer estereótipo é através de resultados consistentes e comportamento profissional irrepreensível. Com o tempo a credibilidade deixa de ser questionada e passa a ser reconhecida naturalmente. Nunca procurei provar que as mulheres conseguem; procurei apenas fazer bem o meu trabalho – e isso abriu mais portas do que qualquer discurso.

 

Em termos de aprendizagem contínua, que competências considera hoje mais essenciais para quem quer liderar com propósito, sensibilidade e eficácia — independentemente do setor?

Além de formação técnica especializada, considero essenciais, o pensamento crítico, a capacidade de decisão em cenários de incerteza e a inteligência emocional. Liderar implica interpretar informação complexa, gerir expetativas diversas e assumir responsabilidade por decisões que nem sempre serão consensuais. A maturidade emocional permite manter equilíbrio sob pressão e preservar relações profissionais, mesmo em contextos exigentes.

Acredito que o conhecimento é essencial, mas é a forma como o aplicamos, com discernimento e equilibro, que define a liderança.

 

Olhando para os desafios atuais do mundo profissional — como evolução tecnológica, diversidade, sustentabilidade e mudanças nos modelos de trabalho — que tipo de liderança acha que será mais necessária nos próximos anos?

Os próximos anos exigirão uma liderança estruturalmente mais consciente e estrategicamente mais preparada. A tecnologia continuará a transformar processos, mas não substituirá, a responsabilidade humana na decisão. Quanto maior for a sofisticação técnica, maior deverá ser a maturidade na sua aplicação. Num contexto cada vez mais complexo, a diversidade revela-se um verdadeiro ativo estratégico. A integração de múltiplas perspetivas fortalece as decisões e amplia a capacidade de inovação.

Liderar será também saber gerir essa riqueza com discernimento e equilíbrio. No que diz respeito à sustentabilidade, não se trata apenas de cumprir requisitos regulamentares, mas de integrar critérios ambientais e sociais na estratégia de longo prazo.

Acredito que a diferenciação estará, cada vez mais, na capacidade de pensar de forma sistémica e agir com consciência.

 

Que mensagens ou conselhos deixaria a mulheres mais jovens que aspiram a assumir funções de liderança no seu setor ou noutros campos semelhantes?

Diria, antes de mais, que a preparação é a base da confiança. Investir seriamente na formação técnica, procurar experiências exigentes e não evitar contextos desafiantes são passos fundamentais para construir credibilidade sólida.

Mas tão importante quanto a competência é a postura. Não devem sentir necessidade de replicar modelos tradicionais para serem legítimas. A firmeza pode coexistir com empatia e a objetividade pode existir com sensibilidade. Sejam autênticas.

Haverá momentos em que haverá maior escrutínio ou maior exigência, sendo muito importante manter o foco no trabalho, na consistência e na qualidade das decisões. A confiança constrói-se ao longo do tempo e através de resultados.

Diria também que não devem adiar ambições por receio de não estarem preparadas, pois a liderança também se aprende exercendo-a, assumindo responsabilidade e aceitando o crescimento que vem com ela.

O setor precisa de talento, visão e diversidade de pensamento, e isso inclui, naturalmente, mais mulheres em posições de decisão.

 

Qual é o legado que gostaria de deixar em termos de impacto humano e cultural nas organizações por onde passa — além dos resultados técnicos e de gestão?

Gostaria de contribuir para uma cultura profissional onde a competência, a seriedade e o compromisso fossem os principais critérios de reconhecimento e onde a liderança feminina fosse encarada com naturalidade, não como exceção ou símbolo, mas como parte integrante da realidade do setor.

Se, através do meu percurso, conseguir promover ambientes de trabalho onde a exigência não exclui a humanidade, onde a responsabilidade é assumida com clareza e onde as decisões são tomadas com consciência das suas consequências, posso considerar que o impacto terá sido relevante.

Considero que o verdadeiro legado não são apenas os projetos executados, mas as mentalidades que conseguimos transformar, a confiança que se constrói e a referência que se deixa para as gerações seguintes.

 

Num setor onde a precisão técnica e a tomada de decisão são determinantes, sente que a liderança feminina traz uma abordagem diferenciadora na gestão de risco, negociação e resolução de conflitos? De que forma?

Acredito que pode trazer uma abordagem mais integradora, pois as mulheres tendem a avaliar o risco não apenas sob a dimensão técnica e financeira, mas também sob a dimensão relacional e de credibilidade.

Na resolução de conflitos, essa leitura mais abrangente pode evitar ruturas desnecessárias e favorecer soluções sustentáveis a longo prazo, pois quanto mais ampla for a leitura de um cenário, mais consistente tende a ser a decisão.

 

A construção de equipas de elevado desempenho exige confiança e visão partilhada. Como trabalha o empowerment e a promoção de talento, especialmente o talento feminino?

Acredito que o empowerment começa na confiança e se consolida na responsabilidade. Delegar não é abdicar, é reconhecer competência e criar espaço para que cada profissional possa decidir, assumir consequências e crescer com autonomia.

Procuro envolver as equipas nos processos de decisão, clarificar objetivos e dar margem para que cada um contribua com a sua visão. O desenvolvimento do talento não acontece apenas através de formação técnica, mas através da exposição a desafios reais e da atribuição de responsabilidade progressiva.

Quanto ao chamado “talento feminino”, não o vejo como diferente do talento masculino, pois considero que o talento assenta na capacidade, na preparação e na atitude de cada pessoa. O que, por vezes, pode ser diferente é o reconhecimento que lhe é atribuído.

Por isso, mais do que promover o talento feminino como categoria distinta, procuro garantir que todos tenham acesso às mesmas oportunidades de visibilidade, responsabilidade e crescimento. A igualdade, na minha perspetiva, não está em tratar de forma idêntica, mas em assegurar que o mérito seja efetivamente reconhecido.

 

Considera que a liderança feminina tem um papel particular na promoção de práticas mais sustentáveis e responsáveis — quer ao nível organizacional, quer no impacto dos projetos desenvolvidos? Pode dar-nos a sua perspetiva?

A sustentabilidade deixou de ser uma opção estratégica e passou a ser uma responsabilidade estrutural, sobretudo em setores com impacto direto no território e na qualidade de vida das comunidades.

Não considero que exista uma abordagem exclusivamente feminina à sustentabilidade, mas acredito que as mulheres demonstram uma sensibilidade acrescida para a integração de diferentes dimensões de impacto numa mesma decisão – técnica, económica, social e ambiental. Essa visão mais abrangente pode favorecer escolhas mais ponderadas e equilibradas.

Mais do que associar sustentabilidade a género, vejo-a como uma questão de responsabilidade consciente. Liderar hoje significa decidir tendo presente não apenas o resultado imediato, mas também as consequências futuras das nossas opções.

Quando essa consciência está integrada na cultura organizacional, a sustentabilidade deixa de ser um requisito externo e passa a ser parte da identidade da organização.

 

Para terminar, uma mensagem a todas as mulheres que irão ler a sua entrevista e que se possam rever na sua personalidade, o que devem elas mostrar no panorama empresarial e institucional para serem líderes e deterem um papel afirmativo na Sociedade?

Diria, antes de mais, que não subestimem a sua capacidade. O primeiro passo para liderar é reconhecer o próprio valor e investir seriamente na sua preparação. O panorama empresarial e institucional exige competência, consistência e caráter, sendo estes atributos universais que não pertencem a um género.

É importante não ceder à tentação de replicar modelos de liderança que não correspondam à sua identidade.

Mais do que procurar reconhecimento imediato, devem procurar impacto consistente. Cada mulher que lidera com excelência contribui para normalizar aquilo que nunca deveria ter sido excecional.

Ao longo de mais de três décadas, aprendi que a verdadeira liderança não se impõe – constrói-se todos os dias, com competência e caráter.

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Revista Pontos de Vista Edição 149

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