“Desde muito jovem, senti que o meu percurso estaria inevitavelmente ligado às pessoas”

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No Dia Internacional da Mulher, a Revista Pontos de Vista destaca uma história de excelência, sensibilidade humana e liderança feminina que ultrapassa fronteiras. Irene Boaventura, Chefe de Concierge do InterContinental Luanda Miramar, é a primeira angolana a ser distinguida com as prestigiadas Les Clefs d’Or, uma das mais elevadas honras internacionais na hotelaria de luxo. Nesta entrevista para a comemoração do Dia Internacional da Mulher, a Revista Pontos de Vista partilha a sua visão sobre hospitalidade, liderança feminina, excelência no serviço e o caminho que a levou a representar Angola numa fraternidade global assente nos valores do Serviço e da Amizade.

O que significa, para si, a arte de bem servir na hotelaria de luxo?

Há uma arte profunda em fazer alguém sentir-se verdadeiramente visto. Essa arte não se aprende num manual nem se ensina apenas em sala de aula. Aprende-se nos momentos silenciosos da troca humana: num sorriso partilhado com um desconhecido, na capacidade de antecipar uma necessidade antes mesmo de ser expressa, ou em fazer um hóspede sentir, ainda que por um instante, que é a única pessoa no mundo. Para mim, é aí que reside a verdadeira essência da hospitalidade.

 

Desde cedo soube que o seu caminho seria junto das pessoas. Como surgiu essa vocação?

Desde muito jovem, senti que o meu percurso estaria inevitavelmente ligado às pessoas. Inicialmente, imaginei esse caminho no Direito. Fui aceite para estudar na Universidade do Western Cape, movida pela vontade de dar voz a quem precisava, pela ideia de advocacia e justiça. Era uma vocação nobre, mas com o tempo percebi que aquele mundo era demasiado limitado por paredes e precedentes.

O verdadeiro ponto de viragem surgiu de forma inesperada, através de uma manchete de jornal que dizia: “Trabalhe e viaje pelo mundo com a International Hotel School.” Nesse momento, o meu mundo expandiu-se. Percebi que a hospitalidade me permitiria compreender a humanidade na sua diversidade, através da conexão, da cultura e das linguagens subtis do serviço e do acolhimento. Soube imediatamente que tinha encontrado a minha verdadeira sala de aula.

 

Como descreve o início do seu percurso profissional na hotelaria?

A minha jornada começou de forma humilde, em 2012, com o meu primeiro estágio. Eu era, acima de tudo, uma estudante do mundo: curiosa, atenta e com uma enorme vontade de aprender. África foi — e continua a ser — a minha grande escola. A minha carreira transformou-se num mosaico de paisagens extraordinárias e culturas vibrantes.

 

Que aprendizagens marcaram a sua passagem pela Cidade do Cabo e por Moçambique?

Na Cidade do Cabo, tive o meu primeiro grande contato com uma hotelaria cosmopolita e exigente. Aprendi o ritmo de uma cidade de classe mundial e a lidar com uma diversidade imensa de viajantes. Foi ali que construí bases sólidas de profissionalismo e rigor.

Mais tarde, em Moçambique, encontrei um outro lado da hospitalidade. O ritmo de vida abranda ao embalo do Oceano Índico e o serviço ganha uma dimensão mais calorosa, quase intuitiva. A hospitalidade ali é tão dourada quanto a areia das praias, e isso marcou profundamente a minha forma de servir.

 

O seu percurso levou-a também à vida selvagem sul-africana. Que impacto teve essa experiência?

Trabalhar no Parque Nacional Kruger foi transformador. Ali, no coração do bushveld africano, o conceito de luxo ganhou um significado completamente diferente. O verdadeiro luxo estava no silêncio de um safari ao nascer do sol, no brilho do olhar de um leopardo à luz da lua e na ligação profunda que os hóspedes criavam com a terra ancestral sob os seus pés. Foi uma lição poderosa sobre experiências autênticas e memoráveis.

 

Hoje está em Angola. O que representa este momento da sua carreira?

Estar hoje em Angola, no coração vibrante e dinâmico de Luanda, representa a convergência de tudo o que vivi até aqui. Fazer parte da equipa do InterContinental Luanda Miramar é trabalhar numa cidade cheia de energia e ambição, onde o calor humano do povo angolano se encontra com as exigências de uma clientela global. Em muitos sentidos, este momento é o culminar de uma viagem que começou com um simples artigo de jornal.

 

O que representa para si a distinção Les Clefs d’Or?

Les Clefs d’Or, ou As Chaves de Ouro, é muito mais do que uma distinção profissional. É uma associação com quase um século de história, assente em dois pilares fundamentais: Serviço e Amizade. Fazer parte desta fraternidade global, reconhecida pela excelência e pelo compromisso com o hóspede, sempre foi um sonho.

A minha jornada rumo às Les Clefs d’Or começou há cerca de 10 anos. Conquistar esta distinção em Angola, em 2016, foi uma honra imensa — não apenas para mim e para o meu hotel, mas também por ter sido a primeira em Angola. É uma responsabilidade que abraço com muito orgulho.

 

Qual a importância do capítulo de Marrocos no seu percurso?

Faço parte do capítulo Les Clefs d’Or Marrocos, que tem uma história rica e profundamente ligada às origens da associação. Sou especialmente grata à Presidente do Capítulo, Sra. Saida Loutou, que me deu a oportunidade não só de integrar esta prestigiada rede, mas também de participar numa missão maior: o comité de empoderamento feminino das Les Clefs d’Or. É um privilégio contribuir para o crescimento e a valorização das mulheres na hotelaria a nível internacional.

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Revista Pontos de Vista Edição 149

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