A adoção, pela Organização Mundial da Saúde, da Estratégia Global para a Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (TCIM) 2025–2034 marca um ponto de viragem no reconhecimento internacional das práticas integrativas baseadas em evidência científica e enquadradas por modelos regulatórios consistentes. Em Portugal, onde já existe enquadramento legal para as Terapêuticas Não Convencionais, este novo cenário abre uma reflexão estratégica sobre integração no sistema de saúde, desafios para a Lusofonia e o papel dos profissionais qualificados. É neste contexto que a Revista Pontos de Vista falou com Domingas Tavares Francisco, Socióloga e especialista em Saúde Mental Integrativa e Sistémica (é também a Fundadora / Diretora Geral do Colégio Luar do Saber, em Angola), sobre o significado desta decisão e o futuro da saúde integrativa.
A Estratégia Global da OMS para a Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa 2025/2034 representa um reconhecimento sem precedentes destas práticas. Na sua perspetiva, o que muda, de forma concreta, com esta decisão da OMS?
O que muda é uma aceitação pública e incontestável de que a doença, sendo um sintoma, pode ser tratada de diferentes perspetivas, socorrendo-se de distintas ferramentas e intervenientes. Mais do que uma plataforma de acesso global, essa estratégia coloca o indivíduo e a vida humana no centro da abordagem e não, exclusivamente, na técnica ou formato. Ao proporcionar uma visão de inclusão e respeito pelas abordagens terapêuticas não convencionais, a OMS está a universalizar o direito ao acesso à saúde nos vários formatos possíveis e está, de igual modo, a respeitar as minorias que vivem em zonas em que a medicina convencional ainda não se faz sentir. Está, acima de tudo, a chancelar e a abrir portas para um diálogo profundo, idóneo e maduro entre a ancestralidade e a modernidade
Porque considera que este momento pode ser descrito como uma “nova era” para a saúde integrativa a nível global?
O avançar dos anos tem nos mostrado que a medicina convencional não tem conseguido fazer face, sozinha, aos diversos problemas de saúde que nos têm acometido. Seja por insuficiências nos investimentos materiais, financeiros e humanos e em políticas de saúde pública assertivas, seja por sobrecarga dos próprios sistemas de saúde na sua generalidade. Está mais do que visível que os avanços tecnológicos, assim como o crescimento económico-financeiro que temos vindo a experimentar trouxeram uma noção de qualidade de vida discutível e até dúbia. Deste modo, permitir que outros interlocutores entrem nesse diálogo é defender a vida humana de uma forma madura e muito consciente.
Portugal dispõe já de um enquadramento legal para as Terapêuticas Não Convencionais. Na prática, onde estamos hoje: na regulamentação, na integração ou ainda numa fase intermédia?
Arriscaria em dizer que estamos numa fase intermédia. Já existe um diálogo visível entre o convencional e o holístico, já há uma aceitação pública em alguns consultórios médicos onde se faz referência e, em certos casos, se prescreve um acompanhamento ao paciente mais do fórum alternativo (como por exemplo, a indicação da acupuntura para o tratamento das enxaquecas). Todavia, ainda há um longo caminho a ser percorrido, sobretudo do ponto de vista da experiência do próprio paciente em considerar abordagens alternativas à matriz
Que oportunidades específicas esta Estratégia da OMS traz para Portugal e Lusofonia, tanto ao nível do sistema nacional de saúde como da prática clínica privada?
Se essa medida for aplicada com a responsabilidade e a maturidade que se quer, acredito que, a longo prazo, poderemos sentir um desafogar da sobrecarga que hoje os SNS enfrentam e, por inerência, o próprio orçamento de estado direcionado ao setor da saúde.
Que riscos ou desafios identifica neste processo de transição da regulamentação para uma integração real da TCIM?
Antevejo essencialmente duas possibilidades: a primeira, que poderá estar relacionada aos intervenientes mais céticos, pragmáticos e que dependem inteiramente das intervenções científicas para explicar os quadros de patologia declarada; a segunda, que poderá abrir um mercado alternativo lucrativo, onde se prometem resultados, em certa medida, lesivos e comprometedores, que podem agravar ainda mais o quadro de saúde do paciente
Um dos pilares da Estratégia da OMS é o reforço da investigação e da evidência científica. Como avalia o atual estado da investigação em práticas integrativas?
Essa é uma área de trabalho que pouco se tem falado de forma aberta, pública e consistente, mas que já se vai refletindo em diversos observatórios e repositórios de pesquisa científica. Ou seja, já existem estudos que comprovam, cientificamente, os resultados e o impacto que a abordagem holística tem sobre a saúde humana no seu todo, quer ao nível da prevenção, quer do tratamento em si. E acredito que é, precisamente, por já existirem vários estudos científicos que a OMS deu esse passo gigantesco
De que forma a produção de evidência pode contribuir para maior confiança por parte da comunidade médica e dos decisores políticos?
Costumo dizer que nós, humanos, deixamos de sentir o nosso corpo e a nossa mente e delegámos essa responsabilidade à ciência: ou seja, se o sintoma apresentado for testado cientificamente, então confiamos, caso contrário nem sequer damos a possibilidade de ouvir quem quer que seja. Desse modo, ao se produzir investigação que atesta, por meio da experimentação e da validação de acordo com as regras e os instrumentos convencionados, estaremos a trilhar um caminho com menos ruídos e interferências, mas com ganhos absurdos para a nossa saúde.
A OMS aponta os cuidados de saúde primários como um espaço privilegiado para a integração da TCIM. Como imagina este modelo a funcionar, na prática, em Portugal e Lusofonia?
Concordo e não vejo possibilidade melhor, pelo menos não para já. Aí sim, estaremos a falar em prevenção real, integrativa e holística. Um diagnóstico assertivo e, logo nos estágios iniciais, da ansiedade que hoje nos é apresentada como um quadro patológico (e não como uma emoção que está a ser vivenciada no seu extremo oposto) poderá vir a acudir milhares de pessoas que hoje são medicadas e, em certa medida, anestesiadas, com tratamento a longo prazo, quando, na verdade, deveriam estar a receber outro tipo acompanhamento psicoemocional e terapêutico: cada paciente tem uma história de vida que explica o quadro da doença apresentada, então, o procedimento terapêutico também deve estar em consonância com esse histórico, que vai muito além do “medicar para acalmar” o sintoma. É urgente que se direcione o olhar para a verdadeira causa.
Que benefícios concretos esta integração pode trazer para os utentes, nomeadamente ao nível da prevenção, da gestão da doença crónica e da literacia em saúde?
Há uma atitude que todos nós devemos tomar no imediato, e que é a grande proposta da abordagem holística: aprender a ler os sinais do próprio corpo e a fazer uma integração entre o que se está a vivenciar com os sintomas apresentados! A doença não nasce do acaso e vai muito além do estilo de vida que se tem do ponto de vista prático: a doença física começa com a doença na mente e, do mesmo modo que cuidamos da alimentação, do sono e da prática de atividade física, deveríamos cuidar dos nossos pensamentos. Uma emoção mal processada ou não processada pode desencadear processos psicossomáticos até que se estabeleçam como doença física
A Estratégia 2025/2034 destaca a sustentabilidade, a biodiversidade e o conhecimento tradicional. Porque é que estes temas são indissociáveis de uma abordagem integrativa da saúde?
O estudo do corpo, da mente, da doença e do sintoma não teve início com a medicina moderna convencional, pelo contrário, foi evoluindo à medida em que fomos experimentando o crescimento económico, financeiro e social (e ainda bem que o assim foi). Todavia, resgatar o início, olhar para a doença, não como a causa, mas como o sintoma de uma questão mais profunda e, ao mesmo tempo, integrar um conjunto de ferramentas terapêuticas mais naturais e menos abrasivas para o corpo é, sem qualquer dúvida, um dos maiores ganhos para humanidade em termos de saúde. E é, justamente, essa conversa que a medicina holística e integrativa está a levar para cima da mesa
Considera que a saúde integrativa pode contribuir para uma mudança de paradigma, mais ecológica e centrada na pessoa? De que forma?
Sim. Cada paciente carrega uma história de vida que deve ser tida em conta no momento do diagnóstico e da prescrição médica e medicamentosa. Se continuarmos a evitar essa linha de tratamento, estaremos, continuadamente, a atacar o sintoma e não a causa. Uma pessoa que, há mais de 10 anos, se queixa de quadros de enxaquecas recorrentes, não pode ir “mudando a medicação até acertar”. Há um quadro mais grave, normalmente, relacionado com o emocional que deve ser acautelado.
Como define o seu papel neste ecossistema em transformação?
Sinto que ainda existem muitos questionamentos acerca da eficácia dessa abordagem, ou seja, ainda é preciso argumentar, repetir e apontar evidências para se comprovar a importância de se trabalhar, ainda mais, com os profissionais mais ligados à saúde integrativa. Sinto que ainda estou a desbravar um caminho que já deveria estar mais homogêneo, apesar dos avanços já alcançados. Apesar de todo esse cenário menos atraente do ponto de vista do posicionamento profissional, considero que a minha atuação deva continuar ao nível informativo, de apoio terapêutico, colocando sempre o paciente e a sua história de vida no centro da abordagem.
Que competências considera essenciais para os profissionais que pretendem atuar de forma credível e integrada neste novo contexto?
Rigor, verdade, formação contínua, escuta ativa, empatia e um profundo amor pela vida e pelo outro. Já não estamos na era dos ganhos financeiros, em prejuízo de uma abordagem terapêutica centrada no ego e no pragmatismo. Existem doenças cujo diagnóstico não está num livro ou estudo científico. Teremos de ser nós a desbravar esse caminho, juntamente com o paciente e a sua história de vida.
Onde gostaria de ver a saúde integrativa em Portugal e na Lusofonia no horizonte de 10 anos, alinhada com a Estratégia da OMS?
Nos hospitais, nos centros de saúde, nas clínicas privadas, nas escolas, nas empresas, dentro de um consultório médico, onde o médico e o profissional da área integrativa e holística fazem uma anamnese ao paciente e, em conjunto, prescrevem uma orientação terapêutica que atenda, verdadeiramente, à sintomatologia apresentada. Uma verdadeira aliança entre a modernidade (medicamentos) e a antiguidade (natureza, ervas, alimentação que vem da terra, etc.), aliadas a um estilo de vida equilibrado.
Que mensagem deixaria a decisores políticos, profissionais de saúde e cidadãos sobre o potencial da saúde integrativa no futuro do bem-estar coletivo?
Existem dimensões da nossa vida cuja ciência não tem sido capaz, nem de explicar, nem de apresentar soluções adequadas ao estilo e histórico de cada indivíduo: não acredito em soluções coletivas para problemas individuais. Portanto, o nível de desenvolvimento económico e tecnológico que temos experimentado tem de nos permitir ver mais além: estamos exaustos, doentes e a percorrer uma um caminho dúbio. É preciso parar, repensar e reestruturar! Não existe somente um itinerário e a abordagem integrativa é, sem sombra de dúvida, o caminho do meio, o equilíbrio que, todos, temos de resgatar para as nossas vidas.


