Já se percebeu que inclusão não é “caridade”, é sim um fator diferencial de inovação e rentabilidade”

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No âmbito da edição de março da Revista Pontos de Vista, dedicada ao tema “Liderança Feminina que Transforma Organizações”, damos voz a Nídia Avelino, fundadora do projeto Design by Nídia Teodoro. Gestora, coach e mentora, Nídia destaca-se por uma abordagem integradora que cruza liderança colaborativa, resiliência adaptativa, empatia e sustentabilidade humana. Nesta entrevista, partilha uma visão profunda sobre os desafios da liderança feminina, a força da multipotencialidade e a importância de organizações mais conscientes, inclusivas e orientadas para o futuro.

Março é um mês simbólico para refletirmos sobre liderança feminina. Na sua visão, o que distingue a liderança exercida por mulheres nas organizações atuais?

Sem dúvida que não só em março, mas em particular nesta altura, a liderança no feminino é um tema que pede reflexão.

Para mim, a liderança feminina marca a diferença pela capacidade de integrar a visão analítica com a inteligência interpessoal.

Na minha visão o que torna a nossa liderança única, são três pilares fundamentais: A Liderança colaborativa e horizontal; nas empresas atuais isto faz toda a diferença, uma vez que cada vez mais se trabalha em rede e a facilidade com que nós promovemos a colaboração é uma enorme vantagem competitiva. A resiliência adaptativa; nós mulheres estamos habituadas a equilibrar múltiplas jornadas, o que no contexto organizacional se traduz numa gestão de crises equilibrada e numa grande capacidade e “recalcular rotas” sempre sem perder o foco. Por fim a humanização; nós mulheres entendemos o capital humano como o ativo mais valioso e uma liderança empática não é mais “boazinha” é sim mais inteligente, pois gera mais inovação e menor rotatividade.

 

Ao longo do seu percurso como gestora e coach, quais foram os maiores desafios que enfrentou enquanto mulher em posições de decisão?

Ao longo da minha jornada os desafios foram evoluindo à medida que eu própria evoluía. Acrescento ainda que os desafios foram acrescidos não só por ser mulher, mas por atuar no Algarve, onde muitas vezes há a ideia de que tudo gira à volta do turismo e nem sempre é assim e nem deverá ser.

Imaginemos o cenário de uma mulher, Algarvia, numa posição de decisão a atuar na área da Construção Civil. Tive de marcar pela diferença e trabalhar o dobro ou talvez o triplo desde 2016 para marcar a minha posição. Infelizmente ainda há a ideia de que certas áreas de atuação deveriam ser masculinas, mas nós estamos cá para provar que não é assim.

Já no Coaching, na altura em que comecei (2010/2011) era um território ainda muito desconhecido no Algarve, aí não senti tantos desafios por ser mulher, mas tive de desbravar caminho e mostrar o meu potencial enquanto coach.

Hoje olho para trás e vejo todos esses desafios superados como ferramentas que me moldaram e me tornaram numa melhor profissional.

 

Acredita que as organizações estão verdadeiramente preparadas para integrar uma liderança mais inclusiva e sustentável? O que ainda precisa de mudar?

Sendo muito pragmática, acredito que as organizações estão num processo de alfabetização neste campo. Acredito que em muitas organizações exista uma vontade genuína por parte dos executivos de topo, mas ainda se deparam com estruturas arcaicas e com muito desconhecimento. Já se percebeu que inclusão não é “caridade”, é sim um fator diferencial de inovação e rentabilidade.

Ainda muita coisa precisa de mudar, como maior conhecimento e empatia para criar os ajustes reais e ainda é necessário muito treino e mudança de mentalidades, mas acredito que estamos no bom caminho.

No que respeita à sustentabilidade, temos de olhar de forma mais abrangente, não é apenas ser “mais verde” nem só sobre o financeiro, mais do que nunca, numa era como a nossa em que o burnout é uma constante, a sustentabilidade humana enquanto estratégia de liderança faz toda a diferença.

Ao longo do meu trabalho enquanto coach e mentora, vejo que a real mudança só acontece quando a liderança entende que só saindo da zona de conforto do que é conhecido e fácil, se consegue abraçar a riqueza da diversidade e da sustentabilidade.

 

A sua abordagem integra Gestão, Coaching, Design Integrativo e Sustentabilidade Humana. Como estes pilares se cruzam na construção de organizações mais conscientes?

A Interseção destes pilares é o que eu chamo de Ecossistema de Liderança viva. Para mim eles não funcionam de forma isolada, eles alimentam-se entre si para criar organizações que se tornam, simultaneamente, produtivas e sustentáveis.

O Design Integrativo dá-me a visão da organização como um todo, permitindo desenhar fluxos e processos que façam sentido. Não é sobre estética ou estrutura, é sobre como as partes se conetam para gerar harmonia e eficiência.

A Gestão é a execução, é a visão pragmática e é garantir que o design integrativo se traduz em metas e resultados reais. A gestão transforma o sonho em impacto real.

O Coaching é o combustível humano, o que permite desenvolver consciências e garantir as competências emocionais e mentais para operar dentro do design inovador.

A sustentabilidade humana é o objetivo, é o pilar que garante a longevidade. Uma organização consciente entende que o lucro não pode vir às custas de esgotamento. Sustentabilidade humana permite gerir talentos de forma que cresçam junto com o negócio, evitando burnout e promovendo o bem-estar como estratégia de retenção.

Quando aplicamos design integrativo para criar processos mais fluidos, facilitamos a Gestão. Quando usamos o Coaching para alinhar o propósito das pessoas com os processos, alcançamos a sustentabilidade humana.

O resultado é uma organização consciente, aquela que gera valor económico enquanto regenera o valor humano e social.

 

O conceito de “Empreendedorismo Multipotencial” é diferenciador no seu trabalho. De que forma esta visão amplia a capacidade de inovação nas empresas?

Durante muito tempo, o mercado disse-nos que tínhamos de escolher apenas “uma gaveta”. A história mostra-nos que a certa altura a necessidade era essa e que a nível de ensino e trabalho, foi nesse sentido que o mercado nos levou.

Atualmente com as novas alterações, como o crescimento da AI e com novas profissões e soluções a surgirem a ritmo acelerado, o Empreendedorismo Multipotencial vem romper com as limitações que existiam.

Empreendedorismo Multipotencial não é sobre “saber um pouco de tudo”, mas sobre a capacidade de sintetizar ideias de áreas distintas para resolver problemas complexos.

A Inovação não nasce do zero, ela nasce de uma interseção. Um líder Multipotencial consegue trazer insights do design para a logística, do marketing para a gestão de pessoas, etc. e é aqui nestas interseções, muitas vezes improváveis, que surgem as soluções mais disruptivas.

Enquanto Multipotenciais, temos um musculo de aprendizagem muito bem treinado e num mercado em constante mudança, a capacidade de absorver rapidamente novas metodologias e tecnologias é o que garante que uma empresa não fique obsoleta.

Por vezes ser Multipotencial é atuar como “tradutor” dentro de uma organização. Conseguirmos conversar com o financeiro e com o criativo, garantindo que a estratégia não se perde.

Eu não vejo a Multipotencialidade no meu trabalho como uma dispersão, mas sim como uma espécie de superpoder de conexão, que é o que muitas vezes me permite ser Mulher, Filha, Mãe de 4 filhos, Gestora, Coach, Consultora, Mentora, Empreendedora e ainda Sócia-Gerente de uma empresa de Construção Sustentável. Permite-me ainda ser Presidente da Direção da Associação de Pais da Escola dos meus filhos mais novos e membro da Federação Concelhia das associações de Pais de Lagos, onde lutamos por um melhor ensino para as crianças de Lagos e por colocar o ensino na agenda política no nosso concelho.

Para que isto fosse possível, eu tive de me acolher enquanto Empreendedora Multipotencial, para integrar as várias vertentes e perceber como estas funcionam como diferentes lentes pelas quais observo os meus objetivos e com isso crio caminhos mais concretos e conscientes.

Quando uma Empresa abraça a Multipotencialidade, ela deixa de ter um conceito de “linha de montagem rígida” e passa a ser um organismo vivo, resiliente e infinitamente mais criativo.

 

Como define “Sustentabilidade Humana” dentro das organizações?

Para mim sustentabilidade humana é a evolução do conceito de Recursos Humanos, ou melhor, é a valorização e preservação dos Recursos Humanos.

Os Recursos Humanos tradicionais focam muitas vezes em “extrair” o máximo desempenho do colaborador, a Sustentabilidade Humana foca em regenerar e preservar o Capital Humano das organizações, nomeadamente nos lugares de topo, mas de forma transversal a toda a organização.

Eu defino a sustentabilidade Humana em três dimensões independentes:

– Ecologia Pessoal, que é o reconhecimento de que o colaborador é um sistema vivo com limites e sentimentos. Uma organização sustentável não “consome” as pessoas até ao esgotamento (Burnout), ela cria ritmos de trabalho que permitem a alta performance continua, sem comprometer a saúde mental e física.

– Segurança Psicológica e Pertença. Não há sustentabilidade onde há medo. Ambientes onde as pessoas podem ser autênticas, errar e aprender sem punição, mas sim com orientação, são ambientes onde o talento decide ficar.  A retenção é o indicador financeiro de sustentabilidade humana.

– Desenvolvimento de consciência (Coaching). Sustentabilidade Humana também é dar às pessoas ferramentas para que elas cresçam enquanto indivíduos. Quando investimos no autoconhecimento e na Inteligência Emocional da equipa, estamos a criar uma estrutura organizacional mais resiliente a crises.

Para chegar a este ponto, eu tive de passar pela pior parte de gerir uma empresa “tradicional”, chegar ao Burnout, mas com ele perceber que o que eu estava a gerir não era uma Empresa, mas sim uma “EUpresa”, com isto também percebi e reconheci a importância da Sustentabilidade Humana. Hoje ajudo a que outras pessoas não tenham de passar pelo que eu passei e possam usufruir do que eu descobri e aprendi no meu processo.

Podemos dizer que se a sustentabilidade ambiental garante que teremos recursos no planeta amanhã, a sustentabilidade humana garante que teremos pessoas saudáveis, motivadas e capazes de conduzir as organizações no futuro.

No meu trabalho uso o Design Integrativo e o Life Design para desenhar sistemas que protegem essa sustentabilidade, garantindo que o bem-estar faz parte do DNA da operação das organizações.

 

Que papel a inteligência emocional desempenha numa liderança transformadora?

Do meu ponto de vista a Inteligência Emocional não é um “acessório” comportamental, é o sistema operativo que permite a execução de qualquer estratégia. Sem ela a Gestão é apenas controle, com ela a Gestão torna-se inspiração.

A Inteligência Emocional desempenha vários papeis fundamentais, de entre os quais a autorregulação em cenários de incerteza, sabemos que o mercado atual é volátil e um líder transformador precisa ser o termostato da sua equipa. A Inteligência Emocional permite que o gestor filtre a sua própria ansiedade para manter a clareza nas decisões estratégicas, evitando decisões impulsivas que podem destruir o valor da empresa.

Outro papel importante da Inteligência Emocional é a maestria, a empatia cognitiva. Não se trata apenas de sentir o que o outro sente, mas de entender as motivações e os bloqueios da equipa.

Enquanto Coach vejo que a inovação só floresce onde há segurança psicológica. A Inteligência Emocional permite ao líder desenhar um ambiente onde o erro é visto como aprendizagem e não como falha fatal.

Outro papel não menos importante é a gestão de conflitos como alavanca de design. Em qualquer organização viva e vibrante é natural que surjam conflitos, o líder com alta Inteligência Emocional não ignora o conflito, ele utiliza-o de forma integrativa. Usa a Inteligência Emocional para mediar visões opostas e transformá-las numa terceira via, muito mais criativa e robusta.

É a Inteligência Emocional que permite a um líder ser firme nos resultados e humano nos processos. É o que suporta a Sustentabilidade Humana de que falamos anteriormente. Uma liderança que transforma pessoas para que estas transformem negócios em sucessos.

 

Enquanto mentora e consultora, que competências identifica como essenciais nas novas gerações de líderes femininas?

Ao ser mentora desta nova geração de líderes femininas tenho plena noção de que o desafio mudou, e ainda bem, se antes o foco era em “lá chegar”, muitas vezes sem olhar a meios, hoje o foco é “como permanecer lá de forma integra”. Para isso há quatro competências que considero inegociáveis:

1.ª – Conhecimento digital e sistémico: não basta entender de tecnologia, é preciso entender o impacto da tecnologia no ser humano. A nova geração de líderes precisam dominar o Design Integrativo, para criar fluxos de trabalho e dominar as novas tecnologias de forma consciente e como uma mais-valia, de forma a libertar pessoas para o pensamento crítico.

2.ª – Liderança vulnerável e autêntica: A era do líder “herói” ou da “supermulher” acabou. A nova geração precisa ter a coragem de ser vulnerável, admitir dúvidas e partilhar processos. Isto constrói uma confiança muito mais profunda com as equipas do que a perfeição fingida.

3.ª – Gestão da própria equipa (Sustentabilidade Humana): Esta é a competência mais crítica. Ensinar estas novas líderes que o Burnout não é um trofeu de guerra, e eu sei do que falo por experiência própria. A capacidade de gerir a própria energia (física, mental e emocional) é o que dita quem terá uma carreira de 30 anos e quem desistirá em cinco ou menos.

4.ª – Pensamento Crítico e ético: Num mundo de excesso de informação, a capacidade de filtrar o que é essencial e tomar decisões baseadas em valores sólidos, é o que distingue uma simples gestora de uma verdadeira líder.

O meu papel enquanto mentora é garantir que estas mulheres não precisam de se transformar em “versões masculinas” para terem sucesso, muito pelo contrário, o futuro da liderança é feminino, não pelo género, mas pelas caraterísticas de cuidado, integração e visão a longo prazo que as mulheres trazem de forma natural e autêntica para a mesa de decisões.

 

Através da Get to Work Unip. Lda., também atua nas áreas de construção sustentável e design consciente. Como a liderança feminina contribui para decisões mais ecológicas e responsáveis?

A “Get to Work” é como se fosse um quinto filho para mim, foi criada de forma cuidada e com o objetivo de fazer diferente e marcar pela diferença. Na “Get to Work” aplicamos o que chamo de “consciência na prática”.

A minha liderança feminina traz uma visão diferenciada para as decisões ecológicas e sustentáveis por uma caraterística intrínseca, a visão de legado e regeneração das gerações futuras, o instinto feminino de preservação e proteção.

Enquanto a gestão tradicional muitas vezes foca no lucro do próximo trimestre, a liderança feminina tende a olhar para o impacto das decisões nas próximas gerações, o lucro é uma consequência de um trabalho bem feito.

A “Get to Work” faz este ano 10 anos a atuar no mercado do Barlavento Algarvio e estamos neste momento numa fase de transição, mais focados do que nunca em apostar na construção sustentável e ecológica, através de parcerias que vimos a desenvolver, estamos a criar um projeto que nos é muito querido e que foca numa visão moderna e sustentável de construção, para que haja uma redução efetiva das emissões de carbono e de resíduos na construção e para que as habitações deste projeto aproveitem ao máximo os recursos ecológicos e sejam assim sustentáveis, quer para o meio ambiente, quer para o ser humano que as habitar.

A minha contribuição como líder feminina entra com este olhar do design consciente, onde mais do que só a estética, olhamos para a origem dos materiais, a toxicidade dos ambientes e a eficiência energética. Reflete-se numa construção sustentável que exige paciência e ética para escolher processos que respeitem o meio ambiente.

Nós mulheres temos mais tendência a priorizar o bem-estar coletivo e a integridade do ecossistema. Através da “Get to Work” defendemos que a ecologia começa no ambiente onde vivemos e trabalhamos. Eu entendo que o “ambiente” não é algo externo a nós, nós fazemos parte dele. Acreditamos que para termos um futuro melhor temos de trabalhar já e por isso a frase que nos acompanha é “Porque o amanhã constrói-se hoje!”

 

Que mensagem gostaria de deixar às mulheres que desejam assumir posições de liderança, mas ainda enfrentam inseguranças ou barreiras estruturais?

A minha mensagem para cada mulher que sente o chamamento da liderança, mas hesita perante as barreiras e a insegurança é simples:

Não espere que o sistema se torne perfeito para se fazer presente.

Não espere que esteja tudo perfeito, avance e vai aperfeiçoando no caminho. Se há algo que aprendi há muito tempo e que até tenho escrito no meu escritório para nunca me esquecer é “Antes feito que perfeito”, comece, a perfeição vem com o tempo, o trabalho e a consistência.

As barreiras estruturais são reais, mas a sua visão única é necessária agora.

Para que seja mais fácil navegar nestas águas, deixo três convites:

1.º – Abrace a sua multipotencialidade: não tente encaixar-se nos moldes de liderança rígidos e tradicionais. A sua capacidade de integrar diferentes saberes, de ser empática e firme ao mesmo tempo, é precisamente o que o mundo de hoje pede. A sua diferença não é uma fraqueza, é o seu maior ativo de inovação. Como a frase que me acompanha no “Design by Nidia Teodoro” diz, “A diferença é o que nos torna únicos!”.

2.º – Construa a sua rede de sustentabilidade: ninguém lidera sozinho. Procure mentoras, invista no seu autoconhecimento e cerque-se de pessoas que a incentivam e validam a sua ambição. A segurança não nasce da ausência do medo, mas da clareza do seu propósito e do apoio que você cultiva ao seu redor.

3.º – Lidere a partir da sua própria ecologia: não aceite o sucesso que custa a sua saúde ou a sua essência. A verdadeira liderança transformadora é aquela que é sustentável. Quando você cuida da sua energia e lidera com autenticidade, você não está apenas a ocupar um cargo, está a abrir caminho para que todas as outras mulheres que vêm atrás de si possam caminhar cada vez com mais leveza.

O Mundo não precisa de mais “lideres de ferro”, precisa de líderes conscientes, integrativos e profundamente humanos e esse lugar já é seu por direito, agarre-o sem hesitar.

Liderar no Feminino de forma Sustentável e Inclusiva é o futuro do Empreendedorismo e é marcando pela diferença que nos destacamos de forma profunda e única.

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