Assinalando o Dia Internacional da Mulher, num tempo em que diversidade, inclusão e sustentabilidade deixaram de ser tendências para se tornarem imperativos estratégicos, refletir sobre o contributo das mulheres na liderança é mais do que oportuno — é necessário. Ao longo desta entrevista à Revista Pontos de Vista, Claudia Gesto partilha a sua visão enquanto Career Coach no Feminino, analisando os padrões que distinguem mulheres que lideram com propósito, os desafios que ainda marcam o seu percurso e as competências que definirão as líderes do futuro.
Março é um mês simbólico para a reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade e nas organizações. Na sua perspetiva, o que distingue a liderança feminina quando falamos de transformação organizacional?
A liderança feminina integra estratégia e sensibilidade: percebe padrões, avalia impactos e atua com atenção ao ser humano por trás de cada colaborador, criando mudanças visíveis, duradouras e sustentáveis.
Enquanto Career Coach no Feminino, acompanha de perto mulheres em diferentes fases da sua trajetória profissional. Que padrões comuns identifica nas mulheres que lideram com impacto e propósito?
Mulheres que lideram com impacto e propósito partilham padrões claros: procuram deixar um legado que vá além dos resultados imediatos; valorizam a pessoa por trás do colaborador; reconhecem o esforço; e estimulam equipas fortes e colaborativas. Lideram de forma consciente, combinando reconhecimento, empatia estratégica e foco nos resultados. O impacto real surge da clareza nas escolhas e da responsabilidade que cada mulher assume pela sua própria trajetória.
A liderança feminina ainda é, muitas vezes, analisada em contraste com modelos tradicionais. Acredita que existe uma “forma feminina” de liderar? Se sim, que caraterísticas a definem sem cair em estereótipos?
Não considero que exista uma forma “feminina” de liderar. Mas existe uma diferença a nível da energia que cada mulher traz à liderança: na forma como recebe o feedback, como envolve equipas, como conduz decisões com presença e consciência, e da forma como cuida do bem-estar das pessoas no ambiente de trabalho. Essa energia transforma a cultura, a performance e gera impacto real e sustentável.
Empatia, escuta ativa e colaboração são frequentemente associadas à liderança feminina.
Como é que estas competências se traduzem, na prática, em melhores resultados para as organizações?
Empatia, escuta ativa e colaboração traduzem-se em resultados concretos quando aplicadas de forma consciente. Permitem conhecer a pessoa por trás do colaborador, gerar sentido de pertença e fortalecer a coesão das equipas. Quando as pessoas se sentem compreendidas e conetadas, trabalham de forma mais eficiente e alinhada, e essa coesão é o que conduz a resultados mensuráveis e consistentes para a organização.
Que desafios continuam a marcar o percurso das mulheres em cargos de liderança e de que forma esses desafios podem ser transformados em oportunidades de crescimento e inovação?
Hoje vemos cada vez mais mulheres em cargos de decisão, mas muitas vezes esse percurso exige esforço extra. O desafio não passa por falta de oportunidades ou de confiança, mas pela escassez de apoio para conciliar os diferentes “chapéus” que cada mulher assume: carreira, família, filhos, casa. Exigências profissionais, como viagens ou projetos de longa duração, tornam-se mais complexas de gerir em determinadas fases, como a maternidade.
Reconhecer esta realidade não é resignar-se. É assumir uma posição consciente sobre a própria trajetória, criando condições para alinhar carreira e vida pessoal com as prioridades de cada fase. É essa maturidade e clareza que permite transformar desafios estruturais em oportunidades para inovar na liderança, gerir equipas de forma eficaz e criar impacto real e duradouro nas organizações.
No seu trabalho, de que forma ajuda as mulheres a alinharem ambição profissional com autenticidade e bem-estar, num contexto organizacional cada vez mais exigente?
No meu trabalho, ajudo mulheres a perceberem que ambição profissional e autenticidade não são opostas: alinham-se quando as decisões refletem quem são e o que realmente importa em cada fase da vida. Num contexto organizacional exigente, o equilíbrio surge de escolhas conscientes – definir prioridades, reconhecer limites e estruturar o dia a dia de forma que a carreira avance sem comprometer o bem-estar. O objetivo não é eliminar desafios, mas dar clareza e confiança para liderarem de forma eficaz, mantendo-se fiéis a si próprias e cuidando das pessoas à sua volta.
A inclusão e a diversidade tornaram-se temas centrais nas agendas empresariais. Que papel desempenham as líderes femininas na criação de culturas mais humanas, equitativas e sustentáveis?
As líderes femininas têm um papel central na criação de culturas mais humanas e equitativas porque lideram com consciência do impacto das decisões sobre as pessoas. Valorizam a diversidade de experiências, promovem inclusão genuína e garantem que todos os colaboradores se sintam vistos e ouvidos. Ao fazer isto de forma consistente, reforçam a coesão, o sentido de pertença e contribuem para organizações mais sustentáveis, inovadoras e resilientes.
Pode partilhar um exemplo (ou padrão recorrente) de transformação que tenha observado em mulheres que, ao desenvolverem a sua liderança, impactaram positivamente as suas equipas ou organizações?
Um padrão recorrente que observo é que, ao desenvolverem a sua liderança, as mulheres começam a ouvir de forma mais ativa e a delegar com confiança, percebendo que aceitar a imperfeição não significa irresponsabilidade. Tornam-se mais conscientes de que cada pessoa tem os seus maus dias e, com isso, promovem maior entreajuda e colaboração nas equipas. Essa mudança na postura gera um ambiente de trabalho mais coeso, resiliente e produtivo, onde as pessoas se sentem apoiadas e motivadas a contribuir de forma consistente para os resultados da organização.
Que aprendizagens as trajetórias das mulheres líderes oferecem para o presente e o futuro do trabalho, especialmente num contexto de mudança constante?
As trajetórias das mulheres líderes mostram que é possível ocupar cargos de responsabilidade e manter ambição profissional sem abdicar da vida pessoal. Demonstram, sobretudo, que resiliência e capacidade de adaptação são competências fundamentais num contexto de mudança constante. Aprender com estas experiências permite que cada mulher construa organizações mais flexíveis e colaborativas, tomando decisões conscientes e assumindo responsabilidade pelo equilíbrio entre resultados e bem-estar que deseja criar.
Que competências considera essenciais para as líderes do futuro — e como podem ser desenvolvidas desde já?
As líderes do futuro precisam de cultivar uma mentalidade de aprendizagem contínua: saber aprender, desaprender e reaprender é essencial num mundo em constante mudança. Isso exige humildade intelectual – escutar, questionar certezas e integrar novas perspetivas. A inteligência emocional é igualmente fundamental: gerir emoções, comunicar com clareza e criar relações saudáveis será cada vez mais valorizado.
Além disso, competências como adaptabilidade, flexibilidade, humanização e visão sistémica permitem tomar decisões conscientes e éticas mesmo em contextos de pressão ou ambiguidade. Colocar as pessoas no centro das decisões é determinante, mas o sucesso sustentável constrói-se sobretudo através da postura, escolhas e responsabilidade que cada líder assume. Desenvolver estas competências exige prática deliberada, reflexão contínua sobre os impactos e atenção constante à própria liderança.
Na sua opinião, o que ainda precisa de mudar nas organizações para que a liderança feminina deixe de ser exceção e passe a ser parte natural da estrutura de decisão?
Para que a liderança feminina deixe de ser exceção, as organizações precisam evoluir na estrutura de apoio e na cultura. Isso passa por criar condições que permitam conciliar responsabilidades profissionais e pessoais, reconhecer diferentes estilos de liderança e valorizar competências como empatia, colaboração e visão sistémica. É também fundamental que decisões sobre talento e promoção se baseiem em mérito e impacto, não em estereótipos ou preconceitos implícitos. Quando a estrutura, os processos e a cultura estiverem alinhados, a liderança feminina passa a ser natural e integrada, contribuindo para organizações mais justas, inovadoras e sustentáveis.
Que mensagem gostaria de deixar às mulheres que aspiram a liderar, mas que ainda duvidam do seu lugar, da sua voz ou do seu impacto?
A todas as mulheres que aspiram a liderar: acreditem na vossa experiência e na maturidade que já construíram. Invistam no desenvolvimento das competências que sentirem necessárias e não hesitem em pedir apoio ou orientação para se prepararem de forma consciente. Evitem comparações – o percurso de cada uma é único, e o impacto real nasce da autenticidade, da clareza nas escolhas e da coragem de ocupar o lugar que vos pertence.
Liderar não é apenas alcançar resultados, mas transformar a forma como as pessoas e as equipas crescem à nossa volta. Acompanho mulheres a tomar decisões profissionais conscientes, ganhando clareza e confiança para impactar de forma consistente. Se queres explorar como potenciar a tua liderança, encontrarás o meu contato neste QR Code.


