“Liderar com autenticidade é também dar espaço para que os outros façam o mesmo”

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A Revista Pontos de Vista volta a ter presente uma vez mais a nossa parceira Susana Lopes, CEO & Owner da Com Alma – Creative Studio, uma líder que personifica uma nova forma de estar no mundo dos negócios criativos: mais consciente, humana e alinhada com valores. Com um percurso que cruza design, branding estratégico, desenvolvimento pessoal e liderança pública — enquanto chefe de divisão no Município de Castelo Branco — Susana Lopes construiu uma identidade profissional onde criatividade, estratégia e maturidade emocional caminham lado a lado. Saiba mais!

O seu percurso está profundamente ligado à criatividade e à expressão de identidade. Que momentos considera determinantes na construção do seu caminho como líder e empreendedora?

O meu percurso sempre esteve profundamente ligado à criatividade, mas hoje reconheço que os momentos verdadeiramente determinantes não foram apenas académicos ou profissionais, foram sobretudo de transformação pessoal. A formação em design gráfico deu-me as bases da expressão visual e da construção de identidade. Mais tarde, o mestrado em gestão de marca e branding estratégico permitiu-me compreender a marca de forma mais sistémica, estratégica e orientada para impacto. Agora, enquanto doutoranda em design, continuo a aprofundar essa reflexão crítica sobre identidade, território e valor. No entanto, houve um momento-chave que mudou tudo: quando percebi que, para crescer profissionalmente, precisava primeiro de crescer enquanto pessoa. Investi intensamente em desenvolvimento pessoal, liderança e programação neurolinguística. Ao longo desse percurso fui reconhecendo áreas internas que precisava de trabalhar e cada uma dessas etapas tornou-se um ponto de viragem. Sempre que resolvia internamente algo que me bloqueava, abria-se um novo patamar profissional.

A criação e liderança da Com Alma foi, naturalmente, um marco importante. Empreender obrigou-me a assumir riscos, a tomar decisões difíceis e a consolidar uma visão. Mas também a função que hoje desempenho como chefe de divisão no Município de Castelo Branco, na área da promoção territorial, representa um reconhecimento desse caminho construído com consistência. Liderar equipas, gerir projetos estratégicos e trabalhar a identidade de um território exige exatamente essa integração entre criatividade, estratégia e maturidade emocional. Olhando para trás, percebo que os momentos mais determinantes foram aqueles em que escolhi investir em mim, na minha marca pessoal, na minha capacidade de liderança e no meu desenvolvimento interno. Foi esse trabalho invisível que sustentou todas as conquistas visíveis.

 

A Com Alma – Creative Studio nasce de uma visão muito própria. De que forma o propósito e a autenticidade influenciam o seu estilo de liderança e a cultura da empresa?

Influenciam tudo. Não consigo separar quem sou do que faço. E isso reflete-se na forma como lidero. Acredito que as pessoas sentem quando algo é genuíno. Procuro criar um ambiente onde cada pessoa possa ser ela própria, sem máscaras. Isso gera confiança. A confiança é a base de tudo, da criatividade, da entrega, do compromisso. Liderar com autenticidade é também dar espaço para que os outros façam o mesmo. É reconhecer que não tenho todas as respostas, que também erro, que também duvido. E é nessa vulnerabilidade que encontro a minha maior força. Quando sou transparente com a equipa, quando partilho não só as vitórias, mas também os desafios, crio uma cultura de verdade. E é essa verdade que nos une e nos move.

 

Na sua opinião, quais são os principais contributos da liderança feminina para as indústrias criativas? A sensibilidade, a intuição e a empatia são hoje vantagens competitivas?

A sensibilidade para ler contextos, a capacidade de ouvir verdadeiramente e a coragem de liderar com empatia. Durante muito tempo, estas caraterísticas foram vistas como fragilidades. Hoje, percebemos que são forças. Num setor que vive de pessoas, de narrativas, de emoção, a liderança feminina traz uma dimensão mais humana, mais atenta ao detalhe e ao impacto real do que criamos. A intuição, por exemplo, é uma ferramenta poderosíssima. É aquela voz interior que nos diz quando algo não está bem, mesmo que no papel tudo pareça perfeito. Aprendi a confiar nela. E a empatia permite-nos criar não só para o mercado, mas para as pessoas. Isso faz toda a diferença. São vantagens competitivas, sem dúvida, porque nos tornam mais atentas, mais conetadas e, por isso, mais capazes de criar soluções verdadeiramente relevantes.

 

Gerir uma empresa criativa implica equilibrar inspiração, estratégia e resultados. Quais são os maiores desafios que enfrenta enquanto CEO & Owner e como os supera?

O equilíbrio. Entre inspirar e gerir. Entre criar e garantir que o negócio é sustentável. Há dias em que é difícil conciliar a liberdade criativa com a responsabilidade de tomar decisões que afetam a equipa, os clientes, o futuro da empresa. Mas aprendi que não é preciso escolher. É possível ser criativa e estratégica. O segredo está em saber quando usar cada uma dessas lentes. Há também o desafio da gestão emocional. Quando somos fundadores, a empresa é uma extensão da nossa identidade. Aprender a separar ego de estratégia, aceitar erros, ajustar rotas e tomar decisões difíceis foi um processo de crescimento pessoal. O investimento que fiz em desenvolvimento pessoal ajudou-me a ganhar resiliência e clareza.

 

Num estúdio criativo, as pessoas são o principal ativo. Como promove a motivação, o desenvolvimento individual e o sentimento de pertença dentro da sua equipa?

Dou espaço para errarem, para experimentarem, para crescerem. Reconheço o esforço, o talento e a dedicação. As pessoas querem sentir que fazem parte de algo maior, que o trabalho delas importa. Por isso, envolvo a equipa nas decisões, partilho os desafios, celebro as conquistas. E, acima de tudo, mantenho a porta aberta. Literalmente e simbolicamente. Num estúdio criativo, onde a matéria-prima são ideias, sensibilidade e visão estratégica, acredito profundamente que as pessoas são, e serão sempre, o maior ativo. A criatividade não floresce em ambientes de controlo excessivo, mas sim em contextos de confiança, reconhecimento e propósito.

O sentimento de pertença constrói-se diariamente, através de uma cultura forte e partilhada. No meu caso, na Com Alma, valorizamos muito a coerência entre o que comunicamos e o que vivemos internamente.

A identidade da marca é também a identidade da equipa. Criamos momentos de partilha, rituais internos e espaços de co-criação que reforçam essa ligação. Por fim, acredito que a liderança se faz pelo exemplo. Se quero uma equipa comprometida, criativa e resiliente, preciso de ser a primeira a demonstrar essas qualidades. A energia do líder é contagiante, para o bem e para o mal. Tento escolher, todos os dias, que seja para o bem.

 

A criatividade é muitas vezes associada à liberdade, mas a liderança exige escolhas firmes. Como concilia o pensamento criativo com a necessidade de decisões estratégicas e sustentáveis?

A criatividade é muitas vezes confundida com ausência de limites, como se fosse um território onde tudo é possível e nada precisa de estrutura. No entanto, ao longo do meu percurso, percebi que a verdadeira criatividade não se opõe à liderança, complementa-a.

Criar é expandir possibilidades; liderar é escolher entre elas. Enquanto líder e empreendedora, aprendi que o pensamento criativo é essencial para imaginar novos caminhos, questionar o estabelecido e encontrar soluções diferenciadoras. Mas é a estratégia que garante que essas ideias se transformem em algo consistente, sustentável e alinhado com uma visão maior. Liderar implica discernimento, implica perceber quando inovar, quando ajustar e, sobretudo, quando dizer não. Também aqui o desenvolvimento pessoal teve um papel determinante no meu caminho.

A maturidade emocional permite-me tomar decisões estratégicas sem perder a essência criativa, equilibrando entusiasmo com responsabilidade. Aprendi que liderar não é escolher o que é mais entusiasmante no momento, mas o que faz sentido no tempo. Hoje vejo a criatividade como energia transformadora e a liderança estratégica como a estrutura que a sustenta. Uma inspira, a outra consolida.

Juntas, permitem crescer com consistência, inovar com consciência e construir projetos que não são apenas criativos, são sólidos, relevantes e duradouros.

 

Sentiu, ao longo do seu percurso, que teve de ultrapassar barreiras adicionais por ser mulher? Como encara hoje o papel da mulher em posições de liderança no setor empresarial?

Sim. Não tantas quanto outras mulheres da geração anterior, felizmente, mas sim. Houve situações em que senti que tinha de provar mais, justificar mais, ser mais assertiva para ser levada a sério. Houve reuniões em que a minha opinião foi desvalorizada até ser repetida por um homem. Houve momentos em que questionaram a minha capacidade de liderar um negócio simplesmente por ser mulher. Mas também me deu resiliência.

Cada obstáculo tornou-me mais forte, mais determinada, mais consciente do meu valor. Hoje, encaro o papel da mulher na liderança como uma oportunidade de mostrar que há outras formas de liderar, igualmente válidas e, muitas vezes, mais eficazes. E tenho a responsabilidade de abrir portas para as mulheres que vêm depois de mim, para que não tenham de enfrentar as mesmas barreiras.

 

A sua marca pessoal reflete-se no trabalho da Com Alma. Até que ponto considera essencial que os líderes sejam verdadeiros consigo próprios e com o mercado que representam?

Essencial. Um líder que não é autêntico cria uma cultura falsa. E as pessoas sentem. A autenticidade não é apenas uma questão de coerência pessoal, é uma questão de credibilidade.

Quando sou verdadeira, dou permissão aos outros para fazerem o mesmo.

E isso constrói equipas mais fortes, mais unidas, mais criativas. No contexto da Com Alma, essa autenticidade traduz-se numa abordagem humana, estratégica e consciente ao branding. Trabalhar marcas é trabalhar identidade, e não se pode ajudar outros a encontrar a sua essência se não estivermos conetados com a nossa. Por isso, considero que líderes verdadeiros consigo próprios não apenas constroem marcas mais fortes, como constroem organizações mais sustentáveis, culturas mais saudáveis e relações mais significativas com o mercado que representam.

 

No contexto de um negócio criativo, onde as fronteiras entre trabalho e paixão são ténues, como gere o equilíbrio entre a vida pessoal e a exigência profissional?

No meu caso, o equilíbrio nunca foi sobre “separar” totalmente os papéis, mas sim sobre integrá-los com consciência. A minha vida é feita de múltiplas camadas de responsabilidade, todas exigentes, todas importantes. Durante algum tempo, senti que precisava de estar a 100% em tudo, o que é, naturalmente, impossível. Um dos maiores aprendizados foi perceber que equilíbrio não significa fazer tudo ao mesmo tempo, mas sim estar verdadeiramente presente no papel que estou a desempenhar naquele momento. Num negócio criativo, onde a paixão é motor e combustível, a linha entre vida pessoal e profissional pode facilmente diluir-se.

A criatividade não tem horário. As ideias surgem ao jantar, no carro, num passeio em família. Confesso que é um caminho que ainda tenho muito a percorrer… A maternidade também me trouxe uma nova dimensão de liderança. Os meus filhos lembram-me diariamente da importância do tempo de qualidade, da escuta e da empatia, competências que levo diretamente para a gestão de equipas. Por outro lado, delegar foi uma aprendizagem essencial. Liderança não é controlo absoluto, mas sim confiança e capacitação. Isso libertou espaço mental e emocional para que pudesse ser inteira também na minha vida pessoal e dar espaço a novas entradas. No fundo, acredito que quando trabalhamos com propósito e alinhamento interno, a fronteira entre trabalho e paixão deixa de ser um risco e passa a ser uma extensão natural de quem somos.

 

Vivemos um tempo de mudança constante no modo como as marcas comunicam. Que tendências considera mais relevantes para o futuro e como prepara a Com Alma para esse cenário?

A humanização. As pessoas querem marcas verdadeiras, com propósito, que se posicionem, que contribuam para algo maior. E querem experiências, não apenas produtos. Na Com Alma, preparamo-nos para este futuro investindo em narrativas autênticas, em estratégias que colocam as pessoas no centro e em soluções criativas que geram impacto real. Outra tendência fundamental é a sustentabilidade, não apenas ambiental, mas também social e emocional.

As marcas têm de ser responsáveis, têm de ter consciência do seu impacto.

As pessoas estão cada vez mais atentas a isso. O futuro pertence a quem souber contar histórias verdadeiras, a quem souber criar com propósito e a quem colocar os valores no centro de tudo o que faz.

Que mensagem gostaria de deixar a mulheres que desejam empreender no setor criativo, mas que ainda hesitam em dar o primeiro passo?

Comecem. Mesmo com medo, mesmo sem terem todas as respostas. A coragem não é a ausência de medo, é agir apesar dele. Confiem na vossa visão, cerquem-se de pessoas que acreditam em vocês e não esperem pela aprovação externa para validarem o vosso talento. Partilhem medos, mas também ambições. Não tenham receio de ocupar espaço. O setor criativo precisa de vozes femininas autênticas, estratégicas e conscientes do seu impacto. O mundo precisa da vossa voz, da vossa criatividade, da vossa liderança. Lembrem-se: não é preciso ter tudo resolvido para começar. É no caminho que nos fortalecemos.

 

Acredita que a liderança feminina terá um papel cada vez mais determinante na construção de negócios mais humanos, conscientes e alinhados com valores?

Sem dúvida. Estamos a caminhar para um mundo onde os valores humanos, a consciência social e a sustentabilidade são cada vez mais importantes. E a liderança feminina, pela sua natureza mais empática, colaborativa e inclusiva, está naturalmente alinhada com essa evolução. Não se trata de substituir um modelo por outro, mas de integrar. E acredito que, juntos, homens e mulheres podem construir negócios mais justos, mais criativos e, verdadeiramente, mais humanos.

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